2. A RECUPERAÇÃO DO TÂMISA
2.3. Super Sewer - The Thames Tideway Tunnel (TTT)
Diante do contínuo adensamento populacional, o sistema combinado de esgoto e águas pluviais de Bazalgette, que foi projetado para uma população de 4 milhões de pessoas, se mostrava cada vez menos suficiente com o passar dos anos, chegando a uma situação preocupante nos anos 2000, quando o senso já apontava uma população de 7 milhões de habitantes. Stride (2019), ressalta que, além do aumento da demanda, há fatores adjacentes para a sobrecarga da rede de escoamento, como a diminuição de áreas verdes com a construção de shoppings,
3 European Comission. Urban Waste Water Directive. Disponível em:
<https://ec.europa.eu/environment/water/water-urbanwaste/legislation/directive_en.htm>
condomínios, supermercados e estacionamentos, concretando um solo que antes absorvia parte da água das chuvas, essas águas agora são direcionadas aos canos.
Dessa forma, o sistema de drenagem que deveria, no caso de sobrecarga, direcionar águas pluviais e residuais ao Tâmisa somente quando o volume de chuva passasse de 6mm/hr, em 2012 já sofria sobrecargas com um volume de 2mm/hr, tornando as descargas no Tâmisa mais frequentes, chegando a ocorrer uma vez a cada semana, o que ocorria cerca de uma vez ao ano até as primeiras décadas do século XX.
Além do fator um tanto óbvio que é a sobrecarga do sistema, a crescente pressão internacional originada pela evolução das diretrizes europeias e o aumento da importância do aspecto ambiental no cenário político e econômico mundial evidenciaram em Londres a necessidade de renovação do sistema de gestão das águas, já que os níveis de poluição do Tâmisa atingiam indicadores alarmantes. Já no ano 2000, foi composta pelo governo uma equipe estratégica de estudos, através da Thames Tideway Strategic Study (TTSS), uma agência que foi incumbida de investigar o problema, bem como sua dimensão e contexto, mensurando o volume de águas pluviais direcionadas aos rios Tâmisa e Lee.
Com estudos secundários elaborados para validar as ações necessárias levantadas pela TTSS - a) um sistema de armazenamento separado de esgoto e de águas pluviais; b) o desenvolvimento do sistema de tratamento de esgoto e de captação de águas pluviais; c) a limpeza da superfície do rio, junto a um esquema de reposição de oxigênio das águas - a Thames Water foi encarregada de elaborar, com o apoio da Environment Agency e da Ofwat, um projeto para a renovação do sistema de gestão de águas de Londres. Em dezembro de 2006, The London Tideway Improvements (project), foi apresentado ao governo, que no ano seguinte anunciou o apoio à execução dos trabalhos, autorizando a Thames Water a iniciar uma série de ações prévias à construção do sistema principal. Os trabalhos prévios consistiam em aumentar a capacidade de estações já existentes de tratamento de esgoto, estas melhorias tiveram um custo total de 674 milhões de libras e foram concluídas em 2014, preparando estas estações para serem posteriormente ligadas ao Super Sewer. (Stride, 2019)
Iniciado em 2015 com término previsto para 2024, o Thames Tideway Tunnel, conhecido também como Super Sewer, conta com um orçamento de 4.2 bilhões de libras, sendo financiado e construído pela Tideway (Bazalgette Tunnel Ltda.), uma companhia composta por um consórcio de investidores que também será responsável
pela operação e manutenção do sistema. O projeto consiste na construção de um túnel de 7.2 metros de diâmetro e 25 km de extensão, 65 metros abaixo do nível do rio, com uma capacidade de armazenamento de cerca de 1.6 milhões de metros cúbicos que substituirá 34 canais de esgoto combinado (águas residuais e pluviais) e impedirá que cerca de 20 milhões de toneladas de esgoto puro seja despejado diretamente no rio. O sistema será uma espécie de circuito iniciando nos tanques de captação de águas pluviais em Acton e seguirá paralelamente ao rio, passando por 24 centros de operações - pontos de interceptação de canais de esgoto, estações de bombeamento e pontos de conexão dos túneis - o circuito se encerra na estação de tratamento de esgoto de Beckton, próximo ao estuário do rio, e flui em direção ao mar4.
Stride (2019) dedica o último capítulo de seu livro a descrever as peças-chave para o desenvolvimento do projeto, a fim de deixar um aprendizado “àqueles que no futuro venham a enfrentar projetos de infraestrutura de igual dificuldade aos olhos do público” (Stride, 2019:171).
O autor destaca entre as principais lições: i) o engajamento de stakeholders, pautado principalmente na clareza de informações e na governança do projeto, considerando o envolvimento direto de empresas privadas, do setor público e das agências regulatórias, para manter a harmonia do trabalho conjunto; ii) a relevância da comunicação com comunidade e equipe, uma vez que um projeto de tal magnitude impacta na vida cotidiana da comunidade ao seu redor, além do fato de seu financiamento advir do valor adicionado ao consumidor; iii) os contratos e grupos de trabalho, pois além da própria Thames Water e da Tideway, outros players seriam envolvidos no projeto, como por exemplo, empreiteiras, dessa forma houve a preocupação de manter a competitividade do mercado e, na medida do possível, condições vantajosas para todas as partes; iv) a atenção às aquisições de terras, uma vez que o túnel e as estações construídas envolvem grandes áreas em vários pontos da cidade; v) política de saúde, segurança e bem-estar no trabalho, para proteção de todos os envolvidos na execução do projeto.
4 Tideway. The tunnel engineering. Disponível em: <https://www.tideway.london/the-tunnel/the-engineering/#sub-nav>