III. ELEMENTOS DA NARRATIVA
3.2. Título oblíquo e dissimulado
O título da obra foi inspirado num verso proferido pela personagem Miranda, no quinto Ato, primeira Cena, da peça The Tempest, de Willian Shakespeare. Miranda e seu pai, Próspero - mágico cuja posição de Duque de Milão fora usurpada pelo seu irmão Antônio - foram atirados ao mar e chegaram a uma ilha deserta onde o único habitante era um ser disforme e selvagem chamado Caliban. Assim, Miranda, que nunca tinha visto homem algum, exceto seu pai, apaixona-se, à primeira vista, pelo príncipe Fernando – que para lá fora arrastado após um naufrágio.
Os próximos humanos a serem vistos por Miranda serão Alonso - rei de Nápoles e pai de Fernando; Gonçalo – o conselheiro; Sebastião – irmão de Alonso; e Antonio – o irmão traidor de Próspero. Diante de um quadro humano pomposo, Miranda tem a famosa reação: “O, wonder! How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is! O brave new world, that has such people in’t!”, ao que o pai imediatamente adverte: “‘Tis new to thee” (SHAKESPEARE, 1961, p.81).
Embora sejam evidentes as diferenças entre os acontecimentos do AMN e os de A
Tempestade – entre outras, o fato de que nesta peça são os “civilizados” que chegam a
uma ilha selvagem, enquanto, naquele, um “selvagem” é levado para a “civilização” - o que nos interessa é a semelhança na reação de ambos os personagens, Miranda e John. Este, ao ser convidado a ir para Londres com Bernard e Lenina, mostra seu
primeiro sinal de empolgação com estas palavras: “Pensar que se tornará realidade aquilo que eu sonhei toda a vida...” (HUXLEY, 2001, p.178). Ele se refere ao desejo de ir com a mãe para o mundo que ela tanto elogiava, alimentando, no espírito do filho, uma grande expectativa. A demonstração maior de empolgação e expectativa vem logo após a pergunta que John dirige a Bernard numa franca alusão à personagem shakespeariana (“Lembra-se do que disse Miranda?”):
- Oh, maravilha! – dizia ele, e seus olhos luziam, a fisionomia estava iluminada por um rubor vivo. – Como há aqui seres encantadores! Como é bela a humanidade! (...) “Oh, admirável mundo novo!’ – repetiu - “Oh, admirável mundo novo, que encerra criaturas tais !” Partamos em seguida (HUXLEY, 2001, p.178)13.
A reação de Próspero, ao fim da manifestação semelhante de Miranda, fora dizer “‘Tis new to thee”, como se a advertisse pela ingenuidade, pois ela ignorava o comportamento nada admirável que aqueles homens vinham tendo. E a reação de Bernard para com John tem o mesmo tom preventivo: “... não seria melhor se você esperasse para ver esse mundo novo?(HUXLEY, 2001, p.178)14.
Vale observar que as palavras de John não foram uma reação espontânea diante do mundo real, ou seja, não se tratou de uma impressão imediata ante o objeto, como ocorrera com Miranda. Tratou-se apenas de uma manifestação de júbilo quase infantil ante a perspectiva e o vislumbre do que ele imaginava ser a civilização tão venerada por Linda, sua mãe. Portanto, trata-se de emoção ocasionada por uma imagem descrita pelo outro e não visualizada por si mesmo.
Como as realidades não condiziam com a positiva receptividade de ambos os personagens, pode-se inferir a intenção irônica do título huxleyano. Como observa Karl e Magalaner, “por medio de la ironia de Huxley, el grito de Miranda se transforma primero en uno deleite y luego en la queja de un individuo torturado” (1969, p.252). Dado o propósito crítico de Huxley, a ironia é utilizada como um dos recursos do espírito sagaz que se sente impotente perante um mundo que se mostra inelutável.
13 No original inglês: “O wonder!” he was saying; and his eyes shone, his face was brightly flushed. “How many
goodly creatures are there here! How beauteous mankind is!” (...) “O brave new world,” he repeated. “O brave new world that has such people in it. Let’s start at once” (HUXLEY, 1947, p.142).
Portanto, o AMN precisa ser lido com os índices desse recurso crítico, em que a verdade é o contrário do que se lê.
O adjetivo “admirável” (brave) normalmente é entendido em sua concepção positiva, despertada por aquilo que causa estima, simpatia, consideração, como fora usado nas manifestações ingênuas de John e de Miranda. À maioria, escapa o sentido de espanto, assombro, estranheza que também são usados parcialmente como negativos, pois a admiração, o espanto e a estranheza são acarretados pelo inesperado, pela surpresa, que pode ser boa ou má. Ocorrem também quando verificamos o contrário do que esperávamos: tanto o bem quanto o mal.
De qualquer forma, a ambigüidade do termo é providencial por se ajustar à própria ambigüidade da situação: para o ironista Huxley, o “admirável” é sinal de espantoso e o termo é usado no sentido daquilo que diz o contrário do que é; àqueles a quem ironiza, os habitantes desse mundo, o termo tem o valor positivo de “bonito, maravilhoso”15. Além do mais, a obliqüidade do “brave” se revela ainda na alusão capciosa que Huxley faz ao novo mundo (new world), no caso o Estados Unidos da América, que costumava receber esse designativo e sobre o qual se constrói a sua alegoria. Assim, Huxley explora muito bem o verso shakesperiano ao usá-lo de forma bastante sugestiva.
Esses aspectos do título reforçam-se nos dois parágrafos iniciais que aproximam o primeiro contato com a exterioridade (a aparência) da impressão quase intuitiva (a decepção com a essência). Lendo o AMN, percebemos que o narrador está entre aqueles que não se deixam iludir pelas aparências, enquanto os outros são os que se iludem. Por trás de todo o esplendor e da exemplar assepsia dos espaços, escondem- se os absurdos de um mundo movido por interesses alheios à dignidade humana.
No documentário sobre Huxley – Darkness and Light (1993) -, a certa altura, o narrador sugere que a luminosidade e o colorido das ruas da Califórnia – visitada pelo escritor e sua esposa - com seus outdoors e luminosos, causam deslumbramento. Mas para o europeu recém chegado, a propaganda massiva atordoava com sua mistura de valores dissonantes: produtos do mercado e frontispícios de igrejas e templos. Carros, hambúrgueres, religiões e Deus, tudo transformado em mercadoria e tornado imagem:
sociedade do espetáculo. Espetáculo que Huxley desaprovou assim que percebeu a sua superficialidade16. Logo, parecia querer que o leitor caísse no mesmo engodo, oferecendo-lhe um título sugestivo sem que houvesse alguém a lhe prevenir: “não seria melhor se você esperasse para ver esse mundo novo?”.