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Infidelidade e funções do DD na oralidade

Fundamentação Teórica

R EGRAS DE TRANSPOSIÇÃO DOS DÍTICOS I Díticos pessoais

III. Díticos temporais

1.2.3.2. O conceito de infidelidade e as funções do DD

1.2.3.2.1. Infidelidade e funções do DD na oralidade

Por mais literal que seja, a citação em DD pode ser enganadora, porque reproduzir exatamente o que alguém disse não garante, com efeito, que a transmissão seja fiel. A este propósito, Reyes (2002) adverte que o DD, ao recolher somente as palavras, pode excluir as implicaturas, especialmente as conversacionais, que são as implicações

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pragmáticas que podem inferir-se apenas dentro de um determinado contexto, como o exemplo (24) ilustra. Assim, imaginemos a seguinte situação: após um dia inteiro de compras num centro comercial, uma mulher entra em casa vestida com roupas novas e adornada com diversas joias. O marido, que tem um caráter austero e reprova gastos desnecessários, diz-lhe em tom irónico:

(24) – Mas que linda que estás!

Se relatarmos as palavras do marido, sem explicitar o contexto em que ocorreram, por mais formalmente fiel que possa ser o nosso relato, ele dará origem a um equívoco, porque, sendo irónicas, as palavras do marido não se destinavam a elogiar a esposa, mas a repreendê-la. Assim, repetir o que alguém disse não implica reproduzir a intenção com que o disse.

Por outro lado, ao representarmos as palavras de outrem, ou de nós próprios, amputamo-las do seu contexto enunciativo, facto que pode gerar equívocos. As palavras citadas aparecem no texto citador como uma imagem desprovida de grande parte do seu conteúdo, pelo que o seu significado pode ser diferente e inclusivamente oposto ao que tinha originalmente. Imaginemos que um professor de Filosofia, cansado das interpretações erróneas dos seus alunos, baseadas em leituras superficiais de artigos da internet, diz:

(25) – Francamente, prefiro que não leiam nada!

Ao chegar a casa, um dos seus alunos, zangado com o professor por ter tido má nota, comenta com os pais:

(26) – Nem vale a pena esforçar-me muito, o professor até disse: “Francamente, prefiro que não leiam nada!”

Neste exemplo, o aluno utilizou o relato das palavras do professor em DD para sustentar diante dos pais a sua resolução de não se esforçar no estudo da Filosofia. Contudo, embora tivesse respeitado formalmente as palavras do professor, adulterou a sua intenção.

Mesmo quando não é possível cotejar o relato com o discurso citado para averiguar o grau de fidelidade do DD, existem alguns indicadores que apontam para a sua infidelidade. Calaresu (2004), que se baseia nos estudos de linguistas como Tannen (1989), Mayes (1990) e Günthner (1997), elenca seis desses fenomeni spia: i) ocorrências de DD explicitamente de segunda mão nos quais o falante relata discursos que alegadamente não ouviu em primeira pessoa, da fonte, e os quais admite não poder reproduzir literalmente; ii) ocorrências de DD alegadamente resumidos ou

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parafraseados relativamente ao original; iii) ocorrências de DD traduzidos de outra língua; iv) ocorrências de DD demasiadamente longos e complexos e com referências ao original muito afastadas no tempo, que tornam impossível a reprodução literal; v) ocorrências de DD que citam pensamentos e não palavras de outrem; e vi) ocorrências de DD atribuídos a um grupo de falantes.

Na oralidade, o uso do DD é, sobretudo, uma estratégia ou uma escolha estilística que pode ter diversas funções de acordo com o contexto e o tipo de discurso. A inclusão de DD é muito frequente nos enunciados narrativos orais, nos quais o falante conta peripécias, episódios da vida quotidiana, para representar dramaticamente um ponto crucial ou o ápice do relato, partilhando as experiências vividas com o interlocutor. Nestes casos, o uso do DD contribui para criar um efeito de verosimilhança da história narrada, reconstruindo e presentificando as intervenções dos diversos locutores citados.

Segundo Reyes (2002) também é frequente, na conversação, encontrar diálogos fictícios cujo valor comunicativo não reside em transmitir o que alguém disse, mas dar realce estilístico ao tema da anedota, como em (27):

(27) Maria: Amanhã tenho de ir à secretaria pedir um novo formulário, porque perdi o que lá fui buscar ontem...

Rita: Hum...A D. Genoveva vai dizer-te: “Pois... É sempre a mesma coisa, só não perdem a cabeça, porque andam com ela agarrada ao pescoço...Veja lá, menina, tenha cuidadinho que a vida não está para brincadeiras! “.

Em (27), a citação direta é uma versão hipotética de um discurso antecipado, imaginado por Rita, que traduz uma interpretação da atitude do locutor citado, neste caso, a D. Genoveva, provavelmente imaginando, além das suas palavras, os seus gestos e o tom de voz.

O uso do DD é ainda frequente na reconstrução de um discurso próprio, para autocitar-se, ou para fornecer provas ulteriores de apoio àquilo se sustém (28).

(28) João: “Mãe, hoje faltei ao primeiro tempo... Fui de autocarro com o Lourenço e atrasei-me”.

Mãe: «Eu bem te disse ontem: “Se queres ir com o Lourenço de autocarro, tens de te levantar mais cedo, porque o autocarro demora muito mais tempo. Mas tu não me ouves!”»

De acordo com Calaresu (2004), nos discursos de género não narrativo, uma das funções mais frequentes do DD é a de apoiar e tornar mais inteligível uma argumentação. A simulação de um diálogo pode servir para esclarecer pontos difíceis

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ou controversos sobre determinado tema. Nestes casos, o DD dá voz a hipotéticas perguntas ou objeções por parte dos ouvintes ou leitores, como em (29).

(29) O professor de Português, durante uma aula, diz: “Na última aula, aludimos ao sensacionismo e à rejeição do pensamento na poesia de Caeiro. Contudo, poderão perguntar-me «Se o guardador de rebanhos não pensasse como escreveria poemas?» Concluímos, assim, que, na oralidade, não sendo a função primária do DD a reprodução literal de um discurso originário, ele se reveste de múltiplos objetivos comunicativos de acordo com a especificidade dos contextos enunciativos e da tipologia textual.