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São recentes as publicações “oficiais” sobre Frida e podem demonstrar um novo posicionamento ou a reafirmação do mesmo em relação a essa personagem importante para a história das Assembleias de Deus. A releitura histórica por parte da própria denominação começou a aparecer após mais de 80 anos de esquecimento. Consta que a primeira releitura, ainda tímida, foi de Silas Daniel, na organização do livro História da

Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (2004). Em seus escritos sobre os

13 Daniel Gustav Högberg companheiro de missões de Gunnar Vingren, declara: “Daniel Berg era declaradamente contra qualquer manifestação política. (...). Ainda nos Estados Unidos Berg deixou um dos empregos, porque queriam que ele se filiasse ao sindicato.” (DELGADO, 2008, p. 34). No entanto, Lewi Pethrus, o líder da igreja Filadélfia, posteriormente mudará seu posicionamento passando a participar da política chegando até fundar um dos mais populares partido político da Suécia.

14 Sou uma pentecostal nascida e criada nas Assembleias de Deus, mesmo depois de alguns anos na academia, e de uma desconstrução social de uma religiosidade machista, patriarcal, misógina, que me fez a cada ‘tijolinho’ arrancado nessa desconstrução chorar a minha dor lembrando tantas violências vivenciadas, experimentadas na pele, mas mesmo assim, não resisto entrar em um culto pentecostal cheio de emoções à flor da pele, envoltos nas orações ou seria orações envoltas de emoções, da catarse possível que as religiões carismáticas podem proporcionar.

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principais líderes e sobre os debates e resoluções do órgão que moldou a face do Movimento Pentecostal no Brasil, publicado no Rio de Janeiro pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), Frida foi, por fim, reconhecida na história oficial da denominação. Este fato, porém, não foi suficiente para libertá-la, tal como ocorreu com a alforria dos escravos no Brasil. Após três anos dessa publicação, Frida foi lembrada por Isael Araújo ao compilar, segundo os moldes da versão inglesa do Dictionary of

Pentecostal and Charismatic Movements15, o Dicionário do Movimento Pentecostal

também publicado no Rio de Janeiro pela CPAD. Novamente, a memória de Frida chega como um verbete, uma “nota” para seu “alforre”16.

Outros trabalhos logo começaram a avançar nessa direção, tais como as pesquisas acadêmicas sobre Frida. Cabe destacar o especialista na história das Assembleias de Deus, Gedeon Freire de Alencar (2012) que, a partir de um recurso tipológico weberiano, dedica parte de sua pesquisa de doutoramento e outros trabalhos publicados à Frida. Contudo, é Kajsa Norell17 que recupera de fato a figura intencionalmente esquecida de Frida, afirmando que ela “não foi somente esquecida, mas escondida” (NORELL, 2011, p. 87).

Com base nesses estudos, nosso trabalho tem a expectativa de contribuir para uma releitura da trajetória de vida de Frida e subsidiar ativistas que atuam em prol da igualdade de gênero. Contudo, se a história de Frida já está à disposição de quem se interessa pela história do movimento pentecostal brasileiro, por que voltar a ela? Já não se deu o fim desse apagamento?

No início das pesquisas que resultaram nesta tese, fiquei um tanto perplexa diante das primeiras releituras históricas, por parte da denominação, e em pesquisas acadêmicas sobre Frida que a apresentavam como uma missionária incansável, uma mulher extraordinária, em descrições que sobejavam em adjetivos, envolvendo-a em um

15 A versão inglesa foi realizada por uma equipe de sessenta e seis pesquisadores e organizada por três editores. (ALENCAR, 2013, p.32 nota de rodapé)

16Outra fonte de pesquisa são os websites especializados em buscar endereços na WEB associados às palavras-chave digitadas. Nestas buscas surgem várias imagens, pequenas biografias e outras informações relacionadas à Frida Maria Strandberg.

17Kajsa Norell é uma jornalista Sueca que realizou no Brasil uma importante pesquisa no Brasil. Ela utiliza uma comunidade no Rio de Janeiro e outra em Brasília como campos de pesquisa a fim de demonstrar como os pentecostais assembleianos ainda vivenciam um contexto de abandono social e pobreza. Ressalta que o assembleianismo brasileiro é mais forte entre os negros que ainda são mais empobrecidos por serem negros. Ela participa e descreve os cultos que participa, a simplicidade do lugar, a música simplória, os testemunhos dados pelas pessoas por ‘livramento de drogas’, curas, bem similares ao início do movimento pentecostal. A partir dessas comunidades ela faz o caminho inverso chegando no início das Assembleias de Deus no Brasil destacando semelhanças entre as igrejas das comunidades e o início do movimento pentecostal brasileiro. E por chegar ao início do movimento impreterivelmente conhece e pesquisa a vida de Frida Maria Strandberg.

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manto heroico. É a percepção de um estereótipo construído sob as bases de uma cultura machista, talvez impossível às mulheres religiosas, como Maria, a mãe de Jesus, no catolicismo que a retirou do limbo histórico e colocou-a em um pedestal, como um “modelo” de mulher inatingível.

As releituras históricas de Frida, quando olhada na perspectiva de gênero, desvelam interpretações biologizantes e heroicas, reforçando a negação da humanidade. Tanto o apagamento quanto a visibilidade heroica perpassam o mesmo machismo que intencionalmente a escondeu. Essa é uma cultura patriarcal brasileira que permeia a cultura evangélica protestante pentecostal e que atravessa também a academia18.

Um resgate que coloca a mulher no pedestal, quase como uma heroína, não é exatamente um resgate e nem uma leitura de gênero. Uma leitura machista impetra heroísmo ou derrotismo, negando-lhe a humanidade. Da humanidade se esperam falhas, erros e acertos. É compreensível que a intencionalidade tenha sido boa, porém o resultado deste resgate se apresenta tão opressor quanto aquela ação do passado que a invisibilizou. Neste sentido, tal leitura aproximará Frida de uma espécie de “santa” semelhante ao papel de Maria no catolicismo, embora na religião protestante pentecostal não existam santos ou santas como apresentados no catolicismo.

Podemos compreender a partir da história da igreja medieval, portanto a partir do século V, quando a mesma começou a perder fiéis para a festa popular de uma deusa, uma divindade feminina19 que enchia as ruas de fiéis para celebrá-la. A resposta apresentada foi os ensinamentos mariológicos. A igreja nota a possibilidade de ampliar seu número de fiéis, resgatando a memória de Maria que não estava tão valorizada em suas teologias. A figura feminina mais avultada até este momento era de Eva, a “maldita” Eva, pecadora que levou Adão a pecar, seduzindo-o e, por sua única culpa, deveria ser responsabilizada pela queda de toda a humanidade e, consequentemente, tornando-se a representante de todas as mulheres. Tal resposta veio pelo Concílio de Éfeso, em 431 apresentando o dogma de Maria Mãe de Deus.

Na mitologia greco-romana, da qual se bebeu na construção do Novo Testamento, principalmente por seu maior mentor, o apóstolo Paulo, não foi diferente. A imagem da

18Evangélicos nesta pesquisa tomará o termo desenvolvido por Luís de Castro, que concatena o termo evangélico ao campo religioso formado pelas denominações descendentes da Reforma Protestante, considerando suas subdivisões entre as instituições: de um lado as igrejas chamadas de “protestantes históricas” Luteranas, Metodistas, Presbiterianas, Congregacional, Anglicana e Batista, e de outro as “pentecostais” Congregação Cristã no Brasil, Assembleia de Deus, Evangelho Quadrangular, Brasil para Cristo, Deus é amor, Universal do Reino de Deus, Igreja da Graça etc. (CAMPOS JR, 1995:21).

19 Ver mais em RIBEIRO, Arilda Înes Miranda. Deusas, Diabólicas, Pecadoras e Virgens: diálogos entre os mitos do feminino e a Educação escolar. In BRABO, 2015.

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mulher diminuída, culpada, defeituosa, falha por ser mulher e não possuir um falo, a sedutora que levava os homens a todos os males fora construída a partir da figura de Pandora, que era, para os gregos, a culpada de todos os males. O mito de Eva é tão bem arquitetado para culpabilizar a mulher como o mito de Pandora. O que havia na caixa de Pandora, se não todos os males que a humanidade conhecia?

Na religião cristã ocidental, a opção dada às mulheres seria nos modelos de Eva ou Maria. Maria é o oposto de Eva. Maria é a galardoada por Deus que recebe a visita de um anjo para lhe fazer agraciada, bendita. Seu útero é abençoado, recebendo o filho de Deus. Maria não era tão importante, mas seu útero sim, porque iria gerar um bebê sem relação sexual. Mas não era um bebê qualquer. Era o filho de Deus, o enviado a todas as nações, aquele que salvaria e resgataria o homem e a mulher do pecado.

Para concorrer com a deusa, Maria é sacralizada e passa a ser modelo para as mulheres. Assim, toda mulher que não desejar ser como Maria, com o útero agraciado e fértil, obediente ao chamado de Deus, terá a opção de ser Eva, a culpada por todos os males. Nesse aspecto, a maternidade passa a ser sacralizada. Depois que a barriga de qualquer mulher começa a crescer pela gravidez, muitos se esquecem de que ela transou20. Ela passa a ser agraciada, porque será mãe quase uma santa, aquela que sofre e que “padece no paraíso”. O ser mãe foi sendo construído sob a exigência do sacrifício, da renúncia quase que exclusivamente da mulher, sempre aquela que se sacrifica por sua prole, a maior responsável pela educação de seus filhos e, claro, a maior responsável caso essa educação não dê certo21.

Na história mais recente, com o surgimento do casamento, não é a barriga de qualquer mãe que será agraciada, mas da mãe casada. No capítulo anterior, salientamos a gênese do controle do corpo social, a vida como objeto político e a importância de controle pela domesticação, segundo Foucault. A maternidade tende a ser construída a partir do estereótipo de Maria, a imaculada, tem o propósito de regular os desejos e convencer aos homens a desejarem mulheres que correspondam ao padrão “para casar” e convencer às mulheres a serem como Maria, e não como Eva.

Do esquecimento ao heroísmo, Frida permanece na condição de vítima. Isto retira dela o protagonismo na história, tira sua humanidade, sua condição de ser. É preciso restituir Frida ao espaço em que ela trabalhou incansavelmente, reconhecer a existência

20 Decidimos por este termo como linguagem feminista.

21Essa construção é tão forte em nossa sociedade Ocidental cristã que estranhamos mais quando uma mulher deixa seu filho na responsabilidade do pai, por exemplo, do que quando o pai deixa para a mãe a responsabilidade total de seus filhos, afinal, mãe é mãe!

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de uma grande liderança feminina, ao lado de outros grandes líderes, com erros e acertos, sobretudo nas relações de poder em que todas as pessoas envolvidas tentaram tirar proveito para si e para a instituição.

A questão é que os papeis sociais determinados para eles e para elas hierarquizavam poderes por questões sexistas e, no caso de Frida, a hipocrisia moral dos líderes não aceitou que ela cometesse erros aos estamos todos e todas sujeitos. A diferença é que os erros dos homens são encobertos, enquanto nas mulheres erros são inadmissíveis. Arrisco dizer que os homens da igreja com quem Frida conviveu ficaram como “aves carniceiras” no aguardo do banquete; eles ficaram à espreita, aguardando Frida cair. Ela caiu e eles se banquetearam.