3 A DOPS-PR E A DELEGACIA REGIONAL DE FOZ DO IGUAÇU
3.2 A DOPS e a “questão argentina”
3.2.3 Incidente entre militares brasileiros e argentinos
Um dos casos que mais nos chamou a atenção foi o que sugere ter havido, no começo de 1942, um desentendimento entre autoridades brasileiras e argentinas na Tríplice Fronteira. Embora não seja um dossiê completo, acreditamos que é necessário fazer referência ao episódio.
O primeiro documento sobre o incidente não possui data, embora arquivado com anotações de seqüência dos documentos abaixo, trata-se de uma correspondência entre o delegado regional Melchiades do Valle e Fausto Bittencourt:
Uma hora hoje informado pelo gerente hotel chegada Porto Aguirre um contingente trinta praças seis oficiais vários caminhões novos comuniquei Capitão Comandante da Cia. de Fronteira tomou suas providencias estou esperando clarear dia mandar Sgt. Paredes outro lado afim verificar que há verdade resultado informarei vossencia vigilância vem sendo mantida medida possível havendo necessidade aumentar destacamento o oficial seguirá domingo avião Panair levará relatório peço mandar procurar aeroporto60.
O caso era tão peculiar que o delegado solicitou aumento de contingente e mandou um relatório por um enviado especial. Também o fato de se dirigir ao chefe de polícia e não ao delegado da DOPS, indica uma urgência na tomada de decisões. O documento que aparece numerado na seqüência deste anterior é de 7 de março de 1942:
A situação atual é resultante da imprudência dos oficiais da Cia. de Fronteira que recebiam ordens secretas do Comando da Região por intermédio da Cia. e no dia seguinte todos sabiam, inclusive o cônsul argentino. O Coronel Clodomiro Nogueira quando esteve aqui chegou a chamar telegraficamente um brasileiro Lanuri que reside em Barracão, lado Argentino nestes termos: venha urgente, despesas serão pagas pela Região. Ora, a polícia argentina que já estava informada de tudo pelo cônsul e este por cinco pessoas também argentinas que residiam no hotel Casino e observavam todos os passos do coronel passaram a vigiar aquele nosso patrício que seria ótimo elemento de informações. Logo depois disso os oficiais argentinos entraram em atividade e tem inspecionado toda a fronteira e mesmo procurado colher informações sobre os objetivos visados pelos nossos oficiais que também excursionaram pela fronteira abaixo até Santa Catarina61. (grifo nosso)
60
Telegrama s/n à Chefia de Polícia. 07/03/1942. Pront. 499b, Top: 55. “Subdivisão Policial de Foz do Iguaçu - SDP - (6º)”, DOPS-PR, Arquivo Público do Paraná.
61
Radiograma de Foz do Iguaçu s/n. 09/03/1942. Pront. 499b, Top: 55. “Subdivisão Policial de Foz do Iguaçu - SDP - (6º)”, DOPS-PR, Arquivo Público do Paraná.
Destacamos a frase “imprudência dos oficiais da Cia. de Fronteira” justamente porque temos afirmado haver discordância entre o delegado regional e o comandante militar em Foz do Iguaçu. Apenas para ressaltar, o delegado que escreveu a frase destacada é o mesmo que teve uma decisão contrariada pelo comandante em janeiro do mesmo ano no caso de Paulo Rockel, que analisaremos neste capítulo.
Na seqüência dos radiogramas, no dia 9 de março o delegado regional enviou o seguinte para o chefe de polícia:
Oficiais estiveram em Porto Aguirre já dispersaram uns inclusive comandante Gendarmeria destino Posadas outros Barracão provavelmente estes foram vistos por Dionízio. Soldados distribuídos constituindo destacamentos localidades longo do Rio Paraná abaixo. Nenhuma novidade62.
Na visita em que o delegado regional Glaucio Guiss, sucessor de Melchiades do Valle, fez à Posadas, e que analisaremos a seguir, um novo elemento foi acrescentado pelo cônsul brasileiro naquela cidade, Lucio Schiavo. Segundo esta informação, Schiavo havia denunciado aos militares que o cônsul argentino em Foz do Iguaçu estava efetuando operações financeiras no Rio de Janeiro para o cônsul alemão em Posadas. Conseqüentemente, os militares passaram a fazer uma censura às correspondências consulares:
Cumpre-me também comunicar a V. Excia., que o Cél. Orandi [Comandante da Gendarmería] no ano translato, antes da minha chegada nesta cidade, esteve em visita ao Cap. Moacyr Lopes de Rezende, no quartel da Cia de Fronteira, onde com os membros de sua comitiva e senhoras lhe foi servido um almoço. O motivo dessa viagem prendeu-se ao fato de que Eduardo Bianchi, Cônsul Argentino nesta cidade [Foz do Iguaçu], elemento puramente nazista, havia se queixado ao Cél. que sua correspondência oficial estava sendo violada.
Este pormenor me foi relatado pelo Snr. Lucio P. Schiavo, Cônsul Brasileiro em Posadas. Todavia, suponho eu que essa censura clandestina estava evidentemente sendo feita em virtude da denuncia que o Snr. Schiavo tinha feito contra Eduardo Biachi de que o mesmo mantinha estreitas relações suspeitas com o Cônsul Alemão em Posadas, acerca de remessa de dinheiro que esta possivelmente fazia a Biachi por intermédio de um dos Bancos do Rio de Janeiro63.
62
Radiograma de Foz do Iguaçu nº 23. [s/data]. Pront. 499b, Top: 55. “Subdivisão Policial de Foz do Iguaçu - SDP - (6º)”, DOPS-PR, Arquivo Público do Paraná.
63
Relatório (Secreto). 15/03/1943. Pront. 499b, Top: 55. “Subdivisão Policial de Foz do Iguaçu - SDP - (6º)”, DOPS-PR, Arquivo Público do Paraná.
Naquela altura da Segunda Guerra, era uma acusação grave e que deveria ser investigada. Comparando as datas, concluímos que a conversa do delegado com o cônsul se referia ao ocorrido de março de 1942. Neste período, avançavam as investigações sobre a espionagem à serviço do Eixo na América do Sul, e, o fato de fazer transações econômicas para o colega alemão, constituía uma grave acusação contra o cônsul argentino, uma vez que poderia ser utilizado no financiamento das redes de espionagem nazista no continente sul americano.
Só foi possível cruzar os dados porque o delegado regional de Foz do Iguaçu foi à Posadas acompanhando e discretamente investigando uma espiã nazista. Sobre a visita à Argentina faremos uma análise mais detalhada a seguir.