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LEI 11.977/2009, ALTERADA PELA LEI 12.424/2011

2.3 Implantação do Programa Habitacional Rural

Os destinatários do PMCMV, reconhecidos por este programa, são os agricultores familiares, os trabalhadores rurais e os indígenas, uma vez que a falta de moradias não é um problema unicamente da área urbana, mas também da área rural.

Nesse sentido, é importante trazer a este estudo, o conceito de agricultor familiar e de trabalhador rural, de acordo com os incisos V e VI, do art. 1º da Lei nº 12.424/2011:

V – agricultor familiar: aquele definido no caput, nos seus incisos e no § 2º do art. 3º da Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006; e

VI – trabalhador rural: pessoa física que, em propriedade rural, presta serviços de natureza não eventual a empregador rural, sob a dependência deste e mediante salário.

O fato de serem contemplados no PMCMV leva à compreensão de que a Constituição Federal de 1988, no seu art. 187, VIII, reconhece ser um direito fundamental a concretização do direito à moradia. Nesse sentido, Ledur (2009, p. 204) acentua que:

Vale destacar que o direito à moradia já obtivera reconhecimento Constitucional no art. 187, VIII, no qual se ordenou que a habitação para o trabalhador rural deve ser contemplada na política agrícola. O planejamento dessa política, conforme visto, assegura o direito de participação dos produtores e trabalhadores rurais. Assim, pelo menos no que tange à moradia no campo, o direito fundamental de participação já se efetiva na concretização do novel direito fundamental.

A questão que ora se aborda está prevista na Lei n. 12.424, de 16/06/2011, que assim estabelece em seu art. 1º:

Art. 1º. O Programa Minha Casa, Minha Vida – PMCMV tem por finalidade criar mecanismos de incentivo à produção e aquisição de novas unidades habitacionais ou requalificação de imóveis urbanos e produção ou reforma de habitações rurais, para famílias com renda mensal de até R$ 4.650,00 (quatro mil seiscentos e cinquenta reais) e compreende os seguintes subprogramas:

I – o Programa Nacional de Habitação Urbana – PNHU; e II – o Programa Nacional de Habitação Rural – PNHR.

Observa-se que essa Lei também tem a finalidade de promover a regularização fundiária de assentamentos localizados em áreas urbanas e, para tanto, considera que poderão fazer parte dessa política habitacional grupos familiares compostos por um ou mais indivíduos que contribuem para o seu rendimento, incluindo-se aí a família unipessoal. Ademais, a referida Lei também define a requalificação de imóveis urbanos, conforme o art. 1º, IV:

IV – requalificação de imóveis urbanos: aquisição de imóveis conjugada com a execução de obras e serviços voltados à recuperação e ocupação para fins habitacionais, admitida ainda a execução de obras e serviços necessários à modificação de uso;

Alguns municípios brasileiros já implementaram o Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR, 2011) como uma política pública municipal a fim de proporcionar ao agricultor melhores condições de vida e, principalmente, para evitar o êxodo rural e manter as famílias no cultivo da terra.

Esse tipo de programa pode ser implantado pelos municípios, desde que os beneficiários preencham os requisitos definidos na Lei n. 12.424, de 16/06/2011. Como exemplo dessa possibilidade, pode-se citar o município de Bozano, no Rio Grande do Sul, que está construindo 121 casas na localidade Boa Esperança com o intuito de dar efetividade ao direito à moradia (PREFEITURA MUNICIPAL DE BOZANO, 2014).

Sublinha-se que o capítulo XII da Lei 12.424/2011, em seu art. 228-A, apresenta requisitos para o registro do parcelamento decorrente de projeto de regularização fundiária que se entende importante referir, in verbis:

Art. 228-A. O registro da regularização fundiária urbana de que trata a Lei no 11.977, de 7 de julho de 2009, deverá ser requerido diretamente ao Oficial do registro de imóveis e será efetivado independentemente de manifestação judicial, importando:

I – na abertura de matrícula para a área objeto de regularização, se não houver; II – no registro do parcelamento decorrente do projeto de regularização fundiária; e III – na abertura de matrícula para cada uma das parcelas resultantes do parcelamento decorrente do projeto de regularização fundiária.

§ 1o. O registro da regularização fundiária poderá ser requerido pelos legitimados previstos no art. 50 da Lei no 11.977, de 7 de julho de 2009, independentemente de serem proprietários ou detentores de direitos reais da gleba objeto de regularização. § 2o. As matrículas das áreas destinadas a uso público deverão ser abertas de ofício, com averbação das respectivas destinações e, se for o caso, das limitações administrativas e restrições convencionais ou legais.

§ 3o. O registro do parcelamento decorrente de projeto de regularização fundiária poderá ser cancelado, parcialmente ou em sua totalidade, observado o disposto no art. 250.

§ 4o. Independe da aprovação de projeto de regularização fundiária o registro: I – da sentença de usucapião, da sentença declaratória ou da planta, elaborada para outorga administrativa, de concessão de uso especial para fins de moradia; e II – do parcelamento de glebas para fins urbanos anterior a 19 de dezembro de 1979 que não possuir registro, desde que o parcelamento esteja implantado e integrado à cidade, nos termos do art. 71 da Lei no 11.977, de 7 de julho de 2009.

A exemplo do que ocorre com a inclusão dos agricultores familiares e produtores rurais, o Programa Habitacional Rural contempla também os indígenas que trabalham na terra. Isso possibilita que indígenas possam reestabelecer sua dignidade, tendo em vista que pela primeira vez um programa habitacional reconhece a importância do trabalho desenvolvido por eles, e oferece-lhes condições mínimas para uma sobrevivência digna, sem qualquer discriminação.

Esse programa visa não só a inclusão social, mas também manter os indígenas em um ambiente tão natural quanto o de sua origem, inclusive, “em certas comunidades estuda-se a possibilidade de criação de casas em formato de ocas”, conforme dados da Fundação Nacional do Índio (Funai) (PORTAL DO GOVERNO, 2014).

Segundo a mesma fonte, no Rio Grande do Sul, a cidade de Nonoai, por intermédio do Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR), já implementou a construção de 254 casas para beneficiar famílias indígenas (PORTAL DO GOVERNO, 2014).

Ante o exposto, pode-se afirmar que as políticas públicas habitacionais têm operado dentro de uma lógica de crescimento incluindo a área rural, e confirma que, do ponto de vista jurídico constitucional, a população integrante do meio rural não pode ser discriminada quanto à realização de políticas públicas, constituindo-se medida de inclusão social.

Parte-se do pressuposto, portanto, que a questão habitacional foi retomada no país no início do governo Lula, que passou a viabilizar um processo de mudança na área, como, por exemplo, a criação do Ministério das Cidades, além de alteração na regulamentação do setor e da implantação de programas com metas maiores àquelas já encontradas no país.

É imperioso afirmar, portanto, que o direito à moradia não se identifica apenas com a construção de casas, mas principalmente com a melhoria da qualidade de vida dos beneficiários do PMCMV, estando, inexoravelmente, ligado à dignidade humana, à redução das desigualdades sociais e regionais, e à promoção do bem de todos, visando à construção de uma sociedade mais justa e solidária.

CONCLUSÃO

Por intermédio das leituras realizadas e da análise dos aspectos constitucionais e infraconstitucionais referentes ao direito à moradia e inclusão social, constata-se que o direito à moradia e à habitação, consagrados e reconhecidos no texto constitucional, representam não só uma conquista da sociedade brasileira, mas, principalmente, o reconhecimento pelos governantes de que as políticas públicas e sociais são necessárias e indispensáveis para que ocorra a inclusão social daqueles que lutam pela sobrevivência e, muitas vezes, não conseguem ter o mínimo existencial para viver com dignidade.

O direito à moradia e à habitação coaduna-se, também, ao direito à liberdade, que é um preceito fundamental do ser humano. Já o direito de andar, de ir e vir, compreende um lugar de saída e um de chegada, onde se mantém o núcleo da vida, lugar conhecido como “lar”. E, pode-se afirmar que a pessoa que se vê privada de um lar é um ser sem liberdade, eis que esse é um bem essencial a ser protegido. Assim, o direito à moradia e à habitação torna-se um direito mínimo para a vida com dignidade, e a sua violação agride diretamente o princípio da dignidade da pessoa humana.

Deste modo, é inquestionável e conclusivo que o direito à moradia não se consubstancia somente na construção de casas, mas compreende a qualidade de vida como um todo, estando intimamente ligado ao direito fundamental da dignidade da pessoa humana. Por conseguinte, o PMCMV constitui-se em uma forma de asseguramento desse direito.

A realização deste estudo permite compreender a real importância do PMCMV no processo de inclusão social, concretizado por meio da construção de moradias dignas aos cidadãos brasileiros.

Identifica-se, assim, que apesar dos problemas apresentados até então, de todos os programas habitacionais já desenvolvidos no Brasil, o PMCMV, idealizado pelo Governo Lula, pode ser considerado o mais viável, pois é o que tem apresentado maior eficácia prestacional e igualdade de resultados ao direito à moradia, utilizando a justiça distributiva e social para diminuir as desigualdades sociais e promover a inclusão social.

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