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Implicações da chegada de um irmão para o primogênito

As mudanças decorrentes de estágios do desenvolvimento da família influenciam o desenvolvimento emocional infantil, uma vez que as práticas de cuidado parentais possuem efeitos importantes sobre o desenvolvimento cognitivo, social e afetivo da criança (Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004; Taylor & Kogan, 1973). Por outro lado, o desenvolvimento infantil também intervém nas interações familiares, desencadeando mudanças tanto no curso de desenvolvimento das relações familiares quanto no próprio curso de desenvolvimento do adulto (Dessen, 1997; Kreppner et al., 1982). O ajustamento em situações de mudança depende tanto da habilidade parental para prover a continuidade de cuidado e atenção à criança, quanto da integração emocional e da percepção desta sobre o evento (Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004). Assim, as mudanças familiares decorrentes do processo de tornar-se irmão podem acarretar implicações emocionais diretas para o primogênito, possibilitando também o

amadurecimento ou desenvolvimento rumo à independência.

Considerando que o primogênito era a primeira criança dentro do núcleo familiar, muitas vezes a única também do contexto mais amplo, até a chegada do irmão, compete-lhe vivências singulares (Perez, 2002). As implicações da chegada de um irmão para o primogênito podem ser visualizadas por uma variedade de reações e de mudanças de comportamento, e por necessidade de adaptação.

De modo geral, as reações mais freqüentes encontradas nos estudos que investigaram o primogênito durante a gestação e após o nascimento de um primeiro irmão foram: aumento nos comportamentos de confrontação e de agressão com a mãe e com o bebê, especialmente em momentos de alimentação e de cuidado deste (Baydar et al., 1997a; Baydar et al., 1997b; Dunn & Kendrick, 1980; Kendrick & Dunn, 1980; Legg et al., 1974; Teti et al., 1996), problemas no sono, nos hábitos de alimentação e de higiene, aumento nos comportamentos de dependência, demanda e regressão (Baydar et al., 1997a; Baydar et al., 1997b; Dunn et al., 1981; Field & Reite, 1984; Gottlieb & Baillies, 1995; Legg et al., 1974; Stewart et al., 1987), maior ambivalência, aumento no afastamento, nos comportamentos de independência e de domínio de tarefa, entre outros (Dunn et al., 1981; Stewart et al., 1987; Kendrick & Dunn, 1980; Kramer & Gottman, 1992; Gottlieb & Baillies, 1995; Legg et al., 1974). Além dessas reações, parece haver comportamentos de ciúmes do primogênito no momento da alimentação, especialmente de amamentação do bebê, bem como formação de amigo imaginário (Legg et al., 1974). Enquanto algumas crianças conseguem administrar o estresse (Kramer, 1996; Kramer & Schaefer-Hernam, 1994), outras se mostram severamente estressadas desde a gestação até o período após o nascimento do irmão, apresentando problemas de comportamento (Baydar et al., 1997a; Baydar et al., 1997b; Dessen & Mettel, 1984; Gottlieb & Baillies, 1995; Gottlieb & Mendelson, 1990; Kendrick & Dunn, 1980; Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004; Teti et al., 1996; Kramer & Gottman, 1992).

Uma das implicações emocionais para o primogênito é o aumento no comportamento de demanda e de regressão. Os estudos sobre as alterações de comportamento do primogênito apontaram maior demanda verbal em momentos em que a mãe cuidava e segurava o bebê, quando comparado a momentos em que a mãe não estava ocupada com este (Dunn & Kendrick, 1980; Dunn et al., 1981). O primogênito também apresentou incremento na desobediência e travessuras

após o nascimento do irmão, frente ao comportamento materno de proibições e de confrontações. Nesse mesmo sentido, Dunn e colegas (1981) indicaram que as crianças apresentaram sinais regressivos e comportamentos como ocasionalmente falar como bebê, querer ser alimentado, e ser carregado, desejar dormir com os pais, dentre outros, especialmente nas primeiras semanas após o nascimento do irmão, definidos pelos autores como “negativos”. Através de entrevistas antes e após o nascimento do irmão, as mães consideraram que o primogênito aumentou seus comportamentos “negativos” em relação a elas, tais como choro, manha, maior exigência e desejo de estar mais agarrado. Além disso, passou a apresentar comportamentos irritadiços e de agressividade com o bebê.

Da mesma forma, Stewart e colegas (1987), baseando-se em um referencial teórico sistêmico, investigaram 41 famílias de classe média, antes e depois do nascimento do segundo filho, e verificaram comportamentos mais regressivos do primogênito, apontados pela mãe. Para estes autores, a regressão, de modo geral, foi relacionada à ansiedade, choro e manha, e a demandas na hora do sono, hábitos de toalete e de higiene.

Ainda no que se refere às alterações de comportamento do primogênito no sentido da regressão, Dessen e Mettel (1984) apontaram que exigências em relação à mãe, aumento de problemas de controle vesical noturno, de birra e do uso de chupeta, surgiram, especialmente, depois do comunicado de chegada de um irmão, já durante a gestação. Após o nascimento, estes comportamentos se intensificaram, uma vez que o primogênito apresentou alterações no hábito de higiene e de sono, manteve as exigências em relação à mãe e aumentou a agressividade em relação ao pai. Embora estas alterações de comportamento tenham se intensificado na relação com os genitores, o primogênito pareceu ter aceitado bem o bebê, demonstrando carinho e afeição pelo mesmo. Para as autoras, essas alterações de comportamento podem ser uma resposta a atitudes ou comportamentos estimulados pelos genitores que possam ter gerado dependência na criança.

De acordo com Kramer e Gottman (1992), o ajustamento do primogênito pode ser definido em níveis de maturidade e de imaturidade, bem como compreendidos a partir de informações sobre o autocuidado, o autocontrole e comportamentos relacionados ao estresse. O autocuidado foi representado pelo uso da mamadeira e do bico, solicitar ajuda ao vestir-se e comer, bem como apresentar acidentes durante o controle do toalete. Já o autocontrole foi definido

através de comportamentos deliberadamente levados, agressivos ou destrutivos, demandando mais atenção das figuras parentais. Por fim, os comportamentos relacionados ao estresse estiveram intimamente relacionados a ter pesadelos e problemas na hora de dormir e durante o sono, manha e choro, bem como solicitar ser tratado como bebê. Para os autores, através desses itens se obteve a percepção materna sobre os comportamentos do primogênito, fornecendo informações importantes para a análise do nível de ajustamento, definindo, assim, sua maturidade e imaturidade.

Desde a gestação já é possível observar comportamentos regressivos (Dunn & Kendrick, 1980; Kramer, 1996; Gottlieb & Baillies, 1995; Legg et al., 1974; Oliveira, 2006; Oliveira & Lopes, 2008), que se mantem em destaque também após o nascimento do irmão (Baydar et al., 1997a; Baydar et al., 1997b; Dunn et al., 1981; Field & Reite, 1984; Legg et al., 1974; Stewart et al., 1987; Taylor & Kogan, 1973). No contexto brasileiro, destacam-se alguns estudos atuais que investigaram cerca de trinta famílias brasileiras ao longo de dois anos (terceiro trimestre de gestação, 6o, 12o e 24o meses do segundo filho) e enfatizaram a chegada do segundo filho e as mudanças decorrentes deste fenômeno na família já durante o período gestacional (Oliveira & Lopes, 2008; Pereira & Piccinini, 2007; Piccinini et al., 2007).

Em um estudo que investigou cinco primogênitos em idade pré-escolar e suas mães, tanto a partir do ponto de vista da criança, quanto materno, evidenciou- se mudança de comportamento já durante o período gestacional (Oliveira, 2006; Oliveira & Lopes, 2008). Os comportamentos de dependência foram avaliados a partir de um teste projetivo com a criança, bem como a partir de relatos maternos sobre as alterações de comportamento em diferentes situações (retomada do uso da mamadeira e do bico, fala infantilizada, alterações no padrão do sono e nos hábitos de alimentação e de higiene), bem como maior demanda pelo cuidado e atenção materna. Embora os movimentos de independência também tenham sido revelados, houve destaque para a dependência. De acordo com as autoras, a independência poderia ter indicado uma tentativa de o primogênito se ajustar às alterações provenientes do contexto de gestação de um irmão ou ter sido um meio de lidar com sua própria necessidade de dependência, sugerindo uma pseudomaturidade. Já os comportamentos mais regressivos foram entendidos como um meio que a criança encontrou para enfrentar situações que lhe causavam ansiedade, bem como um dos recursos para desviar a atenção materna do bebê e

da gestação. Ainda para as autoras, a regressão também pode ter sido utilizada como forma de comunicar aos pais os custos de assumir novas responsabilidades, na medida em que o primogênito teve de renunciar a antigos papéis e compartilhar os cuidados maternos com outra criança.

As tarefas mais difíceis para os pais nesse momento estão intimamente relacionadas aos comportamentos regressivos e de dependência do primogênito (Legg et al., 1974). Para os autores, o aumento da retomada do uso da mamadeira, do bico e de chupar o dedo, sobretudo em crianças de até três anos, e as alterações nos rearranjos do sono costumam ser indicativos de um “nível de ajustamento prejudicado” por parte do primogênito. Ainda para esses autores, estes comportamentos podem estar indicando sentimentos de exclusão e de substituição, sobretudo se houve alterações na rotina diária do filho mais velho. Especificamente com relação ao rearranjo da hora do sono, o primogênito parece apresentar comportamentos oscilatórios, de ora desejar dormir sozinho, ora dormir com os pais. O comportamento de dependência também apareceu em outra área do desenvolvimento, a saber, no treino de toalete.

Em contraposição, outros estudos apontaram aumento no afastamento do primogênito, nos comportamentos de independência e de crescimento, entre outros (Dunn et al., 1981; Kendrick & Dunn, 1980; Kramer & Gottman, 1992; Kreppner et al., 1982; Gottlieb & Baillies, 1995; Legg et al., 1974; Stewart et al., 1987). Legg e colegas (1974) encontraram que os comportamentos mais comuns do primogênito foram agressividade com o novo bebê, aumento da procura de atenção materna e de comportamentos regressivos, mas também comportamentos progressivos ou movimentos de independência e de domínio de tarefa. Além de comportamentos dependentes do primogênito, Dunn e colegas também verificaram que as mães apontaram sinais de crescimento e de independência nas três semanas após o nascimento do bebê. As crianças demonstraram desejo em comer, vestir-se e ir ao banheiro sozinhas, brincar mais tempo sozinhas, além de deixarem de usar a mamadeira e a chupeta, assumindo papel de irmão mais velho e ocupando uma posição de desenvolvimento mais maduro (Dunn & Kendrick, 1981; Dunn et al., 1981). Chama atenção a associação que as autoras fazem entre crescimento e independência, a qual será discutida mais adiante.

Para alguns autores, o crescimento e a maturidade do primogênito podem ter sido estimulados pelas mães como forma de incitar a criança a se adaptar às novas demandas decorrentes desse momento (Dessen & Mettel, 1984; Taylor &

Kogan, 1973; Walz & Rich, 1983). É possível que a existência desse novo bebê faça com que as mães tentem separar-se de seu filho, buscando promover maturidade. Walz e Rich (1983) apontaram que as mães, no período pós-parto, empregam diferentes métodos para promover a maturidade do primogênito, encorajando-o a perceber-se como criança mais velha e irmão maior. Esse encorajamento para a maturidade e independência foi considerado pelas mães como forma de sobreviver à redistribuição de tempo e atenção dados por elas. A esse respeito, Dessen e Mettel (1984) alertam que a criança pode não estar preparada para a mudança no contexto familiar, tampouco para a alteração de percepção parental de ter uma maior independência.