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Segundo o regulamento de voleibol, “o serviço é o ato de por a bola em jogo

pelo defesa-direito, colocado na zona de serviço” (FIVB, 2010: 24). Este gesto

técnico tem vindo a evoluir nas últimas décadas, sendo uma ação de jogo em que as equipas têm dado grande importância (Lirola, 2006; Moraes et al., 2008).

Com a implementação de novas regras diretamente relacionadas com o serviço, como o aumento da sua área de execução (passou a poder ser efetuado em todo o comprimento da linha de fundo) (FIVB, 1999), o serviço tem vindo a ser uma ação cada vez mais determinante no jogo de Voleibol, dando a possibilidade de realizar serviços com novas trajetórias, condicionando assim a efetividade e as opções em termos de ataque da receção adversária e facilitando a fase defensiva e o contra-ataque da equipa servidora (Gerbrands & Murphy, 1995; Ureña et al., 2000; Lozano et al., 2003). A possibilidade de contato da bola na rede foi outra regra aprovada pela FIVB (1999).

Outra mudança estrutural no jogo foi a inclusão do jogador líbero na equipa, jogador especializado na ação defensiva, sendo um fator que influencia

indiretamente o serviço e que incide sobre a ação da receção. Além disto, as alterações regulamentares permitiram mais oportunidades de eficácia ao jogador em ação defensiva, na medida em que eliminam a sanção da falta aos dois toques na primeira ação da defesa baixa e introduzem a possibilidade do contato da bola com qualquer parte do corpo (FIVB, 1999).

Devido às características particulares que o serviço detém, de ser o único momento do jogo em que um jogador se assume como o alvo da atenção de todos os intervenientes e de ser a única ação de jogo que permite ao atleta reter a bola e usufruir de tempo para decidir como atuar, Monteiro (1995) atribui ao serviço um elevado grau de individualidade, onde o protagonismo dos jogadores no ato de servir se assume superior em relação às restantes ações de jogo. Fidalgo (2003) e Arias et

al. (2011) acrescentam ainda que o serviço é o único gesto técnico sem

dependência da anterior intervenção dos companheiros ou adversários para a sua execução.

Segundo a literatura, ao longo da evolução do jogo de Voleibol, o serviço além de ser a primeira ação de jogo, destaca-se como sendo a primeira arma de ataque da equipa e um fator que influencia decisivamente no resultado do jogo (Selinger, 1986; Mesquita et al., 2002; Ureña et al., 2003; Yiannis & Panagiotis, 2005).

Quiroga et al. (2010) referem que, no alto rendimento, os benefícios derivados da ação de serviço não se situam apenas na possibilidade de ponto imediato, mas também na forma como esta influencia nas ações subsequentes.

Ribeiro (2004) considera a precisão, potência, regularidade e irregularidade da trajetória da bola, como sendo as principais características do serviço no voleibol moderno. Rizola Neto (2003) acrescenta a estas ainda fatores como o estilo, variação da distância e a relação com o ataque adversário, como sendo os principais aspetos do serviço valorizados no treino de alto rendimento.

Quanto aos tipos de serviço, estes podem ser classificados em função da trajetória da bola, (flutuante, em rotação e potente) e em função da forma de realização do mesmo (em apoio e em suspensão) (Yiannis & Panagiotis, 2005; Palao et al., 2004).

O serviço em suspensão tem-se destacado cada vez mais no voleibol atual, tanto nas equipas masculinas como nas femininas, (Lirola, 2006; Moraes et al.,

2008; Quiroga et al., 2010). No entanto, García-Tormo et al. (2006) afirmam que, nas atletas femininas, a execução do serviço em suspensão tem uma menor proporção e eficácia, mantendo-se o serviço em apoio entre os mais utilizados.

Diversos autores analisaram a ação de serviço em jogo de competição, com a finalidade de determinar se as variáveis zona de serviço e direção de serviço interferem no rendimento das equipas. No entanto, foram poucos os estudos encontrados na literatura sobre a análise do serviço por posição específica.

Gouvea (2005) efetuou um estudo com o objetivo de analisar as ações técnico-táticas em jogos de competição por posição específica, utilizando como amostra atletas do escalão infanto-juvenil feminino, com idades compreendidas entre 16 e 17 anos. Como resultados da sua análise, o serviço em apoio foi o mais utilizado pelas jogadoras (80.5%). O estudo aponta para maiores índices de ocorrências de serviço na atacante Z4 (34.6%) e na atacante central (28.7%) e menores valores para a jogadora oposta (15.7%). Quanto à análise qualitativa do serviço, esta foi realizada segundo três critérios de avaliação: erro (perda de ponto), eficácia (ponto direto) e eficiência (ação que mantém a bola em jogo). Neste contexto, a distribuidora destacou-se com melhores índices de eficácia e menores erros de execução, a atacante Z4 registou valores inferiores de eficácia, sendo a oposta a jogadora com maior número de erros obtidos quanto ao serviço em apoio.

García-Tormo et al. (2006), num estudo efetuado com atletas do escalão juvenil e cadetes femininas (14-18 anos), em que um dos objetivos foi analisar a relação entre a variável direção de serviço e a eficácia, não verificou uma associação estatisticamente significativa entre as mesmas. Quanto às melhores ocorrências em termos de trajetória, destacaram-se as direções diagonal média (45.4%) e paralela (38.8%). Segundo os autores, estes resultados são inteiramente justificados, pois 40.9% e 40.2% dos serviços realizados foram efetuados da zona 1 (Z1) e zona 6 (Z6). Refletem ainda que nestas fases de formação, as atletas tendem a controlar mais o serviço, procurando enviar a bola nas zonas centrais do campo (Z6), de menor risco, evitando arriscar a execução para os limites do campo. Sendo assim, os resultados apontam para uma possível trajetória diagonal média com origem das zonas de serviço 1 e 5 e uma trajetória paralela vinda da zona 6.

Num outro estudo efetuado por Arias et al. (2011) com atletas de ambos os sexos, pertencentes ao escalão cadetes, onde se pretendia analisar a relação entre

as variáveis do serviço (zona de serviço, direção, tipo e zona de receção) e a sua eficácia em jogo, não demonstrou associação significativa entre a direção de serviço e a sua eficácia, tanto nas equipas femininas como nas equipas masculinas. Relativamente à zona de serviço e à sua eficácia, esta obteve associação significativa apenas no caso dos atletas masculinos. Os autores afirmam que a ausência de uma relação significativa nas atletas femininas pode dever-se ao fato de estas não se concentrarem tanto no que diz respeito à estratégia tática de colocar dificuldades na receção adversária, escolhendo apenas uma zona de serviço preferencial.

Associação estatisticamente significativa entre a variável zona de serviço e a posição específica foi encontrada por Arias et al. (2010) em dois grupos pertencentes ao escalão cadetes, feminino e masculino. No grupo de atletas femininas, as zonas de serviço (Z1 e Z6) apresentaram a maior incidência (42.5% e 41.5%), sendo a zona 5 (Z5) a menos utilizada (16.1%). As jogadoras que mais contribuíram para o predomínio da Z1 e Z6 foram as atacantes centrais e as atacantes Z4. Já nos atletas masculinos, a Z1 obteve a maior percentagem de ocorrências (51.4%), a Z5 sendo a menos escolhida pelos jogadores (15%). Quanto ao total de ocorrências de serviços por posição específica nas atletas femininas, evidenciou-se a atacante de Z4 (35.5%) e a central (30%), apresentando a distribuidora (16.4%) os menores índices.

Moreno et al. (2007) investigaram 1891 ações de serviço de uma equipa pertencente à Superliga Masculina de Voleibol da Universidade de Granada e encontraram uma associação significativa e positiva entre as zonas de receção estudadas (zonas na aproximação das linhas laterais e linha de fundo) e a direção de serviço associada à estas em relação aos melhores índices de eficácia (eficácia 4 - ponto direto). Relativamente à área de serviço, a Z1 apresentou a maior percentagem (67.2%), seguida da Z6 (25.5%) e Z5 (7.4%), enquanto a direção de serviço apontou a melhor percentagem de ocorrências na Z6 (24%) através de serviços táticos (serviços enviados da Z1, Z6 e Z5 para a Z6). Os autores referem que a maior percentagem de serviços realizados da Z1 pode estar relacionada com os aspetos mencionados por Molina (2003), citado por Moreno et al. (2007), pela procura de trajetórias diagonais que obriguem os defesas a receber de fora para dentro, dificultando assim a sua receção. Contudo, estes acrescentam que a maior

ocorrência de trajetórias diagonais foi resultante dos serviços efetuados da Z1 para a Z6 do campo, não sendo assim as mais amplas.

Na mesma linha de pensamento, Moraes et al. (2008), através da análise de serviços extraídos do Campeonato Mundial masculino no Japão (2006), afirmam que as razões que determinam a escolha da zona de serviço estão em concordância com as opções estratégicas da equipa recebedora. Assim, o serviço, quando enviado de vários ângulos, pode dificultar a receção do adversário e diminuir ou anular as opções ofensivas deste. Deste modo, verificou-se que a Z1 (59.9%) destacou-se como a zona de serviço mais utilizada, seguida da Z5 (24.8%), sendo a Z6 menos optada pelos jogadores (15.3%).

Outro estudo efetuado por Maia (2005) com atletas femininas de alto rendimento pertencentes a quatro Seleções Nacionais (Bielorrússia, Hungria, Portugal e Dinamarca) obteve associação significativa entre a zona de serviço e a posição específica. A zona mais utilizada foi a Z1 (58.9%), seguida da Z6 (22.7%). Segundo o autor, os resultados indicam que a antiga regra que limitava o serviço à zona 1, ainda se faz ressentir atualmente. Relativamente às especializações funcionais, as atacantes centrais (34.5%) e as distribuidoras (31.9%) foram as que mais contribuíram para o predomínio da Z1. Já as atacantes Z4 destacaram-se nos serviços efetuados da Z6 (57%). De referir, que do total das ações de serviço efetuadas, as atacantes Z4 (31.8%) e as centrais (31.2%) efetuaram o maior número de ações em relação às demais posições específicas.

Quiroga et al. (2010) desenvolveram um estudo efetuado com atletas de elite, de oito equipas femininas participantes em 2 etapas da Final Four na Indesit European Champions Leagues, com o objetivo de verificar a existência de diferenças estatisticamente significativas entre várias posições específicas com relação às características do serviço (tipo, velocidade, zona de serviço e a eficácia do serviço). Os autores relataram que do total dos serviços analisados (1300 serviços), 59.1% foram executados em apoio e 40.9% em suspensão. A zona de serviço escolhida com maior frequência pelas atletas foi a Z1 (60.5%) e quando relacionada com o tipo de serviço, os autores destacam a correlação entre a Z1 e o serviço tipo ténis flutuante com a maior percentagem (44.1%), seguida do serviço em suspensão potente (31.9%). Esta foi a zona em que se consegui mais pontos diretos por parte das jogadoras (70.3%).

Quanto às posições específicas, a Z1 foi a mais procurada pelas atacantes Z4 (33.4%), seguida de distribuidoras (29.1%) e jogadoras opostas (21%). As atacantes centrais escolheram por servir atrás da Z5 (64.1%). Segundo os autores, estes resultados poderão ser explicados pelo facto de as jogadoras optarem servir atrás da zona que posteriormente ocupam durante a defesa, facilitando assim a transição da área de serviço para a área de defesa, com o intuito de reduzir o espaço que necessitam de cobrir, respeitando ao mesmo tempo o sistema de jogo.

O mesmo estudo verificou uma associação significativa entre a jogadora oposta e eficácia 0 (serviço falhado) e entre a distribuidora e eficácia 1 (serviço que permite a construção de qualquer tipo de ataque).

Segundo Gabbett et al. (2007), a técnica do serviço tem sido considerada uma ação discriminante na seleção dos jovens talentos, evidenciando assim a sua importância nestas idades. Dávila-Romero e García-Hermoso (2012) reiteram esta ideia afirmando que o serviço poderá ser entendido como discriminante entre a vitória e a derrota, nos escalões de formação. Esta constatação é suportada pelo estudo efetuado por estes autores, que visou determinar quais as ações finais do jogo que diferenciam a vitória da derrota, em escalões de formação feminino (infantis e cadetes) nos últimos sets, com uma vantagem mínima de dois pontos. Os resultados da análise discriminante mostraram que entre as ações de jogo mais significativas e que distinguiram as equipas vencedoras das derrotadas, o serviço negativo foi uma delas, no escalão infantil, que conduziu à derrota do set. Os investigadores justificaram os resultados obtidos suportados na afirmação de García-Tormo et al. (2006), de que, nestes escalões de formação não se manifesta um domínio e controlo do serviço suficientes para evidenciar uma intenção tática clara, pois como o estudo destes autores demonstrou, as jogadoras assumiram um nível de risco voluntário e adaptado à situação de jogo.

Rodrigues et al. (2005) procurou investigar qual o perfil de desempenho e os requisitos para a vitória no jogo de voleibol, com base na análise das várias ações de jogo, num estudo efetuado na fase final do Campeonato Nacional do Desporto Escolar com equipas femininas e masculinas do escalão de juvenis. A avaliação do serviço foi efetuada segundo três níveis de resultados: positivo, indiferente ou negativo. Assim sendo, o serviço obteve nas equipas femininas uma percentagem de 32% nas ações positivas e de 14% nas ações negativas, apresentando uma

eficácia em jogo de 19%. Já as equipas masculinas apresentaram valores de 20% nas ações positivas e 11% nas ações negativas e uma eficácia em jogo de 9%. As atletas femininas obtiveram uma maior percentagem em termos de serviços positivos. No entanto, denotou-se uma maior percentagem no que diz respeito aos serviços falhados, onde segundo os autores poderá ser um indicativo ou de maior risco de execução colocado nesta ação ou de menor prestação da receção adversária.

Desta abordagem sobre o serviço sobressai, em jeito de resumo, que a escolha da zona de serviço poderá depender de vários fatores, tais como: opções táticas da equipa recebedora, maior procura de trajetórias diagonais que obriguem os defesas a receber de fora para dentro, como também da maior facilidade de transição da zona de serviço para a zona de defesa de cada jogador específico.

O serviço deve assim ser tratado com o máximo de atenção, devendo-se dar enfâse tanto à qualidade de execução, como à autonomia, como também ao controlo em termos de quantidade de execução para que este alcance resultados positivos (Gouvea, 2005).

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