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Impolidez/rudeza VS contextos legais

No documento thennerfreitasdacunha (páginas 49-54)

No presente trabalho, temos central interesse nas discussões sobre práticas comunicativas que ocorrem em situações de conflito, ou contextos em que os papéis institucionais de alguns dos participantes garantem / sancionam (Archer, 2008) o uso de uma linguagem agressiva, categorizada, por alguns estudiosos, como impolida ou de ataque à face do outro. Como afirmou Leech (1983), elocuções conflitivas geralmente são vistas como marginais no comportamento linguístico humano, entretanto há tipos de atividade em que a fala conflitiva desempenha um papel importante, tais como, em interrogatórios policias, nos tribunais de Júri, (courtroom); em disputas judiciais, entrevistas de emprego, assim como nas audiências de conciliação por nós estudadas. Desta forma, de acordo com Archer (2011) é importante revisitarmos algumas questões levantadas por alguns dos estudos que já exploraram estratégias de trabalho de face e im /polidez em contextos legais, como os trabalhos de: Lakoff (1989), Penman (1990), Archer (2008), Limberg (2008) e Harris (2011). Para Archer (op.cit), esses trabalhos contribuíram para moldar e aprimorar o pensamento atual sobre trabalhos de face e im / polidez nos contextos jurídicos.

Brown e Levinson ([1978] 1987) descreveram como o "protocolo formal" do tribunal serve, efetivamente, para regular e /ou para neutralizar - de forma proativa - qualquer agressão entre as partes oponentes. Esta posição é evidente também, embora indiretamente, em alguns trabalhos da recente Linguística Forense, que argumentam que os juízes, em especial,

50 apresentam um elevado nível de educação formal e que, no seu papel de árbitro, têm o cuidado de manter a polidez, tanto quanto possível.

Lakoff (1989) sugere que a fala, em um tribunal, é transacional por natureza, mas não podemos ignorar a relevância dos trabalhos de face neste contexto, nem dar conta dos mesmos em termos dicotômicos, ou seja, como polidos ou impolidos, mas sim como um continuum, no qual diferentes tipos de polidez e/ou im-polidez caracterizam diferentes tipos de atividade ou de discurso, tais como: formas polidas, impolidas, não-polidas e mesmo estratégias diretas de ataque às faces ou rudeza.

De acordo com Culpeper (2008) a impolidez é tida como “violações de normas que são avaliadas negativamente pelos participantes da interação de acordo com os seus moldes de expectativas” (p.28).

O autor afirma que ser político/apropriado é uma questão de ser “normal” numa situação social específica. No entanto, o estabelecimento das normas é um processo cognitivo que depende da experiência de cada um e, portanto, varia de indivíduo para indivíduo. Mas embora as normas possam ser diferentes, sempre há normas partilhadas entre os indivíduos e são elas que permitem a comunicação. As dificuldades comunicativas decorrem da falta de compartilhamento de determinadas normas.

Há quatro tipos de normas relevantes para um indivíduo engajado numa interação específica: 1- Normas pessoais- dependem das experiências sociais do indivíduo.

2- Normas culturais- dependem das experiências de uma cultura específica.

3- Normas situacionais- dependem das experiências do indivíduo em uma situação específica em determinada cultura.

4- Normas co-textuais- dependem da experiência do indivíduo em uma interação específica que ocorre em uma situação específica em uma cultura específica.

Culpeper (1996) ao analisar os treinamentos de recrutas do exército com base nesses tipos de normas, destaca-se que a visão do recruta e do sargento a respeito da forma como se comunicam são distintas, pois eles possuem experiências diferentes. Para o recruta, o tratamento é “anormal”, uma vez que o comportamento do sargento vai contra suas normas culturais e pessoais. Já para o sargento, que já está acostumado com os treinamentos, esses comportamentos de ataques à face são vistos como políticos/apropriados.

51 Culpeper (2005) defende que a diferença entre “rudeza” e “impolidez” está no fato de que na primeira a ofensa é não-intencional e na segunda é intencional. Sendo que a “intenção” do falante é analisada a partir das respostas dos ouvintes, a “rudeza” estaria próxima ao comportamento “over-polite”, pois não envolve intenção.

Fraser (2005) tem demonstrado como essas diferentes categorias se inscrevem dentro do que é comumente denominado hoje de "comportamento político". A categoria denominada por Lakoff (1989) como “rudeza”, ao contrário, constitui o uso estratégico motivado de agressão verbal, no qual a intenção é causar dano à face do outro. Para efeito de análise, adotaremos o termo impolidez quando ocorrer uso de linguagem agressiva, acarretando ameaça ou agravamento de face tanto do self quanto do outro.

Apenas alguns pesquisadores (Kienpointner 1997; Mills 2003; Archer 2008) têm procurado analisar trabalhos de face dentro de um continuum (e.g respeito vs. desprezo aos desejos de face). Em contrapartida, tem havido um crescente aumento de estudos envolvendo a "modulação" dos efeitos institucionais e / ou das “normas” profissionais sobre os trabalhos de face. e a ligação entre poder e im/polidez. Por exemplo, Penman (1990) compartilha com Lakoff (op.cit) a visão de que estratégias de trabalho de face, na corte, são predominantemente usados, por advogados para ameaçar /agravar as faces de testemunhas e réus, enquanto estes, de forma assimétrica, tendem a recorrer apenas a estratégias de proteção/defesa de suas próprias faces. Deste modo, Penman (op.cit) busca desenvolver um modelo que dê conta desses diferentes comportamentos, reformulando e ampliando o modelo de polidez em Brown & Levinson, para incluir tanto estratégias de dar face ao self ou ao outro quanto estratégias de impolidez, tais como, ameaça e agravamento das faces do self e do outro. Segundo Penman (op. cit) , haveria quatro principais movimentos de trabalhos de face no contexto jurídico por ela analisado:

1- Depreciar ou agravar a face do self e/ou do outro de maneira direta, não- ambígua e insolente;

2- Ameaçar a face do self e do outro por meio de estratégias indiretas que indicam certo grau de desprezo ou falta de respeito para com os desejos de face;

3- Proteger a face do self e do outro por meio de estratégias indiretas que indicam algum grau de respeito;

4- Atenuar ou aumentar face ou a do outro por meio da polidez e outras estratégias que indicam respeito.

52 Essas diferentes orientações dos trabalhos de face redundam em quatro principais efeitos sobre os desejos de face do self e do outro, tendo como parâmetro as dimensões – respeito vs. desprezo à face(cf.Harré, 1978) e os seguintes trabalhos de face: aumentar/mitigar; proteger, ameaçar e agravar os desejos de face:

respeito ↔ desprezo

aumentar/mitigar Proteger ameaçar agravar

→ desejos de face positiva e negativa do self e do ouro ←

As estratégias de impolidez estão relacionadas com o desprezo pela face doself ou do outro, sendo assim, quando as partes envolvidas em um encontro as utilizam, elas estão ameaçando ou agravando a face de seu oponente e/ou a própria face.

A interface polidez/impolidez e o tipo de atividade coloca em cena a necessidade de se aprofundar os estudos sobre trabalhos de face , levando em conta alguns aspectos :

1- Trabalho de face e polidez/impolidez são coisas distintas- trabalhos de face – termo mais amplo- incluindo estratégias de aumentar / dar suporte ás faces do self e/ou do outro;

2- A relação entre trabalho de face e papeis institucionais ou de atividade (Sarangi); 3- Uso de estratégias de polidez/impolidez e relações de poder;

4- A dinamicidade dos trabalhos de face no curso de um mesmo encontro social./tipo de atividade.

Há vários temas recorrentes decorrentes dos estudos que ecoam o atual debate da pesquisa em im/polidez. Por exemplo, quando visto coletivamente, estes estudos apontam para a necessidade de pensar “polidez” e “impolidez” além de rótulos, para que possamos fazer um melhor estudo linguístico de trabalho de face (cf. Haugh e Bargiela-Chiappini 2010). Isso pressupõe que, primeiro, concordemos que trabalho de face e im/polidez não são a mesma coisa, de modo que possamos ameaçar a face sem sermos impolidos e vice-versa. Além disso, temos de admitir o fato de que o falante em um mesmo contexto, como um advogado em um tribunal poderá fazer uso de diferentes estratégias de trabalho de face, além de estar mais familiarizado com as regras deste contexto que a maioria dos leigos com quem

53 ele interage. Por último, mas não menos importante, estudos atuais tratam da relação entre poder e trabalhos de face (ver especialmente Cecconi, 1998). A relação entre poder e impolidez começou a ser explorada agora com mais profundidade (ver, por exemplo, os documentos de cobrança Bousfield e Locher, 2008).

Archer (2008), baseando-se nos conceitos de ações intencionais e não intencionais de ameaça à face de Goffman, propõe uma nova zona de ambiguidade na intenção do falante (ambiguous-to-speaker-intent )para dar conta das estratégias de trabalho de face que caracterizam a fase de “cross-examination”(cf. Sistema adversarial americano) correspondendo ao que categorizamos como “interrogatório”.

A escala de intencionalidade proposta por Archer leva em consideração a percepção tanto dos participantes profissionais quanto dos leigos. Comportamentos vistos como permitidos são aqueles que, envolvem atividades profissionais que, embora apresentem agravo à face do interlocutor, são legalmente sancionadas pelas normas e convenções dos tribunais: embora, elas parecem não- intencionais, i.e. em que não há intenção de causar ofensa (Goffman, 1967).

Como Archer, Tracy (2008) explora a possibilidade dos interlocutores fazerem uso, em alguns contextos, de agressões verbais ou de “hostilidade razoável” sancionadas. Tracy (2008) define hostilidade razoável como “um ideal normativo que guia conduta das pessoas no que diz respeito a criticar publicamente as pessoas em um fórum público”. Isso depende de interpretação e não é, portanto, uma lista do que se pode fazer e do que não se pode.

Harris (2011) sugere que a “hostilidade razoável” é particularmente relevante para o contexto do tribunal. A ameaça à face durante os interrogatórios é uma estratégia que faz parte da meta maior de provar a culpa dos réus. Por isso, o trabalho de face tem uma natureza subsidiária. O reconhecimento do status subsidiário pode nos possibilitar apreciar melhor as múltiplas funções que os trabalhos de face de fato possuem, considerando-se as especificidades e metas comunicativas nos diferentes contextos de uso da linguagem.

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2. CONSTRUINDO CONTEXTOS: ENFOQUE TEÓRICO-METODOLÓGICO

Tendo como objetivo buscar a compreensão dos sentidos atribuídos pelos participantes à interação, esta pesquisa apóia-se em construtos teóricos advindos de duas correntes: a Sociolinguísticas Interacional e a Análise da Conversa.

No documento thennerfreitasdacunha (páginas 49-54)

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