Diretora: Andreia Rodrigues Àvila
Professora: Fabiana Aoki de Santana Gonçalves
Cuidado com o rótulo: “As palavras possuem peso...”
Estudante autista
Os relatos dos professores das salas de aula regular chamam atenção para palavras chaves como: desafios, aprendizagens, dificuldades nas adaptações das atividades, despreparo entre outras. Porém uma frase me chamou a atenção, que apesar de tudo o amor rompe barreiras e que somos capazes de tudo, basta querer. E foi a partir desses relatos que me chamou a atenção a história de dois alunos autistas.
Vamos conhecer a história.
Trabalhei com dois estudantes, uma menina e um menino autistas.
As diferenças entre eles começam no apoio dos familiares. Ao estar com eles, percebi na prática a importância do conhecimento sobre o autismo que vai além da sala de aula.
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A família, alimentação, incentivo, colaboração com a equipe escolar foram as primeiras observações, pois, a menina tinha todo esse apoio e o menino não, muito pelo contrário, a mãe escondeu da escola e quando peguei a turma, fui interagindo com ele e pedi uma conversa com a mãe, que se abriu e conversou e disse que nem em casa os cuidados necessários não eram realizados por ela, devido ao trabalho e a falta de tato.
Essa foi uma das primeiras dificuldades.
A menina já era mais desenvolvida, já interagia e o menino precisei trabalhar aos poucos, para que ele interagisse até mesmo comigo. Dificuldades, relacionamento escola e pais, a falta de sinceridade, falta de conhecimento sobre o assunto e o mais prejudicado a meu ver é sempre o desenvolvimento do aluno.
O aluno que tem um aparo em casa, vem para a escola com mais segurança e isso faz com que sua socialização aconteça.
No ambiente escolar todos, desde a pessoa que recebe na porta até a diretora, devem entender como a inclusão funciona e o que realmente é inclusão não olhar para essas crianças com nomenclaturas que muitas vezes vemos e ouvimos como olha lá o Autista, o Down ou o DI nomenclaturas que precisamos estudar para entender e aprender e não rotular. Não para facilitar o trabalho da professora, mas para harmonizar a chegada, permanência e desenvolvimento das crianças. Mas muitas vezes encontramos muitos olhos vendados para esses alunos.
A falta de material adequado para trabalhar, espaço desorganizado, horários bagunçados, troca de professores, tudo isso é dificuldade ao extremo para o aluno.
O professor que procura entender um pouco sobre a educação inclusiva e como deve proceder precisa estar sempre criando e recriando, por falta de material didático, jogos interativos, espaço adequado etc.
Acredito que o professor é mais que uma ponte na educação inclusiva, porque não é só o atravessar de um lado para o outro entre todos os alunos e equipe escolar, mas fazer com que esse trajeto seja leve, natural e seguro.
Feito toda análise das dificuldades, tive um trabalho de pesquisa, onde junto com colegas de trabalhos fizemos adaptações de horário, atividades adaptadas, melhoramos o espaço no horário de uso com as crianças, na hora da merenda todo um processo de
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adaptação, e os resultados foram incríveis, o menino usava fralda e tomava mamadeira, não andava, só ficava no carrinho de bebê, durante todo o processo de adaptação mudanças foram acontecendo, ele começou a andar, comer com as crianças, já não ficava no carrinho e tinha um momento especial em que brincávamos juntos de carrinho e ele passou a fazer as atividades, uma evolução que acontecia dia após dia, quando sai da escola, ele estava em processo de desfralde.
A mãe já estava procurando outros profissionais para o desenvolvimento do aluno.
A menina, que tinha todos os cuidados dos pais e incentivo, teve uma adaptação mais rápida, nas atividades, já comia com os demais alunos, ela começou a brincar com as crianças e a se comunicar com eles, e as crianças sempre dispostos a atender o que eles queriam, de forma que a interação acontecia naturalmente. Pois eles são assim estão sempre dispostos a ajudar.
Assim o que eu aprendi foi a verdadeira empatia, se doar, pois, eles nos olham sempre com um olhar terno, sem pedir nada em troca. Desistir não existe, vencer sempre, até mesmo os obstáculos que criamos, e percebemos que somos capazes de recriarmos uma nova história.
Sueli Fátima Rodrigues E.E. Ignês Corrêa Allem Professora Itinerância TEA
Eu e o TEA
Assim que peguei as aulas no Jussara, meu primeiro movimento foi colher informações sobre o meu aluno, buscar o laudo, falar com a equipe da coordenação pedagógica, com a professora regente, conhecer a mãe através de uma chamada de vídeo e finalmente, conhecer aquele menino que iria ganhar meu coração.
E assim chegou o dia, conheci o “D” e me apaixonei por ele de cara. Que garoto incrível!
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Cheguei na docência em Educação Especial, depois de algumas pós-graduações, onde recebemos aquela carga imensa de toda teoria que nós todos bem sabemos. Depois a especialização em TEA, e as pesquisas por fora sempre, a busca diária de uma melhor compreensão de técnicas, teorias, práticas, abordagens. Entrei em tudo o que foi grupo de mães atípicas, famílias, autistas jovens e adultos e suas experiências de vida, com amigos, família, escola, trabalho, sociedade. Tudo isso para que eu pudesse pelo menos tentar compreender que mundo era esse. Meus dias já há alguns anos tem sido respirar o TEA e sentir. Sim, sentir literalmente, sentir o TEA dentro de mim. E ainda assim, me encontro num mar de descobertas e aprendizados infinito. E amo que seja assim com toda minha alma.
O D foi o MEU primeiro aluno autista. Assim que o recebi foi-me passado que não estava alfabetizado, que vinha tendo crises semanalmente, que era falante. Nossas interações começaram num final de mês de outubro e em meio a pandemia, remotamente.
O que eu mais tinha em mente naquele momento era o acolhimento integral à aquela criança, e assim fiz.
Tivemos um feeling incrível. De cara ficou claro o quanto nós gostávamos daqueles momentos de interação, as tardes eram de descobertas infinitas e maravilhosas.
Meu segundo movimento foi mergulhar de cabeça com o D no seu hiperfoco. E assim, sempre se iniciavam nossas interações. Eu o colocava em primeiro lugar, onde ele me guiava, segurava minha mão e me levava lá para dentro do mundo dele. E lá dentro deste mundo, descobri que ele estava sim alfabetizado, lá dentro deste mundo ele falava sobre tudo comigo, escrevia/digitava muito bem para quem era considerado Não-alfabetizado. Ali ele tinha noção de tudo o que nós professores de TEA tentamos buscar através, às vezes, de sondagens em folhas de papel, em atividades em que o aluno possa demonstrar e fazer alguns testes, para sabermos se tem lateralidade, motricidade, pareamento, enfim...todas estas coisas que a gente bem sabe! Pois então, e o meu modo de descobrir tudo isso foi inusitado, diferente.
Eu me deixei guiar pelo Davi. E quando eu estava ali dentro deste elo com ele, nossas conversas eram infinitas, ele me falava sobre seus sonhos, sobre sua visão de mundo, sobre sua relação com o pai, com a mãe, com outras crianças, do projeto que ele faz parte, sobre política, sobre dinheiro, sobre profissão, sobre comidas, sobre se exercitar para não engordar pois conhece suas “comorbidades” e o quanto engordar poderia
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prejudicá-lo, sobre ter que aprender a profissão que ele tanto deseja e ganhar dinheiro, porque sabe que a mãe um dia Deus virá recolher! (essa fala é dele). Sobre o olhar das pessoas à sua volta, sobre às falas capacitadas ao seu redor, sobre as pessoas que falavam desde a escola anterior ao Jussara que ele não sabia ler e escrever e que ele não sabia como mostrar que eles estavam enganados, sobre afeto, sobre amor, sobre bullying, sobre todos os filmes da Marvel, do Ben10, Disney, sobre jogos e games.
Nos games o D vive e respira. E eu entendi o quanto isso importa para ele. Nunca pensei em tirar isso dele, aprendi a usar o game como ferramenta de acesso a ele, integralmente.
E assim vem sendo neste quase um ano, e ele vem se superando absurdamente. O D é um campo de terras férteis no terreno das possibilidades de aprendizagem. É uma superação em nível HARD. Tanto que no segundo semestre ele foi o segundo melhor aluno da turma dele, claro que reconhecendo suas “limitações”, foi aluno DESTAQUE.
Foi escolhido como representante de sala pelo Professor de Eletivas. E isso para mim não tem preço, é o meu garoto ganhando seu espaço no mundo, tendo lugar de fala, mostrando para este mundão que o céu é o limite e não o que tentaram impor a ele, ele é VIDA.
E assim vem sendo meus dias dentro da Educação Especial, é este meu fazer que me realiza, que me faz dar sentido a minha existência como ser humano.
O olhar do professor de Educação Especial seja qual for a deficiência, sempre terá que ser 360’. Pois o profissional que não se abre a este olhar, dificilmente entra num franco processo de ensino aprendizagem com seu aluno. Antes de seguir qualquer teoria, prática ou abordagem, se faz necessário SER HUMANO. Nosso material de trabalho é a VIDA.
Quanto à escola Jussara e toda sua equipe de coordenação, diretoria, docentes, não tenho o que dizer, somente agradecer todo apoio e confiança no meu trabalho. Estamos juntos aprendendo dia a dia, ali encontrei profissionais incríveis, pessoas brilhantes, que vejo o brilho nos olhos a cada desafio.
Deixo registrado aqui, neste texto, toda minha gratidão à Deus, à Vida e a oportunidade de vivenciar tudo isso. Obrigado!
52 E.E. Profª Jussara Feitosa Domschke
Diretora: Elizabeth das Neves Alves Pereira
Professora: Patrícia Cardoso do Nascimento Sanchez
Relato de Experiência
Vou relatar a experiência que tive em uma das escolas que trabalhei em 2019 e 2020.
No primeiro contato que tive com a mãe de um dos alunos que estava atendendo, fui informada pela mesma de que o aluno se encontrava em um quadro depressivo, costumava ficar muito tempo em seu quarto jogando e geralmente no quarto escuro.
Na escola não era muito sociável. Costumava usar blusa de moletom e sempre com capuz, mesmo que fosse em dias quentes. Na Sala de Recursos ele não costumava conversar muito. Então resolvi fazer um trabalho diferenciado com ele e com os outros alunos atendidos também. Então comecei a trabalhar mosaicos, trabalhos em telas, aquarelas, decoração de garrafas, enfim diversos trabalhos com diversos materiais. Esse aluno passou a se comportar de maneira diferente, percebeu que era capaz de criar e esse trabalho foi muito significativo para ele.
No final de 2020 o resultado deste trabalho foi muito gratificante! Passou a ir para a escola com roupas mais à vontade, deixou de usar aquela blusa de moletom e capuz em dias quentes e passou a se relacionar melhor na sala regular. Até que um dia, já nas férias de fim de ano, ele me mandou uma mensagem dizendo que eu fui a melhor professora que ele já teve em sua vida, porque eu acreditei que aqueles trabalhos iriam ajudar ele na socialização e convivência escolar e familiar.
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Portanto, para mim esse tipo de trabalho ficou marcado como gratidão ao resultado do trabalho desenvolvido.