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Interrogatório de Paulo Rockel após rompimento do Brasil com o Eixo

3 A DOPS-PR E A DELEGACIA REGIONAL DE FOZ DO IGUAÇU

3.3 Vigilância aos indesejáveis até outubro de 1942

3.3.4 Interrogatório de Paulo Rockel após rompimento do Brasil com o Eixo

A principal forma de transmissão das notícias da Segunda Guerra Mundial foi o rádio. Por meio dele que muitos brasileiros ficaram sabendo, em tempo real, do rompimento das relações políticas e comerciais com a Alemanha, Itália e Japão em 28 de janeiro de 1942.

Em Foz do Iguaçu, algumas pessoas em uma pensão ouviram ao vivo o pronunciamento do Ministro Oswaldo Aranha. Dentre os hóspedes da pensão, havia um sargento, um cabo da Marinha, um policial e um professor. O professor se chamava Paulo Augusto Rockel, descendente de alemães que estava na cidade a passeio. Trabalhava no grupo escolar da Companhia Mate Larangeiras no município de Campanário (Mato Grosso). Havia sido premiado com a viagem à Tríplice Fronteira como reconhecimento aos serviços prestados naquele estado. Segundo ele, ao ouvir a notícia do rompimento com os países do Eixo, fez o seguinte comentário:

Eu, como brasileiro, sempre fiz votos pela prosperidade da minha Pátria, e sempre compreendi que a melhor posição da mesma, em face da presente guerra seria a mais estrita neutralidade. Recebendo, agora, a referida notícia, externei, perante os circunstantes, os meus sentimentos sobre o fato de o Brasil, como todos os países da América, ter rompido as relações com o Japão, a Alemanha e a Itália, pois que assim ficaria grandemente prejudicado em seu comércio. [...] Continuei, contudo, dando explicações sobre a situação interna da Alemanha, que bem conhecia, mediante cartas de lá recebidas e informações verbais de pessoas vindas de lá [...] confesso que demonstrei alguma inclinação ao povo alemão, de que descendo, sem, entretanto, desprezar a minha nacionalidade de brasileiro.101

Rockel, no dia seguinte foi conhecer as Cataratas do rio Iguaçu, principal motivo de sua viagem, e no outro dia foi procurado pelo policial que era colega de pensão, que lhe disse: “de ordem do Capitão Delegado Regional de Polícia, o senhor é intimado a comparecer diante dele”.

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Carta enviada ao Delegado Regional de Foz do Iguaçu. 20/02/1942. Pront. 3056, Top. 454, “Paulo Augusto Rockel”, DOPS-PR, Arquivo Público do Paraná. (Citações deste tópico serão com base neste documento.)

Pensei, então, que até podia ser bom eu ter uma palestra com esta autoridade. Ele deve ser um homem educado e talvez só queira me aconselhar a ser mais cauteloso com minhas palestras, em face da presente situação, conselho este que prontamente e de bom grado aceitaria.

O visitante assumiu anteriormente que havia discordado da posição adotada pelos diplomatas brasileiros frete ao conflito mundial e, na passagem acima, admite que poderia ser advertido pela forma a qual se expressou. Podemos observar, também, que a pessoa do delegado regional de polícia é colocada como detentora de um saber superior e capaz de compreender a situação de guerra, além de aconselhar os que não tivessem tal compreensão.

Logo me aprontei e fui, sendo esta a primeira vez em minha vida que fui escoltado por um policia [sic], feito criminoso [...]

Sem me mandar sentar, perguntou-me logo: “como é o seu nome?” – Paulo Augusto Rockel, respondi [...]

“De que nacionalidade? Continuou com voz militar. - Brasileira, respondi, em tom bem claro e positivo. Ele não o quis [sic] acreditar e perguntou: “Como?” - Mais alto e mais declaradamente respondi: - Brasileira. “De que descendência?”

- [...] meus pais são alemães. “Em que estado nasceu?” - Santa Catarina

“Em que cidade?” - Em São José

“Que profissão exerce em Campanário?” - Sou professor do Grupo Escolar

“Eu tive conhecimento de que o senhor procura subverter o governo brasileiro”.

Contrário ao tratamento que esperava receber do delegado, Rockel afirma que o interrogatório segue este modelo de perguntas e respostas até o momento em que uma de suas respostas foi “sendo de origem alemã, sou obrigado a respeitar meus pais e demais descendentes. ‘Basta isto!!’ exclamou triunfante, e escreveu alguma coisa no papel ordenando em seguida com voz militar ao policial que me apresentasse ao Comandante da Companhia de Fronteiras”.

O procedimento de encaminhar o acusado ao Comandante da Companhia nos leva a indagar se havia uma “subordinação” do delegado da polícia civil ao comandante militar. Provavelmente a Companhia possuía melhores condições para comunicação e transporte com a capital do estado caso fosse necessário enviar algum prisioneiro àquela cidade.

Rockel encontrou no comandante militar um tratamento diferente daquele recebido na sala do delegado e assim descreveu:

Na pessoa do comandante da Companhia de Fronteira, Cap. Moacir, achei uma alma generosa. Ele é o verdadeiro símbolo da brasilidade, pois, todo o bom brasileiro é delicado. Começou a sondar-me de longe e, convencendo-me de minha inocência, despediu-me honrosamente seguindo eu os meus caminhos aliviado.

O Delegado da Polícia, muito mal intencionado, com ódio infernal ao povo alemão e da sua prole, inda que nascida no Brasil, não se conformou com este procedimento justiceiro do Cap. Moacir e mandou-me avisar, [...] que eu me apresentasse a ele de novo, antes de embarcar. [...]

Desta passagem da carta de Rockel, podemos concluir que o delegado regional não ficou satisfeito com a decisão do comandante militar. A segunda vez que teve de apresentar-se ao delegado, o acusado foi fichado e teve sua ficha enviada para a DOPS em Curitiba.

Rockel foi liberado e teria ficado por isso se não fosse a carta que escreveu e enviou ao Delegado Regional de Foz do Iguaçu, e ao Comandante da Companhia de Fronteira. Em determinado momento na carta, o descendente de alemães acusava o delegado regional de ser “muito mal intencionado” e de cometer abuso de autoridade.

A acusação contra este delegado policial do interior do Paraná chegou às mãos do Chefe de Polícia do estado no dia 30 de março. Fausto Bittencourt chegou à seguinte conclusão sobre a pessoa de Rockel:

Manifestou-se francamente adepto da política do “eixo”, ao ouvir irradiações referentes à 3ª. Reunião de Consultas, que naquela ocasião se realizava. Detido pelo Capitão Delegado Regional, aquele cidadão se portou de forma acintosa, tendo, depois, ao retornar para campanário, enviado àquela autoridade uma carta com uma petulante descrição deturpada dos fatos ocorridos. Na carta como na descrição, o citado professor, a despeito de procurar se fazer de defensor da política do Presidente Vargas, deixa perceber nas entre-linhas o seu germanismo, chegando a aludir, na carta, a revanches próximas, usando a expressão: “Não procuro vingança porque sei que o tempo virá, e está próximo, em que a justiça de vingará, ela mesmo, contra a injustiça”. Outras expressões como esta, na carta e no relatório, levam-nos à convicção de estarmos em face a elemento perigoso para os interesses nacionais, e que não poderá, em absoluto, continuar lecionando.102

Quanto ao desfecho do caso, se houve afastamento do professor de sua função docente, ou se ele foi preso e condenado pelo TSN não foi possível apurar. Em sua pasta pessoal consta apenas os documentos citados neste tópico.

Podemos concluir que este caso só ficou arquivado porque Rockel teve a coragem, (talvez a ingenuidade) de aproveitar seus conhecimentos de leitura e escrita, e organizar suas idéias em um texto. Entretanto, esta atitude não era convencional, pois, a maioria das pessoas não escreviam sobre o que lhes ocorria, sobretudo porque sofreriam represálias. O professor, ao se expressar, denunciou como foi diferente o tratamento recebido na Delegacia e na Companhia de Fronteira. De fato, pesava três fatores contra ele: ser descendente de alemães, trabalhar para Companhia Mate Larangeiras, e ter feito comentário sobre a situação da Alemanha.

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Ofício 448/42. 30/03/1942. Pront. 3056, Top. 454, “Paulo Augusto Rockel”, DOPS-PR, Arquivo Público do Paraná.