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Outras experiências interdisciplinares formativas

Análise Textual

INTERDISCIPLINARIDADE NO GRUPO

5.4 VIVÊNCIAS INTERDISCIPLINARES NA FORMAÇÃO DA PROFESSORA MARGARIDA

5.4.3 Outras experiências interdisciplinares formativas

Nos semestres após a oficina e o desenvolvimento do projeto, Margarida teve a oportunidade de desenvolver algumas atividades de prática de ensino como componente curricular. Ela foi autora de alguns desses projetos com a orientação de alguns professores. Foram atividades desenvolvidas por sua participação como voluntária do COPEF, na segunda fase do PIBIC, ou nos estágios curriculares. Analisamos os relatórios dessas atividades e pudemos encontrar nas ações de Margarida características para a construção de um perfil de professora interdisciplinar39.

Participação em projetos extracurriculares

A primeira atividade foi uma solicitação da coordenação do COPEF, onde ela atuava como voluntária. A tarefa era desenvolver uma atividade contextualizada e interdisciplinar para alunos do Ensino Médio de uma escola pública da cidade de Caetité-BA. Ela utilizou uma brincadeira comumente conhecida aos alunos da faixa etária dessa etapa da Educação Básica, denominada Caça ao Tesouro, trabalhando os conceitos de vetores e localização espacial, utilizando bússolas e GPS e a construção de mapas.

Essa atividade foi elaborada em parceria com outra bolsista do LIPI, licencianda em Geografia, também voluntária do COPEF. A aplicação ocorreu durante um fim de semana de setembro de 2014.

Esta atividade está relacionada com os conteúdos, [...] de Física e Geografia que irão ajudar os estudantes a: se localizarem através da bússola; perceberem a noção de distância vetorial e escalar; entender como se realiza a transposição de escala do espaço real para um mapa; usar a noção de vetores para determinar distância escalar, direção e sentido. (TCC-OUT16Margarida)40

39As características que apresentamos entre aspas e em itálico foram apresentadas no quadro 1 do capítulo 4.4.

Consideramos que elas estão presentes no perfil de um professor interdisciplinar com formação inicial no âmbito disciplinar.

Para a organização e desenvolvimento desta atividade ela relacionou a Ciência

e a Cultura, contextualizou as atividades da Comunidade de Prática à realidade do público alvo e procurou auxílio para analisar o problema segundo a

perspectiva de outra especialidade, além de adaptar uma atividade metodológica

de outra disciplina na sua prática de ensino, demonstrando uma atitude

interdisciplinar no tratamento de conhecimentos da Física.

Essa experiência aconteceu logo após a oficina. Havia a representação de duas professoras. Margarida representava a professora de Física e sua colega de LIPI, a professora de Geografia. Ela foi planejada durante a realização da oficina e aplicada na semana seguinte à conclusão desta. A concepção de interdisciplinaridade presente no desenvolvimento da tarefa em Caetité estava coerente com os conceitos sobre interdisciplinaridade expostos por Margarida durante a entrevista e a oficina.

As mesmas características, além de outras, encontramos durante a segunda fase da bolsa PIBIC, quando ela propõe o projeto Cinema, Pipoca e Ciências. Margarida procurou conhecer como os licenciandos dos cursos de Física, Geografia e Matemática verificavam a potencialidade do cinema como instrumento interdisciplinar para as suas futuras atividades de ensino. Para tanto, ela desenvolveu um projeto que consiste na exibição de ficções com temáticas relacionadas às Ciências Naturais, durante quatro meses, fevereiro a junho de 2015, no auditório do Departamento da Física. A exibição era seguida de um momento de debate com três especialistas de áreas distintas que apresentavam o olhar da sua ciência sobre o filme. Traçamos o perfil de Margarida no processo de efetivação do seu empreendimento, salientando para as características que apontam para a formação de Margarida como professora interdisciplinar. Ela reconhece os limites de atuação científica do domínio da sua Comunidade de Prática, pois formou uma equipe interdisciplinar de voluntários, composta de três licenciandos, um de cada um dos cursos citados. Esse grupo lhe auxiliou no desenvolvimento do projeto – escolha dos filmes, identificação dos especialistas e atividades relacionadas à sua pesquisa. Dessa forma, ela também demonstrou engajamento, pois procurou enriquecer os princípios metodológicos instituídos na sua comunidade de prática de Ensino de Física através do estabelecimento de parcerias com outras comunidades de práticas.

Para a discussão de cada filme, ela convidava três especialistas de áreas distintas, conforme a temática do filme. Essas ações revelam atitudes relacionadas tanto ao seu envolvimento com a Comunidade de Prática de Ensino de Física, como com questões que lhe permitiam promover um trabalho interdisciplinar. Ela apresenta uma atitude interdisciplinar ao dispor a sua disciplina com outras disciplinas e

especialidade para discutir (estudar) um evento e ao procurar relacionar a Ciência com elementos presentes na Cultura, apontando para o ensino de Física, imerso

em uma proposta interdisciplinar. Tomamos como exemplo a sinopse apresentada, na sua atividade, para o filme Apolo 13. Nessa proposta, após a exibição do filme, realizou um debate com especialistas da área da Astronomia, Mecânica Clássica e Geografia política:

“O filme conta a saga dos ocupantes da Apollo 13, em 1970 nos Estados Unidos, no qual uma explosão em dos tanques de oxigênio da nave marcou o início da maior missão de resgate da história da corrida espacial. Além da Física e Astronomia serem os principais conhecimentos abordados no filme, a Geografia política tem seu lugar como discussão da Guerra fria e como os programas espaciais estão ligados a esse cenário”. (TCC-OUT16Margarida)

Além de ter demonstrado elementos que caracterizam o engajamento na Comunidade de Prática, mas com atitude interdisciplinar, as ações de Margarida apontaram para elementos da investigação e da comunicação. A atitude

comunicativa estava presente na proposta de prática de ensino dialógica, com

temáticas que extrapolam os limites do domínio da sua ciência de prática ao propor a exibição de um filme, seguido de um momento de discussão; igualmente foi observada na “negociação do seu ponto de vista” durante o processo de seleção dos filmes, das temáticas abordadas e dos especialistas que deveriam ser convidados; e ainda lhe possibilitou também aperfeiçoar a sua prática de ensino enquanto participa de uma

rede de comunidades de prática com representações de várias disciplinas.

A atitude investigativa surgiu durante a elaboração do evento. Foi necessário que ela tivesse o conhecimento de uma realidade como o seu objetivo, o

conteúdo da sua ciência como um instrumento para a elaboração do conhecimento de um determinado fato, a disposição para ampliar o seu

conhecimento para a inovação do planejamento e para a inserção de questões

Nas atividades descritas anteriormente, Margarida teve, sempre, a orientação de um professor formador e procurou a ajuda de licenciandos do seu curso e de outros cursos que compunham a equipe do LIPI. Nas atividades de estágio III e IV, descritas a seguir, ela concebeu, planejou e realizou sozinha. Em cada estágio um professor analisou as suas propostas e, quando necessário, entrou com sugestões, mas sem profundas intervenções.

Estágios

No Estágio III do curso de Licenciatura em Física do IFBA, o licenciando tem a oportunidade de propor e realizar uma intervenção, com duração de 40 minutos, em sala de aula. A sua intervenção tinha que estar em consonância com o planejamento adotado para a turma onde realizou o estágio. Antes da aplicação, a proposta foi apresentada tanto ao professor regente da classe, quanto ao professor de estágio.

Antes da intervenção, ela aplicou um questionário com o objetivo de conhecer as relações dos estudantes com as disciplinas escolares e com a própria escola. E outro questionário com o objetivo de levantar as concepções prévias referentes aos conceitos físicos que seriam trabalhados na sua intervenção. A sua proposta de intervenção apontou para uma atitude interdisciplinar, pois ela insere um problema

social e natural, de realidade cotidiana, no seu planejamento de ensino.

“O objetivo da intervenção foi abordar os conceitos básicos da termometria, de forma interdisciplinar. Desta forma, apresentei o tema dentro de um contexto social e ambiental, bem como procurei incentivar a reflexão sobre as implicações das mudanças climáticas no cenário mundial.

Escolhi este tema, termometria, porque o professor estava ainda por abordar o assunto, e decidi que seria interessante saber quais as concepções prévias dos alunos a respeito dos conceitos de calor e temperatura”. (RL3-ABR16MARGARIDA)

Ela utilizou um experimento demonstrativo para contextualizar o problema e conduzir os alunos da Educação Básica a reflexões em torno da problemática do Aquecimento Global.

“Assim começamos a construir a conexão do experimento com a temperatura do planeta. Porque o planeta está aquecendo (distinguir o aquecimento natural do antrópico)? Os estudantes apresentaram: desmatamento, poluição pelas indústrias e carros como principais razões do aquecimento terrestre. Mas, ao serem perguntados o porquê essas razões afetam o planeta eles não souberam desenvolver

argumento. A partir daí apresentei o mecanismo de trocas de calor entre a atmosfera e a terra, e como os poluentes interferem nessa troca de calor”. (RL3-ABR16MARGARIDA)

As atividades desenvolvidas nesse estágio curricular demonstraram a sua atitude investigativa interdisciplinar, pois ela procurou estudar uma realidade

através da ótica da sua disciplina sem ofuscar as questões relacionadas a outras especialidades. Os alunos trouxeram informações de discussões feitas em

outras disciplinas quando apresentaram os motivos que contribuem com o aquecimento global. E, nessa sua atuação, ela utilizou o conteúdo da sua ciência

como um instrumento para o conhecimento de uma realidade, quando explicou

os princípios de troca de calor com os conceitos físicos.

Os mesmos princípios moveram Margarida no desenvolvimento do seu Estágio IV. Nesta etapa, ela atuou como regente de classe, cumprindo uma carga horária de aproximadamente 14 horas. O conteúdo a ser trabalhado foi o proposto pela organização curricular da escola onde realizou o seu estágio. O seu planejamento foi estruturado nos seguintes objetivos:

“Geral: Explorar a ótica geométrica de uma perspectiva interdisciplinar; Objetivos Específicos: Trabalhar conhecimentos da Biologia do olho humano para interrelacionar com os conhecimentos de ótica”. (RL4- OUT16Margarida)

Desta vez, ela utilizou um problema de saúde bem explorado: as doenças associadas à posição do cristalino no olho humano. Tomou uma situação real para estudar conceitos físicos, fazendo as correlações necessárias com os conhecimentos das Ciências Biológicas. O seu programa não contou com a participação dos professores de outras disciplinas, mas com os conhecimentos das áreas necessárias para esclarecer os conceitos.