1) Impolidez afetiva
Culpeper (2011) propõe a existência de três tipos de impolidez: afetiva, coerciva e de entretenimento. Defende ainda que esses tipos não são excludentes, podendo ocorrer simultaneamente.
“Agressão instrumental”- a agressão é vista como “um meio para se alcançar determinado propósito”. Algumas vezes, ela é colocada como contrária à agressão afetiva.
Dollar et al (1939) propuseram que a hipótese da frustração-agressão, ou seja, a idéia de que a agressão é causada sempre por um evento ou situação de frustração. Assim, muitas teorias propõem que nós vivenciamos certas emoções, principalmente, a raiva, como resposta a frustrações. Em determinadas situações, a hipótese da frustração-agressão é mais adequada, mas em alguns casos a agressão é mais instrumental.
Da mesma forma, a “impolidez afetiva” pode ser em alguns casos mais estratégica, mais instrumental ou mais impulsiva, mais reflexiva. Exemplo: uso de “fuck!”, dependendo do contexto.
Segundo Culpeper (2011) as pessoas seguem normas prescritivas sobre a adequação de manifestações emocionais em situações específicas. A agressão verbal pode se dividir em agressão hostil e agressão instrumental. A primeira tem por objetivo causar danos a uma pessoa que tenha magoado o falante ou lhe causado algum dano à auto-estima; já a segunda, tem por objetivo obter alguma recompensa pelo uso da fala agressiva, o que pode resultar na admiração do falante por parte dos companheiros ou até mesmo na obtenção de dinheiro. Essas agressões são estratégicas e não automáticas ou reflexivas. Em ambas as agressões verbais citadas, o insulto é usado para se alcançar uma meta específica.
2) Impolidez coerciva
Fairclough (1989) distingue poder de poder por detrás do discurso. Poder se refere a exercer poder na língua e poder por detrás do discurso é alimentado por relações de poder existentes na sociedade (o status do participante) e nas instituições ( relações hierárquicas de poder).
38 Autores como Watts(1991) e Locher (2004) acrescentam a idéia de ‘LIBERDADE DE AÇÃO’ para complementar a noção de status. O que parece ser central no significado de “poder” é o conflito de interesses
Segundo Culpeper (2011) impolidez coerciva – “é a impolidez que busca o realinhamento de valores entre quem a produz e quem a recebe, assim, quem a produz se beneficia ou tem seus benefícios reforçados ou protegidos” (p.226) / “é uma ação tomada com a intenção de causar algum dano a uma outra pessoa ou forçá-la a fazer algo” (p.226).
Segundo Beebe (1995) impolidez coerciva está relacionada à “obtenção de poder”, ou seja, à ação de exercitar o poder. As pessoas usam o poder para: (1) parecer superior; (2) obter poder sobre as ações; (3) obter poder na conversa.
Culpeper (2011) afirma que impolidez coerciva é mais provável de ocorrer em situações em que há desequilíbrio na estrutura social de poder. Participantes mais poderosos têm mais liberdade para serem impolidos, porque: a) eles podem reduzir a habilidade do menos poderoso de revidar com impolidez; b) ameaçar mais severamente se o participante menos poderoso revidar com impolidez.
O poder não é o único fator que leva ao uso da “impolidez coerciva”, as pessoas também podem usá-la de forma instrumental para obter um realinhamento de valores, mas mesmo assim pode haver retaliações futuras ou a intervenção de uma terceira parte.
3) Impolidez de entretenimento
Segundo Culpeper (2011) a impolidez também pode ser utilizada para entreter, o que envolve “entretenimento de exploração”, isto é, entretenimento em detrimento do objetivo de impolidez. A impolidez de entretenimento envolve uma vítima ou uma vítima em potencial, embora a vítima possa não saber que a é.
Os programas de TV hoje em dia trabalham com a violência verbal como forma de entretenimento seja em programas de quiz shows, chats shows, shows de talentos ou em documentários.O entretenimento por meio da impolidez apresenta cinco fontes de prazer:
(1) prazer emocional- a impolidez cria uma excitação que pode ser prazerosa.
(2) prazer estético- uso da criatividade para responder a um ataque com um ataque superior, utilizando para isso novas e criativas regras podem gerar prazer.
(3) Voyeuristic pleasure- a exposição de aspectos pessoais (fraquezas) pode criar “voyeuristic pleasure”.
39 (4) O prazer de ser superior – “teorias da superioridade” (Bergson, 1900) geralmente estão relacionadas com a teoria do humor. Observar pessoas em situações piores que as nossas pode gerar prazer.
(5) O prazer de se sentir seguro- observar, por exemplo, uma briga pode gerar prazer pelo fato de que o espectador se sente feliz por estar seguro.
Dentre os três tipos de impolidez apresentados por Culpeper (2011), no presente trabalho a primeira será o foco de estudo: a impolidez afetiva, aparecendo, também, a impolidez coersiva, algumas vezes, por parte do mediador.
1.8 (im)polidez e emoção
Como vimos, a Impolidez Afetiva está diretamente relacionada à emoção. Segundo Culpeper (2011) as pessoas possuem normas prescritivas sobre a adequação de manifestações emocionais em situações específicas. A agressão verbal pode se dividir em agressão hostil e agressão instrumental. A primeira tem por objetivo causar danos a uma pessoa que tenha magoado o falante ou lhe causado algum dano à auto-estima; já a segunda, tem por objetivo obter alguma recompensa pelo uso da fala agressiva, o que pode resultar na admiração do falante por parte dos companheiros ou até mesmo na obtenção de dinheiro. Essas agressões são estratégicas e não automáticas ou reflexivas. Em ambas as agressões verbais citadas, o insulto é usado para se alcançar uma meta específica.
De acordo com Heise e Calhan (1995), temos normas prescritivas e reativas das emoções em eventos sociais. As emoções devem se adequar às circunstâncias. Em um funeral, por exemplo, a dor e a tristeza são garantidas e uma norma de falta de alegria se aplica. Felicidade é inadequada ao contexto, as pessoas se auto-regulam, de forma a sentir dor, e elas censuram demonstrações de felicidade por outros participantes envolvidos no encontro. O reconhecimento de que existem normas sociais para as emoções afasta o enquadramento científico precoce de exposições afetivas como fenômenos biológicos (por exemplo, Darwin [1872] 1965). As pessoas não se emocionam simplesmente porque reagem instintivamente a certos impasses. Elas inteligentemente orientam seus sentimentos e suas manifestações de emoções para atender o que é esperado em um evento.
Segundo Arndt e Janney (1991) a comunicação emotiva tem três dimensões: “Confiança” (como um tipo de auto-estima, que pode ser alto ou baixo, dependendo da
40 postura, da entonação, etc.), “Afeto” (cujas pistas podem ser positivas ou negativas, dependendo, por exemplo, do tom de voz, da feição) e “Intensidade” (como um tipo de envolvimento, que pode ser alto ou baixo, dependendo da força da enunciação, por exemplo). Existem, ainda, as “pistas emotivas intermodais” (escolhas verbais, vocais e corporais), através das quais o falante sinaliza informações sobre a confiança naquilo que diz, sobre seu afeto em relação ao outro e sobre seu envolvimento emocional.
A visão de Arndt & Janney sobre “colaboração interpessoal”, substitui, em seus estudos, a noção de polidez. Quando um falante é polido, ele não está agindo apenas de acordo com expectativas sociais, mas evitando conflitos interpessoais ao transmitir sua mensagem de uma forma interpessoalmente colaborativa. Nesta perspectiva, podemos entender que as estratégias de impolidez são usadas como um “reparo” às potenciais ameaças às faces dos interagentes.
“A ideia central é que existem modos colaborativos e não colaborativos de expressar sentimentos positivos e negativos; o falante eficaz geralmente tenta minimizar a incerteza emocional de seu parceiro em todos os casos sendo o mais colaborativo possível” (Arndt & Janney, 1985: 283)
Os autores remetem à definição de face de Brown & Levinson como “desejos de autonomia e aprovação social”, e afirmam que colaboração interpessoal consiste na proteção da “face interpessoal”. Afirmam que um falante colaborativo ameniza ou evita situações interpessoalmente desconfortáveis, através do constante reconhecimento do valor do outro como pessoa. Dessa forma, as pistas emotivas estipulam que:
“(...) mensagens positivas devem ser acompanhadas de demonstrações de confiança e envolvimento para evitar criar a impressão de que elas não são suficientemente positivas (encobrindo ameaças à face); e mensagens negativas devem ser acompanhadas de demonstrações de falta de confiança e não-envolvimento para evitar criar a impressão de que são muito negativas (encobrindo ameaças à face)” (ibid.: 294)
Arndt & Janney conceptualizam polidez como incorporada a um aspecto de comunicação mais amplo (comunicação emotiva) e afirmam, ainda, que polidez não está ligada a variáveis sociológicas, mas a emoções humanas. Em outros trabalhos, porém, eles adicionam à noção de “polidez social” a noção de “Tato”, definido como uma expansão da noção de colaboração. A polidez social inclui usos linguísticos altamente convencionalizados (“(...) formas, normas, rotinas, rituais, etc. comunicativos socialmente adequados” (Arndt &
41 Janney, 1992: 24)) e referem-se a “(...) estratégias padronizadas para chegar graciosamente a, e sair de, situações sociais recorrentes” (ibid.: 23). Enquanto “tato” tem uma função “conciliadora”, polidez social é “reguladora” em sua natureza.
Segundo Kienpointner (2008), para explorar a relação entre a (im) polidez e argumentos emocionais, algumas observações sobre a interdependência da (im) polidez e das emoções têm que ser feitas. Segundo o autor, "emoções" podem ser definidas como processos psicofísicos que são vivenciados com sentimentos fortes. Segundo sua percepção, as emoções podem ser classificadas como sentimentos positivos (agradável) ou negativos (desagradáveis). Desta forma, as emoções positivas, como amor, carinho e felicidade podem ser contrastadas com as emoções negativas tais como ódio, medo e nojo. Além disso, tem havido tentativas para distinguir entre um pequeno conjunto das emoções primárias (por exemplo, surpresa, medo, nojo, raiva, felicidade, tristeza, segundo Ekman e Friesen, 1975) a partir de emoções secundárias (por exemplo, piedade, inveja, ciúme). As emoções primárias foram consideradas como de natureza inata e universal.
De acordo com Kienpointner (2008), temos que destacar que a importância das emoções como fator que influencia o comportamento (im) polido tem sido relegada no padrão nas teorias da (im) polidez tal como Brown e Levinson (1987 [1978]), que descrevem o seu "modelo de pessoa ideal". Contudo, para além de fatores como a distância, poder e hierarquia da institucional, a relação emocional entre os interlocutores, também, desempenha um papel decisivo, influenciando o clima cooperativo ou competitivo da interação em curo. Este fator foi justamente sublinhado por Watts (2003: 96-97). Além disso, mesmo uma teoria com base em um modelo de pessoa ideal, definido como um agente racional não pode excluir as emoções. Por exemplo, o medo sem exagero, pode ser perfeitamente racional em certas situações, pois ajuda-nos a ser cautelosos em momentos de perigo. Além disso, a pena / a compaixão pode obrigar as pessoas a apoiar as atividades altruístas e, portanto, contribuir para a melhoria da estabilidade de um grupo social, da sociedade ou de uma cultura. Para dar apenas mais um exemplo: a raiva, se contextualmente justificada, pode fazer-nos lutar contra as violações dos princípios de justiça. Além disso, os três principais fatores determinantes da (im) polidez de Brown e Levinson (1987 [1978]) implicam certas emoções. Por exemplo, grandes diferenças de poder podem criar emoções positivas e negativas, como o desprezo, temor, medo e respeito, a distância social mínima é frequentemente combinada com emoções positivas ou negativas, como amor, compaixão, ódio, raiva, indignação. Finalmente, o grau de
42 imposição de um ato de fala em uma cultura muitas vezes implica em certas emoções, por exemplo, o medo de ser intrusivo na cultura anglo-saxônica, ou o desejo de ser incluído em um grupo social na cultura espanhola.
A abordagem tradicional da emoção humana considera a demonstração emocional como o reflexo de um dado estado psicológico. A pesquisa tradicional sobre a agressão, com ênfase biológica, mantém a mesma postura. A agressão é vista como um instinto humano básico com expressões de emoções geneticamente predeterminadas. Atualmente a psicologia social defende que há uma base biológica para todo comportamento social, como a agressão, por exemplo. Há ainda estudos que defendem que a agressividade é resultante de causas sociais. Neste caso, são discutidas as formas de controle social que são exercidas sobre a manifestação da raiva, por exemplo. No contexto por nós analisado, como os interagentes apresentam pontos de vista antagônicos para um fato ocorrido, é normal que eles manifestem alguns tipos de emoção no decorrer da interação.