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Impessoalidade verbal e sujeito oracional

4. O TRATAMENTO DO SUJEITO NAS GRAMÁTICAS DO CORPUS

4.2. Características gerais da Grammatica descriptiva de Maximino Maciel

4.2.1. A Sintaxe em Maximino Maciel

4.2.1.3. Impessoalidade verbal e sujeito oracional

O verbo impessoal é caracterizado por Maximino Maciel como

aquelle que, apenas empregado na 3.ª pessoa do singular não tem sujeito conhecido. A maior parte dos impessoais denotam phenomenos meteorologicos e, assim, o sujeito é uma incognita, uma especie de x syntactico, cujo valor é independente de qualquer theorização grammatical […] impugnamos, pois, a opinião daquelles que, em desaccordo flagrante com os factos da lìngua, explicam a proposição impessoal já mediante illipse do sujeito, já mediante o pronome elle

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que, dizem, ocorre na lìngua do vulgo ignaro, à maneira do il francês (Maciel, 1914, p. 353-354).

O autor atribui a impessoalidade a um grupo de verbos cujo traço semântico não permite atribuição de sujeito gramatical. Admite, contudo, a possibilidade de se impessoalizarem verbos não pertencentes ao grupo dos impessoais em estruturas em que eles percam o sujeito.

Para o gramático, é errôneo tratar os verbos cujo sujeito é uma oração como impessoais. De acordo com ele, pode ocorrer, ainda, nessas estruturas, a antecipação do sujeito da oração subjetiva para antes do verbo impessoal, afirmação que contradiz a anterior, por considerar impessoal o verbo da oração principal.

Além disso, o exemplo utilizado para ilustrar a anástrofe do sujeito nada tem a ver com a estrutura mencionada, por não se tratar de uma oração subjetiva acoplada à principal. O exemplo fornecido, ―eu é que sou heroe, Marilia Bella‖ (1914, p. 356), constitui o que modernamente se chama clivagem, estrutura em que se focaliza um determinado elemento por meio da partìcula ―é que‖.

Corrobora nossa especulação o que atesta Maximino Maciel no parágrafo seguinte: ―este facto é frequente com os verbos parecer e ser, constituindo idiomatismos, taes como: eu é que digo, nós é que somos...‖ (1914, p. 356). As sentenças extraìdas de textos literários que figuram como exemplo da aplicabilidade da teoria maximiniana acerca da clivagem não apresentam, no entanto, o mesmo fenômeno. Em ―A casa onde habita o grande chefe Parece, Dorotheu, que vem abaixo‖ (1914, p. 356), não há clivagem, mas sim uma oração conjuncional em função subjetiva em relação ao verbo parecer.

O mesmo ocorre no seguinte exemplo: ―E toda esta energia, todo este recordar-se da rica herança d`esforço dir-se-ia que eram suscitados pela Providência‖ (1914, p. 357). A respeito dele, o autor afirma poder haver o mesmo fenômeno, por terem esses verbos a impessoalidade assinalada pelo ―se‖ apassivador.

A explanação associada ao exemplo é duplamente equivocada, pois, além de não servir como exemplar do processo de clivagem, é incoerente à medida que põe em paralelo a impessoalidade e a estrutura de passiva sintética, afinal, não é possìvel construir sentenças desse tipo com verbos impessoais, visto que o ―se‖ apassivador figura apenas em estruturas em que há um teor de passividade atribuìdo ao sujeito.

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Pode o autor, nesse caso, estar se referindo ao fato de que em estruturas de passiva sintética o agente da ação expressa pelo verbo é suprimido, apagado, no entanto agente e sujeito não coincidem nas passivas de pronome ―se‖ e, em diversas passagens da obra, o sujeito, ou a ausência dele, é tomado como condição para impessoalidade do verbo.

Com isso, não é absurdo admitir que há na Grammatica descriptiva uma certa confusão de conceitos no tratamento das orações subjetivas. Além disso, a opção do autor pela exemplificação de suas teorizações por meio de sentenças extraìdas de textos literários, apesar de louvável, parece, em certos casos, levar ao inconveniente de, por obrigação, citar como exemplo sentenças que não exprimem a prototipicidade dos fenômenos abordados.

4.2.1.4. Sujeito indeterminado

Sabemos que a indeterminação é um conceito semântico e não está, por isso, em paralelo com a noção de sujeito, que é sintática, mas sim com a de agente da ação expressa pelo verbo. Maximino Maciel acredita que o pronome pode se adaptar à função de sujeito – nos casos em que há verbo intransitivo mais ―se‖ ou em que o verbo é empregado na terceira pessoa do plural, sem referente expresso. Essa análise pode ser interessante na medida em que enquadra a indeterminação no nìvel semântico, considerando que no nìvel sintático pode ser atribuìdo um sujeito a esses verbos.

Sobre a indeterminação do sujeito, Maximino Maciel afirma que ―aos verbos impessoais se filiam aquelles que, embora se possam adaptar a um sujeito pronominal, comtudo exprimem o fato de modo vago e inapreciavel‖ (1914, p. 360). O paralelo estabelecido entre os verbos impessoais e as estruturas de sujeito indeterminado corrobora a distinção entre os planos sintático e semântico, sobretudo porque o autor coloca a ausência de sujeito como condição à impessoalidade.

Ao traçar esse paralelo, fica evidente que do ponto de vista sintático não há em nenhuma das formas de se indeterminar o sujeito um elemento gramatical expresso, tal qual ocorre com os verbos impessoais. Por outro lado, no plano semântico, não se pode atribuir um agente à ação expressa pelo verbo, não porque ele não exista, mas porque não é possìvel precisá-lo.

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O gramático sugere que verbos meteorológicos, impessoais por essência, apresentam a mesma dinâmica. O agente da ação de trovejar, relampejar, por exemplo, está nos fenômenos da natureza envolvidos nesse processo, no entanto não é possìvel ou necessário precisá-los na proposição. No casos do sujeito indeterminado, não se pode ou não se deseja identificar o agente da ação. Como o português é uma lìngua cujo parâmetro do sujeito nulo é positivo, é possìvel que se construam orações em que o sujeito não se realize lexicalmente.

O que há, nesses casos, é uma oração sem sujeito, pois sintaticamente o argumento externo do verbo está vazio. O agente da ação expressa pelo verbo, assim como ocorre com os verbos fenomenológicos, é indefinido.

Maximino Maciel considera ainda que sentenças como ―recommendem aos mestres que tenham especial vigilancia sobre elles‖ (1914, p. 361) apresentam sujeito indeterminado. Consideramos indevida essa afirmação por se tratar de um verbo no imperativo, cujo sujeito gramatical, apesar de elìptico, é identificável e correferente ao vocativo. Nesse contexto, não há indeterminação nem mesmo do agente da ação de recomendar.