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Implicando os atores protagonistas: paradoxos da responsabilidade pela

Capítulo III – Reflexões sobre os Sentidos e as Dinâmicas da Violência Conjugal

3.3. Reflexões sobre a Dinâmica Conjugal Violenta

3.3.2. Implicando os atores protagonistas: paradoxos da responsabilidade pela

A tendência de atribuir a responsabilidade pelas mazelas do relacionamento a dois e pela violência ao outro cônjuge é muito comum. A frase “eu só reagi, ele (a) provocou” é o exemplo clássico para ilustrar esse comportamento. Isso é tão humano: é tão incômodo e doloroso perceber nossas intenções, nossos atos destrutivos; reconhecer a agressividade, o descontrole e a ira em nós mesmos! Entretanto, esta lógica de raciocínio é problemática porque embaça a autopercepção, a autocrítica; leva à inércia; evita dissonância e inviabiliza mudanças.

O difícil é cada um se perguntar: “qual a minha parte nisso? De que modo contribuo para que haja violência?” Embora a experiência clínica revele que isso é raro, há diferenças no grau em que as pessoas se implicam, se questionam, se responsabilizam. Pessoas que percebem a vida como “ algo que lhes ocorre”, tendem a não se ver como autoras da realidade, responsáveis pela construção da vida que levam, ou melhor, que “as levam”. Idiossincracias individuais são determinantes para o grau de responsabilização, não porque sejam inerentes às pessoas, mas porque foram construídas nas narrativas de suas histórias. Pensar no que leva as pessoas a se verem ou não como fantoches do destino ou como responsáveis é instigante, mas não faz parte do escopo deste trabalho.

No tocante à violência conjugal, é fundamental considerar o papel dos sentidos culturais de gênero na maneira como as pessoas se vêem implicadas na construção da dinâmica violenta. A literatura revela que há diferenças de gênero no grau em que homens e mulheres se implicam, refletem sobre sua responsabilidade pela violência na esfera conjugal. Homens, de modo geral, têm maior dificuldade de se responsabilizar pela violência cometida, tendem a minimizar seus atos agressivos, bem como os danos e o impacto causados pelos mesmos (Greespun, 2002; Hirigoyen, 2006; Ravazzola, 1997, 1998; Pondaag, 2003). Por isso, algumas feministas chegam a estabelecer como condição que a intervenção psicossocial ou clínica junto aos mesmos, quando agressores, busque a responsabilização e até a punição (Greespun, 2002). Assumir a responsabilidade, reconhecer os próprios erros, pedir desculpas são atitudes que revelam sensibilidade, capacidade de empatia, reconhecimento das próprias limitações e fragilidades. Isso pode ser ameaçador para as identidades masculinas, principalmente se estas aproximam-se muito do estereótipo do “macho”.

As mulheres, em contrapartida, tendem a tomar para si a responsabilidade pelo que ocorre de negativo no âmbito familiar e na vida conjugal (Pondaag, 2003), provavelmente por terem sido socializadas para a culpa (Ravazzola, 1997; Soares, 1999). Em uma sociedade patriarcal, são vistas e aprendem a se ver como aquelas que devem ceder, se colocar no lugar do outro (Ravazzola, 1997). Se o desenvolvimento de habilidades relacionadas à maternidade as leva a suportar e amar incondicionalmente e a sentir responsabilidade pela manutenção da família; há que se levar em conta que as posições de homens e mulheres no convívio conjugal e nas cenas de violência não são equivalentes. Os homens, desde cedo, são estimulados a exercer poder (Amâncio, 2001; Ravazzola, 1997); a se perceberem mais ligados às questões individuais, à autonomia; a sentirem que há maior tolerância ao uso de sua agressividade para alcançar certos fins, pois espera-se que sejam firmes, decidam, nunca expressem fragilidade ou sensibilidade.

A própria forma como alguns homens se referem à violência cometida ajuda a compreender a dificuldade das mulheres de reconhecerem que eles são agressores e de se verem como vítimas. (Sem contar que tal reconhecimento é extremamente dissonante e doloroso...) A minimização dos efeitos dos atos violentos por parte de homens agressores e a desconsideração da dor das vítimas, levam-nas a duvidar de suas percepções da violência sofrida (Hirigoyen, 2006). O impacto da violência na saúde mental abala a capacidade de julgamento das mulheres (Diniz, 1999; Goldner, 1985, 1998; Hirigoyen, 2006). Os atos de justificação da violência também são frequentes no dia-a-dia e se revelam em frases ambíguas, tais como: “é o melhor para nossa família” ou “faço isso porque te amo”.

A tendência de serem culpadas socialmente pela violência que sofrem e a falta de auto-reconhecimento de que são vítimas, ofuscam as atrocidades cometidas pelos agressores, isentando-os de sua responsabilidade e confundindo as mulheres (Pondaag, 2003). Ocorre, então, uma perversa inversão: as mulheres sentem e carregam a culpa que os homens não sentem. “A culpa mascara a agressividade que a vítima não consegue sentir” (Hirigoyen, 2006, p. 23). A expressão afetiva disso se traduz como “vergonha alheia” (Ravazzola, 1997).

Diante destas diferenças de gênero, mencionadas acima, seria justo considerar que os pares conjugais são igualmente responsáveis pela violência na esfera conjugal? Por um lado, há que se considerar a pluralidade existente entre homens e mulheres envolvidos em situação de violência, bem como o grau variável em que estes tomam para si a responsabilidade por seus comportamentos e atitudes. Cabe criticar a leitura universalizante de que homens sempre terão maior dificuldade de se responsabilizar, enquanto as mulheres o fazem com facilidade.

Há que se considerar também a diversidade de tipos de relacionamentos conjugais abusivos, que variam quanto ao controle e às restrições impostas à autonomia das vítimas da violência e quanto ao grau em que se aproximam dos padrões estereotipados de gênero. Há situações extremas de violência, nas quais os (as) agressores (as) parecem exercer violência independentemente do comportamento das vítimas, podendo mesmo não existir algo concreto no contexto que justifique suas ações violentas - quadro caracterizado por Hirigoyen (2006) como violência perversa. Nesta situação, a violência não decorre de uma escalada nas agressões e de um acúmulo de tensão entre dois parceiros. Perpassa o cotidiano, se presentificando no modo como um dos membros do casal trata o par conjugal: desqualificando, aviltando a auto-estima, impondo, exercendo agressões sem que as vítimas consigam identificar razões plausíveis para tal. Neste quadro de violência perversa, seria pertinente falar de igual responsabilidade entre os parceiros? Em que medida indagar sobre a implicação e reciprocidade entre os atores protagonistas (Ravazzola, 1997) poderia ser útil para provocar mudanças relacionais e para o controle da violência?

Há que se ter cuidado para não negligenciar a tendência hierárquica e autoritária que caracteriza as estruturas familiares marcadas pela violência conjugal (Corsi, 1999; Goldner e cols., 1990; Ravazzola, 1997) e o quanto as questões de gênero dão base à verticalização das relações e à conversão das diferenças existentes entre os atores sociais em desigualdades no exercício de sua autonomia, poder, de sua agência. Isso leva a refletir que, nos casos onde a violência funda-se em representações, modos relacionais e práticas

estereotipadas de gênero, é problemático falar de igual responsabilidade pela ocorrência da violência na esfera conjugal, de retroalimentação, como advogam as abordagens sistêmicas tradicionais.

A partir de uma ótica sistêmica feminista (Goldner, 1988, 1998, 1999; Goodrich, 1988; Hare-Mustin, 1987), é importante que ambos os parceiros reflitam sobre sua participação na dinâmica relacional, nos jogos conjugais que resultam na ocorrência de violência. Entretanto, a sensibilidade característica desta abordagem teórica às questões de gênero leva à consideração de que não é possível falar de igual responsabilidade pelas ações violentas se a distribuição de poderes, no cotidiano conjugal, é desigual.

Levando-se em conta a histórica subordinação, mudez e insignificância das mulheres (Azerêdo, 2004), não se pode responsabilizá-las pelas violências que sofrem. Compartilhamos do ponto de vista feminista de que os homens, quando agressores, são responsáveis por seu comportamento violento e pelo controle exercido sobre a violência, independemente do quanto sentem ter sido provocados. A perspectiva sistêmica feminista concilia esta visão feminista com o olhar sistêmico sobre a dinâmica relacional do casal, afinal, ambos os parceiros constroem e participam do processo interacional. Ao mesmo tempo, acredita que “padrões recíprocos e complementares no relacionamento do casal estão implicados no ciclo da violência” (Goldner e cols., 1990, p. 345). Examinar o papel que cada parceiro assume no conflito conjugal e incitar a reflexão sobre a sua participação na trama da violência é fundamental.

Em lugar de buscar culpados e inocentes, cabe “compreender a dinâmica da violência nas relações de gênero de maneira a contribuir para a transformação dessas relações” (Araújo, 1995, p.13). A análise destas dinâmicas permite perceber que cada uma das partes têm sua responsabilidade, ainda que distinta, pelo relacionamento que constróem e sustentam e pela violência. Goldner (1998) considera que as mulheres devem se responsabilizar por sua segurança e que os homens devem se responsabilizar pela intimadação e violência que exercem.

A relevância atribuída à responsabilidade pessoal pela violência conjugal, proposta por terapeutas sistêmicas feministas (Goldner, 1998; Walker, 1989), portanto, diferencia-se da velha tendência de culpar as vítimas. A posição sistêmica feminista é clara: não negligencia o quanto as mulheres que são agredidas por homens são suas vítimas e advoga que elas não são igualmente responsáveis pelas agressões sofridas, ainda que reconheçam a própria fúria e o fato de terem “provocado”. Quando se propõe às mulheres que reflitam sobre como foram “capturadas na situação de agressão” (Goldner e cols., 1990, p. 356), busca-se compreender o que as levam a não romper o relacionamento, por que cedem aos

apelos e promessas dos seus parceiros e priorizam-nos e ao relacionamento, mesmo quando isso coloca sua segurança em risco. Ou seja, em que medida contribuem para manutenção do jogo relacional e atuam na co-construção das consequências desastrosas que podem advir de suas regras.

Considerar ambos os parceiros responsáveis pela violência, mesmo que em graus distintos, é uma leitura coerente com a noção de poder apontada por Saffioti (1992). Segundo a autora:

A relação dominação-exploração não presume o total esmagamento da personagem que figura no pólo de dominada-explorada. Ao contrário, integra esta relação de maneira constitutiva a necessidade de preservação da figura subalterna. Sua subalternidade, contudo, não significa ausência absoluta de poder. Com efeito, nos dois pólos da relação existe poder, ainda que em doses tremendamente desiguais” (p. 184).

Na relação de dominação, característica da violência, é necessário que o par conjugal permaneça como outro, coadjuvante no discurso, para que o jogo perverso se encene: para que este outro possa ser convertido de sujeito à objeto, de pessoa à coisa (Chauí, 1985). Para Henriques, Hollway, Urwin, Venn e Walkerdine (1984), enfatizar o caráter discursivo da construção das identidades e posicionamentos subjetivos é crucial. E aí se abre caminho para o agenciamento: na perspectiva destas autoras, “o poder é o que motiva (...) os ‘investimentos’ feitos pelas pessoas nas posições discursivas”. (p. 225). Segundo Foucault (1981), o poder seduz, e daí vem sua força, pelos efeitos que produz a nível do desejo e do saber. Esta leitura do poder permite que o agenciamento possa ser percebido pelo sujeito, mesmo em situações de violência e opressão, relativizando a consideração de que agressores e vítimas seriam, ambos, meras vítimas de estruturas sociais que não lhes dão escolha. A despeito de sua força, o sistema sexo-gênero não consegue garantir a submissão, obediência das mulheres (Saffioti, 2002) .

Pontuar que o poder é o que motiva os investimentos das pessoas nas posições discursivas, leva a questionar as análises que apontam para a mulher dominada versus o homem dominante (Louro, 1996). Nos atendimentos clínicos, é fundamental compreender o poder “como uma ação que é exercida constantemente entre os sujeitos e que supõe, intrinsecamente, formas de resistência e contestação, do que como algo que é possuído apenas por um pólo e que está ausente no outro” (Louro, 1996, p. 9).

Para Foucault (1981) o poder não é instituído de forma fixa. Não se concentra de maneira absoluta nas mãos de um único ator social que domina e o impõe sobre o (s) outro

(s), mas circula na relação (Scott, 1995). Esta noção de poder relativiza a tendência de atrelar o domínio aos homens e a subjugação às mulheres. Ambos os parceiros conjugais detém parcelas de poder, além de vivenciarem diferentes processos de subjetivação que tornarão singular o uso que fazem do poder e o grau em que se subjugam. Esta leitura não equivale a negligenciar que nem sempre as mulheres têm poder suficiente para evitar a violência sofrida, que não estejam acostumadas a exercer poder ou que o usam por uma via indireta e passiva (Amâncio, 2001; Madanes, 1981; Pondaag, 2003; Ravazzola, 1998).

Esta leitura leva-nos a explorar, no contato com mulheres em situação de violência, suas resistências, mesmo nos casos em que não conseguem escapar da sujeição. Na pesquisa de mestrado (Pondaag, 2003), percebemos que o silêncio das mulheres, mais do que uma submissão adotada a contento, é estratégia de sobrevivência e de enfrentamento da violência, utilizada para controlar a imprevisibilidade desta (Pondaag, 2003; Diniz e Pondaag, 2004; Diniz e Pondaag, 2006). As mulheres através de sua aparente obediência, submissão e aceitação, manipulam e resistem (Louro, 1995). Mais do que afirmar que não resistem, resta-nos perguntar sobre as condições de produção que prescrevem os moldes de suas resistências. Parece mais prudente problematizar o contexto que construiu seu silenciamento, seu assujeitamento, sua submissão como linguagens possíveis.

A ênfase na responsabilidade pessoal, de ambos os parceiros, possibilita a superação de dicotomias que aprisionam os atores protagonistas, como a de agressores e vítimas. Tais dicotomias, por vezes, encarceram as percepções e ações dos pares conjugais e dos atores de contexto (Ravazzola, 1997), ou seja, dos profissionais envolvidos no atendimento do casal. Pressupor que homens e mulheres são, respectivamente, agressores e vítimas, pode distorcer a leitura da dinâmica conjugal e a compreensão da violência. Estes rótulos podem acabar conformando expectativas e naturalizando personagens e scripts no cotidiano conjugal. Assumir, na relação terapêutica, que os homens são agressores, pode contribuir para a adoção de uma perspectiva de controle social, passível de crítica. Além disso, pode naturalizar a violência que exercem e a perda de controle que alegam, como características inerentes e essenciais às suas personalidades. Pode também fazê-los recuar, resistir e agravar as dificuldades dos homens, sequelas da socialização de gênero, de estabelecer vínculo, de falar de si, de sentirem-se seguros para demonstrar reações e afetos que soariam como ameaçadores de suas identidades (Meth, 1990), no atendimento psicossocial.

Terapeutas e teóricas reconhecem o quanto pode ser limitador descrever e tratar as mulheres como meras vítimas (Goldner e cols., 1990; Pondaag, 2003; Strey, 2000),

alertando para o quanto isso poderia legitimar a tendência que elas têm de atribuir a outros (principalmente, ao parceiro) a responsabilidade por seus males e a decisão de mudar a própria vida (Araújo, 1995). Araújo (1995) descreve um processo de terapia com o casal no qual a tendência das mulheres de culpabilizar os homens por todas as dificuldades vividas na conjugaliadade foi sendo colocada em questão. Estas iam se dando conta de sua participação nos conflitos e de que, de algum modo, “permitiam e se submetiam à situação” e se “surpreendiam ao perceber que ajudaram a construir essa relação que tanto criticavam” (Araújo, 1995, p. 14). A culpabilização do outro dava lugar à reflexão sobre sua responsabilidade e participação, o que as levava à mudança, a aprender com a experiência. A responsabilização abriu, portanto, caminhos para o agenciamento feminino.