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Impasses da Reforma Devocional Católica em Sergipe

FIGURA VI: passagem da Procissão de Nossa Senhora da Vitória na Igreja da Ordem Terceira do Carmo na década de 60 do século XX.

SOLENIDADE DE PASSOS

Ato comovente, expressando fé, gratidão e humildade

Penitência de fiéis participando de Procissão de Senhor dos Passos Uns acompanhando a procissão de velas acesas

Outros usando indumentária cor das vestes das imagens Alguns seguindo a trajetória de joelhos

E outros ainda conduzindo feixe de lenha na cabeça. Põe-se em evidência o sofrimento

Expressando gratidão de criaturas reconhecidas Extravasando o coração.

São Cristóvão agradece e aplaude,

Presença do nosso querido venerável Arcebispo Dom José Palmeira Lessa, abrilhantando solenidade E nos enriquecendo com subsídios do Sermão do Encontro Deus seja louvado,

Pai de bondade e misericórdia, Derramando suas bênçãos e graças

Sobre esta nossa sofrida e querida São Cristóvão1

ês de agosto de 1903. Na velha cidade de São Cristóvão ocorria uma grande festa, com a chegada de novos frades franciscanos que iriam assumir o controle do Convento Santa Cruz. De acordo com Serafim Santiago, o primeiro a chegar à cidade foi Frei Perigrino, com a função de recuperar o convento e reavivar as devoções franciscanas. Para o referido pensador da história:

Se não me falha a memória, foi em Agosto do ano de 1903 que chegou na velha Cidade de São Cristóvão o muito digno e educado Religioso Frei Perigrino, à mando de seu superior - o Provincial da Ordem Franciscana, para na qualidade de laborioso e amigo do trabalho da reconstrução e asseio do Convento de São Francisco há muitos anos abandonado. Chegando esta feliz notícia ao conhecimento do povo cristovense, viu o Frei Perigrino rodeado de muitos homens e mulheres animando-o para dar início ao custoso e árduo trabalho na reconstrução e asseio do velho mosteiro.2

De acordo com as memórias de Serafim Santiago, o retorno dos frades franciscanos à cidade de São Cristóvão foi visto com entusiasmo pela população da cidade. Após um longo período de abandono dos seus conventos, finalmente ocorria o retorno das ordens religiosas com o objetivo de propulsionar a revitalização dos templos e de renovar as práticas devocionais. No emergir do novo século, o entusiasmo acerca dos novos tempos era recorrente nos textos publicados na imprensa, nos relatórios e discursos dos governantes republicanos, assim como entre alguns memorialistas, como foi o caso de Santiago. É importante ressaltar o momento no qual se deu esse retorno, pois coincidiu com a implantação da estrada de ferro e da fundação de fábricas de tecidos na cidade. Para o pensador da história cristovense, o século XX eclodia em São Cristóvão com ares de modernização, de soerguimento do vigor da velha capital, inclusive com a recuperação dos antigos templos.3

É relevante ressaltar como Serafim Santiago buscou associar a chegada dos frades franciscanos à recuperação dos edifícios religiosos de sua terra natal. Em suas memórias, a presença do clero regular estimulou a população cristovense na manutenção e revitalização das igrejas edificadas na cidade alta. A situação desses templos era extremamente preocupante, pois quase a sua totalidade encontrava-se em ruínas, como era o caso das igrejas

2 SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Cristóvão: manuscrito de Serafim Santiago.

São Cristóvão-SE: Editora UFS, 2009, [1920], p. 256.

3 SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Cristóvão: manuscrito de Serafim Santiago.

São Cristóvão-SE: Editora UFS, 2009, [1920].

devotadas a São Miguel Arcanjo, ao Bom Jesus e ao Senhor das Misericórdias.4 Em algumas dessas igrejas os danos eram irreparáveis e a única forma de evitar catástrofes era a completa demolição.5 O próprio Convento Santa Cruz, abrigo dos franciscanos em Sergipe, encontrava-se com sérios problemas estruturais. O principal deles era a torre sineira, desmoronada ainda no final do século XIX. Com a chegada dos novos frades, ocorreu a reconstrução de uma torre improvisada e desproporcional em relação a fachada da igreja conventual , no intuito de atenuar os danos provocados pelos longos anos de abandono. O intelectual Clodomir Silva, em 1920, registrou o Convento Santa Cruz com a nova torre, nas celebrações do centenário da Emancipação Política de Sergipe.6 Observe a Figura VII:7

FIGURA VII. Igreja e Convento Santa Cruz de São Cristóvão em 1920.

4 SOUZA, Marco Antônio de. Memória sobre a capitania de Serzipe: sua fundação, população productos e

melhoramentos de que é capaz. In: Folha de Sergipe. Aracaju, Anno XVIII, nº 143, 1 de outubro de 1908 [1808], p. 2, col. 3.

5 Um exemplo disso foi a demolição da Igreja São Miguel Arcanjo. Os entulhos resultantes da demolição foram

utilizados para fechar o famoso borrocão (penhasco) que ameaçava fazer sucumbir a Praça da Matriz. Cf. SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Cristóvão: manuscrito de Serafim Santiago. São Cristóvão-SE: Editora UFS, 2009.

6 O Álbum de Sergipe foi uma obra produzida por Clodomir Silva e financiada pelo Governo de Sergipe para as

comemorações do centenário da Emancipação Política de Sergipe em relação à Bahia (1820). De acordo com Itamar Freitas, o livro fora pensado para "rememorar os fastos do centenário da independência de Sergipe, difundir e imortalizar a ação patriótica e modernizadora do Governo Pereira Lobo. O resultado é que passado e presente, tempo e espaço, história política e geografia física se misturam constantemente. Inicia-se com a narrativa da experiência sergipana, de capitania à província. O fluxo é interrompido para descrever-se a ―parte física‖ – por sua vez, encerrada com uma nota sobre as Constituições locais, hino, selos e listagem de parlamentares estaduais e federais." FREITAS, Itamar. Historiografia Sergipana. São Cristóvão-SE: EDUFS, 2007, p. 168. Contudo, é preciso destacar que esse tipo de obra comemorativa não foi uma ação exclusiva de Sergipe. Em 1922, foi publicado o "Álbum da Cidade do Rio de Janeiro", com algumas características similares ao livro de Clodomir Silva e com o intuito de celebrar o centenário da Independência do Brasil. Cf. RIO DE JANEIRO. Álbum da cidade do Rio de Janeiro [Iconográfico] : comemorativo do 1° centenário da Independência do Brasil, 1822-1922. Rio de Janeiro: Governo do Districto Federal, 1922. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon325335/icon325335.pdf . Consultado em 05-07-2014.

7 Convento Santa Cruz de São Cristóvão em 1920. SILVA, Clodomir. Álbum de Sergipe. São Paulo: O Estado de

Aparentemente, o engajamento dos frades franciscanos na recuperação das antigas igrejas de São Cristóvão contribuiu para a construção de uma relação amistosa entre os religiosos e a população local. Prova disso foi o empenho de inúmeros moradores no apoio e financiamento das obras das igrejas. Entre os entusiastas com as reformas das igrejas estava o próprio Serafim Santiago. No livro manuscrito o pensador da história registrou suas preocupações com o patrimônio religioso de sua terra natal e suas articulações com os franciscanos:

No correr do ano de 1910; achava-se fazendo sérios e indispensáveis reparos internos na antiga Matriz de São Cristóvão. A custa de donativos das pessoas de boa vontade e sobre a direção do Religioso Franciscano ̶ Frei Joaquim Benk ̶ Vigário nesta ocasião da freguesia de Nossa Senhora da Vitória . Era grande o meu sentimento, não poder por mim, neste tempo remeter para aquela Cidade um óbolo para tão justo fim; então tomei o alvitre de procurar o amigo e patrício ̶ Eucário de Amorim e com ele combinar de promover uma subscrição entre pessoas residentes nesta Capital de Aracaju, em favor das obras que naquela ocasião estavam se fazendo internamente na referida Matriz.8

Nessa descrição das reformas da igreja matriz de São Cristóvão, Serafim Santiago revela frestas de uma preocupação com os bens culturais no início do século XX. Entusiasmados com a difusão da modernidade e com o possível progresso vindouro com a implantação da ferrovia e das fábricas de tecidos, muitos sergipanos preocuparam-se na recuperação dos símbolos do passado local, representados nas igrejas da antiga capital. Tais ações em prol da recuperação dos templos provocou a eclosão de inúmeras campanhas voltadas para a reforma de igrejas de cidades como São Cristóvão, Laranjeiras e Socorro. O próprio Serafim Santiago articulou-se com seus conterrâneos para arrecadar fundos e impulsionar as obras da matriz cristovense. No dia 10 de julho de 1910, foi publicado no jornal "O Estado de Sergipe" uma nota de agradecimento produzida por Serafim Santiago e Eucário de Amorim:

Agradecimento

Serafim de Sant'Iago e Eucário de Amorim, agradecem a todas as pessoas que já contribuíram com suas esmolas em favor das obras que estão se fazendo na antiga Igreja Matriz de São Cristóvão e esperam confiantes as daqueles que ainda não atenderam ao seu apelo, bem como das que se acham de posse das cartas, solicitando-lhes um óbolo para aquele piedoso fim.9

8

SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Cristóvão: manuscrito de Serafim Santiago. São Cristóvão-SE: Editora UFS, 2009, p. 132.

A campanha dos cristovenses na imprensa sergipana elucidam as ações de negociação entre o clero e a população local, assim como o empenho em defesa dos bens religiosos. Provavelmente essas manifestações de Santiago em defesa das igrejas de sua terra natal tenham sido os únicos casos de suas aparições na imprensa. Também no dia 10 de julho de 1910 o "Correio de Aracaju" publicou:

Agradecimento (...) Rs. 354$000

Autorizado pelo reverendíssimo Vigário desta freguesia, Frei Joaquim Benk, recebi dos srs Serafim de Sant'Iago e Eucário de Amorim, a quantia de trezentos e cinquenta e quatro mil réis, por eles arrecadado por meio de subscrição entre pessoas residentes no Aracaju, em favor das obras que estão se fazendo Igreja Matriz desta cidade.

São Cristóvão, 1º de julho de 1910. Horácio Pio Monteiro.10

Mais uma vez os impressos apresentam indícios acerca das articulações entre religiosos e leigos do catolicismo das camadas populares em São Cristóvão no alvorecer do século XX. Os valores arrecadados por Serafim Santiago e Eucário de Amorim para reforma da matriz foram entregues a Horácio Pio Monteiro, com autorização do vigário franciscano. Naquele período, Horácio Pio Monteiro podia ser visto como um importante personagem do catolicismo na antiga capital, pois era um comerciante que morava defronte a igreja conventual dos carmelitas, em um casarão localizado na esquina entre a Praça do Carmo e a Rua Direita do Carmo. Além de ser um comerciante prestigiado, Horácio também acumulava o cargo de secretário da Irmandade Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos e em alguns anos depois se tornaria membro e tesoureiro da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo e um dos organizadores da romaria do Senhor dos Passos.

O fato de o vigário ter escolhido o secretário de uma associação leiga para receber os fundos destinados às obras da matriz revela a constituição de possíveis alianças entre alguns franciscanos e os membros de irmandades, ou talvez, numa perspectiva mais realista, pudesse ser uma tentativa de promover a negociação com o representante de uma importante associação leiga existente no estado. Todavia, tais aproximações foram escassas em São Cristóvão. Poucos anos antes da campanha em defesa da reforma da matriz já era notória a presença de querelas entre os religiosos oriundos da Alemanha e os membros das irmandades,

preocupados com os seus interesses em permanecer à frente das respectivas associações fomentadoras das devoções.

Tais conflitos revelam nuances acerca do momento no qual as ordens religiosas tentavam realocar o seu espaço no catolicismo brasileiro por meio da redefinição das hierarquias, do fortalecimento de novas devoções, da defesa de uma educação feminina católica, da reestruturação das festas, do controle dos santuários populares e do combate ao protestantismo, espiritismo, maçonaria e práticas culturais das camadas populares no catolicismo. Com a eclosão do regime republicano, a Igreja Católica no Brasil passou a exercer com maior afinco a tentativa de reestruturação. De acordo com Riolando Azzi:

Durante as três primeiras décadas do regime republicano, o projeto ultramontano pode ser expandido e consolidado no país. Na Bahia, essa ação foi projetada pelo arcebispo D. Macedo Costa, e levada a efeito por D. Jerônimo Tomé da Silva. Ele constitui, dessa forma, na grande figura de bispo reformador da Igreja na Bahia.11

Essa descrição de um dos principais historiadores da Igreja no Brasil reflete o contexto social no qual os frades franciscanos alemães reabriram o antigo Convento Santa Cruz em São Cristóvão. Foi durante o arcebispado de Dom Jerônimo Tomé da Silva que se intensificou a entrada de religiosos estrangeiros na Arquidiocese da Bahia no intuito de reabrir os antigos conventos, entre os quais o de São Cristóvão.

A partir do início do século XX, nos idos de 1903, os franciscanos de origem alemã assumiram o controle da Vigaria Geral de Sergipe e passaram a empreender o processo de reforma devocional católica, com a reformulação das duas maiores romarias que ocorriam no Estado: inicialmente a do Senhor dos Passos em São Cristóvão; e a partir de 1934, a de Bom Jesus dos Navegantes de Aracaju, realizada na Colina de Santo Antônio, espaço do passado aracajuano. Nesse capítulo serão discutidas as querelas entre os frades franciscanos de origem alemã, administradores da Paróquia Nossa Senhora da Vitória, e os irmãos leigos da Ordem Terceira do Carmo. Esses conflitos envolveram o choque entre dois modelos de religiosidade e teve como palco central a romaria dos Passos. Nos bastidores da romaria, eclodia um campo de batalhas.

Essas batalhas pelo controle da devoção ao Senhor dos Passos pode ser entendida como uma aresta constituída no processo de reforma devocional católica em Sergipe. No período entre os séculos XIX e XX, foi notória a ação da cúria arquidiocesana de Salvador em

11 AZZI, Riolando. A Sé Primacial de Salvador: a Igreja Católica na Bahia (1551-2001). Vol. 2. Período

promover ações reformistas no catolicismo em Sergipe, por meio da qualificação do clero, do controle dos centros de romarias e da intermediação de ordens religiosas estrangeiras. A romaria do Senhor dos Passos foi um dos alvos dessa ação, pois, a partir de 1903, os franciscanos alemães passaram a intervir na tentativa de promover um maior controle das celebrações e da devoção ao Bom Jesus.12

Em contrapartida, romeiros e membros da Ordem Terceira do Carmo em muitos momentos se opuseram ao processo reformista. Imbuídos no discurso de preservação das tradições, os terceiros carmelitas reivindicavam a preservação da romaria nos moldes estabelecidos na segunda metade do século XIX, no qual o então vigário José Gonçalves Barroso moldou as solenidades com traços penitenciais. Essas diferentes visões acerca das devoções provocaram querelas entre os religiosos e os terceiros carmelitanos e revelam as dificuldades do clero reformador na difusão do novo modelo devocional entre as camadas populares. Ao analisar a difusão do pensamento reformista no Brasil, Ferdinand Azevedo interpela sobre o distanciamento entre a espiritualidade erudita "ultramontana" e os atos de piedade popular, pois considera que "todas as devoções populares, direta ou indiretamente, revelaram traços portugueses".13

É preciso ressaltar o fato de o retorno dos frades franciscanos ao seu convento não ter sido uma prática exclusiva da primeira capital sergipana. No início do século XX, foi notória a política da Igreja Católica no Brasil em reestruturar os pilares devocionais e redefinir as hierarquias no seio do catolicismo, tendo como respaldo central a gradativa substituição do clero nacional por membros de ordens religiosas vindos de países europeus. Isso se deu especialmente nas paróquias onde existiam santuários com poder de atração de romeiros. Na perspectiva defendida por Riolando Azzi,tais ações constituíram uma política religiosa do episcopado brasileiro, definida a partir da reunião realizada em São Paulo em julho de 1890. Conforme o historiador da Igreja Católica, nessa reunião foi decidido:

Em primeiro lugar, tirar das mãos das irmandades a administração financeira dos centros de romaria e confiá-la a institutos religiosos a serem chamados especificamente com esta finalidade. A principal razão aduzida para tal medida era que com frequência os leigos malbaratavam o patrimônio formado pelas doações dos fieis. Esse patrimônio, bem administrado nas

12 AZZI, Riolando. (1986), "Do Bom Jesus Sofredor ao Cristo Libertador". Perspectiva Teológica, nº 18, pp.

215-233.

13 AZEVEDO, Ferdinand. Espiritualidade Ultramontanista no Nordeste (1866-1874): um ensaio. In: AZZI,

mãos dos sacerdotes religiosos, poderia servir para outras pias finalidades, mormente para a formação do clero.14

Percebe-se como o olhar de Riolando Azzi aproxima-se dos religiosos reformadores do início do século XX, por meio da alocução dos leigos nos usos do patrimônio das romarias como desviantes dos interesses. Já o clero, com o desvio do mesmo patrimônio para "outras finalidades", tinham suas ações sobre os bens das romarias como "bem administrado". O autor deixa de expressar que nessa trama de controle dos santuários populares existiam projetos distintos. Os leigos buscavam manter os santuários e ampliar as romarias de devoções populares, enquanto os religiosos buscavam usar os recursos dessas romarias, muitas das vezes mal vistas, para financiar a formação de novos religiosos, que por sua vez deveriam banir as práticas devocionais tidas como desviantes.

De acordo com José Oscar Beozzo, ao longo do século XIX, novas ordens religiosas europeias adentraram no país e com a implantação do regime republicano tornou-se possível a restauração dos antigos conventos com o ingresso de religiosos estrangeiros. Assim,

Lazaristas (1820), Capuchinhos italianos (1840 - últimas levas), Dominicanos (1881), Salesianos (1883) eram as sementes novas no final do Império. A República, com a mudança do regime político, abriu caminho para a restauração das velhas ordens em extinção e para a entrada desimpedida das novas congregações masculinas e femininas.15

Entre os últimos anos do século XIX e a primeira metade do século subsequente, inúmeras ordens religiosas europeias passaram a exercer o controle de alguns dos principais centros de romarias no Brasil. Isso foi um reflexo da liberdade religiosa proveniente da implantação do regime republicano, com a abertura para a entrada de novas ordens e a restauração das antigas. O impacto dessa ação resultou na "clericalização dos centros de romaria popular".16 Com isso, os santuários populares, a grosso modo, passaram a ser controlados por religiosos europeus. Observe o Quadro IV:17

14 AZZI, Riolando. A Sé Primacial de Salvador: a Igreja Católica na Bahia (1551-2001). Vol. 2. Período

Imperial e Republicano. Petrópolis-RJ: Vozes, 2001, p. 214.

15

BEOZZO, José Oscar. Decadência e morte, restauração e multiplicação das ordens e congregações religiosas no Brasil (1870-1930). In: AZZI, Riolando. A Vida Religiosa no Brasil: enfoques históricos. São Paulo: Paulinas, 1983, p. 85.

16

AZZI, Riolando. A Sé Primacial de Salvador: a Igreja Católica na Bahia (1551-2001). Vol. 2. Período Imperial e Republicano. Petrópolis-RJ: Vozes, 2001, p. 215.

QUADRO IV:

Distribuição das ordens religiosas estrangeiras nos centros de romarias brasileiros

Centro de romaria

Cidade Ordem País de

origem

Ano Diocese Bispo

Nossa Senhora da Piedade Caeté, Minas Gerais

Lazaristas Portugal 1819 Mariana Dom Frei

José da Santíssima Trindade Bom Jesus de Matosinhos Congonhas do Campo, Minas Gerais Lazaristas Portugal 1827 - 1855

Mariana Dom Frei

José da Santíssima Trindade Maristas 1897 - 1902

Mariana Dom Silvério

Gomes Pimenta Redentoristas 1924 - 1975 Belo Horizonte Dom Antônio dos Santos Cabral Orionitas 1978 Belo Horizonte Dom João Resende Costa Bom Jesus dos Navegantes Penedo, Alagoas

Franciscanos Alemanha 1893 Olinda e

Recife Dom João Fernando Tiago Esberard Nossa Senhora Aparecida Aparecida, São Paulo

Redentoristas Alemanha 1894 São Paulo Dom Joaquim

Arcoverde de Albuquerque Cavalcante Divino Pai Eterno Trindade, Goiás

Redentoristas Alemanha 1894 Goiás Dom Eduardo

Duarte da Silva Bom Jesus de Pirapora Pirapora do Bom Jesus, São Paulo

Premonstratenses Bélgica 1896 São Paulo Dom Joaquim

Arcoverde de Albuquerque Cavalcante São Francisco das Chagas Canindé, Ceará

Capuchinhos Itália 1897 Fortaleza Dom Joaquim

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