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ábado de Passos. Segunda semana da Quaresma. Últimos anos do Império. Ao longo do dia o movimento das ruas da velha cidade de São Cristóvão era descomunal, com romeiros de diferentes proveniências desfilando entre as igrejas seculares e as casas de moradores que os recebiam e os abrigavam durante os dias de penitência. No entardecer, a elite política sergipana chegava ao centro urbano. No segundo final de semana da Quaresma, aquele espaço se tornava a capital católica de Sergipe. Nele ocorria um espetáculo no qual os moradores da cidade, de suas calçadas, assistiam ao retorno de políticos para a cidade que, até meados do século XIX, ostentava o honroso título de capital provincial. Serafim Santiago, entusiasta com as tradições de São Cristóvão, em 1920, descreve a chegada da elite política na cidade nos anos 80 do século XIX:

No correr da primeira semana da quaresma, principiavam a chegar muitas famílias de todos os pontos da ex-Província, principalmente da nova Capital de Aracaju, d'onde a maior parte da pequena população era natural de São Cristóvão. Chegava finalmente no sábado à tarde o Exmo Senhor Presidente da Província e seu estado-maior, assim como um grande número de funcionários públicos gerais e provinciais e a música do Corpo de Polícia. Grande era a concorrência de carros conduzindo famílias a entrarem dia e noite na velha cidade. Imaginem o prazer das pessoas residentes em São Cristóvão nestes dias, vendo juntos a si seus parentes e amigos que a força da necessidade moravam na nova e insalubre Capital de Aracaju, sujeitos a moléstias, devido aos grandes pântanos da praia selvagem!3

Segundo Santiago, o entusiasmo com a chegada de romeiros, políticos e familiares para a romaria do Senhor dos Passos era motivado também pela condição na qual a solenidade elevava a cidade de São Cristóvão, com a ideia de retorno simbólico do título de capital. O pensador da história constata os elementos distintivos entre as duas cidades, usando do discurso do higienismo e ressaltando as condições de insalubridade da pantanosa Aracaju.

Nesse caso, a romaria do Senhor dos Passos apresenta uma perspectiva que extrapola o universo sociorreligioso e cultural e mostra-se como um importante palco das decisões políticas em Sergipe, como também das reafirmações identitárias e de reivindicação do passado. Lembrar da nova capital estadual como um espaço de proliferação epidêmica e de suas praias como desertas, expressa muito mais do que um tom jocoso da rivalidade entre os munícipes; revela frestas de uma disputa política. Michel Pollak, ao problematizar a questão

3 SANTIAGO, Serafim. Annuario Christovense ou Cidade de São Cristóvão: manuscrito de Serafim Santiago.

São Cristóvão-SE: Editora UFS, 2009, p. 181.

das memórias subterrâneas enfatiza como os diferentes agrupamentos sociais são interligados ao universo político-social. No seu entender, "essas memórias subterrâneas que prosseguem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível afloram em momentos de crise, em sobressaltos bruscos e exacerbados. A memória entra em disputa".4

Nesse ínterim, no alvorecer do século XX, Santiago tenta usar de suas memórias para produzir um discurso de louvação ao passado festivo de sua terra e, consequentemente, criticar o desaparecimento de festejos tradicionais em seu tempo de escrita, ou seja, em 1920. Trata-se de uma reinvenção do passado com a finalidade de exigir maior atenção para as irmandades, profissionais organizadores de andores e festas, assim como o catolicismo tido como rústico e ultrapassado. É um processo de usos do passado.

Diante disso, busquei compreender as festas e as procissões da cidade de São Cristóvão na segunda metade do século XIX. Foi um momento no qual muitas das solenidades deixaram de ser realizadas, enquanto outras foram criadas. Além disso, algumas irmandades apresentavam dificuldades na arrecadação de fundos. Mesmo assim, a velha capital possuía um calendário religioso permeado de celebrações alusivas aos patronos dos oragos de confrarias, irmandades e ordens terceiras; nichos de igrejas e devoções penitenciais do período quaresmal.

Aliás, a Quaresma de São Cristóvão era o momento de maior aglutinação de devotos oriundos do interior sergipano, especialmente os grupos sociais instalados nas imediações da região açucareira, com maior ênfase para os vales do Vaza Barris e da Cotinguiba. Na década de 50 do século XIX, em tempos marcados pelo catolicismo como religião oficial do Império do Brasil, as solenidades de caráter penitencial eram anunciadas com entusiasmo na imprensa oficial da província de Sergipe. Prova disso é o anúncio da Quarta-feira de Cinzas de 1847, primeiro dia de Quaresma e de reflexão penitencial do calendário litúrgico.

É chegado o tempo quaresmal, e que belos que são os atos religiosos que ao mesmo passo que nos apresentam a idéia e lealdade do pecado que nos enegrece pela culpa, ao mesmo tempo nos chama a penitência e a primeira graça de que, por legado de nossos primeiros pais, havia nos perdido a herança!

Hoje vão os católicos exercer um ato religioso no qual a igreja lhes da lições bem importantes. Não se diga que a função da cinza é vazia de interesse a respeito da alma. Sabemos que não é preciso explicação a quem deve saber a sua Religião, mas como alguém o possa ignorar; da mesma sorte que alguns ignoram o Padre Nosso, e o que há de mais sabido na doutrina, daremos uma

explicação não Teológica do ato da cinza, mas ao menos filha legítima do boa [sic] razão.5

O texto apresenta uma defesa acerca da relevância das tradições religiosas do catolicismo no Império, especialmente em Sergipe. É interessante a estratégia usada para reconhecer a proeminência das solenidades e a ênfase dada ao fato de que todos deveriam conhecer os princípios básicos do cristianismo, também reconhece a ignorância de muitos acerca das questões religiosas. O Correio Sergipense era um órgão da imprensa oficial da Província de Sergipe, ao longo da segunda metade do século XX, e suas edições nesse período eram permeadas de notícias referentes ao universo católico, com destaque para os anúncios das festas, defesa da fé, prestações de contas e compromissos de irmandades, leis nacionais e provinciais sobre as questões devocionais.

Entre as notícias acerca das festas religiosas da cidade veiculadas em "O Correio Sergipense", destacavam-se as notícias sobre a romaria do Senhor dos Passos. No final da década de quarenta do século XIX, ocorreu uma campanha em defesa da ornamentação da charola do Senhor dos Passos com elementos artísticos em prata. A campanha teve como principal entusiasta Joaquim Fernandes Barboza. Nos anos 40 do século XIX, ele era um ator social reconhecido na cidade, pois atuava como procurador da Ordem Terceira de São Francisco e tesoureiro da Ordem Terceira do Carmo, ou seja, era o responsável pela organização da Procissão do Senhor dos Passos. Na sessão da Assembleia Provincial do dia 7 de junho de 1847, foi lida e aprovada a seguinte petição:

Sessão do dia 7 de Junho de 1847. Presidência do Sr. Cônego Sobral.

As 11 horas e 1/4 abriu-se a sessão. Lida a ata do dia 5 foi aprovada. O senhor secretário dando conta do expediente leu: (...) Uma petição de Joaquim Fernandes Barboza, tesoureiro da Ordem 3ª do Carmo pedindo a consignação de 1.000 $ 000 para revestir-se de prata o andor do Senhor dos Passos (A comissão de justiça civil e eclesiástica).6

O investimento estatal no revestimento do andor do Senhor dos Passos não soa estranho, pois além do catolicismo ser a religião oficial do Império do Brasil, a solene Procissão dos Passos era uma das celebrações com participação das comitivas oficiais do Estado brasileiro. Na província de Sergipe, tanto a romaria do Senhor dos Passos no período quaresmal, como a festa de Bom Jesus dos Passos em setembro contavam com a participação

5 CORREIO SERGIPENSE. Religião In: O Correio Sergipense: Folha Oficial, política e literária. Ano X, nº 25,

31 de março de 1847. (texto escrito em 17 de fevereiro de 1847), p. 4, col. 1.

6 CORREIO SERGIPENSE. Supplemento ao Correio Sergipense. In: Correio Sergipense: Folha Official,

do presidente provincial. Os jornais oitocentistas apresentam inúmeros convites direcionados ao presidente, deputados gerais e provinciais, guarda nacional e músicos. No Correio Sergipense de 17 de setembro de 1857, o "Noticiário" apresenta:

O Setenário do Senhor dos Passos na Cidade de São Cristóvão tem-se feito este ano com muita pompa e decência para o culto. A festa que terá lugar do domingo (20) não será menos aparatosa havido sido para ela convidado o Excelentíssimo Senhor Presidente.7

É perceptível como a organização da Procissão de Passos contava com investimento oriundo da Assembleia Legislativa Provincial e com a participação da elite política tanto na solenidade quaresmal, como na festa de setembro. Tais procissões eram tão relevantes, que até mesmo após a mudança da capital para Aracaju ainda era perceptível a sua continuidade como lócus dos embates políticos e da negociação entre as lideranças locais na construção de alianças. Em 1861, no dia 13 de março, o deputado provincial e vigário geral de Sergipe, José Gonçalves Barroso discursou na Assembleia Legislativa Provincial.

O Sr. Rego: - É bom dizer que o Presidente esteve na casa do nobre deputado.

O Sr. vigário Barroso: - S. Ex. honrou-me muito hospedando-se em minha casa. Senhores, sabia de muito tempo que, o ilustre Presidente da província pretendia acompanhar em São Cristovão a Procissão do Senhor dos Passos. Para isso apareceu naquela Cidade e nada falou-me sobre a apuração.8

Por se tratar de uma celebração que reunia praticamente toda a elite política e econômica de Sergipe oitocentista, a romaria do Senhor dos Passos era um importante momento de redefinição dos conchaves políticos. Nos dias de solenidades, os sobrados e casarões nas ruas da cidade alta estavam repletos de famílias oriundas dos engenhos e não era raro ocorrerem reuniões para discussões acerca da política na província.

A procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos era cercada de aparato de Estado, com guarnição oficial e presença da música do corpo policial. As honrarias demonstram como a referida procissão era detentora de elementos formais. Às vésperas das procissões, eram publicadas notas de comandantes da guarda nacional com a designação dos grupos que deveriam guarnecer os andores, assim como os músicos a se fazerem presentes.

7 CORREIO SERGIPENSE. Correio Sergipense: Folha Official, política e litteraria. Anno XX, nº 42, 17 de

setembro de 1857, p. 3, col. 1.

8 CORREIO SERGIPENSE. Discurso de Sr. Vigário Barroso. Correio Sergipense: Folha Official, política e

Do comandante da guarda nacional desta Capital. - Dê v. m. com a conveniente antecipação as precisas ordens para que no dia 26 do corrente se apresente em forma com o possível luzimento e asseio todo o batalhão de seu comando a fim de acompanhar a procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos que nesse dia tem de sair da Ordem 3 ª do Carmo, por ocasião de comemorar a Igreja a Exaltação da Santa Cruz. Espero que v. m. se mostrará pontual e diligente na observância da presente ordem o que muito se lhe recomenda.9

Um fato que desperta a atenção nessa convocação da guarda nacional é a preocupação com asseio e pontualidade. A Festa de Passos estava entre as maiores e mais animadas celebrações religiosas do segundo semestre em São Cristóvão oitocentista. Era uma festividade com aspecto mais alegre, sem as marcas das práticas penitenciais como ocorria na romaria do período quaresmal. A banda de música entoava cânticos alegres, exaltando a devoção cristã. O foguetório estabelecia os ruídos comprovadores do poderio da Ordem Terceira do Carmo. Também era comum a ornamentação das ruas com bandeirolas e a presença dos alunos das escolas isoladas e do ensino secundário para acompanharem o cortejo. Contudo, a presença da guarda nacional atendia a uma prerrogativa imperial. Nos idos de 1843, o imperador Dom Pedro II estabeleceu uma tabela na qual definia as continências e honras militares da guarda nacional diante da passagem de procissões. De acordo com o imperador:

Dom Pedro por graça de Deus e unânime aclamação dos povos, imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil. Faço saber aos que esta minha precisão ver, subindo a minha augusta presença a consulta do conselho supremo militar a que mandei proceder para a organização de uma tabela das continências e honras militares estabelecidas pelas leis gerais existentes, tanto nos corpos dos guardas como fora delas, compreendendo as guardas de honra e as salvas de mar e terra.10

A legislação imperial definia quais eram as solenidades mais importantes e reafirmava a hierarquia na corte celestial. Até certo ponto, essa hierarquia seguia os parâmetros das Constituições Primeiras da Arquidiocese da Bahia. No ápice estavam o Santíssimo Sacramento, o viático e a relíquia do Santo Lenho. De acordo com a normativa, as honrarias deveriam ocorrer do seguinte modo:

9 CORREIO SERGIPENSE. Correio Sergipense: Folha Official, política e litteraria. Anno XV, nº 78, 09 de

outubro de 1852, p. 21, col. 2.

10 CORREIO SERGIPENSE. Correio Sergipense: Folha Official, política e litteraria. Anno XVII, nº 471, 07 de

Das continências, guardas de honra e salvas que se devem observar no exército.

De dia ou de noite.

Ao Santíssimo Sacramento levado em procissão, Sagrado Viático, ou à relíquia do Santo Lenho.

§ 1º As guardas e as tropas em parada deverão tirar as barretinas e por joelhos em terra; prostrar-se-ão as bandeiras, estandartes, espadas e armas; e as músicas cornetas e tambores baterão a marcha.11

De acordo com a determinação imperial, a presença da guarda nacional e da música eram obrigatórias em solenidades como a Procissão do Senhor dos Passos. No caso da solene Procissão do Encontro, realizada no segundo domingo da Quaresma, as honrarias eram as máximas estabelecidas pelo quadro imperial, em decorrência da presença da relíquia do Santo Lenho levado sob o pálio a frente do andor do Bom Jesus dos Passos. Certamente essa constituía na principal referência militar em solenidade religiosa na Província de Sergipe, pois era o momento no qual saíam pelas ruas a imagem de Cristo e a relíquia do Santo Lenho. Nas convocações era expressa a exigência da permanência dos guardas na Praça da Matriz para aguardar a saída da procissão.

Ao comandante do Batalhão da Guarda Nacional da capital. Expeça v. m com urgência as convenientes ordens para que o Batalhão da Guarda Nacional do seu interino comando acompanhe a Procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos, formando para este fim no largo da Matriz desta Cidade na tarde do dia 12 do corrente.12

A Festa do Senhor Bom Jesus dos Passos do século XIX tornou-se alvo de críticas na imprensa sergipana. Essas querelas entre grupos com interesses divergentes foi comum nas irmandades dos Passos e ordens terceiras do Carmo no Brasil Império.13 No caso de São Cristóvão, era alvo das críticas o modelo considerado pela elite letrada de Sergipe como arcaico e incivilizado. Do mesmo modo que ocorria um aumento do afluxo de romeiros para as procissões de penitência, ocorria a emergência de discursos incisivos acerca das práticas penitenciais das camadas populares, assim como havia combates aos abusos cometidos por políticos e até mesmo pelo clero.

11 CORREIO SERGIPENSE. Correio Sergipense: Folha Official, política e litteraria. Anno XVII, nº 471, 07 de

junho de 1843, p. 3, col. 1.

12

CORREIO SERGIPENSE. Correio Sergipense: Folha Official, política e litteraria. Anno I, nº 20, 15 de março de 1854, p. 1, col. 1.

13 Um exemplo disso foram os conflitos na irmandade Senhor Bom Jesus dos Passos da Cidade de Goiás no

século XIX. Cf. MORAIS, Cristina de Cássia Pereira. Os Passos dos Irmãos: uma análise das irmandades do Senhor dos Passos na Capitania de Goiás no setecentos. In: ROSA, Rafael Lino; BRITTO, Clóvis Carvalho.Nos Passos da Paixão: a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos em Goiás. Goiânia: Kelps/PUC-GO, 2011, p. 23-53.

As inquietações denunciadas nas páginas do "Correio Sergipense", jornal oficial do governo provincial, revelam uma preocupação em constituir práticas religiosas atinentes ao momento reformista vivenciado pela sociedade sergipana, respaldado na civilização e nas normativas publicadas pelo arcebispo da Bahia. Era explícito o intento na promoção de novas formas de devoção, hora respaldado na tradição das "Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia", hora nas pastorais arquidiocesanas. Uma dessas denúncias revelava:

Sr. Redator.

Coisas há que cada vez mais admiro. A pouco tempo, vi e ouvi o nosso Reverendo Vigário, o Sr. Luiz Antônio Esteves, publicar em a missa Conventual da Matriz, uma Pastoral, em que o Excelentíssimo Metropolitano mandava, que nas festividades e atos Religiosos, se extirpasse de uma vez o intolerável e imoral abuso de se tocarem hinos Nacionais, e quaisquer outros toques profanos: isto posto, admirei sumamente que o Senhor comandante interino dos Permanentes, consentisse em um dos Atos que se devia guardar todo o critério Religioso, submissão e respeito que cumpre a todo que professa a Sagrada Religião do Império, qual o da Procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos, a música de seu corpo que acompanhou a dita Procissão escolhesse, como de prevenção, para tocar hinos profanos, e outras músicas indecentes que a modéstia por não dar mais escândalo, privando até se cantassem os Motetos junto aos Passos com toda a reverência religiosa, como se costuma. Quem tal diria Senhor Redator, que assim se profanasse o respeito que devemos guardar a nossa Santa Religião. Sirva-se Senhor Redator dar publicidade a estas mal traçadas linhas, a fim de que o Senhor Major Antônio Pedro Machado, corrija o seu Mestre de Música de semelhante procedimento anti Religioso e imoral.

Seu Patrício e Amigo. O Inimigo dos abusos.14

O texto elucida como as festas eram palco de tensões. As críticas acerca da Procissão do Senhor dos Passos nos anos anteriores a mudança da capital eram em decorrência da falta de respeito e das denúncias contra a imoralidade. Essa denúncia perpassa pelo conflito entre a elite sergipana, pois critica o comandante interino da guarda nacional em Sergipe por ter permitido seus músicos executarem hinos patrióticos no decorrer da Procissão do Encontro, pois tais hinos executados pela banda de música teriam prejudicado o canto dos Motetos dos Passos,15 considerado um dos momentos centrais de piedade na procissão.

Infelizmente o denunciante não informou quais foram as músicas profanas tocadas durante a procissão, mas o autor deixa algumas pistas. A principal é o fato de terem sido hinos

14

CORREIO SERGIPENSE. Complemento ao Correio Sergipense. Correio Sergipense: Folha Official, política e litteraria. Anno XVII, nº 174, 18 de março de 1840, p. 6, col. 1 e 2.

15 De acordo com as notas publicadas na imprensa sergipana oitocentista e com o texto biográfico de Bitencourt,

é plausível a possibilidade dos Motetos do senhor dos Passos terem sido composição de José d'Annunciação Pereira Leite. Cf. BITENCOURT, Liberato. Homens do Brasil - sergipanos ilustres. Rio de Janeiro: Typ. Gomes Pereira, 1913, p. 144-145.

patrióticos. Como o Hino de Sergipe foi aprovado pela Assembleia Provincial no dia cinco de junho de 1836,16 é pertinente afirmar sobre a possibilidade dele ter sido um dos hinos entoados na referida procissão.

O uso de hinos patrióticos nas procissões católicas foi prática recorrente em Sergipe oitocentista. Na próspera cidade de Laranjeiras, já no último decênio do período imperial repetiu-se uma cena similar a descrita pelo "Inimigo dos abusos". Na procissão do Mês Doloroso, organizada pelo vigário Eliziário a banda de música da sociedade "Amphiom" tocou inúmeras marchas cívicas, entre as quais "Tiradentes, obra do professor Manoel Bahiense".17

Todavia, a questão de indecência não estava circunscrita ao universo dos leigos nas festas religiosas, mas acobertava até mesmo o clero. Também no mês de março de 1840, foi publicado um texto com outra denúncia, dessa vez voltada para a procissão da outra ordem terceira cristovense, a de São Francisco:

Estando eu na Ordem Terceira de São Francisco ocasião em que estava para

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