PARTE 03 ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE URBANAS USADAS
7 ANÁLISE DOS PARQUES URBANOS: BARIGUI, SÃO LOURENÇO E
7.1 PARQUE BARIGUI
7.1.1 Implantação e ocupação do Parque e entorno
O Barigui foi projetado décadas antes de ser implantado na cidade de
Curitiba, o projeto inicial deriva do chamado Plano Agache
43(1941-1943), a proposta
de criação de um parque ao redor do lago formado pelo represamento do rio Barigüi.
O projeto do parque claramente foi desenvolvido para a prática de esportes e lazer
de elite curitibana. O conceito era a prática de esportes como regatas e motoring
(andar de automóvel). Segundo o Plano Agache, o lago serviria para “regatas de
todos os páreos além de passeios de lancha”. Quanto ao motoring, o parque seria
um complemento pitoresco do sistema viário, a ser visto a partir do interior de
automóveis em velocidade (URBS, 2009).
O plano Agache priorizava os automóveis, pois, os considerava como
utensílios civilizadores. Portanto, para o Parque Barigui, inicialmente foi planejado
que o lago seria circundado por vias de 20 metros de largura, isolando o curso
d’agua da mata. A proposta é que essa via fosse utilizada tanto para as corridas de
velocidade quanto para que a elite passeasse reconstruindo a “belle époque”
44europeia. Contudo, esse primeiro projeto para o Parque Barigui não chegou a ser
implantando por motivos de desacordo com o proprietário da área de terras onde
estava a represa e por causa da falta de recursos provenientes do Estado.
No início da década de 70 é retomada a ideia de implementar um parque ao
redor das águas represadas do rio Barigüi. Principalmente com o objetivo de mitigar
as inundações que aconteciam na cidade desde a década anterior, aliados aos
novos conceitos de preservação ambiental e espaço de lazer urbanos. O projeto foi
revisto aliando diversos usos ao espaço com o uso da represa como lagoa de
drenagem urbana.
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43 De influência francesa o segundo grande plano urbanístico de Curitiba, encomendado em 1941 a
firma paulista Coimbra Bueno & Cia, que por sua vez contratou o arquiteto e urbanista francês Alfredo Agache. O plano foi entregue à Prefeitura de Curitiba em 23 de outubro de 1943. Pelo Plano Agache, foi adotado um sistema radial de vias ao redor do centro. O Plano Agache orientou as autoridades municipais até 1958, quando foi criado o Departamento de Urbanismo da Prefeitura, junto com a Coplac - Comissão de Planejamento de Curitiba.
44 “Belle Époque” é uma expressão origem francesa que significa literalmente “Bela Época”. Esta
expressão criada para designar um período da história na Europa marcado pela paz aproximadamente entre 1871 quando teve fim a Guerra Franco-Prussiana e julho de 1914 quando começou a primeira Guerra Mundial, compreendendo um total de 43 anos. Este período ficou caracterizado sobretudo pela expansão e progresso tecnológico, científico e cultural.
A diversificação de usos replanejanos no segundo projeto para o parque
buscava então disseminar a ideia que o espaço atenderia a elite curitibana,
buscando assumir uma característica de espaço urbano democrático e acessível a
essa população da cidade.Gonçalves (2002) explica que os planejadores da década
de 1970 consideravam que o objetivo mais elevado era criar espaços, apropriados
para o lazer e convívio, sem agredir o meio ambiente. Traços que podem ser
notados na implantação do Parque atualmente, mesmo que na época não fosse
articulado os usos ao local em uma área de preservação ambiental, embora essas já
fossem mencionadas na legislação vigente.
A implantação atual do parque provem do projeto da década de 1970, salvo
mudanças que foram feitas após a implementação do plano de manejo.
Essencialmente o conceito do parque, em tese, é proteção a mata nativa, com
possibilidades de ócio urbano próximo à natureza, onde o lago apresentaria
paisagens urbanas inéditas em Curitiba. Em vez de grandes vias para automóveis,
optou-se por uma solução inversa: vias estreitas, que diminuíam a velocidade dos
automóveis ou desincentivavam o seu uso. (CURITIBA, 2007).
FIGURA 8: VISTAS ÁREAS DO PARQUE BARIGUI.
Elaboração: SMMA, 2007, adaptação: Samantha Busnello.
Entretanto, a substituição do projeto e diversificação do uso de solo não
alterou o caráter da região de “local da elite curitibana”. As dinâmicas capitalistas,
em especial o mercado imobiliário atribuem ao entorno do parque um valor de uso
voltado para os atores com maior poder aquisitivo.
Em síntese rápida, o valor de uso poderia aqui ser compreendido como a
qualidade que possui um objeto para satisfazer uma necessidade, determinado por
suas condições naturais, culturais e sociais de apropriação. Dentro das dinâmicas
capitalistas de expansão urbana deve-se diferenciar do valor de troca, "já que sendo
este último “uma magnitude determinada pela quantidade de trabalho socialmente
necessário para produzir a mercadoria, o valor de uso é determinado pelas
características próprias do objeto e pelo uso específico e concreto que se dá ao
mesmo por essas características” (MARX, 2013, pág.11). O valor de uso de uma
mercadoria, segundo Marx, é determinado de acordo com a utilidade relacionada às
suas propriedades físicas; e seu valor de troca varia no tempo e espaço, (MARX,
2013.)
O conceito inicial seria de um parque voltado para a classe alta Curitibana,
levando o proprietário da área quando ainda era particular a conservar a mata
existente em parte por pressão pública, mas, também motivado pelas dinâmicas
capitalistas. Pois um parque com conceito refinado de uso atrairia moradores de alto
poder aquisitivo para o entorno. Resultando assim em valores elevados de venda
dos terrenos da região imediata ao parque, que consequentemente eram do mesmo
proprietário da área de preservação. Valores de compra e venda acima do padrão
normal de mercado que são efetivados até o presente momento no entorno do
Parque (CURITIBA, 2017).
A ocupação do entorno da área atinge mais diretamente quatro bairros:
Bigorrilho, Mercês, Santo Inácio e Cascatinha, que crescem de forma intensificada
após a implantação parque. As áreas rurais foram transformadas em cidade em
curto espaço de tempo, estando quase que completamente ocupadas até o início da
década de 1990.
FIGURA 9: ENTORNO DO PARQUE BARIGUI NA DÉCADA DE 1970
FIGURA 10 ENTORNO DO PARQUE BARIGUI NA DÉCADA DE 2010
Elaboração: Prefeitura Municipal de Curitiba (2016), adaptação: Samantha Busnello.