O relato de discurso na aula de PLE: um caso em estudo
3. Implementação do plano científico-pedagógico
Na descrição da implementação do plano científico-pedagógico, começamos por tecer algumas considerações prévias à sua execução, passando depois à apresentação e análise das unidades didáticas aplicadas, para terminar com um comentário e discussão dos resultados obtidos no final do percurso efetuado.
3.1.Considerações prévias
Tendo como objetivo linguístico geral desenvolver o tratamento do relato do discurso numa perspetiva enunciativo-pragmática, as propostas apresentadas articularam-se de forma a permitir uma abordagem faseada e progressiva de múltiplos aspetos relativos a este conteúdo linguístico. Partindo da análise dos diferentes modos de representação do discurso no texto de imprensa, propôs-se um percurso pedagógico--didático que integrou distintas atividades de caráter oficinal. Estas organizaram-se num crescendo de complexidade, procurando desenvolver
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progressivamente a autonomia dos alunos, através de um caminho que partiu de atividades mais orientadas para culminar em produções de caráter mais livre.
Deste modo, no intuito de conferir um caráter significativo às aprendizagens efetuadas e como forma de congregar o saber e o saber-fazer convocados ao longo deste percurso, concebeu-se, como tarefa-síntese, a redação de uma reportagem coletiva, a partir de entrevistas, elaboradas pelos alunos, a falantes nativos do português. Esta produção escrita serviu de base para a avaliação dos resultados obtidos após a implementação das duas unidades didáticas concebidas.
Em diálogo com este conteúdo linguístico, propôs-se, como tema cultural: “Expressões artísticas em Portugal: teatro, fotografia, pintura e escultura”, no pressuposto de que a arte de um povo veicula a sua essência, a sua alma, e de que aprender uma língua é também aprender a cultura e a mundividência dos seus falantes25.
Selecionaram-se materiais atuais26, autênticos27, literários e não literários, orais e
escritos, no intuito de proporcionar estímulos variados que permitissem diversificar estratégias de ensino-aprendizagem. Além disso, o tópico cultural selecionado permitiu a exploração de relações intertextuais entre diversas artes como a poesia, a pintura e o desenho, cuja abordagem não cabe no âmbito deste trabalho28.
Planificaram-se atividades de compreensão de documentos orais e audiovisuais diversificados (documentário, notícia televisiva, programa radiofónico de humor, entrevistas televisivas); exposição e interação orais; leitura de imagens, cartazes
25 Este pressuposto é subsumido nas palavras de Rosa Bizarro, para quem “[Na] busca de conhecimento
e compreensão do mundo do Outro e do seu próprio mundo, num confronto intercultural de co- existência nem sempre pacífica, mas que necessita de ser, inequivocamente, marcada pelo respeito mútuo, a aula de LE abre-se à necessidade de ensinar e aprender um saber cultural, mas também um saber-fazer cultural e um saber-ser cultural que passa pela articulação de saberes de ordem maximalista ou enciclopédica (os grandes artistas, os factos históricos mais marcantes, as obras literárias mais conhecidas…) e saberes de natureza comportamental, numa relação directa com as vivências do quotidiano, em que os conceitos, os procedimentos e as atitudes se articulam (2008:359).
26 A cronologia das aulas relativas a estas duas unidades didáticas coincidiu com e antecedeu dois
eventos artísticos significativos na cidade do Porto: o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI) e o Festival de Serralves. Este facto permitiu selecionar textos atuais que, além do estudo da língua, motivaram a assistência a espetáculos e a visita a espaços emblemáticos da cidade.
27 A este respeito, Acquaroni Muñoz afirma o seguinte: “Cuando de lo que se trata es de exponer al
alumno verdaderamente a la complejidad que entraña comprender, de proponer la lectura de un texto en clase con el fin de desarrollar sus habilidades interpretativas, deberíamos contar, siempre que sea posible, con material textual auténtico” (2004: 948).
28 Destaco algumas das atividades que foram particularmente motivadoras e profícuas quer do ponto de
vista do desenvolvimento da competência comunicativa, quer do da promoção de laços interculturais: a apresentação oral, por parte dos alunos, de obras de arte dos seus países de origem; a elaboração de um poema coletivo a partir da interpretação das relações intertextuais entre um poema e um desenho de Saúl Dias, seguindo a metodologia surrealista do “cadavre exquis”; o visionamento e análise de um documentário sobre as produções plásticas de Almada Negreiros.
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publicitários, jornais, texto dramático, texto poético, texto informativo; produção de textos escritos (notícias, poema coletivo, reportagem)29. Também se implementaram
atividades que permitiram a sistematização e consolidação de conhecimentos através da execução de fichas de trabalho e pequenas produções escritas e orais. Além disso, estas tarefas permitiram avaliar continuamente o progresso das aprendizagens, ajustando os exercícios propostos às necessidades dos alunos.
Deste modo, o estudo do funcionamento da língua, mais concretamente do relato do discurso, na sua especificidade e variedade linguístico-discursiva, foi articulado com os domínios da compreensão e produção orais e escritas, de forma contextualizada e não como objeto pedagógico-didático isolado, no intuito de desenvolver globalmente a competência comunicativa dos aprendentes. Seguimos, assim, os princípios preconizados por Figueiredo (2010:166):
Para se desenvolver com rigor a competência comunicativa, objecto da educação linguística, é necessário que a escola tome conscientemente os seguintes procedimentos: romper com a tradição didáctica baseada no estudo formal e normativo e só da modalidade escrita; fomentar actividades de língua focalizadas nas realizações verbais em mensagens de intercâmbio conversacional, em diferentes contextos e situações; adquirir conhecimentos que permitam compreender e produzir diferentes tipos de textos e géneros discursivos, sabendo adequar a cada um deles os elementos e as construções gramaticais que os diferenciam; adquirir experiência sobre as normas sociais que regulam e condicionam as intervenções e os usos da língua; adaptar-se com êxito a necessidades contextuais e expressivas diferentes; reconhecer as variedades que actualizam e dão forma concreta à língua.
O esquema 1ilustra o percurso pedagógico-didático efetuado.
29 Para a produção dos materiais didáticos, seguimos, entre outras, as recomendações de Gelabert, Bueso
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