2 INTERDISCIPLINARIDADE NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR
2.3 ILHAS INTERDISCIPLINARES DE RACIONALIDADE
Segundo Fourez (1997), a interdisciplinaridade no ensino escolar se faz necessária quando o ensino disciplinar não contribui para que os jovens sejam capazes de usar o conhecimento científico na sua prática cotidiana. As disciplinas científicas são representações organizadas e sintetizadas, propostas para esclarecer o mundo. Elas são determinadas por uma organização mental que classifica o mundo, tomando como base objetos criados para a sua própria representação do mundo (FOUREZ,1995).
Ao analisar as questões do uso do conhecimento nas atuais investigações científicas, Fourez (1997) chega à metáfora das Ilhas de Racionalidade, considerando
as disciplinas científicas como ilhas ou continentes de racionalidade. Ele parte do princípio de que, atualmente, quando os cientistas realizam as suas investigações, reúnem conhecimentos de várias áreas, com o intuito de obter a solução para o problema. O aprofundamento nas disciplinas ou em determinado conceitos só ocorrerá quando houver indícios de que se obterá uma contribuição relevante para o estudo do problema.
Construir Ilhas Interdisciplinares de Racionalidade é utilizar uma metodologia que se aproxime desse raciocínio da investigação dos cientistas, na perspectiva de contribuir com uma educação científica que possibilite aos estudantes compreender as suas demandas cotidianas. Para se efetivar a construção dessas Ilhas de Racionalidade, os estudantes devem ser orientados a construírem novos modelos teóricos ou a ampliação dos modelos disponíveis, embasados no conhecimento pré-existente, suficiente para a compreensão do tema ou da situação estudada (FOUREZ, 1997).
Não consiste em formar novas disciplinas, daí a conotação de Ilhas de Racionalidade, metáfora dada para a obtenção de conceitos esclarecedores sobre grandes temas ou desenvolvimentos tecnológicos. Esses conceitos prescindem de explicações de várias especialidades ou disciplinas historicamente estabelecidas. O êxito desses projetos consiste em ser precisos e restritos a um produto final. A clareza do processo de ensino deverá permitir a criação de modelos teóricos. A exploração dos conceitos disciplinares deve possibilitar aos estudantes construírem, de forma compreensível, os novos modelos que desvendarão o fenômeno estudado. Esae cuidado, todavia, não deve culminar em um tratamento superficial do conhecimento necessário para o estudo.
O desenvolvimento de projetos interdisciplinares com a construção de Ilhas de Racionalidade em torno de situações ou temas não tem a pretensão de subjugar as disciplinas. Os modelos construídos deverão ser delimitados e fundamentados nos conceitos científicos estabelecidos. Esses conceitos devem ser apresentados em sala de aula, não mais como um fim em si mesmo, mas presentes no contexto e com o devido cuidado para que não seja abordado superficialmente. São os conceitos oriundos das disciplinas científicas que erigirão as Ilhas de Racionalidade.
Portanto, uma Ilha Interdisciplinar de Racionalidade será uma representação construída com a contribuição apropriada de tantas disciplinas científicas e especialidades quantas forem necessárias. Mas essa representação não significa um todo composto pela soma das partes. Ela se torna mais uma parte do todo, no sentido de que se constitui uma das tantas formas de ver aquela específica pequena parcela do mundo.
É importante salientar que, para o desenvolvimento de um trabalho dessa natureza, em sala de aula, não é necessária uma equipe pluridisciplinar. Ele pode ser desenvolvido tanto por um grupo de professores, como por apenas um professor. O que dará o caráter interdisciplinar, necessário para compor o conhecimento do fenômeno ou situação, será a estrutura metodológica da pesquisa e as suas delimitações.
No percurso da construção das Ilhas Interdisciplinares de Racionalidade, os estudantes, provavelmente, encontrarão entraves que necessitarão de lentes de diversas disciplinas científicas. Essas disciplinas poderão, ou não, compor a matriz curricular do curso que desenvolve a atividade. Fourez (1997) denominou de caixas pretas esses entraves, as quais serão abertas e exploradas na medida em que se precisem responder as questões surgidas no processo da investigação do fenômeno. O aprofundamento do conhecimento poderá ser adquirido mediante investigações bibliográficas feitas pelos alunos ou pela contribuição dos professores envolvidos no trabalho. Poderá surgir algum conhecimento que não seja especialidade do professor ou dos professores envolvidos. Para o seu desvelamento, será necessária a busca de especialistas. Esses especialistas podem estar presentes no ambiente escolar, ser convidados para o ambiente escolar ou ser convidados a colaborar através de algum instrumento de participação externa, como, por exemplo, a entrevista.
Desde o início, a atividade deve prever um produto final, proposto para um determinado público. Para obter um produto final, pressupõe-se a negociação de várias disciplinas e de uma metodologia para a sua execução. Deve-se considerar que cada disciplina científica tem como característica uma metodologia; e nenhuma delas, em particular, deverá sobressair ou ser imposta na realização da atividade.
O desenvolvimento de um projeto que vise à construção de uma ilha interdisciplinar de racionalidade deverá seguir uma metodologia que se assemelhe a um processo de investigação. Tal qual uma pesquisa científica, a metodologia não pode ser uma regra geral. Ela é flexível porque os passos a serem seguidos dependerão do problema em questão, do grupo envolvido com o projeto, assim como da disponibilidade de tempo e do contexto.
Utilizamos os pressupostos para a construção de uma Ilha Interdisciplinar de Racionalidade para instrumentalizar os estudantes da licenciatura em Física, participantes da pesquisa. Eles desenvolveram uma atividade interdisciplinar como prática de ensino, na disciplina de Mecânica e Gravitação. Através dessa atividade, construímos dados para esta pesquisa. Em seguida, descrevemos a adaptação feita em uma metodologia proposta por Gerard Fourez para a construção das Ilhas de Racionalidade.
2.3.1 Metodologia para a construção de uma ilha interdisciplinar de
racionalidade
Apresentamos, em linhas gerais, etapas que poderão ser contempladas no desenvolvimento de um projeto interdisciplinar. Estas etapas foram adaptadas da proposta de Fourez (1997) para a construção de Ilhas de Racionalidade visando a uma Alfabetização Científica e Tecnológica. A adaptação foi realizada na perspectiva de integrar um projeto a ser desenvolvido em um curso de formação inicial do professor. Elas não precisam ser seguidas na ordem apresentada, no entanto, deve- se buscar coerência na execução do projeto:
1. Levantamento do problema: O problema pode ser levantado pela comunidade de professores e alunos, pelos alunos, pelo professor ou pelos professores. Ele será determinado pelo objetivo da atividade e contexto do grupo envolvido. O problema deve estar presente nos interesses da comunidade e da sociedade onde os participantes estão imersos e pode ter um caráter sociocultural, político ou tecnológico. Deve ser pensado de modo a ser exequível no tempo disponível e com os recursos materiais e humanos disponíveis.
2. Representação inicial do problema: Fazer um levantamento das idéias preliminares que a equipe tem do problema. Levantar as sugestões,
suposições, hipóteses, juízos de valores e representações teóricas propostas que contribuirão com as investigações. As concepções do senso comum também devem ser consideradas. Listar e confrontar as ideias divergentes. 3. Organizar a investigação: Fazer uma lista dos objetivos a serem alcançados,
dando uma orientação para os itens que surgiram espontaneamente na etapa anterior. Consiste na etapa onde serão estabelecidos os elementos a serem investigados e consultados. Nessa fase, deverão ser estipuladas quais hipóteses, sugestões ou representações teóricas contribuirão com a investigação. E estabelecidas listas com normas, atores, especialistas e limitações dos conhecimentos necessários para auxiliar a investigação.
4. Trabalho de campo: Trata-se de investigação teórica e prática sobre as questões levantadas na organização da investigação. A pesquisa pode ser bibliográfica ou de campo e os instrumentos podem ser semelhantes aos utilizados nas pesquisas científicas. Podem fazer uso de instrumentos, tais como documentos escritos, memórias, questionários, entrevistas ou observação. Para esclarecer alguns pontos dúbios, deve-se recorrer aos especialistas, os quais podem pertencer, ou não, à instituição de pesquisa. Os especialistas podem ser consultados por meio de instrumentos de pesquisa, como questionários a especialistas; também por meio de atores envolvidos, entrevistas aos especialistas no seu ambiente de trabalho, palestras ou entrevistas aos especialistas em sala de aula, consulta a especialistas mediante recursos midiáticos. Além dos especialistas, outros atores sociais que possam contribuir com pesquisa também podem ser consultados.
5. Aprofundamento dos conhecimentos cientificamente estabelecidos: Ao longo dos estudos, a equipe será confrontada a decidir quais conhecimentos contribuirão para o esclarecimento do problema. O aprofundamento nesses conhecimentos será uma decisão da equipe. Ela pode recorrer a especialistas tanto para consulta dos conhecimentos científicos, como para compreender qual aspecto deve ser aprofundado. Este é o momento de se explorar os modelos disciplinares que darão corpo ao modelo interdisciplinar em construção. As especialidades podem ser consultadas por meio de pessoas com formações específicas, ou através de livros, artigos ou quaisquer materiais
didáticos que apresentem os conceitos necessários para a revelação dos entraves obtidos durante a investigação.
6. Organização do produto final: Trata da síntese que representará a Ilha de Racionalidade construída a partir do projeto. Essa síntese pode ser oral ou escrita ou mesmo um esquema em desenho. A representação é fruto do cruzamento dos saberes, ao quais foram obtidos durante o projeto, e dá significado ao problema no interior do mundo daqueles que procuram obter uma resposta para a questão.
Essas etapas não podem ser vistas como passos metodológicos a serem seguidos em todo e qualquer projeto interdisciplinar. Mas torna-se um conjunto útil para o desenvolvimento de uma atividade desse tipo, principalmente para aqueles que têm dificuldades de efetivar ações integradoras por desconhecimento de metodologias ou de outros fatores oriundos do contexto escolar ou universitário. No nosso trabalho, esta metodologia foi utilizada tanto como ferramenta para o desenvolvimento de uma atividade interdisciplinar, como indicação para suas futuras atividades de práticas de ensino.
Além dos conhecimentos a respeito do surgimento e dos conceitos sobre interdisciplinaridade, inclusive na educação, entendemos que, para esta tese, é importante conhecer a interdisciplinaridade no contexto da educação brasileira. Para isto, além da revisão histórica, procuramos conhecer a interdisciplinaridade na legislação brasileira, tanto para a educação básica como para a formação do professor.
2.4 INTERDISCIPLINARIDADE NA HISTÓRIA DA LEGISLAÇÃO DA