1 INTRODUÇÃO
2.4 MODELOS DE ACESSO: DOS EQUIPAMENTOS AOS LETRAMENTOS
De acordo com a reflexão em andamento, vimos que a exclusão digital é geralmente compreendida como uma situação abjeta a ser superada pela inclusão digital. No entanto, a maioria dos conceitos que são pertinentes às iniciativas de ID geralmente advogam modelos de acesso com ênfase nos equipamentos e/ou na conectividade que envolvem basicamente os recursos das telecomunicações como linha telefônica, antena de rádio, cabo coaxial, fibra ótica, satélite e as inovadoras redes sem fio, as WiFi15. Não obstante, tais abordagens têm-se revelado insuficientes para fazer frente aos desafios dessa complexa problemática, razão pela qual faz-se necessária uma séria reflexão a respeito das práticas sociais significativas que envolvem o uso das TICs para fins individuais e coletivos. Afastando-nos do enfoque bipolar, passaremos a tratar da questão a partir de uma outra perspectiva, a do letramento/alfabetismo. O analfabetismo, entendido como a condição de quem não sabe ler nem escrever, ainda se constitui num dos grandes desafios do mundo contemporâneo. Vocalizado como questão candente nos meios de comunicação de massa, na produção acadêmica, nos textos oficiais das políticas públicas e no próprio âmbito do senso comum, tal fenômeno permanece como um problema que reclama por soluções urgentes nos contornos das sociedades grafocêntricas, podendo-se afirmar que chega até mesmo a suscitar questionamentos no que diz respeito à sua importância para as sociedades ágrafas. No bojo dessa tão intensa discussão revelam-se os mais variados argumentos a favor da aprendizagem da lectoescrita que vão
14 Para diversos autores marxistas, o conceito de exclusão escamoteia o problema da desigualdade decorrente da
divisão de classes.
15 Uma Wireless LAN (WLAN) é uma rede local sem fio, abreviatura de “wireless fidelity” (fidelidade sem
desde as teses liberais que culpabilizam o analfabeto pelo problema do subdesenvolvimento à importância da alfabetização como emancipação humana, divisa tão cara a Paulo Freire.
Muito embora o problema do analfabetismo e as questões atreladas ao processo de alfabetização ainda não tenham sido superados – nem do ponto de vista prático e nem tampouco do teórico – , o fato é que estamos atravessando um momento histórico marcado por complexas transformações que instilam, por sua vez, novos desafios. Atualmente não basta mais apenas saber ler e escrever, pois exige-se que o sujeito alfabetizado faça uso decisivo da leitura e da escrita para atender às novas demandas sociais, ou como afirma Ribeiro (1999), apropriar-se de tal habilidade para incorporá-la na forma de atitudes que implicam aspectos comportamentais e valorativos.
De acordo com Soares (2002, p.20):
Antes, nosso problema era apenas o do “estado ou condição de analfabeto” – a enorme dimensão desse problema não nos permitia perceber esta outra realidade, o “estado ou condição de quem sabe ler ou escrever”, e por isso, o termo
analfabetismo nos bastava, o seu oposto – alfabetismo ou letramento – não nos
era necessário, porque só recentemente esse oposto tornou-se necessário, porque só recentemente passamos a enfrentar esta nova realidade social em que não basta apenas saber ler e escrever, é preciso também saber fazer uso do ler e do escrever, saber responder às exigências da leitura e de escrita que a sociedade faz continuamente – daí o recente surgimento do termo letramento.
O problema “do estado ou a condição de quem sabe ler ou escrever”, como se pode notar, transformou-se num objeto de estudo premente, relevante e provocativo. Portanto, torna-se necessária e desejável a investigação sobre os modos pelos quais as pessoas se apropriam e se inserem efetivamente nas práticas sociais que envolvem a leitura e a escrita, para além da concepção instrumental de alfabetização enquanto mera habilidade de codificação/decodificação em si. Em face do exposto, pode-se então justificar o esforço de inúmeros pesquisadores no intuito de compreender as novas questões atinentes a um fenômeno emergente: o alfabetismo ou letramento. A opção pelo emprego do termo alfabetismo nos contornos deste trabalho tem como referência norteadora a proposta conceitual de Magda Soares (2002, 2003). Além da referida autora, podemos ainda destacar os estudos de Kleiman (1995, 2003), Tfouni (1994), Oliveira (1995), Ribeiro (1999, 2003), Signorini (1995), Magalhães (1995), Matencio (1995), Ratto (1995) e Ferraro (2003) como contribuições fundamentais para o desenvolvimento de nossa reflexão.
De acordo com os autores supracitados, podemos estabelecer uma distinção entre os termos alfabetização e letramento. Em linhas gerais, o analfabetismo diz respeito à condição do analfabeto, aquele que não sabe ler nem escrever e, no mesmo campo semântico, podemos ainda fazer menção à palavra alfabetização, que, entendida em sentido estrito, diz respeito à
ação de alfabetizar ou tornar o indivíduo alfabetizado, isto é, capaz de ler e de escrever. Feitas as devidas distinções, notamos que existe um lapso conceitual em relação à caracterização da
condição daquele que aprendeu a ler e escrever, razão pela qual passou a comparecer com
freqüência na produção acadêmica os termos letramento e/ou alfabetismo. As origens da palavra letramento, tal qual a concebemos atualmente, é uma versão para a língua portuguesa do termo inglês literacy, que designa a condição de ser literate, ou do sujeito que é capaz de ler e escrever. Em português dispomos da palavra alfabetismo para designar a qualidade ou estado de alfabetizado, que, muito embora dicionarizada, não é usual, razão que talvez explique a criação do referido neologismo. Ademais, não há uma palavra correspondente à
literate, uma vez que a principal acepção de letrado diz respeito à erudição; o oposto de
analfabeto, alfabeto, denomina o abecedário e o significado de alfabetizado sugere, em sentido também estrito, o saber ler e escrever enquanto processo de decodificação/ codificação.
Podemos afirmar, então, que o termo alfabetização, se entendido em sentido estrito, difere substancialmente de letramento. O primeiro limita-se a circunscrever a aquisição individual da “tecnologia” do ler e escrever enquanto codificação-decodificação, ao passo que o segundo tenciona explicitar a dimensão social do “resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou indivíduo como conseqüência de ter-se apropriado da escrita.” (SOARES, 2003, p.18) Apesar de ser crescente a veiculação e a adoção do vocábulo letramento por parte de diversos pesquisadores, devemos esclarecer que existem autores que discordam radicalmente do termo no que diz respeito à versão para o português, ao significado e às intenções de emprego. Dentre eles, destacam-se a psicolingüista argentina Emilia Ferreiro (2003, 2006) e o renomado professor brasileiro Moacir Gadotti (2005). Para a primeira autora, que se recusa a utilizar o termo, a alfabetização constitui-se num processo, não num estado, razão pela qual admite que nem todos são igualmente alfabetizados para qualquer situação de uso da língua escrita. Em sua opinião, a melhor tradução para letramento seria cultura escrita e afirma que até pode aceitar a utilização de letramento em vez de alfabetização, mas não a coexistência dos dois termos. De acordo com sua argumentação, o significado de alfabetização é que mudou: “hoje, ser alfabetizado é transitar com eficiência e sem temor numa intrincada trama de práticas sociais ligadas à escrita. Alfabetizar é cada vez mais um trabalho difícil. Em muitos casos, mudou o próprio modo de ler e escrever.” (FERREIRO, 2003)
Gadotti, assim como Ferreiro, compreende o letramento como um “retrocesso conceitual”. Ao salientar o caráter abrangente do conceito de alfabetização proposto por Paulo
Freire, o autor assevera que o termo letramento corresponde a uma tentativa de esvaziar o caráter político da educação e da alfabetização e constitui-se numa posição ideológica que busca negar a tradição freireana. Tal juízo nos parece equivocado, uma vez que no próprio teor da argumentação sobre letramento encontramos nítidas manifestações de apreciação e respeito pelas contribuições de Paulo Freire.
O conceito de letramento começou a ser usado nos meios acadêmicos numa tentativa de separar os estudos sobre o “impacto social da escrita” (Kleiman, 1991) dos estudos sobre a alfabetização, cujas conotações escolares destacam as competências individuais no uso e na prática da escrita. Eximem-se dessas
conotações os sentidos que Paulo Freire atribui à alfabetização, que a vê como capaz de levar o analfabeto a organizar reflexivamente seu pensamento, desenvolver a consciência crítica, introduzi-lo num processo de democratização da cultura e de libertação (Freire, 1980). Porém, como veremos na próxima seção, esse sentido ficou restrito aos meios acadêmicos. (KLEIMAN, 1995, p.16,
grifo nosso)
Ainda que não concordemos in totum com os argumentos apresentados por ambos os autores16, e na impossibilidade de propormos um “meio-termo” a contento, optamos por utilizar o termo alfabetismo no teor deste trabalho. Ao colocarmos o termo alfabetização em contraposição a letramento, faremos a devida ressalva, utilizando-nos da expressão “concepção instrumental de alfabetização” ou “alfabetização entendida em sentido estrito.”
Apesar dos termos letramento e alfabetismo estarem atrelados à caracterização do estado oposto ao analfabetismo, faz-se necessário aqui um esclarecimento. Esse vocábulo surgiu da necessidade de se caracterizar um fenômeno complexo típico das sociedades contemporâneas, umas vez que as exigências sociais vão além da habilidade de saber ler e escrever. No entanto, o conceito também se estende, em certo sentido, aos próprios analfabetos, uma vez que estes não estão à margem das práticas sociais que envolvem os diversos usos da leitura e da escrita que caracterizam as sociedades tipicamente letradas. Um analfabeto pode ser considerado letrado por estar envolvido direta ou indiretamente na dinâmica das atividades cotidianas que envolvem as referidas práticas, ainda que não saiba ler ou escrever formalmente. O termo alfabetismo não se constitui exatamente no oposto do analfabetismo, uma vez que o inclui como uma de suas faces possíveis. Em suma, se o analfabetismo é condição de quem não sabe ler e escrever, o alfabetismo é a condição do sujeito letrado – alfabetizado ou não – entendido como aquele que está imerso nas práticas sociais que envolvem a lectoescrita nas sociedades contemporâneas.
16O texto de Gadotti foi inspirado numa das aulas do curso de pós-graduação da Faculdade de Educação da USP
por ocasião da apresentação de nosso projeto de pesquisa e veiculado via correio eletrônico na lista de discussão pública da disciplina ministrada pelo referido professor como uma crítica contundente à utilização da expressão “letramento digital”. O texto foi publicado na Revista Pátio e no site do Instituto Paulo Freire.
Apesar da relativa concordância em relação à pertinência do vocábulo, o consenso em torno de uma única definição de letramento é quase impossível, uma vez que se trata de um fenômeno altamente complexo. Soares (2002) ressalta que, apesar da imprecisão conceitual que envolve o termo, o que ocorre na realidade não é uma diversidade de conceitos, mas diversidade de ênfases na caracterização do referido fenômeno. Numa breve análise comparativa, podemos elencar, como sugere a autora, as contribuições de renomadas pesquisadoras na área.
Podemos definir hoje o letramento como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos. (KLEIMAN, 1995, p.19, grifo nosso)
[...] as práticas e eventos relacionados com uso, função e impacto social da escrita. (p.181)
A alfabetização refere-se à aquisição da escrita enquanto aprendizagem de habilidades para leitura, escrita e as chamadas práticas de linguagem. Isso é levado a efeito, em geral, por meio do processo de escolarização e, portanto, da instrução formal. A alfabetização pertence, assim, ao âmbito do individual. O letramento, por sua vez, focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição da escrita. Entre outros casos, procura estudar e descrever o que ocorre nas sociedades quando adotam um sistema de escritura de maneira restrita ou generalizada; procura ainda saber quais práticas psicossociais substituem as práticas “letradas” em sociedades ágrafas. (TFOUNI, 1995, p.9-10)
Ao analisarmos os conceitos propostos pelas autoras supracitadas, podemos então constatar ênfases distintas na elaboração dos referidos conceitos. Enquanto para Kleiman o letramento envolve as práticas de leitura e de escrita, os eventos nos quais elas ocorrem e seus possíveis impactos sociais, Tfouni confronta o caráter individual da alfabetização com o caráter social do letramento, colocando o foco de sua argumentação nas conseqüências sociais e históricas da introdução da escrita em uma dada sociedade. Em ambos os casos, no entanto, o núcleo conceitual não diz respeito à aquisição do sistema de escrita em si, isto é, à concepção instrumental de alfabetização.
Ainda em relação à conceituação de letramento, Magda Soares apresenta, a seu ver, uma proposta mais abrangente:
Embora mantendo esse foco nas práticas sociais de leitura e de escrita, este texto fundamenta-se numa concepção de letramento como sendo não as práticas de leitura e escrita, e/ou os eventos ou as conseqüências da escrita sobre a sociedade, mas, para além de tudo isso, o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de escrita, de quem participa de eventos em que a escrita é parte integrante da interação entre pessoas e do processo de interpretação dessa interação – os eventos de letramento. [...]
[...] letramento é, na argumentação desenvolvida neste texto, o estado ou condição de indivíduos ou de grupos de sociedades letradas que exercem efetivamente as
práticas sociais de leitura e de escrita, participam competentemente de eventos de letramento. (SOARES, 2002, p.145)
Apesar de entendermos que alfabetismo e letramento são sinônimos, em consonância com as premissas de Soares e com a escolha de Ribeiro (1999), preferimos utilizar o termo alfabetismo. Tal decisão se deve ao fato de ser o termo mais vernáculo e manter relação direta com as palavras alfabetização, analfabetismo, analfabeto e alfabetizado. A partir das contribuições das autoras supracitadas, passaremos à reflexão sobre o alfabetismo em sua pluralidade, em alfabetismos, ou mais especificamente num novo tipo, versão ou modalidade peculiar de alfabetismo, a saber: o alfabetismo digital.