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2.3 OPEN DESIGN APLICADO AO DESIGN DE MODA

2.3.7 Implicações do open design para a sustentabilidade

Uma questão muito apontada pelos autores consultados é a possibilidade de estender o ciclo de vida do produto, devido à conexão emocional que o usuário estabelece com o artefato quando este é personalizado ou quando o usuário envolve-se nos processos de desenvolvimento e produção (e.g. NIINIMÄKI; HASSI, 2011; INSTITUTO FABER-LUDENS, 2012; HIRSCHER, 2013b; HIRSCHER; FUAD-LUKE, 2013; MUSTONEN, 2013; FERRONATO; FRANZATO, 2015; HIRSCHER;

NORONHA, 2015; KOHTALA, 2015). Alguns autores também argumentam que adotar a abordagem do design modular ou de kits que incorporem o “design para a desmontagem” contribui para a extensão do ciclo de vida útil do produto. Isso porque a desmontagem do produto se torna mais simples, permitindo que partes sejam trocadas quando se desgastam ou quando o usuário deseja realizar modificações, sejam elas estéticas ou funcionais (e.g. PAPANEK, 1998; NIINIMÄKI; HASSI, 2011;

KOHTALA, 2015; STRIEN; DE PONT, 2016).

Não há como ter certeza, contudo, se o open design de fato estende o ciclo de vida do produto e, consequentemente, reduz o consumo (NIINIMÄKI; HASSI, 2011; KOHTALA, 2015). Se o usuário não tiver uma boa experiência com o processo de elaboração, se ocorrerem falhas na produção do vestuário ou o processo for muito complicado, existe a possibilidade de o efeito ser o oposto e o produto ter um ciclo de vida útil reduzido (HIRSCHER, 2013b). Se o usuário enfrentar dificuldades durante a montagem, pode não completar o processo, desperdiçando o material adquirido para a confecção da roupa. Caso finalize a produção, mas não obtenha o resultado desejado, seja por questões técnicas (como acabamento), seja por questões estéticas (a modelagem e o tecido escolhidos podem não ter o caimento ou efeito esperado quando a peça é vestida, por exemplo), é possível que o usuário não utilize o produto que montou ou confeccionou.

Por outro lado, caso de fato o open design proporcione conexão emocional com o produto, isso pode, na verdade, ter efeitos colaterais. É provável que essa conexão comprometa a adoção de estratégias de intensificação do uso do produto, como o compartilhamento e a reutilização (KOHTALA, 2015). O usuário pode, por exemplo, manter em seu guarda-roupa uma peça que já não lhe serve mais, e que provavelmente não conseguirá vestir novamente, apenas porque foi ele quem produziu. É possível que o DIY promova essa relação de apego com o vestuário.

Outra questão que pode comprometer a intensificação do uso é a customização, pois a reutilização de produtos individualizados, feitos sob medida, pode ser mais difícil, a não ser que o artefato seja projetado para uma estrutura de compartilhamento (KOHTALA, 2015). Caso o usuário tenha gostos ou mesmo medidas muito específicas, pode ser complicado encontrar outra pessoa que queira aquele produto ou possa utilizá-lo. No entanto, o uso de sites de revenda pode mitigar essa dificuldade.

Há, ainda, a possibilidade de haver uma proliferação insustentável de artefatos em decorrência da democratização do design e do processo produtivo (RICHARDSON, 2015). Algumas pessoas, por exemplo, podem produzir artefatos dos quais não precisam, apenas porque é possível, relativamente barato ou porque gostam do processo criativo e produtivo.

Pelos motivos expostos nos parágrafos anteriores, é possível concluir que o open design não implica por si só no decréscimo do impacto ambiental. Destarte, é necessário considerar os princípios do design para a sustentabilidade desde os estágios iniciais de planejamento de um projeto de open design, devendo-se integrar tantas estratégias de design para a sustentabilidade quanto possível. Ademais, deve-se auxiliar os usuários a terem um comportamento mais sustentável, seja pelo próprio projeto do produto (preparar modelagens que minimizem o desperdício, por exemplo), seja ao fornecer informações e dicas que lhes permita selecionar da melhor maneira possível os materiais e as técnicas que serão empregados na produção (NIINIMÄKI; HASSI, 2011; THACKARA, 2011; RICHARDSON, 2015;

NASCIMENTO; PÓLVORA, 2016).

Embora as questões mencionadas requeiram atenção, o open design, como uma estratégia de economia distribuída, pode apresentar os mesmos benefícios que a abordagem apresenta para a sustentabilidade em suas dimensões ambiental, social e econômica, benefícios esses apresentados na seção 2.2.1. Destacam-se, aqui, a possibilidade de: promover a coesão social entre designers, usuários e produtores; capacitar/promover o consumo sustentável e responsável; reduzir os impactos do transporte; valorizar os recursos e a cultura do local; minimizar o uso de recursos, uma vez que os produtos são fabricados sob demanda, eliminando os estoques (NIINIMÄKI; HASSI, 2011; MUSTONEN, 2013; KOSTAKIS, 2016;

KOHTALA, 2015; STRIEN; DE PONT, 2016).

Cabe destacar um dos benefícios apontados: a capacitação ou promoção do consumo sustentável e responsável. Como mencionado anteriormente, é possível e preferível que os designers, ao compartilharem seus projetos de maneira aberta, para serem produzidos pelos usuários, forneçam informações que os auxiliem a terem uma atitude mais sustentável e responsável quanto à produção e uso desse artefato. Ademais, envolver-se na fabricação de um objeto permite melhor entendimento de seu funcionamento e possibilita que o próprio usuário realize reparos e melhorias (PAPANEK, 1998). Saber como um produto é desenvolvido e fabricado faz do usuário um indivíduo consciente do ciclo de vida do produto e de seus impactos, podendo tomar decisões baseadas em fatos (INSTITUTO FABER-LUDENS, 2012; MUSTONEN, 2013).

Outra questão relaciona-se aos princípios de compartilhamento de moldes e informações sobre o processo de desenvolvimento. Como o processo de design é documentado e divulgado, juntamente com os arquivos de projeto, o open design possibilita que soluções mais sustentáveis sejam aprimoradas ou replicadas por outrem, aumentando o seu potencial para a mitigação de impactos (KOSTAKIS et al., 2015). Essa é uma das razões pelas quais muitos zero waste fashion designers exploram o open design, como ocorre em alguns dos cases anteriormente apresentados (a camisa desenvolvida pela designer Julia Lumsden, o Projeto Make/Use e a marca Milan AV-JC) e como demonstram McQuillan (2016) e Rissanen e McQuillan (2016). Segundo a designer responsável pela Milan AV-JC, Mylène L’orguilloux (2018), compartilhar as modelagens de produtos zero waste permite que outros designers adquiram conhecimento e inspirem-se, podendo desenvolver novas modelagens zero waste a partir das inicialmente disponibilizadas.

Uma última questão diz respeito à sustentabilidade econômica de designers e empresas que exploram o open design. Como já fora mencionado nesta dissertação, a viabilidade econômica é uma questão relevante. Embora existam várias alternativas para a obtenção de receita, conforme previamente discutido, elas não garantem o lucro econômico do open design. Contudo, a sustentabilidade econômica de pequenos negócios de moda, de uma maneira geral, costuma ser um problema (MUSTONEN, 2013). Garantir a viabilidade de projeto de open design no Setor de Vestuário é, portanto, um desafio a ser enfrentado pelos designers (Ibidem). Embora tenham despontado novos negócios do setor que explorem economicamente o open design, como The Post-Couture e Lumilab, eles ainda são

muito recentes33 para ser possível avaliar sua lucratividade e competitividade.

Contudo, Bauwens et al. (2012) indicam haver evidências, em outros setores, da viabilidade de modelos de negócios abertos. Já Mustonen (2013) reforça a necessidade de criar novos modelos de negócios para o open design no Setor de Vestuário, seja explorando a produção em pequena escala - fabricação pessoal, por exemplo -, seja concebendo novos modelos para a produção em larga escala - como a fabricação em massa, apontada por Kohtala (2015) e discutida na seção 2.3.3.4.