2.3 OPEN DESIGN APLICADO AO DESIGN DE MODA
2.3.2 Open source: correlações com o open design e o Setor de Vestuário
A origem do atual conceito de abertura remonta ao início do século XX, quando diversos pensadores de áreas como política, filosofia, ciências, arte, psicologia e literatura desenvolveram teorias a esse respeito (CABEZA, 2014). Com o surgimento e expansão das tecnologias de informação, o conceito de abertura foi
introduzido na indústria de softwares, originando o movimento open source19, que embasa o conceito de open design (AVITAL, 2011; KATZ, 2011; CABEZA, 2014).
O open source despontou a partir do movimento software livre, que teve início em 1984, quando Richard Stallman começou a trabalhar em um projeto de software não-proprietário chamado GNU (GNU's Not Unix). Stallman iniciou sozinho seu trabalho de desenvolvimento do software, mas adotou uma técnica legal que lhe possibilitou disponibilizar partes do código-fonte20 sob uma licença que permitia a qualquer indivíduo copiar, distribuir e modificar o software da maneira que quisesse.
A única exigência era que as pessoas distribuíssem suas versões sob as mesmas condições que ele havia distribuído originalmente o seu software. A licença utilizada por Stallman tornou-se a GNU General Public License (GPL), a qual deu origem às estratégias de licenciamento hoje conhecidas como copyleft (BENKLER, 2006).
A expansão do software livre ocorreu apenas com a abertura da internet ao público em geral, no início da década de 1990, quando tornou-se possível a criação de comunidades online de desenvolvedores (BENKLER, 2006; MENICHINELLI, 2016). Com o reconhecimento, pela indústria de softwares, da eficiência do trabalho colaborativo proposto pelo software livre, surgiu a necessidade de tornar o movimento mais compatível com o mundo corporativo. Emergiu, então, o conceito de open source, termo cunhado em 1998, o qual atenuou a atenção dada à questão da "liberdade", expressão controversa e pouco aceita pelo mundo empresarial.
Passou-se, então, de uma proposta ideológica para uma mais pragmática, com foco na abertura, no processo de desenvolvimento colaborativo e na eficiência comercial, mas sem alterar os princípios do software livre de disponibilidade do código-fonte e possibilidade de modificá-lo (GACEK; LAWRIE; ARIEF, 2001; BENKLER, 2006;
SCHWEIK, 2007; BAUWENS et al, 2012; CABEZA, 2014; MENICHINELLI, 2016).
Com a adoção do open source no mundo empresarial, o movimento se expandiu para além dos softwares e passou “para o centro do debate público sobre alternativas práticas à maneira atual de fazer as coisas” (BENKLER, 2006, p. 66, tradução nossa). Desse modo, o modelo de desenvolvimento do open source passou a ser adotado por outras áreas, dentre elas o design (e.g. SCHWEIK, 2007;
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19 Código aberto.
20“Instruções em uma linguagem legível que explicam como o software faz tudo o que faz quando compilado em uma linguagem legível por máquina” (BENKLER, 2006, p. 66, tradução nossa).
ABDELKAFI; BLECKER; RAASCH; 2009; MENICHINELLI, 2009; TROXLER, 2011;
BAUWENS et al., 2012; FJELDSTED et al., 2012) e, mais especificamente, o design de moda (e.g. NIESSEN, 2010; NIINIMÄKI; HASSI, 2011; HIRSCHER, 2013a,b;
HIRSCHER; NIINIMÄKI, 2013; MUSTONEN, 2013; MENICHINELLI, 2016; STRIEN;
DE PONT, 2016).
Nesses casos em que o modelo open source é aplicado à criação e produção de bens tangíveis, costuma-se empregar o nome open design, termo criado em 1999 com a fundação da Open Design Foundation (AVITAL, 2011;
TROXLER, 2011; ABEL; EVERS; KLAASSEN, 2011; BAUWENS et al., 2012;
INSTITUTO FABER-LUDENS, 2012). Assim como o movimento open source, o open design ganhou força devido às facilidades proporcionadas pela internet para a colaboração e para a troca de informações sobre o design de um produto. Contudo, foi apenas a partir de 2011 que open design começou, de fato, a se popularizar (BALKA; RAASCH; HERSTATT, 2009; NEVES; ROSSI, 2011; BAUWENS et al, 2012; HIRSCHER, 2013b).
Não obstante a relativa novidade do termo e do conceito, pode-se considerar que a prática do open design é muito antiga (BALKA; RAASCH; HERSTATT, 2009;
TROXLER, 2011; NEVES; ROSSI, 2011; INSTITUTO FABER-LUDENS, 2012). Isso porque “sempre houve abertura no desenvolvimento de artefatos na história humana” (CABEZA; MOURA; ROSSI, 2014, p. 57). A troca de conhecimento entre inventores sobre suas criações foi uma prática comum durante muitos anos. Parte das tecnologias desenvolvidas durante a Revolução Industrial, por exemplo, foram fruto de trabalho criativo coletivo, como as máquinas a vapor de alta pressão e as máquinas têxteis (BESSEN; NUVOLARI, 2011). A prática de invenção coletiva apenas perdeu força a partir do processo de industrialização, principalmente devido ao aumento de produtos protegidos por registro de propriedade intelectual (CABEZA, 2014).
Quanto à criação coletiva, Abel, Evers e Klaassen (2011) consideram a indústria de moda uma das primeiras a adotar o open design. Os autores baseiam sua afirmação em um artigo publicado por Bollier e Racine (2005, p. 5, tradução nossa), no qual sustenta-se que a indústria de moda pode ser utilizada como parâmetro pelo movimento open source. Como ressaltam os autores, a moda é
“conhecida por sua aceitação de apropriação, derivação e imitação”, sem que os
designers precisem pagar taxas ou pedir autorização para utilizar um produto como referência e nele fazer modificações.
Pode-se inferir que isso ocorra por ser o vestuário um produto de fácil codificação, o que facilita sua reprodução (JACOB et al., 2014). Mas também a dinâmica da indústria de moda, com frequentes lançamentos de novos produtos, pode ser considerada uma das razões para a existência de apropriação criativa, pois essa prática torna mais ágil o processo de desenvolvimento de produtos. Como outra possível causa para a ocorrência de derivações no Setor de Vestuário, sem que haja autorização explícita para tanto, alguns autores estrangeiros apresentam o fato de roupas não poderem ser protegidas em sua totalidade21 com relação à propriedade intelectual (BOLLIER, RACINE, 2005; RAUSTIALA; SPRIGMAN, 2006).
Essa, no entanto, é a realidade de países como os Estados Unidos. No Brasil, o vestuário pode ser registrado na forma de Desenho Industrial, um registro aplicável a bens que não introduzem alterações relacionadas à utilidade, mas à estética. Protege, portanto, a forma plástica ornamental de um produto. O direito autoral e o copyright22, por sua vez, teoricamente não se aplicam a produtos de moda, pois trata-se de “artes aplicadas”. Contudo, muitas decisões jurídicas sobre casos de cópia e plágio23 no Setor de Vestuário em território brasileiro baseiam-se na lei autoral (MARIOT, 2016).
Embora roupas sejam, então, passíveis de proteção legal, são as marcas de moda que costumam ser protegidas. Isso porque a imagem da marca, o pioneirismo, a criatividade e a consistência de seu trabalho são os principais ativos de empresas de moda (BOLLIER, RACINE, 2005; RAUSTIALA; SPRIGMAN, 2006). Para termos de exemplificação, entre 2000 e 2012, foram realizados 83.101 depósitos de registro de marca referentes ao Setor de Vestuário no Brasil. No mesmo período, foram realizados apenas 6.292 depósitos de registro de desenhos industriais relacionados ao setor (CARVALHO et al., 2017). Esses dados sugerem que, mesmo havendo _______________
21 Fibras e tecidos sintéticos, estampas e outras características ornamentais específicas podem ser registrados, mas não todo o design de uma roupa (NIESSEN, 2010b).
22 Direito de cópia e de reprodução que garante o pagamento de royalties ao autor da obra (MARIOT, 2016).
23 Verifica-se cópia, ou contrafação, quando “há a fabricação e comercialização de produtos semelhantes a outros preexistentes no mercado, sem que haja a intenção por parte do fabricante de que o produto se passe pelo copiado” (JACOB et al., 2014, p. 157). Já o plágio ocorre quando há reprodução da obra de outrem, sem autorização e nem ressalva de autoria, fazendo-se passar o reprodutor por autor da obra (MARIOT, 2016).
mecanismos legais disponíveis, apenas uma diminuta parcela do vestuário brasileiro tem sua propriedade intelectual protegida.
Para Raustiala e Sprigman (2006), a falta de proteção legal no Setor de Vestuário não desencoraja o investimento em inovação, por um possível receio de perda de mercado para falsificações, mas sim aumenta a sua criatividade, o que é corroborado por Bollier e Racine (2005). Em contrapartida, Romano (2015) relata que a indústria de moda se baseia em uma cultura de segredo, devido ao receio de que a imitação ocorra antes que o produto seja lançado no mercado.
Percebe-se, portanto, que se por um lado a indústria de moda aproxima-se do movimento open source, devido às práticas de apropriação, derivação e imitação, por outro pode também existir uma cultura fechada, que a distancia da abertura proposta pelo open design. Por exemplo, empresas do Setor de Vestuário usualmente não compartilham seus arquivos de projeto ou suas modelagens, o que é essencial no open design, como será discutido a seguir. Em vista dessas dessemellhanças, as próximas seções dedicam-se a investigar os princípios para que um projeto de moda possa ser considerado open design.
2.3.3 Princípios do open design aplicados ao Setor de Vestuário