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Procedimento de Análise e Interpretação das Informações e Síntese

Capítulo IV – Metodologia

4.5. Procedimento de Análise e Interpretação das Informações e Síntese

O processo interpretativo e a explicitação dos sentidos resultantes, ou seja, a apresentação dos resultados das entrevistas individuais e de casal baseou-se na metodologia de análise das práticas discursivas como produção de sentido (Spink e Gimenes, 1994; Spink e Lima, 2000; Spink, 2001). Os achados da presente pesquisa não são tomados como dados pré-existentes à relação intersubjetiva estabelecida entre os sujeitos e a terapeuta-pesquisadora, “que estavam lá”, constituindo uma realidade passível de ser captada em sua rede teórico-metodológica. Considera-se que o processo de pesquisa,

ao incitar a produção de sentidos sobre as vivências conjugais, leva as pessoas envolvidas nesta co-construção - casais participantes e pesquisadoras(es) - a se surpreenderem com significações até então impensadas, que vão além das suas estruturas e formas de pensar habituais (Amatuzzi, 2003).

Parte-se da concepção de que a comunicação é processo e não dado. Tal leitura reivindica um procedimento de análise que não se reduza às estruturas e aos elementos formais da comunicação, ou seja, demanda um procedimento que vá além da descrição do conteúdo manifesto das narrativas, da síntese dos achados e evidencie o processo de produção de sentidos, a dialogia, as condições de produção do discurso, sua retórica, desvios e rupturas.

Encontramos na perspectiva da linguagem em uso (Spink e Gimenes, 1994; Spink e Lima, 2000; Spink, 2001), uma proposta metodológica adequada a este intuito e um meio de preservar, na análise interpretativa, o interesse de levar em conta os sentidos produzidos pelos casais participantes da pesquisa acerca da violência conjugal. Nesta perspectiva, a pesquisa é compreendida como prática social e processo de produção de sentidos, o que leva à reflexão sobre a intersubjetividade e a dialogia presentes na interação entre os(as) pesquisadores(as) e os(as) participantes da pesquisa e sobre o quanto os primeiros compartilham e constroem com os últimos possibilidades de dar sentido ao mundo.

A produção de sentidos, ao mesmo tempo que espontânea, é constrangida pela situação característica do contexto de pesquisa. Isso foi visível no contexto que delineou a produção de narrativas no presente estudo. As expressões, desejos e motivações das(os) participantes se confrontavam com as condições de produção dos discursos sobre a conjugalidade e a violência característicos da justiça, instância de controle social. Torna-se fundamental, portanto, utilizar estratégias metodológicas que busquem alcançar as significações dos sujeitos e que evidenciem os “acidentes do discurso”, como suas contradições, lapsos e rupturas.

Tal trajetória metodológica seria importante ainda que a pesquisa tivesse se desenrolado em outro contexto, se levarmos em conta que não há escapatória das imposições dos códigos linguísticos para a produção subjetiva. O olhar sobre o processo de produção de sentidos, na análise e interpretação dos dados, seria limitado se focasse a pessoa construindo sentidos. Mais do que a visão do “meio ambiente material e institucional do discurso” (Lima, 2003, p. 78), o(a) pesquisador(a) deve voltar-se para a compreensão de sua produção a partir das “condições de produção”, que designam “as representações imaginárias que os interagentes fazem de sua própria identidade, assim como do referente de seus discursos” (Lima, 2003, p. 78). Nesta ótica, “o conceito de

‘discurso’ veio destituir o sujeito falante de seu papel central, para integrá-lo ao funcionamento de enunciados”, “os textos produzidos são abordados a partir das condições de possibilidade de articulação com um “exterior”, por exemplo, as formações ideológicas” (Lima, 2003, p. 79).

Spink (2001) propõe integrar na abordagem das práticas discursivas várias dimensões do uso da linguagem. A produção de sentidos, nesta ótica, é uma prática social, dialógica, produtora de realidades psicológicas e sociais e de identidades e não uma atividade intra-individual. Para entender este processo de produção é fundamental voltar- se para a linguagem no contexto das práticas discursivas, para os processos de interanimação dialógica. Por outro lado, também faz-se mister indagar sobre os discursos – “uso institucionalizado de repertórios interpretativos” (Spink, 2001, p. 1278). Como repertório interpretativo compreende-se:

o conjunto de termos, conceitos, lugares-comuns e figuras de linguagem utilizados para falar de um fenômeno específico. Sendo produções culturais e estando inscritos nos textos, imagens e lugares de memória que constituem o imaginário social, os repertórios são melhor compreendidos quando abordados no tempo longo da história (p. 1278).

A partir do exposto, o ponto de vista adotado neste estudo é que a compreensão do processo de produção de sentidos deve voltar-se para a dinâmica das práticas discursivas presentes no cotidiano dos participantes e na própria dialogia implicada no processo de pesquisa, bem como para as construções históricas acerca da violência, da conjugalidade, dos gêneros, da família, entre outros repertórios interpretativos que constituem “reservatórios de sentidos passíveis de serem reativados nos processos de compreensão do mundo” (Spink, 2001, p. 1278). A metodologia de análise das práticas discursivas (Spink, 2001; Spink & Frezza, 2000; Spink & Gimenes, 1994; Spink & Lima, 2000; Spink & Medrado, 2000) permite entender tando a dimensão instituída dos discursos – as permanências culturais e sociais, a “consciência social compartilhada” (Spink & Gimenes, 1994, p. 149) – como a diversidade de repertórios construídos, destituídos, reinterpretados frente aos contextos de produção de sentidos – sua funcionalidade.

Dar sentido ao mundo implica posicionar-se em uma rede de relações. O processo de produção de sentidos é um mercado de negociações de posições, de poderes, de identidades. Posicionar-se supõe buscar coerência discursiva entre as múltiplas possibilidades de narrativas, de sentidos que nos cercam, de modo a reconhecer-se, a criar um fio entre os tempos vividos, a construir identidade. Explorar as múltiplas narrativas presentes nas histórias de cada membro do par conjugal, as barganhas e negociações

características do encontro de duas subjetividades, as posições de poder assumidas no cotidiano da vida a dois e como se delineiam, a partir daí, os esforços de sentidos para a compreensão de si, da conjugalidade, da violência nesta esfera permite uma maior compreensão da dinâmica conjugal e da violência.

O conceito de posicionamento utilizado Spink & Lima (2000) revela-se extremamente instigante no presente estudo Ater-se à funcionalidade do discurso na esfera da intersubjetividade mostra-se extremamente profícuo numa pesquisa.Tal conceito leva a indagar sobre como o espaço de interlocução entre a pesquisadora e os(as) participantes é significado, utilizado. Faz-se mister indagar sobre as interpretações que os casais fazem sobre a entrevista, bem como sobre como posicionam a pesquisadora, suas intenções e propostas. A abordagem das práticas discursivas convida a vasculhar as relações de poder estabelecidas no espaço de interação da pesquisa; a perceber o quanto a produção de sentidos e a polissemia das narrativas está sendo afetada pela assimetria típica de relações socialmente instituídas (como a da psicóloga-pesquisadora que atua em parceria com a Justiça e os casais em situação de violência) (Pinheiro, 2000).

Spink & Lima (2000) propõem focalizar o processo de produção de sentidos, não apenas os conteúdos verbais. Sugerem “trabalhar a dialogia implícita na produção de sentidos e o encadeamento das associações de idéias” (p.106). Spink (1994) sugere que há temas que são do(a) pesquisador(a) e há temas que são “elementos intrínsecos de uma representação que aflora no discurso” (Spink, 1994, p. 130). A intersubjetividade estabelecida na relação de entrevista é primordial para emergência dos temas, de tal modo, que torna-se difícil separar o que é do entrevistador e o que é do entrevistado. É fundamental prestar atenção “não apenas às associações de idéias do sujeito, mas também entre as idéias da pesquisadora e do sujeito” (Azerêdo, 2000, p. 17-18).

A leitura da pesquisa como processo de construção de sentidos convoca à responsabilidade pelo fazer-ciência, implicando-nos eticamente durante todo o processo de pesquisa. Ao convocar os(as) participantes à produção de sentidos, a pesquisa é produtora de mudanças, o que é apelo para a reflexão ética sobre o pensar, fazer a clínica. Nesta lógica, questiona-se a idéia de que existe uma verdade, de que os sentidos que cada participante da pesquisa produz acerca da violência vivida na esfera conjugal possam ser apreendidos e que estejam na linguagem como materialidade: a noção de objetividade é problematizada e re-situada como processo intersubjetivo. Tais sentidos estão “no discurso que faz da linguagem a ferramenta para a construção da realidade” (Pinheiro, 2000, p. 193).

Deste modo, não interessa apenas o produto acabado da pesquisa, o conhecimento como produto que se traduz em dados. O olhar se volta para o processo de interanimação dialógica que inclui o pesquisador no jogo de construção de sentidos. O conhecimento produzido é tomado como uma versão sobre a realidade, versão construída a partir do contexto sócio-histórico, do vivido e dos apelos imediatos da situação dialógica, ou seja, da relação estabelecida no processo de pesquisa: é a primazia da interpretação. “Na perspectiva construcionista o rigor passa a ser concebido como a possibilidade de explicitar os passos da análise e da interpretação de modo a propiciar o diálogo” (Spink e Lima, 2000, p. 102).

Ressignificando a objetividade como visibilidade, Spink e Lima (2000) desenvolvem técnicas de análise que são caminhos de visualização, estratégias para assegurar o rigor. Entre as técnicas propostas, optamos pela elaboração dos mapas de associação de idéias.

Acreditamos que a opção pela metodologia das práticas discursivas permitiu apreender a profundidade das narrativas subjetivas, identitárias e conjugais – os sentidos – assim como os conteúdos compartilhados nas experiências dos casais participantes.

Os passos propostos por Spink e Lima (2000) para a interpretação de discursos na pesquisa fundamentam-se na perspectiva construcionista e não traduzem apenas uma “opção meramente técnica, associada aos objetivos da investigação, passando a alinhar-se a uma postura epistemológica específica” (p. 75). Por voltar-se para os diversos processos através dos quais as pessoas dão sentido ao mundo, em seu cotidiano, a perspectiva construcionista é extremamente compatível com os objetivos do presente estudo: investigar os sentidos que cada participante dá às suas vivências conjugais e o que qualificam como violência nestas vivências.

Seguem os passos utilizados na explicitação dos sentidos resultantes do processo de interpretação das entrevistas individuais e de casal nesta pesquisa:

a. Transcrição das entrevistas pela própria pesquisadora, de modo a não se perder a relação criada na entrevista. Em seguida, a transcrição de cada entrevista foi conferida pela pesquisadora, que intercalou a leitura flutuante do material com a escuta da gravação, atendo-se aos momentos mais densos, intensos, de investimentos afetivos notórios, nos quais havia identificação ou discordância entre entrevistadora e entrevistada(o) em relação ao que estava sendo conversado. Tentou-se pontuar silêncios, choros, risos, sinais de escuta, pausas etc.

b. Leitura flutuante, atendo-se aos momentos mais densos, intensos, de investimentos afetivos notórios, nos quais havia identificação ou discordância entre entrevistadora

e entrevistada(o) em relação ao que estava sendo conversado. Spink e Gimenes (1994) propõem que esta leitura seja efetuada em referência a anotações da(o) pesquisadora(or) sobre o contexto da entrevista. Isso permite uma compreensão inicial da esfera da intersubjetividade, da situação dialógica e do uso que está sendo feito do espaço de entrevista, ressaltando-se que esta se insere no contexto de uma intervenção jurídica. Os qualificadores afetivos e os momentos mais densos do discurso serão negritados.

c. Mapeamento dos temas emergentes: imersão no conjunto de informações coletadas, deixando aflorar os sentidos, sem impor-lhes categorizações, classificações ou tematizações já definidas. Isso possibilita o “confronto entre sentidos construídos no processo de pesquisa e de interpretação e aqueles decorrentes da familiarização prévia com nosso campo de estudo e de nossas teorias de base” (2000, p. 106). Este mapeamento se deu a partir dos temas emergentes definidos a partir da leitura flutuante e teve como guia os objetivos da pesquisa.

d. Construção dos mapas de associação de idéias. definição de categorias gerais – unidades de produção de sentidos, temáticas – que refletem os objetivos da pesquisa e possíveis sentidos que emergiram dos repertórios, no processo de análise. Seleção de trechos das entrevistas relevantes, representativos das principais associações de idéias e das interações mais significativas entre pesquisadora e entrevistada, de forma a visualizar o processo de co-construção dos sentidos, a intersubjetividade de sua produção. Transposição dos conteúdos destes trechos para contextos temáticos (já que não vamos incluir os mapas), preservando a seqüência das falas e a dialogia.

Atenção especial foi dada aos sentidos do gênero. Procuramos dar visibilidade no mapa às crenças dos(as) participantes sobre o masculino e o feminino, a suas percepções dos papéis e das formas de se relacionar de homens e mulheres na vida familiar e conjugal. Quanto aos sentidos da conjugalidade, houve atenção para as crenças dos(as) participantes em relação ao casamento, para os sentidos atribuídos ao vínculo - razões apontadas para sua manutenção, como interpreta e justifica sua permanência na relação, por exemplo. Também foram explicitadas as percepções e expectativas existentes em relação à vida a dois e ao par conjugal.

Em relação aos sentidos atribuídos à violência, buscamos dar visibilidade às narrativas dos(as) participantes demonstrativas dos seguintes aspectos: como nomeavam as situações de agressão; como viam a causalidade dos conflitos conjugais. Buscou-se ampliar a compreensão dos sentidos da violência, indagando

sobre o seu impacto e sobre como as pessoas viam o próprio posicionamento na interação conjugal: como se referiam à maneira de lidar e de enfrentar a violência; como justificavam o seu uso; como viam o próprio posicionamento na interação conjugal; qual era o grau de indignação mostrado diante das agressões. Quanto à dinâmica conjugal, foram focados os jogos conjugais através dos quais a violência se sustenta. As percepções sobre a responsabilidade pessoal pela violência na vida a dois também foram vasculhadas, por acreditamos que estas afetam os sentidos da violência.

e. Análise das narrativas em busca do processo de produção de sentidos. Tomando como base as sugestões de Spink e Gimenes (1994), esta análise visou: entender

quem são os interlocutores, “ a quem o texto é remetido” (Spink e Gimenes, 1994, p. 157); atentar para os repertórios linguísticos (regras de construção das narrativas, termos recorrentes, ambiguidade, contradição, inconsistência, incoerência etc) e analisar a dimensão retórica dos discursos, em busca da argumentação, dos valores – para tal, é fundamental atentar para os “qualificadores reveladores do investimento afetivo” indagando sobre as “versões plausíveis do self” (p. 157) apresentadas.

Ao apresentarmos os resultados da pesquisa, foi usada aspas e a letra em itálico, quando se trata de uma citação literal do discurso da pessoa entrevistada. Quando se usa aspas e o estilo da fonte normal, o discurso desta está sendo referenciado, mas não literalmente. Quando a palavra violência aparece entre aspas, significa que a pesquisadora está fazendo referência ao que é designado como violência pelas normas, convenções, pelo direito, não implicando necessariamente que as pessoas entrevistadas tenham usado a palavra ou significavam o vivido como tal.

A tentativa de síntese foi feita a partir da leitura das análises das entrevistas individuais e de casal, resumindo os principais resultados e categorizando-os de acordo com os objetivos da pesquisa. Além disso, buscamos refletir sobre os conteúdos compartilhados a partir dos discursos dos casais participantes. Tal movimento é relevante e a metodologia adotada o possibilita, ao enfatizar o caráter polissêmico que atravessa a produção de sentidos no cotidiano, ao mesmo tempo em que considera que as narrativas “estão inseridas dentro de uma gama de possibilidades que são definidas pela inserção numa determinada cultura e num determinado momento histórico” (Spink e Gimenes, 1994).