5.2. A VALIAÇÃO DO PROJETO DE INTERVENÇÃO INVESTIGAÇÃO
5.2.2. Impacte do projeto no desenvolvimento profissional da professora-
No que diz respeito ao impacte do projeto no desenvolvimento da professora- investigadora que a concebeu e implementou, e tal como já referenciado, o processo da análise do será feito mais ao nível reflexivo. Tal justifica-se por este ser um processo complexo e pessoal, enquadrado num contexto de crescimento e de melhoria das práticas no futuro.
Assim, esta reflexão não se trata de um ato solitário, mas antes de uma construção, feita a partir da articulação de vários diálogos e experiências, e que pretende, tal como Sá-Chaves (2000) defende, analisar a minha própria ação enquanto professora e o seu impacte no sucesso ou insucesso dos alunos, no intuito de identificar
fatores que possa melhorar em intervenções futuras, mas também de conhecer-me a mim própria e intervir deliberadamente sobre o meu próprio desenvolvimento.
Realizo esta reflexão sob dois eixos principais, sendo eles, o impacte enquanto profissional da educação na preação, a ação e a pós-ação e o impacte enquanto professora-investigadora.
Assim, relativamente ao impacte do projeto enquanto profissional da
educação e no que diz respeito à preação destaco o desenvolvimento de competências
de planificação. 7DOFRPR/HLWHVXEOLQKD³RSODQHDPHQWRQmRpXPDPHUDWpFQLFD de definição e organização das actividades e tarefas que levam à consecução de um objetivo de um conte~GR´ S FRUUHVSRQGHQGR DQWHV D ³XP SURFHVVR GHFLVLRQDO fundamentado que implica uma concepção estratégica da acção pedagógica, a qual é depois operacionalizada de forma mais precisa e detalhada (Roldão, 2009, referenciada em Leite, 2010, p.21). Para tal, considerei importante: i) a fundamentação científica; ii) a importância de contemplar estratégias didáticas diversificadas; iii) a busca de aprendizagens significativas e coerentes com o currículo e iv) a importância do desafio e da flexibilidade. Assim, procurei assentar toda a minha intervenção em autores e obras
de referência, tomando em consideração a data de publicação das referidas obras.
Desta forma, pretendi que as aprendizagens estivessem bem fundamentadas em termos científicos e de atualidade, assim como que a minha própria intervenção fosse preparada de forma mais consolidada. A utilização de estratégias diversificadas foi uma intenção ao longo da prática pedagógica, no intuito de oferecer aos alunos uma experiência de aprendizagem mais diversificada e, com isso, mais enriquecedora. O facto de ter procurado aprendizagens significativas e coerentes com o currículo visou formar cidadãos mais ativos e conscientes. Por fim, pude constatar que a planificação se deve afirmar como um instrumento útil e claro, mas sempre de caráter flexível SRLV ³FRUUHU ULVFRVRXVDUH[SHULPHQWDUGHOLQHDUFHQiULRVGHLQWHUYHQomR´/HLWHSID]SDUWH deste processo e das aprendizagens que possibilita.
Relativamente à ação, destaco como principais aprendizagens: i) a importância da motivação e entusiasmo; ii) a gestão dos diferentes ritmos de trabalho e iii) a comunicação, posicionamento e relação com os alunos. Assim, começo por sublinhar a
motivação e o entusiasmo como fatores decisivos para conseguir que os alunos se
sintam contagiados e implicados durante o processo de ensino e de aprendizagem. É importante valorizar cada momento, atribuindo importância a pequenos gestos e ao modo como abraçamos o desafio de ser professor a cada dia. Daquilo que observo, existem muitos profissionais da educação desencantados com a profissão, que não se sentem valorizados e que, talvez por isso não invistam todo o seu empenho em fazer da experiência do grupo que acompanham, uma experiência melhor e mais enriquecedora. Para mim, isto está intimamente ligado à vontade de inspirarmos o outro com o nosso entusiasmo e com as aprendizagens desenvolvidas, não perdendo a consciência de que
o processo de formação de um aluno é sempre, e antes de mais, um processo de formação de um futuro cidadão, que contribuirá de forma decisiva para a construção da VRFLHGDGHGHKRMHHGHDPDQKm³'HXPDPDQHLUDJHUDOGLUHLTXHDVHVFRODVDLQGDQmR compreenderam que, também elas, têm de se repensar. Permanecem na atitude negativa de se sentirem desfasadas, mal compreendidas e mal-amadas, ultrapassadas, talvez inúteis. Quedam-se à espera que alguém as venha transformar. E não perceberam ainda que só elas se podem transformar a si próprias. Por dentro. Com as pessoas que as constituem: professores, alunos, funcionários. Em interacção com a comunidDGH FLUFXQGDQWH´ $ODUFmR S36). Concordo com a autora e acredito que saio desta experiência com maior consciência da importância da nossa missão e da relevância de queremos fazer melhor a cada dia. Por outro lado, os diferentes ritmos de
trabalho da turma permitiram-me descobrir estratégias para, não só os gerir de forma
mais propícia, mas sobretudo para os potenciar. Essas estratégias envolvem a entreajuda e potenciam o trabalho ao nível da cidadania, numa abordagem transdisciplinar. Assim, e a título de exemplo, procurei, por iniciativa da professora cooperante, que os alunos que terminam determinada tarefa mais cedo, ajudassem os colegas com mais dificuldades. Apesar de ser uma estratégia aparentemente simples, vai ao encontro de fomentar atitudes e valores, como a entreajuda, e através do diálogo com os alunos possibilita que se monitorize e reflita sobre essa experiência, de modo a que esta se afigure como o mais proveitosa quanto possível 'HVVD IRUPD ³XP GRV aspectos mais enriquecedores do trabalho a realizar no âmbito da educação para a cidadania prende-se com a capacidade que o professor deve ter para aproveitar todas as oportunidades que surgem espontaneamente no dia-a-dia para promover a reflexão FRQMXQWD DFHUFD GDV TXHVW}HV GH FLGDGDQLD´ 7RPD] S (P UHODomR j
comunicação e posicionamento na sala de aula, começo por abordar a minha postura
diante da turma. Um dos aspetos que tive de repensar prendeu-se com a proximidade a comunicar com os alunos de forma individual. Esse facto pode contribuir para fortalecer o apoio dado ao aluno em questão mas enfraquece a minha posição perante o resto da turma, que não sente a minha presença na sala de aula de forma tão efetiva, acabando, por vezes, por se gerar alguma confusão. Assim, e mediante uma conversa com a professora cooperante, consegui criar estratégias para ultrapassar este constrangimento, posicionando-me de forma diferente quando estou a responder às solicitações individuais dos alunos e prestando mais atenção à restante turma, de forma a aperceber- me mais rapidamente de algum foco de distração. Por outro lado, reforcei a percepção da importância da assertividade a comunicar: no cumprimento das regras de sala de aula ou na explicitação de uma atividade, devendo, não só comunicar de forma clara o que fazer e como, mas igualmente o objetivo dessa atividade. Se a comunicação for esclarecedora para o aluno, é mais provável que este se sinta implicado na realização das tarefas, pois compreende o seu intuito. Procurei ainda circular mais pela sala de
aula, não me posicionando tantas vezes junto do quadro, de modo a poder acompanhar de forma mais próxima todas as dinâmicas a acontecer no decorrer da aula, bem como para não fazer do professor o foco do processo de ensino e de aprendizagem.
Na pós-ação destaco sobretudo aspetos que se prendem com a avaliação das aprendizagens, pelo que procurei utilizar estratégias de avaliação pertinentes e diversificadas. ConcoUGR FRP 6LPmR TXDQGR DILUPD D DYDOLDomR FRPR ³XPD actividade fundamental a qualquer tipo de acção encaminhada para provocar PRGLILFDo}HV QRPHDGDPHQWH QXP REMHFWR VLWXDomR RX SHVVRD´ S (VWD FRQWULEXL para perceber, de modo efetivo, as aprendizagens que foram realizadas pelos alunos, que dificuldades sentem ou em que temas ou áreas investir. Contudo, foi difícil realizá-la de forma organizada e sistemática, pois afirmou-se complicado gerir todos os aspetos da prática, sendo este um dos que ficou aquém das expectativas.
Enquanto professora-investigadora, ressalvo quatro aspetos principais, que foram alvo de reflexão: i) a concepção do projeto; ii) as técnicas de recolha de dados; iii) as técnicas de análise de dados, assim como iv) o desenvolvimento de projetos voltados para a inovação. Na concepção do projeto, julgo que o facto de se ter trabalhado de forma integrada, e não disciplinar acrescentou uma dimensão diferente ao mesmo, pois tal como (2003) refere, o objetivo da abordagem disciplinar serve o propósito de iniciar os jovens no mundo académico, enquanto a abordagem curricular integrada tem como intuito um propósito mais amplo: crescimento e desenvolvimento saudável dos alunos e envolvimento nas experiências que promovam uma vivência democrática. Concordo com RDXWRUTXHDFUHGLWDTXH³RFRQKHFLPHQWRpXPLQVWUXPHQWRGLQkPLFRTXHLQGLYtGXRVRX grupos podem usar para abordar questões nas suas vidas. Nesta conformidade, o conhecimento é um tipo de poder, pois ajuda a dar às pessoas um certo controle sobre as suas vidas. Quando o conhecimento é visto como uma simples colecção de fragmentos e retalhos de informação e destrezas organizados por disciplinas separadas, a sua utilização e o seu poder estão confinados pelas suas próprias fronteiras, e por isso PHVPR GLPLQXtGRV´ %HDQH S (P UHODomR jV técnicas de recolha de
dados, destaco a importância da observação. Apesar de não ser uma experiência nova,
esta foi realizada no âmbito da investigação, o que pressupõe a recolha de dados, um aprofundamento e um rigor diferente. Foi também importante para perceber a complexidade que envolve a construção de instrumentos, como os questionários e as entrevistas. Para além da consulta dos autores de referência, necessária ao seu desenvolvimento, acresceram-se todas as envolvências da sua construção, tendo sido um processo moroso mas que se constituiu como uma experiência relevante para trabalhos de investigação futuros. Ao nível da análise de dados valorizou o meu percurso enquanto investigadora, uma vez que me permitiu contatar e aprofundar conhecimento em dois softwares distintos. No SPSS a experiência foi mais reduzida, e teve como base a exploração individual do mesmo, realizada com o apoio da professora
orientadora de SIE, assim como da minha colega de díade. Recorremos, ainda, de forma pontual, ao apoio de professores investigadores do departamento, que foram incansáveis no esclarecimento de dúvidas, assim como na busca de soluções para as dificuldades sentidas. No que diz respeito ao webQDA, para além da exploração mais LQGLYLGXDOL]DGDGRVRIWZDUHUHDOL]HLRFXUVRGHIRUPDomR³$QiOLVH4XDOLWDWLYDFRP$SRLR do Software webQDA ± 1tYHOLQLFLDO´TXHGHFRUUHXQD8QLYHUVLGDGHGH$YHLURQRGLD de março de 2013, com a duração de oito horas. Para além disso, considero que este se constituiu como um projeto para a inovação, uma vez que contemplou uma série de atividades e estratégias, que procuraram renovar as práticas neste âmbito, apresentando-se uma sequência didática inovadora e adaptável a diversos contextos educativos.
De uma forma transversal a estas dimensões de análise, considero também que o
desenvolvimento de trabalho colaborativo com a minha colega de díade, a professora
cooperante e as professoras de PPS e SIE contribuíram para o enriquecimento do projeto de intervenção-investigação, assim como para o meu próprio desenvolvimento profissional. Desta forma, o trabalho desenvolvido corresponde, nas palavras de Roldão (2007, pp. 25- D ³XPD IRUPD µPHOKRU¶ QR SODQR PRUDO PDLV VROLGiULD PHQRV competitiva de trabalhar, julgada como positiva no plano do relacionamento e da disponibilidade para o outro, independentemente da sua real valia para a resposta à QHFHVVLGDGHGHHQVLQDUPHOKRU´$DXWRUDDFUHVFHQWDTXH³DVGLPHQV}HVGHFRODERUDomR surgem claramente associadas à melhoria do conhecimento profissional produzido e à PDLRUHILFiFLDGRGHVHPSHQKRGRFHQWH´5ROGmRS
Assim, esta reflexão termina com uma questão, colocada por Alarcão (2001b), TXH QRV LQWHUURJD ³4XH SURIHVVRUHV TXHUHPRV VHU"´ $ SUySULD DXWRUD OHYDQWD YiULDV KLSyWHVHV TXH QRV GHYHP ID]HU SHQVDU ³XP EXURFUDWD GHVFRPSURPHWLGR FRP D FRQVWUXomRGHXPDHVFRODYLYD´³XPDFRUUHLDGHWUDQVPLVVmRGHFXUUtFXORVHLQVWUXo}HV pHQVDGRVSRURXWUHP´RX³XPPHURWpFQLFRTXHDFULWLFDPHQWHH[HFXWDRVHXSDSHO´(P oposição a estas perspetivas surge a necessidade do professor se afirmar como um SURILVVLRQDOUHIOH[LYR(VWHpGHVFULWRFRPR³KRPHPRXPXOKHUGHFXOWXUDUHSUHVHQWDQWH da sociedade na escola, transmissor e cultor dos conhecimentos e valores que esta vem acumulando ao longo dos séculos e que em cada momento valoriza, mas também co- construtor dessa mesma sociedade, gestor de aprendizagens, dinamizador de contextos formativos, PHPEUR GLQkPLFR GH XPD HVFROD TXH VH TXHU YLYD H DXWyQRPD´ $ODUFmR 2001b, p.9). Para tal, é essencial não perdermos a capacidade de nos questionarmos e de aprendermos com o processo, cujo objetivo passa pelo desenvolvimento de ³FRPSHWrQFLDVGHWUDQVIRUPação e construção de sentidos, essencial a quem não quer DSHQDVSDVVDUSHODYLGDPDVDSUHQGHUFRPDYLGD´$ODUFmRb, p.13). É com esta visão que me identifico e é esta a professora que quero ser: uma profissional autêntica,
disponível para a mudança e para o desafio e com vontade de tornar o percurso dos meus alunos uma experiência mais valiosa e enriquecedora.