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A versão de 2000 das Perspectivas para Ampliação e Modernização do Setor de Telecomunicações (Paste) previa que o País teria 16,5 milhões de assinantes de TV por assinatura em 2005 (ANATEL, 2000, p. 116). Nada disso. O Brasil chegou a 4,1 milhões de assinantes naquele ano, um quarto do previsto. Entre 2000 e 2003, o mercado ficou estagnado em cerca de 3,5 milhões de clientes. O crescimento entre 2004 e 2005 foi de 8,8% (ABTA, 2006). Enquanto que, em 2004, a TV paga estava presente em somente 9% das residências brasileiras, nos Estados Unidos a presença era 86% (TELEBRASIL, 2006).

Quadro 4. Evolução da base de assinantes de TV paga (em mil)

A estagnação do mercado coincidiu com a crise da maior empresa, a Net, que pertence à Globo. Em junho de 2004, a Net anunciou a proposta final para renegociação de sua dívida de R$ 1,5 bilhão e o acordo para entrada de um novo acionista, a mexicana Telmex, do bilionário mexicano Carlos Slim Helú. Posteriormente, a Telmex foi substituída pela sua controlada Embratel como sócia da Globo na Net. A TVA, segunda maior de TV a cabo, encerrou em 2003 um forte programa de ajuste e seu controlador, o Grupo Abril, foi a primeira empresa de mídia a atrair investidores estrangeiros, após a emenda constitucional que liberou a participação. Primeiro, em julho de 2004, vendeu 13,8% para fundos americanos de investimentos da Capital International, Inc. Depois, em maio de 2006, o grupo sul-africano Naspers adquiriu 30% do seu capital, incluindo a fatia da Capital International, por US$ 422 milhões (ABRIL, 2006). Em 2004, a Net e a TVA lançaram seus primeiros pacotes digitais. A Sky e a DirecTV sempre foram digitais. Com a digitalização, as empresas de cabo começaram a apostar no chamado triple play. Ou seja, oferecer ao cliente três serviços: telefonia, televisão e internet. Ao fim de 2005, as empresas de TV paga atendiam a 629,4 mil clientes de internet rápida (ABTA, 2006).

A recuperação do mercado também marcou o início do movimento de saída da Globo do mercado de distribuição de TV por assinatura, acompanhado de um fortalecimento de seu papel na venda de programação. Com a entrada da Embratel como sócia da Net, a participação da Globo no capital da empresa ficou em somente 36,9% das ações com direito a voto na companhia. A Embratel detém 62,4%. A lei determina que 51% do controle precisa estar nas mãos de investidores nacionais. Dessa forma, a Globo e a Embratel criaram a GB Empreendimentos e Participações, que tem 51% dos papéis com direito a voto da companhia. A Globo possui 51% da GB, fazendo com que, mesmo com

um volume menor de ações, continue sendo considerada, juridicamente, a controladora. A empresa admite que, caso a Lei do Cabo seja modificada, venderá o controle.

Quadro 5. Mercado de TV por assinatura

Fonte: Telebrasil (2006)

A participação da Globo também foi diluída na TV via satélite, com a fusão entre Sky e DirecTV, aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em 25 de maio de 2006. A empresa, que possuía 40,3% da Sky, acabou ficando com 28% da empresa combinada. No satélite não existe limitação ao capital estrangeiro, como no cabo. A fusão colocou 97% do mercado brasileiro de TV via satélite, ou 34% do mercado total, nas mãos de uma única companhia. O satélite é a única opção de TV paga disponível para 91% dos municípios brasileiros, que abrigam 46% da população (ANATEL, 2006).

A DirecTV Latin America estava concordatária, quando a News Corp., do australiano Rupert Murdoch, dono da Sky, comprou 34% da sua controladora Hughes por

US$ 6,6 bilhões, em 9 de abril de 2003, nos Estados Unidos. A negociação havia começado em 2000. A GM, dona da Hughes, exigiu de Murdoch um acordo por escrito, antes de a venda ser finalizada, em que todos os acionistas – Cisneros, Globo, Televisa, News Corp. e a própria Hughes – concordavam com a fusão entre Sky e DirecTV na América Latina. A grande dificuldade foi convencer a Globo e a Televisa a reduzirem seus poderes de controlar a programação, que permitia a eles vincularem a negociação do pacote de canais da TV a cabo com a da TV por satélite. No final, obtiveram poder de veto sobre conteúdo, desde que houvesse a concordância de um outro acionista. O poder de veto da Globo para conteúdo nacional caiu com a decisão do Cade. No impasse criado pelos sócios brasileiros e mexicanos, quase a DirecTV acabou nas mãos da concorrente Echostar (BACHELET, 2004, p. 232-244).

Uma semana depois da decisão sobre Sky e DirecTV, o Cade firmou um acordo com a Globosat, empresa da Globo que vende canais de TV por assinatura, para acabar com a exclusividade da empresa nos campeonatos de futebol. O acordo a obrigou a oferecer os canais SporTV 1 e 2 aos concorrentes, num pacote que também inclui o Globo News, GNT e Multishow. Na prática, a empresa saiu fortalecida, pois foi aberta para ela a possibilidade de atender aos 20% do mercado que ainda não atende. A Globosat conseguiu garantir seu direito de manter a atual exclusividade nos direitos esportivos até 2008 e, a partir daí, em dois ou três deles (MARQUES, 2006b).

Mesmo com a estratégia de abandonar a distribuição e se concentrar na programação, a Globo está, atualmente, no controle de empresas que, juntas, atendem a 71% dos assinantes de TV paga. A Sky/DirecTV tinha 1,392 milhão de assinantes em 2005 (34% do mercado) e a Net 1,540 milhão (37%) (NET, 2006). O cabo é a principal

tecnologia de TV paga, com 61% dos assinantes, seguido do satélite, com 35%, e do MMDS (microondas), com 4% (ABTA, 2006).

Quadro 6. Divisão da base de assinantes por tecnologia

Fonte: ABTA (2006)

A TV paga estreou no País com o Canal+, do Grupo Abril, lançado em 1989. Era um grupo de canais estrangeiros, codificados, distribuídos por UHF. O Canal+ deu origem à TVA, três anos depois. Em 1990, chegou a televisão por assinatura via satélite (banda C), da Globo, sob o nome GloboSat. Em 1994, a Net Brasil, da Globo, começou a operar mais de 22 sistemas de cabo, com parceiros locais. O serviço via satélite conhecido como Direct To Home (DTH) chegou ao País em 1996, com a Sky – que tinha a Globo como acionista, ao lado da News Corp., do australiano Rupert Murdoch – e a DirecTV – que tinha o Grupo Abril associado à americana Hughes e ao grupo venezuelano Cisneros. Operando na chamada banda Ku, o DTH tem mais capacidade e funciona com antenas menores que o serviço na banda C (DUARTE, 2005).