4.1 Análise dos Temas
4.1.19 Incerteza do ambiente
A incerteza do ambiente foi apontada pelos gestores mais em relação ao volume de atendimento do que em relação às patologias, ou seja, na percepção dos entrevistados existe dificuldade fundamentalmente na previsão do momento e do porte da demanda, dado que a natureza da demanda poderia ser prevista, isso, pois, segundo o relato dos entrevistados, existem bancos de dados sobre o histórico de epidemias e o perfil epidemiológico da população.
Ainda assim, o hospital está sujeito a ocorrências inesperadas e que impactam em sua atividade. Portanto a incerteza do ambiente é decorrente do volume de atendimento e do momento de atendimento, impactando na necessidade de volume de recursos e trabalhos nos diferentes setores do hospital. Para os gestores a incerteza do ambiente impacta diretamente no trabalho de dimensionamento das atividades assistenciais e de apoio, dado
que em casos de imprevisibilidade e de urgência eles estariam sujeitos a decidir pela realocação de funcionários e recursos materiais.
Além das patologias e volume de atendimento, demandas pontuais dos pacientes são vistas como incerteza do ambiente pelos gestores. A percepção de cinco gestores é que a incerteza do ambiente impacta negativamente na OTG de longo prazo, ao passo que não é possível elaborar eficientemente e seguramente o planejamento, entretanto seis outros gestores acreditam que a incerteza do ambiente poderia impactar negativamente na OTG de longo prazo, mas sugerem que essa incerteza ambiental não seria tão diferente do que a incerteza de ambiente em outras atividades. Para esses últimos como o foco do hospital é o atendimento assistencial a incerteza ambiental teria que ser, e poderia ser, minimizada.
A importância dada a incerteza do ambiente corrobora com a visão de Hartman (2000 e 2005), e com a necessidade mais estudos relacionando a incerteza do ambiente com OTG (AGUIAR, 2009). Da mesma forma a literatura em gestão hospitalar relaciona a incerteza do ambiente com a dificuldade de gestão nos hospitais (BITTAR, 1997; LIMA- GONÇALVES, 2002; ROTTA, 2004; CAMPOS, AMARAL, 2007; LA FORGIA; COUTTOLENC, 2009).
“[...] aqui [apontando caixa da atividade no mapeamento de processo] é onde tem essa imprevisibilidade, incerteza, na caixinha do atendimento no cliente, o resto continua tudo igual, pode mudar o tempo, atrasar, ter novas demandas, mas tudo nessa caixinha, as outras áreas continuam igual, mas área da saúde é assim mesmo, falam sempre isso, que não dá para fazer por causa disso, mas gente é aqui só, o resto a gente consegue trabalhar normal, e toda imprevisibilidade a gente consegue contornar, você consegue mapear a imprevisibilidade.” (P2-G)
“então Diego tem de tudo, sai uma resolução da ANS, daí tem q envolver as pessoas que precisa para tratar aquelas questão, (...) a gente tem algum problema em algum equipamento, ai é uma questão interna, mas que remete a manutenção (...) questões vinculadas ao relacionamento do hospital com alguma operadora, faturou, glosou porque teve esse processo e a gente não está apontando isso, ai é uma questão de corrigir o processo de fechamento da conta, então tem de todo o que é lado[...].” (P4-G) “[...] eu acho que no ambiente de saúde a gente apaga muito incêndio, todo dia acontece um negócio, às vezes eu chego aqui e não tenho uma reunião marcada, mas meu dia enche num minutinho [...].” (P6-A)
“[...] comigo nunca aconteceu, eu sei que teve uma vez que explodiu uma caldeira que afetou muitos funcionários, então teve problema no hospital
todo, com medicamento, e teve com enxoval também, que tem hoje um estoque reduzido, que eu não posso ter muito mais do que eu uso.” (P9-G) “os problemas são mais ou menos os mesmos, mas nem todos dependem de um planejamento antecipado para que não aconteçam, por exemplo, tempo de espera na emergência, eu não tenho como prever que vai chegar muito paciente ou não, eu tenho uma séria histórica, mas tem dias que extrapolam essa serie histórica ... a: um paciente reclamando de alguma coisa no quarto, vai acontecer, eu não tenho como prever isso [...] é o que eu enxergo assim a diferença entre um hospital e uma indústria e uma produção é essa, como é que / a gente lida com pessoas com doenças, as coisas vão acontecendo [...].” (P11-G)
“no setor hospitalar o que acontece é sazonalidade, o que não implica em uma imprevisibilidade, em um hospital como o nosso não foi desenhado para enfrentar uma epidemia, e eu tenho a impressão que nenhum hospital o é, por exemplo, e entanto nós sabemos que nessa época do ano nós corremos o risco de ter uma epidemia de dengue por causa das chuvas e tudo mais, então fala quando vem a epidemia hoje eu não chamo de falta de previsibilidade, bem a falta de previsibilidade está em saber se vai haver ou não a epidemia, mas como já ela é recorrente anos a fio, o que nós fazemos é nos preparamos para nessa época do ano ter uma epidemia, a outra coisa há uma sazonalidade de doenças respiratórias no período da seca, como junho, julho que há pouca chuva, faz com que a gente tenha uma incidência de mais pessoas aqui procurando ajuda por problemas respiratórios, então. a gente se procura se planejar a elas, obviamente pode acontecer alguma coisa muito diferente, muito distinta, estamos falando do setor de saúde você pode ter um acidente alguma coisa ae, que faz com que toda sua estrutura tenha que ser focada em algum evento em prejuízo das demais que não são tão urgentes, mas eu diria que isso ocorre com a mesma freqüência que toda industria.” (P14-G)
“ [...] eu acho que uma coisa que a gente não conseguia controlar que era complicado era a demanda, basicamente a DEMANDA, então a gente tinha um constante problema de falta de leito, pronto socorro sempre alto.” (P15-E)