1 INTRODUÇÃO
2.3 INCLUSÃO DIGITAL (ID): DA QUANTIDADE À QUALIDADE
A partir da discussão a respeito dos aspectos limitadores da expressão exclusão digital podemos agora dar continuidade à reflexão em andamento, tomando como objeto de análise crítica a idéia de inclusão digital. No entanto, é preciso reiterar que inclusão digital não é sinônimo, a priori, de inclusão social. Se a exclusão digital tem sido geralmente (mal) compreendida como o estado daqueles que não têm computador ou acesso à Internet, a inclusão digital tem sido, no mesmo sentido, apregoada como uma situação de posse de equipamento ou de acessibilidade, geralmente atrelada a números.
Divulgados pelo Comitê Gestor da Internet – Brasil, os resultados iniciais da 2ª Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil, a TIC DOMICÍLIOS 2006, revelam os seguintes índices:
Figura 12. Indicadores nacionais de Inclusão Digital. Fonte: CGI13
Em relação à inclusão digital, muito se tem falado sobre “quantos somos”, mas pouco sobre “como estamos”. Obviamente, não estamos afirmando que a pesquisa quantitativa não seja necessária ou desejável, mas sim que não pode prescindir de uma abordagem qualitativa que seja capaz de revelar aquilo que os números não conseguem exprimir por si sós. Dados quantitativos podem representar um ponto de partida, não o de chegada. Para ilustrar o “estado da arte” a respeito da referida problemática, citamos anteriormente como exemplos o Mapa da Exclusão Digital e o Relógio da Inclusão.
Existem ainda muitos outros conceitos de Inclusão Digital que revelam uma ênfase explícita na dimensão tecnológica em detrimento da dimensão humana. Sérgio Amadeu da
Silveira (2001, 2005) é um nome conhecido e respeitado na área de ID, devido a sua experiência profissional e cuja produção acadêmica é reconhecida como uma das pioneiras no âmbito nacional. Ao abordar os problemas decorrentes da exclusão social, o autor defende reiteradamente a importância do software livre como uma das condições básicas no processo de democratização do acesso à informação digitalizada. Apesar de sua inegável contribuição, algumas de suas colocações evidenciam concepções de exclusão e inclusão digital atreladas à posse, ao uso de computadores e ao acesso às redes telemáticas de comunicação, destacando- se a Internet.
Para responder tais indagações é indispensável decidir do que estamos falando quando empregamos o termo exclusão digital. Uma definição mínima passa pelo acesso ao computador e aos conhecimentos básicos para utilizá-lo. Atualmente, começa a existir um consenso que amplia a noção de exclusão digital e a vincula ao acesso à rede mundial de computadores. A idéia corrente é que um computador desconectado tem uma utilidade extremamente restrita na era da informação, acaba sendo utilizado quase como uma mera máquina de escrever. Existem inúmeras outras definições, mas nesta introdução o termo em questão será considerado como a exclusão do acesso à Internet. Portanto, a inclusão digital dependeria de alguns elementos, tais como, o computador, o telefone, o provimento de acesso e a formação básica em softwares aplicativos. (SILVEIRA, p.1, grifo nosso)
Ainda que a referida citação e outras do mesmo gênero possam ser encontradas nos textos do referido autor, o fato é que não seria lícito afirmar que no conjunto de sua obra não haja uma séria preocupação com a dimensão humana, responsável pelos cursos da utilização tecnológica. Nesse sentido, Silveira estabelece uma diferenciação entre as próprias noções de ID correntes, apontando para três focos distintos de abordagem:
Outro ponto relevante quando se discute a inclusão digital está na definição do seu foco principal. Em geral, podemos observar três focos distintos no discurso e nas propostas de inclusão. O primeiro, trabalha a inclusão digital voltada à ampliação da cidadania, buscando o discurso do direito de interagir e o direito a se comunicar através das redes informacionais. O segundo, focaliza o combate a exclusão digital como elemento voltado à inserção das camadas pauperizadas ao mercado de trabalho na era da informação. Assim, o foco da inclusão tem o seu epicentro na profissionalização e na capacitação. O terceiro, está voltado mais à educação. Reivindica a importância da formação sócio-cultural dos jovens, na sua formação e orientação diante do dilúvio informacional, no fomento de uma inteligência coletiva capaz de assegurar a inserção autônoma do país na sociedade informacional.
Não podemos, como muitos têm feito, tomar a parte pelo todo e deixar de destacar que o autor, antes de introduzir os conceitos de inclusão ou exclusão digital, geralmente utiliza a expressão “definição mínima”. Ademais, é muito bem conhecida sua longa discussão a respeito das políticas públicas na área, destacando-se o forte apelo à não rendição dos cidadãos aos monopólios tecnológicos e aos imperialismos digitais.
Em geral, a maioria dos programas de inclusão digital estão voltados apenas ao acesso à conexão, esquecendo que se trata de um passo inicial. Não é à toa que durante o início do século XXI visualizamos a proliferação de inúmeros projetos de
totens – computadores embutidos em caixas, quase sempre para uso em pé e sem nenhuma possibilidade de utilização de aplicativos, além do browser – como a grande saída para a inclusão digital. Estes projetos portavam uma concepção bem reduzida do que deveria ser o acesso à informática e à Internet.
Existem muitos autores que têm tentado superar a visão dicotômica a respeito do assunto, reconhecendo que a grande maioria das propostas conceituais estão ancoradas numa abordagem muito limitada do problema. Com vistas a esse propósito, Valente (2005), um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros na área de Tecnologia Educacional, nos apresenta uma advertência a respeito do conceito de inclusão digital:
As idéias de Paulo Freire se aplicam às concepções de inclusão de qualquer natureza – econômica, social, e particularmente com relação à digital. As ações de inclusão digital não podem estar restritas a somente prover acesso às TIC. Não basta disponibilizar as tecnologias para que as pessoas possam usá-las, Elas poderão aprender a manusear alguns softwares, porém não terão condições de se apropriar das TIC para promover as transformações necessárias na melhoria da qualidade de vida. (VALENTE, 2005, p.19)
De acordo com o autor, para que essa apropriação ocorra, o acesso à tecnologia deve ser acompanhado de ações educacionais. Professores e educadores devem criar as condições para que haja construção de conhecimento com relação aos aspectos técnicos, conteúdos disciplinares e também à resolução de problemas dos contextos dos aprendizes. No mesmo sentido, é preciso que as ações implementadas possam propiciar o envolvimento das pessoas em práticas comunitárias de aprendizagem no intuito de revelar os pensamentos e os sentimentos dos envolvidos e os potenciais que porventura possam ter sido negligenciados por elas próprias ou pela sociedade na qual se inserem.
Retomando a proposta de Warschauer, uma alternativa viável ao tratamento dicotômico da questão atinente ao processo de exclusão-inclusão digital seria uma mudança de foco, a partir de uma abordagem não determinista, para a necessária reflexão sobre a inclusão social. De fato, não podemos conceber a superação do problema da exclusão digital pela defesa ingênua da inclusão digital, uma vez que esta não se constitui num fim em si mesma, por apontar para a inclusão social. Como já vimos, esse não é um problema digital, mas analógico, razão pela qual a expressão inclusão digital revela-se problemática. Por outro lado, também não podemos sustentar uma relação de causa e efeito entre inclusão digital e inclusão social, uma vez que tal idéia reflete uma mentalidade fundamentada num entendimento superficial sobre o relacionamento entre as TICs e as múltiplas vertentes do desenvolvimento, já que se trata de um processo dialético. Se o acesso às TICs pode contribuir para a promoção da inclusão social, o fato é que sem esta também não pode haver o
acesso aos computadores e redes, uma vez que tal processo depende de um amplo projeto de sociedade que envolve as políticas públicas, a iniciativa privada e a sociedade civil.
Essa questão altamente complexa ultrapassa os limites desta etapa introdutória dedicada à desambiguação da terminologia utilizada no teor do discurso a respeito da problemática em foco. A rigor, ainda que vários sociólogos discutam com muita propriedade a questão da exclusão-inclusão social, devemos ressaltar que há aqueles que se opõem radicalmente à utilização de tal proposta conceitual14. Isto posto, passaremos, a seguir, à discussão sobre os modelos de acesso.