8.4 Qualidade de Vida do Pequeno Empreendedor
8.4.1 Impacto do Microcrédito na Qualidade de Vida do Pequeno Empreendedor
Na tentativa de medir as mudanças ocasionadas na vida do pequeno empreendedor, foram explorados alguns elementos da qualidade de vida dos clientes que, descritos na Tabela 13, ilustram a condição desse grupo de pequenos empreendedores que tem o negócio como uma única fonte de renda, isto é, 74,49%, frente a uma série de bens de consumo duráveis no momento de início de suas operações de microcrédito. Esses itens não se encontram escalonados como numa hierarquia de bens básicos de consumo.
Tabela 13 - Clientes possuidores de bens duráveis que tem no pequeno negócio única fonte renda Produtos %Clientes ANTES das
operações com o BEJ
%Clientes DEPOIS das operações com o BEJ
Geladeira 100,00 100,00
Freezer 17,35 59,19
Máquina de lavar roupas 42,86 69,39
Televisão de 29 polegadas 27,55 62,24
Forno de Microondas 34,69 72,14
DVD 28,57 50,00
Carro 42,11 63,27
Microcomputador 34,69 68,37
Plano de Saúde 18,16 41,63
* A porcentagem tem um total acima de 100% pelo fato da pergunta permitir mais de uma resposta
Pela Tabela 13, notou-se que a geladeira é um equipamento presente na totalidade de domicílios investigados, praticamente o mesmo ocorrendo com o aparelho de televisão, mas quando a pergunta se referiu ao aparelho de 29 polegadas, apenas 27,55% possuíam o produto.
O automóvel, que é um importante indicador de nível de renda, está presente em aproximadamente 42,11% dos pesquisados, destinado mais em uso no trabalho. A proporção fica bastante reduzida para produtos como freezer e plano de saúde, principalmente porque nesse último caso, o valor é muito alto para se ter um plano com cobertura para toda família.
Em relação às alterações posteriores à utilização do microcrédito, verificou-se uma grande variação no percentual de pesquisados que adquiriram bens, superando os bens que os pequenos empreendedores possuíam antes de se tornarem usuários dos empréstimos liberados pelo BEJ.
No intuito de demonstrar a influência do microcrédito na melhoria de vida, em relação a aquisição de bens de consumo duráveis, dos 25,51% pesquisados que responderam que o rendimento do pequeno empreendimento não é a única fonte de renda pelo fato de já possuírem uma renda fixa, utilizando os rendimentos apenas com fonte de renda complementar (Tabela 14).
Tabela 14 – Empreendedores que executam função remunerada e adquiriram bens duráveis Produtos %Clientes ANTES das
operações com o BEJ %Clientes DEPOIS das operações com o BEJ
Geladeira 100,00 100,00
Freezer 21,42 67,35
Máquina de lavar roupas 35,34 79,60
Televisão de 29 polegadas 32,17 88,21
Forno de Microondas 36,56 91,27
DVD 36,89 82,10
Carro 43,56 78,56
Microcomputador 39,89 87,12
Plano de Saúde 37,12 86,34
* A porcentagem tem um total acima de 100% pelo fato da pergunta permitir mais de uma resposta Como citado anteriormente, tanto a geladeira como a televisão de tamanho menor permanecem presente na totalidade das residências dos respondentes, mas ao se referir a um aparelho maior (29 polegadas), o percentual de produtos passou de 32,17% para 88,21%. O mesmo ocorre para os demais itens apresentados, em que todos tiverem um percentual elevado posterior a aplicação do microcrédito no pequeno negócio. Porém o carro, bem como o microcomputador foi o item que teve grandes alterações, pelo fato de ser considerado pelos pesquisados como um aumento do patrimônio.
Já o plano de saúde foi considerado por esses respondentes como um fator importante, pois conseguiram, em alguns casos, como a empresa em que trabalham não oferece cobertura para a esposa e os filhos, foi possível adquirir um plano para cobrí-los.
Quanto à condição de moradia familiar, dos 98 pequenos empreendedores pesquisados 83,67%, como citado anteriormente, residem em casa própria e desse total 65,12% estão com a casa quitada e 37,50% dos respondentes puderam realizar a quitação de parte das prestações da casa.
As mudanças ocorridas no período recente (posterior a sua condição de cliente) envolveram, também, diversos fatores, como os apresentados na Tabela 15.
Tabela 15 – Principais mudanças posterior à utilização do microcrédito
Principais mudanças %Clientes*
Aquisição da casa-própria 22,45
Pagamento da dívida da casa própria 27,55
Construção da casa-própria 13,27
Ampliação ou reforma da casa 52,04
Nenhuma mudança 3,06
Outra 7,14
* A porcentagem tem um total acima de 100% pelo fato da pergunta permitir mais de uma resposta Verifica-se, pela Tabela 15, que a principal mudança refere-se à ampliação ou reforma da casa, com 54,04%, e com o pagamento de parte das dívidas da casa com 27,55%. Uma outra mudança, embora apresente pequeno percentual (7,14%), são opções “outra” e “qual”
referiam-se a outro tipo de mudanças, nas quais os respondentes disseram que colocaram os filhos numa escola particular, e em outros casos, financiaram a entrada deles na faculdade.
Revela-se então, a preocupação da família em melhorar o nível educacional dos filhos.
Esses fatos refletirão a médio e longo prazos no processo de desenvolvimento humano da cidade, ou seja, mudanças da posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nas três dimensões do índice, pois o aumento dos indicadores de escolaridade cria possibilidade de aumento da renda e, como conseqüência, a longevidade.
Os dados apresentados evidenciaram o crescimento do padrão de consumo de bens duráveis dos indivíduos da amostra. Pode-se dizer que a participação no programa de microcrédito provocou alterações significativas na estrutura financeira dos pequenos empreendedores, repercutindo na melhoria da qualidade de vida, ao verificar a evolução de bens duráveis que passaram a fazer parte do domicílio do pequeno empreendedor.
Isso vem demonstrar que a alteração quanto à renda per capita inicial dos clientes em relação a atual, ocasionada pela melhoria e/ou crescimento do pequeno empreendimento, quando a maior parte dos respondentes disseram que o pequeno negócio proporciona retorno que ao compor a renda familiar demonstra uma expansão do padrão de consumo, diretamente relacionado com as faixas de renda, que se reflete, de uma maneira geral, no crescimento de consumo dos bens selecionados, isto é, os dados reunidos ao longo da pesquisa apontaram para um quadro de melhoria na qualidade de vida familiar dos indivíduos.
Assim, por meio do microcrédito o pequeno empreendimento sofreu indiretamente um processo de alavancagem que contribuiu para a melhoria da qualidade de vida familiar, uma vez que ao aumento da renda possibilitou a aquisição de bem.
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As modificações a que a economia brasileira foi submetida trazida pela economia global produziu efeitos não negligenciáveis sobre os setores empregadores, cada vez mais direcionados pelos critérios de eficiência e competitividade. Tais transformações contribuíram de forma decisiva para a redução da capacidade de absorção de mão-de-obra do setor industrial e aumentaram o grau de informalidade e precarização dos postos de trabalho.
A redução do número de empregos formais provocou o crescimento dos pequenos negócios na economia brasileira, como uma alternativa encontrada pela população para obter trabalho e renda. Nesse contexto, passaram a exercer um papel relevante na economia e sua representatividade e importância socioeconômica foram demonstradas pelo fato de serem grandes geradoras de empregos e de desenvolvimento socioeconômico local.
Para permanecerem absorvendo essa mão-de-obra, as micro e pequenas empresas necessitam de crédito, que, convertido muitas vezes em capital de giro, fortalece o negócio, por ser instrumento estimulador da economia. Entretanto, ele não se encontra acessível por causa do custo elevado que envolve as operações de crédito muito pequenas e pela grande exigência de documentos e contrapartidas bancárias significativas que comprovem a boa situação financeira do requisitante.
E, partindo da definição e do princípio do microcrédito, ele, ao ser tratado como um instrumento que incorpora a população aos serviços do mercado financeiro, por meio da liberação de empréstimos de valores, adota as experiências dos micro e pequenos empreendedores como representativas do ponto de vista financeiro além de acreditar que a produtividade de capital é muito alta quando recebe aplicações em pequenas doses.
Já no aspecto econômico e financeiro, as experiências do microcrédito representam uma forma de democratizar o acesso ao dinheiro e de transformá-lo em riquezas para os pequenos empreendedores que dele se utilizam.
Isso ficou perceptível com a realização da pesquisa que procurou identificar e descrever a instituição que atua com o microcrédito na Cidade de São José dos Campos, no caso o Banco do Empreendedor Joseense (BEJ), a forma de liberação de crédito e o perfil de seus usuários, além de verificar como foram empregados os recursos financeiros obtidos.
Paralelamente, a pesquisa respondeu as hipóteses, no intuito de verificar a importância do microcrédito para o pequeno empreendedor joseense como mecanismo de alavancagem empresarial e suas repercussões no desenvolvimento socioeconômico local.
E, procurando validar a representatividade do microcrédito, por meio de uma exploração mais profunda da sua estrutura em relação à consolidação do pequeno empreendimento, foi possível verificar que o microcrédito, ao ser liberado, permitiu crescimento do empreendimento e promoveu mudanças estruturais, como a expansão de estoque de produtos e ampliação do leque de produtos oferecidos, aquisição de máquinas e equipamentos e a reforma da área de trabalho.
E, após o uso do microcrédito, o resultado foi alavancar o lucro que, em parte, era reinvestido no capital da empresa e em aplicações bancárias para alavancar a atividade empresarial e, a outra parte revertida em renda.
O grau em que esse crescimento se traduziu para a empresa foi em modificações, tanto na sua estrutura funcional quanto em mudanças na estrutura financeira do negócio. Em relação à estrutura funcional favoreceu a realização de investimentos e refletiu no aumento do percentual de contratação de mão-de-obra. A geração de emprego e renda possibilitou manter e gerar empregos, criando renda, pois após a utilização do crédito, as mudanças provocaram o aumento do número de empregados contratados de maneira permanente, e de familiares
assemelhados contratados para trabalhar no negócio com salário fixo, deixando de utilizar a mão-de-obra não remunerada da esposa e dos filhos.
Quanto ao retorno financeiro gerado por meio da utilização do microcrédito, significou aumento da renda familiar, resultando em aquisição de bens duráveis, que, neste trabalho foi classificado como melhoria na qualidade de vida, ou seja, todos os pesquisados tiveram, posterior à utilização do crédito, algum tipo de progressão no pequeno negócio refletindo a vida familiar.
Dessa forma, verificou-se que o microcrédito é uma fonte de recurso adequado para o atendimento das necessidades de crédito dos pequenos empreendedores que ajuda a estimular o crescimento dos micro e pequenos negócios, ao fornecer recursos para atender prontamente essas necessidades, de forma a corrigir as restrições no acesso ao crédito, ocorridas no sistema financeiro tradicional.
O resultado do aumento de empregados para o desenvolvimento local reflete-se no crescimento da participação da população atuando no mercado consumidor, perceptível pela variação no percentual de pesquisados que adquiriram bens após se tornarem usuários dos empréstimos liberados pelo BEJ, e obterem melhorias no pequeno negócio, além da contratação de funcionários registrados e com pagamento fixo.
Este aumento de mão-de-obra contratada e remunerada possibilita o crescimento do consumo de bens e serviços demandando aumento da produção desses bens, e requer das empresas locais e/ou regionais a contratação de mão-de-obra para atender esses potenciais consumidores.
Com a pesquisa pode-se constatar o efeito positivo do programa de microcrédito do BEJ, quanto a sua atuação na cidade de São José dos Campos, no que diz respeito ao volume de micro e pequenos negócios mantidos por meio destes recursos do crédito, demanda a geração de emprego e renda.