2 IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
2.4 A IMPUNIDADE
2.4.2 Impunidade civil
Em que pese a conotação predominantemente criminal que envolve a figura da impunidade, há de se trazê-la, por relevante, à esfera administrativa. E, em especial, destacar- se seus reflexos no campo da responsabilidade civil.
Isso porque – e uma das razões do trabalho situa-se nessa linha - não basta à sociedade, em face do ato de improbidade praticado pelo agente público, saber apenas da sua eventual conotação criminal, política ou administrativa, se for o caso. A coletividade, também (e talvez até com maior veemência), conta naturalmente com o efetivo e real ressarcimento dos danos causados ao erário.
Já foi anteriormente referido, em mais de uma passagem, que embora pródiga a legislação pátria a respeito do tema, colocando à disposição dos interessados os mais variados instrumentos para uma efetiva busca dos valores subtraídos aos cofres públicos, poucos têm sido os resultados positivos conhecidos. Daí permite concluir-se que os mecanismos jurídicos para tanto disponibilizados, ou são insuficientes, ou não são corretamente empregados, ou, ainda, permitem ao agente ímprobo se furtar de seus efeitos práticos, utilizando-se, para tanto, de caminhos estratégicos ofertados pelo próprio ordenamento.
De qualquer forma, em persistindo a frustração, deve-se procurar saídas ou, no mínimo, traçar-se diagnóstico dos fatores que na prática impedem a eficiente concretização dos pleitos indenizatórios, visando, a partir daí, quem sabe até formular (ou arriscar) possíveis soluções.
Conforme antes destacado, já a própria Constituição Federal coloca à disposição de qualquer cidadão a legitimidade para manejar ação popular, cujo desiderato é desconstituir ato de autoridade pública que tenha causado (ou venha a causar), dentre outras hipóteses, lesão ao patrimônio público. Com a grande vantagem de isentar o demandante de boa-fé das custas processuais e, em caso de não-obtenção de êxito, dos respectivos ônus da sucumbência. Trata- se, como se pode verificar, de uma faculdade que abre as portas a qualquer um do povo para o exercício de função de típico fiscal da atuação do agente público, seja este político, seja administrativo. Para tanto, conta com lei específica, há muito editada, que lhe assegura os necessários instrumentos (Lei nº 4.717/65).
Em que pese, entretanto, a faculdade disponibilizada pela Constituição Federal e a legislação infraconstitucional que regula o procedimento, não se constata, na prática, a efetiva utilização do mecanismo ofertado, podendo creditar-se essa omissão à falta de cultura política de um povo que, em sua maioria, sequer conhece os termos de sua Carta Maior ou, de outro lado, mesmo sabendo da existência da ação popular, parece relutar em dela lançar mãos, seja por temor reverencial (o administrador está com o Poder), seja, ainda, por um fundado receio de que, ao fim e ao cabo da jornada, sua luta poderá ter sido em vão.
Isso sem considerar o fato de que, muito embora a isenção concedida em relação às despesas processuais e verba de sucumbência, o interessado deverá constituir advogado para ingressar com a ação e terá que arcar, salvo contrato de risco, com seus honorários.
De outro lado, a impunidade, tão destacada pela mídia, por certo colabora para o descrédito das instituições, fazendo com que o povo, em relação a essa situação específica (busca do ressarcimento pelo manejo de ação popular), deixe que as autoridades públicas constituídas e, em especial, o Ministério Público, executem a tarefa.
Também a legislação infraconstitucional disponibiliza outros meios para o ressarcimento, podendo, a respeito, destacar-se a já referida Lei da Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/92), que, alicerçada em norma constitucional expressa (art. 37, § 4º, da Constituição Federal), prevê a responsabilidade civil do agente público e até de terceiros que tenham contribuído para a lesão aos cofres públicos.
Na mesma linha, a Lei da Ação Civil Pública, editada em 1985 (Lei nº 7.347), viabilizando ao Ministério Público e às pessoas jurídicas, que menciona, mais do que uma “possibilidade”, a “obrigatoriedade” de agir em face da constatação da prática de ato que implique lesão ao patrimônio público, dentre outras situações fáticas legalmente enumeradas. Destacou-se, a respeito, quando do estudo específico do tópico, alguns precedentes jurisprudenciais.
Assim, para o exercício do direito, colocam-se à disposição as figuras do seqüestro, arresto, indisponibilidade de bens, antecipação de tutela, as quais, caso manejadas a tempo e com a devida competência/eficiência profissional de seus executores, poderão garantir, “a priori”, o êxito final da empreitada.
Ocorre que nem sempre é assim...
Se, de um lado, o ordenamento jurídico, ao assegurar o amplo direito de defesa, permite a utilização das mais variadas estratégias por parte do demandado, visando a elidir medidas liminares contra ele manejadas, de outro, por entrave da própria máquina burocrática, no mais das vezes a autoridade inaugura o processo quando já nada mais resta a fazer, a não ser perder tempo.
Nessa linha de raciocínio, então, poderia apontar-se como fatores que inibem a eficácia na busca do ressarcimento, dentre outros, as dificuldades das autoridades em apurar as fraudes, importando em consumo exagerado de tempo, bem como as possibilidades oferecidas pela própria legislação processual (ampla defesa) e que, se de um lado permite ao agente ímprobo frustrar os efeitos de eventuais liminares contra si manejadas, de outro importa no retardamento do desenlace do processo mediante a utilização dos mais variados recursos.
A conclusão é óbvia. Quando, ao final, depois de um longo período de tramitação processual, vem a ser reconhecido o direito do Estado, possibilitando-se a execução, não raro ocorre sua total inviabilidade, eis que ou nenhum bem é mais encontrado, ou aqueles que ainda restam (inclusive os objeto de liminar) já tiveram seu valor defasado pelo decurso dos anos, frustrando o resultado de todo o trabalho executado.
Por conseqüência, a impunidade ainda persiste. Talvez na forma mais perversa, já que deixa incólume a parte mais sensível do agente ímprobo, que é seu próprio patrimônio...