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3. POLUIÇÃO DOS RIOS EM SÃO PAULO

3.1 Impactos socioambientais e socioeconômicos

Apesar de sua importância econômica para a Região Metropolitana de São Paulo, os rios Tietê e Pinheiros são à primeira vista, e por essa razão majoritariamente, percebidos como um grande transtorno ao ambiente urbano. Os rios em um estágio avançado de poluição são associados à contaminação do solo e de águas subterrâneas, prejudiciais à fauna e flora e representam riscos à saúde das populações instaladas em suas proximidades. Vale mencionar que um dos principais problemas urbanos relacionados aos rios são as enchentes, entretanto este problema não é resultado da poluição, mas seriamente agravado por ela, uma vez que é da natureza desses corpos hídricos terem períodos de cheia, o aumento do volume de

água dos rios é algo esperado e natural, contudo as ocupações, em geral por rodovias e habitações regulares e irregulares, destas áreas configuram um grande problema urbano, à medida que dificulta-se a vazão das águas que acabam por invadir locais de circulação e habitação, levando suas impurezas ao contato direto humano.

“São Paulo sempre conheceu os transbordamentos dos seus rios e córregos na época das chuvas. Até fins do século XIX, o núcleo central paulistano, no alto de uma colina, ficava em meio às várzeas alagadas dos rios Tietê e Tamanduateí. As cheias causavam alguns inconvenientes, como bloquear caminhos mais curtos para certas localidades, mas, esperadas como as estações do ano, não provocavam grandes tragédias na cidade que evitava ocupar baixadas e várzeas. ” (JORGE, p.2 2011)

Atualmente, as inundações dos rios paulistas, atualmente, tomam ruas e avenidas, provocam, parafraseando Janes Jorge, “grandes tragédias na cidade”.

Áreas sujeitas a alagamentos na Grande São Paulo, são severamente prejudicadas em períodos chuvosos, no caso da mobilidade urbana, os alagamentos paralisam rodovias e causam até mesmo interrupção da circulação de trens, nesse caso, cerca de 70% das causas externas de interrupções das linhas de trens foram motivadas por alagamentos no ano de 20195. No âmbito econômico, estima-se que as enchentes em São Paulo possam gerar cerca de 35.5 milhões de reais de prejuízo para a cidade, considerando a paralisação de atividades locais e os custos econômicos desse cenário (Santos, 2013). Já no âmbito social, as enchentes em períodos de grandes volumes pluviométricos invadem vias e imóveis, causando perdas imensuráveis para os residentes da cidade, entre bens pessoais (como móveis e automóveis) e habitações, chegando em casos mais graves e alarmantes a causar óbitos por deslizamentos de terra e afogamentos, além de aumentar a exposição desses habitantes a agentes patológicos presentes nas águas poluídas.

Para compreender melhor os impactos da poluição das águas dos rios Tietê e Pinheiros, devemos antes assinalar que a poluição das águas pode ser classificada de acordo com sua causa: i) térmica: causada por hidrelétricas, siderúrgicas e refinarias; ii) sedimentar: derivada do desmatamento das matas ciliares; iii) biológica:

provocada pelo despejo de resíduos sanitários humanos, leia-se, esgoto in natura; iv) radioativa: proveniente de resíduos radioativos da atividade industrial; e v) química:

também proveniente da atividade industrial, com o lançamento de resíduos como plásticos, solventes, agroquímicos, etc. (Meller et al., 2017)

5 CPTM. Transparência: Manutenção e Operção. Disponível em:

<https://www.cptm.sp.gov.br/Transparencia/Pages/Manutencao-e-Operacao.aspx>

No que se refere às condições dos corpos d’água, há importantes aspectos a se considerar como: a existência de comunidades aquáticas (fauna), a possibilidade de uso recreativo de contato primário ou secundário, possibilidade de aquicultura, adequação para abastecimento para consumo humano, possibilidade de pesca, irrigação, dessedentação de animais, navegação e harmonia paisagística. Vale destacar que para os rios Tietê e Pinheiros, hidrelétricas, desmatamento, despejo de esgoto e atividade industrial, são elementos que se fizeram presentes ao longo da história da cidade e dos rios. Fatores como o aumento da turbidez, a alteração da temperatura das águas e o assoreamento dos rios causam desequilíbrios bioquímicos nas águas, como a diminuição do nível de oxigênio, alterações no pH e desequilíbrio das populações de bactérias, colocando em risco a existência de fauna e flora no ambiente aquático, desta forma coloca-se aqui, o primeiro impacto ambiental da poluição dos rios, além é claro da própria poluição de grandes fontes de água doce.

A seguir, trataremos de impactos “mistos”, como socioambientais e socioeconômicos desencadeados pela condição lamentável das águas dos rios paulistas.

Quanto aos impactos sociais, devemos considerar a essencialidade da água para a vida, sendo crucial para a existência e saúde de todo o meio ambiente, porém, da mesma maneira que é fonte de vida, quando poluída, a água pode representar grandes riscos à saúde, tanto pelo contato direto com água e alimentos contaminados, quanto por contato indireto pela proliferação e veiculação de agentes patológicos.

Algumas doenças relacionadas à água são: cólera, leptospirose, hepatite infecciosa, esquistossomose, dengue e febre amarela. Segundo a OMS, a cada oito segundos, uma criança morre devido a uma doença relacionada à água, a cada ano, mais de cinco milhões de pessoas vão a óbito devido a complicações dessas doenças, sendo que, a ocorrência dessas patologias tem maior concentração em áreas mais vulneráveis socioeconomicamente que comumente, no caso paulista, habitam áreas às margens e próximas de córregos e rios. Sendo assim, elencamos o impacto socioeconômico, visível dentre outros fatores na exposição das populações mais vulneráveis a condições insalubres, ampliando as desigualdades já existentes na sociedade paulista.

Cabe, neste momento, uma consideração sobre as populações socioeconomicamente mais vulneráveis. Segundo Fracalanza e Freire (2015), o acesso à água limpa, que é um bem comum, é desigual e ampliado em períodos de escassez, em torno deste debate há conflitos sociais e de poder e, de forma um tanto

contraditória, o fornecimento de um bem comum de alto valor social, mas também econômico, é negado (seja por motivos históricos, econômicos ou políticos, o que não é pertinente ao escopo deste trabalho) às populações que mais necessitam:

“Ao contrário, há uma tendência da população de baixa renda a habitar territórios sujeitos a maiores riscos em relação a problemas ambientais, de modo geral, e a problemas relacionados à falta de saneamento adequado, de modo particular, tais como em áreas: sujeitas a inundações; com condições inadequadas de saneamento ambiental; próximas a lixões; com riscos de desabamento associados a processos erosivos." (FRACALANZA e FREITAS, p.471, 2015)

Sendo assim, fica evidenciado que a poluição dos rios tem impactos de caráter ambiental, mas também socioeconômico, uma vez que ao considerar as populações mais vulneráveis como principais prejudicadas pelas condições das águas, que além de escassas - e por esse motivo, desigualmente distribuídas -, quando poluídas impactam a saúde da população que, como será evidenciado no capítulo seguinte, tem efeitos mais profundos como a educação, a renda e a desigualdade social.

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