III. ELEMENTOS DA NARRATIVA
3.3. Espaço determinante
3.3.1. Imagem sintética do mundo
Lasciate ogni speranza voi ch’entrate. Dante
Os exageros a que foi levado o mundo imaginado por Huxley é uma espécie de aproximação microscópica vertiginosa, num contra-senso aos efeitos de um binóculo invertido, que distancia a imagem e, conseqüentemente, a diminui. O futuro é um tempo ainda distante de nós - algo parecido com o objeto visto pelo binóculo invertido. No entanto, o autor não diminui suas feições, pelo contrário, as amplia. O efeito conseguido é interessante e significativo: geralmente só visualizamos os contornos do que está muito distante (632 d.F), logo não devemos nos precipitar sobre sua verdadeira feição. O que Huxley faz é justamente ironizar um mundo que valoriza a aparência, que é só contorno. A ironia - recurso que inverte o sentido – mantém o ironista afastado, mas, usada como um binóculo invertido, aproxima o objeto e desnuda sua essência por trás das aparências.
Mas como foi possível contrariar os efeitos do binóculo, aumentando o que necessariamente diminuiria? Este efeito espacial (imagético) insólito foi obtido por meio da temporalidade da narrativa: apesar de ser um tempo futuro, ele foi narrado como passado. O que passou não vive mais, logo pode ser imobilizado pela memória e avaliado com prudência, isto é, sem precipitação.
A maneira como somos apresentados ao universo do mundo novo revela uma intenção perscrutadora, que parte da aparência em busca da essência. Assim, o que se coloca em primeiro plano é o frontispício de um edifício descrito como um quadro estático, sem recorrência explícita a verbos, já que a única forma é nominal (“acachapado”, squat no original) e a função, adjetiva:
Um edifício cinzento e acachapado, de trinta e quatro andares apenas. Acima da entrada principal, as palavras Centro de Incubação e Condicionamento de Londres Central e, num escudo, o lema do Estado Mundial: Comunidade, Identidade, Estabilidade (HUXLEY, 2001, p.33).17
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No original: “A squat grey building of only thirty-four stories. Over the main entrance the words, CENTRAL LONDON HATCHERY AND CONDITIONING CENTRE, and, in a shield, the World State’s motto, COMMUNITY, IDENTITY, STABILITY (HUXLEY, 1947, p.07).
Esse parágrafo inicial sintetiza a essência do mundo novo, através de algumas palavras fundamentais que a imagem sem vida nos apresenta: “cinzento” (grey), “incubação” (hatchery), “condicionamento” (conditioning), “mundial” (world) e o lema “Comunidade, Identidade, Estabilidade” (Community, Identity, Stability), cuja alusão do autor ao slogan da Revolução Francesa é assinalada por Courtney Campbell (1997). Há que se considerar ainda a locação: Londres.
Neste primeiro momento, temos uma espécie de câmera fixa mostrando e prenunciando a ausência de vida pela ausência de verbos. Com o desenvolvimento da narrativa, o leitor compreenderá o tom pessimista (“cinzento”) que antecipa a falta de vida, pois verificará que o que é “produzido” nesse “Centro de Incubação e Condicionamento” é uma existência mecânica e artificial, contraposta à vida natural da Reserva.
Se o leitor soubesse que esse primeiro parágrafo sintetiza o mundo que está por ser descortinado, perceberia, desde já, a intenção irônica de Huxley, contrapondo essa imagem inicial “cinzenta” ao título promissor da obra. Mas essa descoberta se fará aos poucos, pelo menos até o fim do segundo capítulo, onde o leitor poderá ter uma noção maior das intenções do sistema que governa esse mundo.
Somente ao fim da leitura, perceberá o poder de síntese dos parágrafos iniciais, mais extensos, porém tão significativos quanto a frase-verso com que Oswald de Andrade abre suas Memórias Sentimentais de João Miramar: “Jardim desencanto” (1971, p.13). Assim como Huxley, Oswald sugere algo “admirável” - o Jardim, o Éden - para imediatamente acinzentá-lo - com o desencanto, o anti-Éden (cf. MESQUITA, 1987, p.60). Entretanto, no AMN, o desencantamento não é tão direto, mas também se expressa por meio de um narrador que, conforme nos conduz por aquele mundo adentro, vai deixando marcas das suas impressões na narrativa, atestando a confluência entre o espaço exterior e o seu estado interior.
O mundo em que Huxley nos introduz é este onde o espaço físico descrito (a aparência) deve revelar a atmosfera (a essência). Assim, avisados, entramos no edifício que representa o sistema regente do Estado Mundial. Nesse segundo parágrafo, o
recurso preponderante na descrição é a sinestesia e o conteúdo daquela face externa é uma extensão do já anunciado: ausência de vida, desencanto.
A enorme sala do andar térreo dava para o norte. Apesar do verão que reinava para além das vidraças, apesar do calor tropical da própria sala, era fria e crua a luz tênue que entrava pelas janelas, procurando, faminta, algum manequim coberto de roupagem, algum vulto acadêmico pálido e arrepiado, mas só encontrando o vidro, o níquel e a porcelana de brilho glacial de um laboratório. À algidez hibernal respondia a algidez hibernal. As blusas dos trabalhadores eram brancas, suas mãos estavam revestidas de luvas de borracha pálida, de tonalidade cadavérica. A luz era gelada, morta, espectral. Somente dos cilindros amarelos dos microscópios lhe vinha um pouco de substância rica e viva que se esparramava como manteiga ao longo dos tubos reluzentes (HUXLEY, 2001, p.33).18
A evocação visual é quase tátil: luz fria, crua, morta e espectral, o brilho glacial da porcelana e a algidez hibernal do ambiente. O tom concessivo (“Cold for all the summer beyond the panes, for all the tropical heat of the room itself...” ) contrapõe a aparência externa e a essência: o verão que reinava e o calor tropical dão-nos a sensação de alegria e acolhimento, mas o que encontraremos é a frialdade nas relações de um mundo degradado e desumano, sem vida. Tal quadro sinaliza a projeção huxleyana na obra, que adiante apresentará a frustração e a impotência de John diante dessa civilização, numa extensão do pessimismo huxleyano provocado por constantes decepções com a humanidade.
Assim, nos dois parágrafos iniciais do AMN, as impressões são percebidas quase que de imediato, sem o controle da razão, e a realidade apreendida parece ser a da superfície das coisas. Essa espécie de câmera que nos conduz e entra no edifício seria um narrador em terceira pessoa ou não há ninguém narrando? Qual é a posição dessa câmera-narrador? A que distância ela (e) nos coloca do narrado? Veremos que a carga significativa das poucas, mas densas, caracterizações acusam juízos de valor incompatíveis com a “desumanidade” de uma câmera. Obviamente, existe um autor
18 No original inglês: “The enormous room on the ground floor faced towards the north. Cold for all the summer
beyond the panes, for all the tropical heat of the room itself, a harsh thin light glared through the windows, hungrily seeking some draped lay figure, some pallid shape of academic goose-flesh, but finding only the glass and nickel and bleakly shining porcelain of a laboratory. Wintriness responded to wintriness. The overalls of the workers were white, their hands gloved with a pale corpse-coloured rubber. The light was frozen, dead, a ghost. Only from the yellow barrels of the microscopes did it borrow a certain rich and living substance, lying along the polished tubes like butter, streak after luscious streak in long recession down the work tables” (HUXLEY, 1947, p.07).
implícito, com a intenção de que a história se conte a si mesma. Objetividade que se trai pela valoração implícita.
O tempo pretérito na descrição do mundo novo ainda sugere um caráter de revivescência do passado, condizente com a expressão das percepções por meio de sinestesias, natural no processo de evocação da memória e da recordação, reforçando uma hipótese autobiográfica já detectada por Adorno: o AMN seria o “sedimento do pânico” huxleyano diante da América.