Sob a direção do general José Antônio de Alencastro e Silva, a Telebrás decidiu, em meados da década de 1970, desenvolver no País uma central telefônica digital. O projeto da Central de Programa Armazenado (CPA) enfrentou oposição das multinacionais de telecomunicações, como Ericsson, Siemens, ITT-Standard e NEC. Até mesmo o Banco Mundial criticou o projeto, em relatório de 22 de junho de 1984:
Tentativas, desde meados dos anos 70, para desenvolver uma linha completa de centrais telefônicas digitais, desenhadas no Brasil (até agora, limitada a unidades de pequena capacidade), vão resultar em um atraso de pelo menos cinco anos na introdução dessa tecnologia e na conseqüente obtenção da redução de custos substanciais da rede. (DIAS; CORNILS, 2004, p. 100)
Desenvolvido no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás (CPqD), o programa, batizado de Trópico, levou 11 anos para ser concluído. Começou em 1973, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), no projeto Sistema de Comunicação (Siscom). Em 1976, conseguiram montar um primeiro protótipo funcional. No ano seguinte, 36 dos 60 técnicos da USP migraram para o CPqD e continuaram a desenvolver o sistema. A inauguração da primeira central Trópico R, fabricada pela Elebra, aconteceu em dezembro de 1984, no Lago Sul, em Brasília, com a presença do presidente João Baptista Figueiredo. No ano seguinte, foi iniciado o processo de industrialização das centrais.
A tecnologia nacional perdeu mercado com a privatização do Sistema Telebrás, em 1998. A principal preocupação do governo Fernando Henrique Cardoso, no que diz respeito à fabricação de equipamentos, foi atrair multinacionais para o País, sem se preocupar com pesquisa e desenvolvimento ou manutenção de tecnologia local. A obrigação de investimento em P&D imposta pela Lei de Informática, de 4,5% do faturamento, acabou fomentando o desenvolvimento de software para telecomunicações, no lugar de equipamentos. O Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) escreve software adotado em celulares da Motorola em todo o mundo. Com escritórios em Brasília e Manaus, o Instituto Nokia de Tecnologia trabalha com programas de código aberto para rodar em sua linha mundial de telefones inteligentes. Outra fabricante, a Nortel, criou no Brasil um sistema de gerência de redes ópticas usado por clientes nos Estados Unidos, Canadá e China, entre outros países. O desenvolvimento de equipamentos ficou relegado ao segundo plano.
Em 1999, o CPqD e a Promon formaram a Trópico S.A. Dois anos depois, a Cisco comprou 10% da participação na joint venture. Depois da privatização, a tecnologia perdeu mercado. O principal cliente da Trópico passou a ser a Telemar, operadora de capital nacional, devido ao acesso a financiamentos mais vantajosos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a tecnologia nacional. Em 1999, a americana Lucent Technologies comprou a Batik e Zetax, fabricantes brasileiras de centrais de comutação.
Surgida em 1979, a Asga, de Campinas, é uma sobrevivente. Ela havia sido criada para atuar em microeletrônica, setor destruído durante o governo Collor. “No lugar de
acabar com a reserva, acabou com o mercado”, lembrou José Ellis Ripper Filho54,
presidente da AsGa. A empresa se voltou então para equipamentos de acesso óptico. Com a crise que atingiu o mercado de telecomunicações em 2001, depois de as concessionárias de telefonia fixa terem antecipado suas metas de universalização, a saída encontrada pela AsGa foi se diversificar. A empresa criou novas unidades, como a AsGa Sistemas, especializada em software, e a AsGa Wireless, fabricante de links de rádio. Em 2004, a AsGa empregava 180 pessoas, com faturamento de R$ 42 milhões. No pico da antecipação de metas, chegou a faturar R$ 90 milhões. Um dos pioneiros da informática no Brasil (ele fez parte do grupo de estudantes que criou o primeiro computador brasileiro), Ripper defende que a Lei de Informática deveria incentivar mais o desenvolvimento de produtos, até como uma maneira de atrair fabricantes de semicondutores de volta ao Brasil. “Quando toda a especificação é feita lá fora, os fabricantes acabam importando kits para montagem no Brasil”, explicou o presidente da AsGa.
A indústria nacional não conseguiu se posicionar bem após a privatização, mas o País acabou se transformou em plataforma de exportação de celulares, mesmo com pouco valor agregado local. Em 2005, foram vendidos US$ 2,409 bilhões em telefones móveis ao exterior, crescimento de 227% sobre o ano anterior, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). “É um número importante”, afirmou Humberto Barbato55, diretor de Relações Internacionais da associação. “Os fabricantes de celulares,
vendo que as fábricas que se encontram no Leste Asiático estão muito sobrecarregadas, perceberam que a opção de produção seria o Brasil.”
54 Entrevista com o autor, nov. 2005. 55 Entrevista com o autor, nov. 2005.
Segundo Barbato, o Brasil é o país com custos menores para a produção de celulares depois do Leste Asiático. “Os fabricantes fizeram investimentos pesados, para atender a diversos mercados”, disse. “Com isso, vamos continuar por muito tempo sendo uma base de exportação de celulares para o mundo.” O principal mercado foram os Estados Unidos, que importaram US$ 787 milhões em telefones móveis. Em segundo lugar veio a Argentina, com US$ 565 milhões. Os celulares representaram 31% das exportações do setor eletroeletrônico em 2005. No ano anterior, essa participação havia sido de 14%. Em 2004, os fabricantes chegaram a reduzir as exportações para atender à demanda interna, maior que a esperada. Os investimentos para garantir capacidade de produção para exportar foram feitos entre o fim daquele ano e o começo de 2005. O Brasil vendeu ao exterior 10 milhões de telefones móveis em 2004, numa produção total de 42 milhões. No ano seguinte, foram 36 milhões para o mercado externo e 35 milhões para o interno. “As condições de logística são bastante favoráveis”, disse Barbato. “Dois dias depois, as peças importadas já são exportadas no celular. Se tivesse um valor agregado maior, poderia haver problema com o câmbio.” Como a maior parte dos componentes é importada, as exportações não sofrem com a valorização do real.
A Motorola anunciou em 2006 planos de expandir em 40% a capacidade de sua fábrica de Jaguariúna (SP). No segundo semestre de 2005, a unidade trabalhou com capacidade plena. Em 2004, a fábrica brasileira da Motorola exportava para a Argentina, Chile, Uruguai e Venezuela. Outros países latino-americanos eram atendidos por México e China. Em 2005, o Brasil passou a atender toda a América Latina, menos o México. Em 10 anos, a Motorola investiu US$ 500 milhões no País, a maior parte em Jaguariúna. Segundo dados da Secretaria do Comércio Exterior (Secex), a Motorola exportou US$ 1,035 bilhão
em 2005, o que representou aumento de 128% sobre 2004. A expectativa para 2006 é de crescer 50%. A Nokia ficou em segundo lugar na exportação de celulares, com US$ 1,019 bilhão, com um aumento de 251%. A empresa investiu mais de US$ 100 milhões em 2004 para aumentar sua capacidade produtiva no País.