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CAPÍTULO II – ESTUDO EMPÍRICO

6. CONCLUSÃO

6.3. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA PROFISSIONAL /PROPOSTAS DE

Embora de uma forma cautelosa, pode-se afirmar que a realização deste estudo contribuiu para o reforço da importância do papel que os EF desempenham junto das famílias e, particularmente, daquelas que assumem a responsabilidade pelo cuidado a um familiar com dependência. O impacto da dependência de um familiar e, ainda, o impacto que o cuidar de alguém nestas circunstâncias tem na família enquanto unidade, não pode ser subestimado. Este trabalho destaca uma área de relevada importância para a ESF, na medida em que dá sinais de que uma intervenção baseada naquelas que são as suas reconhecidas competências e os instrumentos de avaliação por si utilizados, resulta numa importante melhoria do bem-estar do CIF e família. Demonstra também, que um maior envolvimento da família nos seus processos de saúde, onde os seus recursos e dificuldades sejam identificados com rigor, e o seu papel ativo nas tomadas de decisão seja promovido e valorizado, constituem condições indispensáveis aos ganhos em saúde.

Assim, os resultados obtidos neste estudo reforçam a necessidade de ampliar a oferta de cuidados de ESF nesta área, mostrando que, quando surge um episódio de dependência de um familiar, os cuidados, para além de dirigidos aos problemas identificados no FC, devem incluir a prestação de apoio ao CIF e restante família, naquelas que são as suas próprias necessidades. Embora se tenha tido acesso ao parecer de apenas três CIF, estes foram unânimes ao defender que seria importante que, no futuro, as VD pudessem ser planeadas e estruturadas no sentido de também terem como objetivo a prestação de apoio aos cuidadores. Esta posição é reveladora da consciencialização de que também deveriam ser alvo atenção, e de que sentem que as suas necessidades permanecem ocultas.

O amplo conhecimento e a maior consciencialização que se tem vindo a desenvolver acerca da problemática das famílias cuidadoras, deve ser aproveitado em benefício da construção de um caminho em que o EF assuma um papel proativo na defesa do seu bem-estar. Nesta perspetiva, seria importante repensar o paradigma de cuidados atual, e ponderar a possibilidade de ser implementada uma consulta de ESF dirigida aos CIF em contexto de VD. Plöthner, Schmidt, De Jong, Zeidler e Damm (2019) defenderam a relevância da criação de um sistema de cuidados

domiciliários que apoie as famílias, satisfazendo, simultaneamente, as necessidades e os desejos dos CIF e dos FC. Também Mata, Fernandes e Pimentel (2011) defenderam a realização de visitação domiciliária por uma equipa multidisciplinar, por proporcionar momentos privilegiados para a avaliação das reais necessidades do cuidador e pessoa alvo dos cuidados.

Também se mostra relevante que sejam desenvolvidos mais estudos de intervenção, conduzidos por EF, e dirigidos a amostras de maiores dimensões, para que se possa concluir, com rigor, quais as características que um PI deve contemplar, de forma a dotar os CIF de competências que lhes permitam manter ou recuperar a sua integridade física, social, emocional e financeira. Nesta perspetiva, e face aos resultados encontrados neste estudo, seria importante a reprodução do PI desenhado, com a inclusão dos ajustes já referidos, de forma a concluir acerca do seu efetivo impacto e da sua exequibilidade em termos de recursos.

Em relação aos sistemas de informação em saúde, para que seja permitido aos EF a realização dos registos decorrentes da avaliação e intervenção familiar, torna-se fundamental que a parametrização do SClínico® segundo o MDAIF seja estendida a todo o país. Assim, será

possível traduzir a efetividade das intervenções desenvolvidas em ganhos de saúde das famílias.

Em síntese, o desafio que se coloca aos EF, enquanto prestadores de cuidados de proximidade e responsáveis pela promoção da capacitação da família como um todo e dos seus membros individualmente, passa por garantir que os CIF cuidem mais eficazmente de si próprios, que as famílias mantenham ou recuperem a estabilidade desejada e que os FC sejam cuidados de forma digna e segura.

SÍNTESE CONCLUSIVA DO RELATÓRIO

O presente relatório resulta de uma pluralidade de experiências e aprendizagens que ultrapassaram, de forma gratificante, as expectativas iniciais. As vivências experienciadas ao longo deste percurso contribuíram para o desenvolvimento de competências, não apenas de investigação em saúde, académicas, ou específicas do Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Familiar, mas também, e não menos importantes, que conduziram a um profundo crescimento pessoal. Em análise, talvez seja a combinação e inter-relação destas aptidões que distinguem o EF na forma como utiliza e interliga os recursos que permitem alcançar efetivos ganhos em saúde. A par com a intensidade e enriquecimento das experiências vivenciadas, o redigir do próprio relatório constituiu também um processo de introspeção e reflexão que, inevitavelmente, conduziu a uma maior consciencialização das competências adquiridas.

No que diz respeito ao estágio, para o seu sucesso, foi essencial o contributo de vários intervenientes. Não pode deixar de ser destacada a excelência profissional, a orientação e a disponibilidade da enfermeira Ana Margarida Murteiro, a calorosa receção e colaboração de toda a equipa multidisciplinar e a confiança depositada pelos utentes da USF. Também é de fundamental importância enaltecer, com profundo sentimento de gratidão, a forma acolhedora e generosa com que os CIF abriram as portas dos seus lares.

Este percurso foi marcante pelo seu contributo em termos da complexidade que acrescentou à forma de olhar a família. Conduziu a uma prática onde as suas propriedades de globalidade, equifinalidade e auto-organização passaram a constituir-se como pressupostos integrantes e considerados fundamentais. Embora a atuação do EF no contexto dos CSP já tenha demostrado evidências de contribuir para efetivos ganhos em saúde, esta experiência veio mostrar que o desenvolvimento das suas competências específicas também podem acrescentar qualidade à resposta oferecida à família nos cuidados de saúde diferenciados.

Em relação ao trabalho de investigação realizado, embora, em resultado da consciencialização global da importância do papel desempenhado pelos CIF, se assistia ao um crescer da preocupação em relação ao seu bem-estar, existe ainda um longo percurso a fazer. Para além do necessário desenvolvimento de políticas sociais que apoiem os CIF, o enfermeiro, e particularmente o Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Familiar, tem um importante papel a desenvolver enquanto gestor e promotor da sua capacitação. É importante que seja praticada uma enfermagem mais significativa para as famílias, em que estas sintam que são efetivamente ouvidas e consideradas, não apenas como parceiras, mas também como clientes neste processo. Posto isto, o EF, enquanto profissional que acompanha a família ao longo do ciclo vital, será aquele que se encontra melhor capacitado para intervir no processo de transição e manutenção das tarefas inerentes ao exercício do papel de cuidador. Espera-se que o estudo realizado contribua para o desenvolvimento de uma intervenção mais estruturada e dirigida às dificuldades e recursos específicos de cada CIF, família e FC, traduzindo-se numa

melhoria da qualidade dos cuidados prestados e, consequentemente, em ganhos em saúde mais efetivos.

Num balanço retrospetivo, a elaboração deste relatório constituiu um desafio aliciante e enriquecedor a vários níveis. Contribuiu para a consciencialização de que o Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Familiar deve ser dotado de uma visão e de um pensamento complexo para, desta forma, intervir através de uma prática avançada que permita dar resposta às necessidades, também elas complexas, do sistema familiar.

Em suma, resultado do contributo de um conjunto de fatores e intervenientes, os objetivos foram atingidos e as competências inerentes desenvolvidas. O percurso realizado, para além de ter permitido a aplicação e interligação dos conteúdos teóricos lecionadas, a reflexão crítica da prática e o treino de competências, permitiu também o privilégio de usufruir dos ensinamentos e das lições de vida proporcionados por cada cuidador, família e pessoa cuidada. Tal como referiu Friedemann (1989), o enfermeiro destaca-se de outros profissionais, na medida em que a sua formação inclui a exposição aos acontecimentos mais significativos da vida humana, nomeadamente o nascimento e a morte, o desenvolvimento vital em todas as suas fases, os estados de saúde e doença, e as emoções mais básicas de alegria, ansiedade e tristeza.

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