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CAPÍTULO II – ESTUDO EMPÍRICO

6. CONCLUSÃO

6.1. PRINCIPAIS CONCLUSÕES

A alterações observadas ao nível das características sociodemográficas da sociedade portuguesa, têm contribuído para que o apoio disponibilizado aos CIF de pessoas com dependência se apresente como um desafio cada vez maior. Ainda que a família tenha vindo a assumir diferentes formas de convivência, continua a ser quem, na grande maioria das vezes, assume a responsabilidade pelo cuidado do seu familiar (Lage, 2005; Sequeira, 2018). O desempenho deste papel exige tempo, dedicação, organização familiar, alteração de rotinas e costumes, assim como a conciliação de responsabilidades e tarefas (R. Silva & Santana, 2014), sendo que a resposta da família dependerá da capacidade de mobilizar os seus recursos internos e externos, de forma a minimizar o surgimento de consequências negativas. Em Portugal, os estudos mostram que as intervenções do enfermeiro dirigidas ao CIF visam, sobretudo, a melhoria das suas competências instrumentais para a prestação de cuidados, subestimando as necessidades decorrentes do papel de cuidador e as suas implicações familiares (Viegas et al., 2018). Perante esta evidência, foi objetivo geral deste trabalho, dotar os CIF de competências conducentes à diminuição de sobrecarga e consequente melhoria de QV, por si percecionadas. Para dar cumprimento a este objetivo, foi desenhado e implementado um PI, que teve como foco de atenção a capacitação dos CIF, através de um conjunto de intervenções individualizadas e dirigidas às suas necessidades específicas.

A reforçar a decisão tomada, Melo et al. (2014b, p. 119) defenderam que “a melhor forma de intervir, é tendo em consideração as necessidades específicas e individuais de cada cuidador familiar e o grupo em que este se insere, a família”. Foi nesta perspetiva que se optou pelo MDAIF como referencial teórico e operacional. O uso deste modelo permitiu a interligação entre as etapas do processo de enfermagem, e guiou tanto a colheita de dados como o planeamento das intervenções. Os indicadores de avaliação inerentes a cada área de atenção permitiram o estabelecimento de uma orientação, de acordo com os critérios definidos, quer para a decisão sobre os diagnósticos, quer para as intervenções, permitindo ainda a avaliação dos resultados face aos objetivos propostos (Figueiredo, 2012). Os diagnósticos formulados foram validados com os CIF e o planeamento das intervenções considerou a suas forças, condição que contribuiu para que tenham percecionado a mudança como viável e, assim, tenha sido conseguido o seu comprometimento com o plano (Figueiredo, 2009).

A análise do contexto sistémico do CIF, em que foi realizada a avaliação das necessidades específicas e em que foram considerados os dados colhidos em relação à família como um todo,

aos seus subsistemas e a cada elemento individualmente, foi determinante para que as intervenções implementadas respondessem de forma fiel às necessidades identificadas. Para esta abordagem, contribuiu a certeza de que a experiência vivida por cada cuidador é única, bem como os seus recursos, forças e dificuldades. A decisão de optar pelo local de desenvolvimento do CIF para implementar o PI, contribuiu para que, in loco, se acedesse ao seu viver em família e ao contexto de prestação dos cuidados, o que permitiu que fosse negociada a melhor forma de dar resposta aos objetivos estabelecidos, garantindo um suporte mais efetivo.

Da ampla avaliação realizada, em que se recorreu ao uso de vários instrumentos de avaliação familiar, resultou a identificação de necessidades sensíveis à intervenção do EF, e um plano de cuidados individualizado que conduziu a implementação do PI. Este contemplou entre três a quatro VD, com regularidade semanal, sendo que o conteúdo e duração das mesmas foi determinado pelas necessidades identificadas e pelas especificidades do contexto vivencial de cada CIF.

Para determinar o impacto do PI, em termos do efeito produzido nas variáveis sobrecarga e QV percecionadas pelos CIF, compararam-se as pontuações encontradas na avaliação pré e pós intervenção. No que diz respeito à sobrecarga total, os dados encontrados mostraram uma melhoria relevante nos três CIF. Observou-se também uma redução da sobrecarga percebida na maioria das dimensões, com exceção do suporte familiar, que se manteve igual no CIF II e III, e na dimensão satisfação com o papel e com o familiar em que o CIF II também não percecionou alteração. Em relação à QV, foi observada uma melhoria em todos os domínios, com destaque para as relações sociais, onde os CIF percecionaram uma subida mais relevante. Os domínios físico, psicológico e a QV geral obtiveram subidas semelhantes, sendo que o ambiente foi o que sofreu menos alteração.

Estes resultados sugerem que a intervenção do EF neste contexto, deverá obedecer a um PI individualizado que se harmonize não apenas com a singularidade dos indivíduos e famílias envolvidos, mas, também, e de forma muito particular, com a especificidade das mudanças que a vivência desta realidade impõe no presente e que possa vir a desencadear no futuro. Assim, o EF desempenha um papel determinante, não apenas no apoio multidimensional prestado aos CIF e família em reposta às necessidades emergentes, mas também na antevisão e prevenção de problemas que possam vir a surgir.

O EF, por ser aquele que mais de perto acompanha o percurso de desenvolvimento dos CIF e famílias e, sendo por esse facto, o mais conhecedor da forma como se relacionam e se organizam em função deste evento de vida estarão, decerto, mais capazes para intervir no sentido de os dotar de competências que lhes permitam assumir o papel de cuidadores de uma forma mais saudável, e garantir a prestação de cuidados de qualidade ao seu familiar. De salientar que se trata de uma área em que o EF, pelas suas competências específicas, é detentor de autonomia de ação em termos de prescrição de intervenções, pelo que, se apoiado por políticas de saúde que privilegiem o efetivo apoio às famílias cuidadoras, estarão reunidas as

condições para que se assista a uma mudança de paradigma que conduza à otimização do bem- estar do CIF, família e FC. Embora, pelas características do estudo, não se possa generalizar estas conclusões a outros CIF, não se deve, contudo, invalidar a importância das mesmas e o contributo que pode trazer à forma como os CIF devem ser cuidados, para que persigam o seu projeto de vida. A sua prioridade deve ser, antes de qualquer outra, cuidar de si próprio, sem que esta atitude conduza a sentimentos de culpa, ingratidão ou sensação de desinteresse pelo FC. Para que se sinta capaz de pensar e agir dessa forma, é importante que sejam realizadas ações de intervenção que integrem não só informações sobre a doença e sobre a prestação de cuidados, mas também que considerem que o cuidador é uma pessoa singular, que tem sentimentos, necessidades e fragilidades que podem ficar ocultas durante o processo de cuidar (Castro et al., 2016).