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A (IM)POSSIBILIDADE DA CONDENAÇÃO DO ACUSADO COM BASE

O artigo 381 e seguintes do Código de Processo Penal dispõe sobre a sentença e tem a seguinte redação:

Art. 381. A sentença conterá:

I - os nomes das partes ou, quando não possível, as indicações necessárias para identificá-las;

II - a exposição sucinta da acusação e da defesa;

III - a indicação dos motivos de fato e de direito em que se fundar a decisão; IV - a indicação dos artigos de lei aplicados;

V - o dispositivo;

Após toda a investigação e depois de todas as provas serem verificadas, todos os depoimentos ouvidos e sem que haja qualquer dúvida sobre os fatos, o juiz decidirá a procedência ou não da denúncia por meio de uma sentença (PACELLI, 2017).

Conforme Greco Filho (2015), “no sentido substancial, sentença é o ato do juiz que resolve a lide, aplicando a lei ao caso concreto”, “[...] é o ato final do juízo monocrático de primeiro grau [...]”.

O juiz julgará as provas com base no seu livre convencimento motivado que está previsto no art. 155 do Código de Processo Penal, fazendo uma reconstrução histórica dos fatos para poder tirar suas conclusões, considerando a espécie, natureza do delito, o modo como o crime foi praticado e as circunstâncias acerca da personalidade do acusado e da vítima, proferindo a decisão que deverá ser sempre fundamentada em provas e elementos que estão presentes no processo (CAPEZ, 2012).

Em geral, não existe hierarquia no tocante ao valor das provas, não há um valor estabelecido para cada tipo de prova, porém, compete ao juiz fazer essa avaliação (AVENA, 2017).

A prova serve para tentar reconstruir um fato ocorrido no passado e também para demonstrar ao juiz que os fatos ocorreram conforme demonstrado pelos meios de prova. Mas há hipóteses em que a quantidade de elementos probatórios é tão pequena, que acaba prejudicando à reconstrução dos fatos, tendo somente a palavra da vítima como prova, assumindo assim o papel principal, principalmente quando o crime é praticado de forma obscura.(PACELLI, 2017).

Nucci (2012), explica que, em regra, a palavra da vítima de forma isolada não tem força o suficiente para ensejar em uma condenação. Porém, existem diversas jurisprudências que já decidiram de forma diferente no tocante aos crimes contra a dignidade sexual pelos fatos desses crimes geralmente serem cometidos de forma clandestina, dificultando assim a produção de provas, sendo, neste caso, a vítima considerada a principal prova do crime. A qual será examinada para tentar extrair algum material genético deixado pelo agressor, servindo de apoio total à investigação. Em casos como este, à palavra da vítima, deve estar em concordância com o contexto dos fatos vivenciados pela mesma no dia do ocorrido, deve ser convincente.

EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO RECURSO ESPECIAL. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. PALAVRA DA VÍTIMA. RELEVÂNCIA. ABSOLVIÇÃO OU DESCLASSIFICAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA N. 7/STJ. INCIDÊNCIA. RECURSO NÃO PROVIDO. 1. O Tribunal estadual, ao analisar os elementos de prova constantes nos autos, entendeu pela ratificação da decisão de primeira instância que condenou o ora agravante pelo crime de estupro de vulnerável. 2. A pretensão de desconstituir o julgado por suposta contrariedade à lei federal, pugnando pela absolvição ou readequação típica da conduta, não encontra amparo na via eleita, dada a necessidade de revolvimento do material fático-probatório, que esbarra no óbice da Súmula 7/STJ. 3. Este Sodalício há muito firmou jurisprudência no sentido de que, nos crimes contra a dignidade sexual, geralmente ocorridos na clandestinidade, a palavra da vítima adquire especial importância para o convencimento do magistrado acerca dos fatos. 4. Assim, a palavra da vítima mostra-se suficiente para amparar um decreto condenatório por delito contra a dignidade sexual, desde que harmônica e coerente com os demais elementos de prova carreados aos autos e não identificado, no caso concreto, o propósito de prejudicar o acusado com a falsa imputação de crime. 5. Agravo regimental improvido. (Acordão registrado sob o nº 1.211.243 – CE (2017/0311378-6), Quinta Câmara do Superior Tribunal de Justiça, Relator: Jorge Mussi. Julgado em 24/04/2018. Grifo nosso).

Analisando a jurisprudência citada acima, conclui-se que é muito relevante a palavra da vítima em casos de crime contra a dignidade sexual. Outro fator importante para os julgadores é que se tenha o conhecimento da personalidade da vítima e do acusado. Desta forma, a palavra da vítima é suficiente para determinar a condenação do acusado. Porém, deve ser coerente com as demais provas produzidas e com o contexto fático e ainda deve-se verificar se a acusação feita pela vítima é verdadeira, para que o acusado não seja prejudicado.

Existindo a hipótese de insuficiência de provas e de depoimentos incoerentes e sem nexo com as circunstancias do crime, deve-se aplicar a absolvição do acusado, afinal, não se pode condenar o acusado se restam dúvidas sobre o crime (ARANHA, 2006).

5 CONCLUSÃO

Com a modernização da sociedade e os avanços da tecnologia, notamos que assuntos que outrora eram tabus, como sexo por exemplo, hoje são tratados com naturalidade entre os jovens e adolescentes. Essa sexualização da sociedade traz consigo mudanças comportamentais, uma vez que os jovens e adolescentes estão iniciando a vida sexual mais cedo e com isso, surgem os problemas, como as doenças sexualmente transmissíveis, abortos, gravidez precoce e os abusos sexuais.

O estupro é um dos crimes que a sociedade brasileira mais reprova. Geralmente ele ocorre por meio de uma ocultação ilegal, em que o criminoso usa de meios cruéis para silenciar a vítima, fazendo com que a mesma se sinta ameaçada e consequentemente não denuncie o ato. A prova principal, na maioria dos casos, é a própria vítima, que denuncia, fornecendo assim os primeiros relatos para o início da investigação.

Assim, esta monografia analisou os aspectos gerais referentes a dignidade sexual e o crime de estupro, discorrendo sobre o conceito de cada um, bem como a evolução legislativa do crime de estupro. Logo em seguida foi feito um estudo sobre as provas contidas no processo penal, explicando que a prova serve para a reconstrução de um fato ocorrido no passado e para formar o convencimento do juiz em relação ao crime investigado. Quando a coleta de provas é feita de forma legal, sem violação, o processo consegue comprovar uma verdade judicial, trazendo a estabilidade jurídica sobre o caso. As provas elaboradas legalmente tentam aproximar ao máximo da realidade fática e a ordem social será instaurada com a aplicação de uma pena ao réu.

Foi abordado também, sobre o valor das provas durante os anos e sua evolução até os dias atuais. Esse sistema é conhecido como Livre Convencimento Motivado do juiz, ou seja, o juiz tem liberdade para observar a prova da forma que desejar desde que explique os motivos na sentença. Foi tratado em seguida, sobre os meios probatórios, os quais tem a finalidade de dar o suporte para que a prova possa ser elaborada e reproduzir fins ao processo. Podemos mencionar que os meios de prova são todas as formas de mostrar a verdade pretendida no processo. Analisando alguns dos meios de prova presentes na legislação brasileira, constata-se que são de suma importância para a investigação e para o processo penal. Esses são os meios pelos quais podemos aperfeiçoar as circunstâncias do crime, formar novos pontos de vista,

confirmar e modificar teses sobre os fatos, servindo de base para que o juiz possa pronunciar uma resolução legalmente alicerçada nos elementos coletados pelos meios de prova.

No seguimento, tratou-se sobre o valor da palavra da vítima em casos de abuso sexual. A palavra da vítima tem exclusividade quando se trata de crimes de abuso sexual, pois são praticados no oculto e não deixam rastros. Sendo a vítima a única prova decisiva da prática do crime, a mesma prestando um depoimento harmonioso e consistente com os demais elementos, poderá basear a condenação do criminoso.

De acordo com o problema proposto – A palavra da vítima tem valor probátorio

para sustentar a condenação do acusado de crime de estupro? – Sim, é possível

concluir que a palavra da vítima de abuso sexual é tratada de forma especial pela doutrina e jurisprudência brasileira, sendo possível, com base na palavra da vítima como principal prova do crime, a sustentação de uma condenação

Conclui-se que a palavra da vítima deve ser vista como a principal prova do crime e não a única capaz de alicerçar a condenação do acusado, sendo que, quando não se tem o mínimo de elementos probatórios e o depoimento da vítima é incompatível aos elementos coletados no processo, nesse caso, a melhor decisão à ser tomada é à absolvição do acusado.

REFERÊNCIAS

ARANHA, Adalberto José Q. T. de Camargo. Da Prova no Processo Penal. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2006;

AVENA, Norberto. Processo Penal. 9. ed. São Paulo: Método, 2017

BADARÓ, Gustavo Henrique. Direito Processual Penal. São Paulo: Elsevier, 2008; BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Con stituicao.htm. Acesso em: 09 nov. 2019.

BRASIL, Decreto-Lei n.º 2.848 de 07 de dezembro de 1940. Código Penal. Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>. Acesso em: 28 out.2019.

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Agravo Regimental no Agravo em Recurso Especial nº 1.211.243 – CE (2017/0311378-6), da 5ª Câmara. Agravante: C. E. de O. G. Agravado: Ministério Público do Estado do Ceará. Brasília 24 de abril de 2018. Disponívelem:<https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/inteiroteor/?num_registro=2017 03113786&dt_publicacao> 11/05/2018. Acesso em 20out.2019;

CAPEZ, Fernando, Curso de processo penal. 19. Ed. São Paulo, Saraiva 2012; COÊLHO, Yuri Carneiro. Curso de Direito Penal Didático: Volume Único: Atualizado de Acordo com as Leis nºs 12.971/14 e 13.104/15, 2ª edição. Atlas, 05/2015.

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FILHO, GRECO, Vicente. Manual de Processo penal, 11ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2015;

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JIMENEZ, Emiliano Borja. Curso de Política Criminal. 2. ed. Valência, 2011.

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MACHADO, Antônio Alberto. Curso de Processo Penal. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2012;

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