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Independência do Brasil e o Estado brasileiro

4 PODER E NORMA: ENTREGANDO REGRAS À SOCIEDADE

4.5 REVOLTAS LIBERAIS E O IMPÉRIO DO DIREITO

4.5.1 Independência do Brasil e o Estado brasileiro

No ano de 1822, sob o manto de ideias liberais, o Brasil teve declarado, por Dom Pedro I, às margens do riacho Ipiranga, o grito de independência, oficializando, assim, sua desvinculação de Portugal. Entretanto, a independência de fato só ocorreu com a retirada forçada das tropas portuguesa de território brasileiro, no dia 2 de julho de 1823, no recôncavo da Bahia. Ciente do reconhecimento do Brasil como novo país independente pela comunidade internacional, em 1825, Portugal reconheceu o Brasil como uma nova Nação. Estava, enfim, reconhecido o Brasil como Estado. De acordo com Fausto (1995 p. 145): “Isso ocorreu em [...] um tratado em que o Brasil concordou em compensar a Metrópole em 2 milhões de libras pela perda da antiga colônia e em não permitir a união de qualquer outra colônia com o Brasil.” O reconhecimento internacional do Brasil como país independente não foi de imediato. Os Estados Unidos, por exemplo, reconheceu no ano de 1824, antes mesmo de Portugal fazer o mesmo.

O reconhecimento do Brasil como uma nova nação consolidou, então, as condições necessárias para que esse novo Estado criasse seu direito interno, impondo limites à atuação de seus agentes e particulares, bem como estabelecendo direitos para todos. Entretanto, para a existência e o reconhecimento do direito, é condição necessária a sua imperatividade e coatividade, sua emanação de um poder soberano. É nesta discussão que entramos agora. O que é Estado? O que é Nação? O que é Poder Soberano?

Reis (2002, p. 39) assim define Estado: “A organização político-administrativo- jurídico do grupo social que ocupa um território fixo, possui um povo e está submetido a uma soberania.” A doutrina jurídica pátria não é unânime na definição do que seja o Estado brasileiro, pois o define da seguinte forma, nas palavras de Marinela (2012, p. 14): “Pessoa jurídica territorial soberana; é uma organização politicamente organizada, dotada de personalidade jurídica própria, sob pessoa jurídica de direito público, que contêm seus elementos e três poderes.” Para Moraes (2009, p. 3) o Estado é:

Forma histórica de organização jurídica limitada a um determinado território e com população definida e dotado de soberania, que em termos gerais e no

sentido moderno, configura-se em um poder supremo no plano interno e num poder independente no plano internacional.

Para Alexandrino e Vicente (2012, p. 13): “Estado é pessoa jurídica territorial soberana, formada pelos elementos povo, território e governo soberano.” Já Nader (2007, p. 130) define Estado como “Um complexo político, social e jurídico, que envolve a administração de uma sociedade estabelecida em caráter permanente em um território e dotada de poder autônomo”.

Das definições apresentadas, percebe-se que o conceito de Estado repousa principalmente sobre duas características fundamentais: a ideia de território fixo, dominado por um poder soberano. Sobre o território, Reis (2002, p. 39) afirma:

O território abrange, de forma simplória, algumas partes componentes tais como: o solo, o subsolo, o espaço aéreo, o mar territorial, a plataforma submarina, navios e aeronaves de guerra (em qualquer lugar do planeta, incluindo o território estatal estrangeiro), navios mercantes e aviões comerciais (no espaço livre, ou seja, nas áreas internacionais não pertencentes a nenhum Estado soberano).

A doutrina penal brasileira adota esse mesmo conceito, como constatamos na definição apresentada por Greco (2012, p. 13):

O conceito de território nacional em sentido jurídico deve ser entendido como âmbito espacial sujeito ao poder soberano do Estado. “O território nacional – efetivo ou real – compreende: a superfície terrestre (solo e subsolo), às águas territoriais (fluviais, lacustres e marítimas) e o espaço aéreo correspondente”. Entende-se ainda, como sendo território nacional – por extensão ou flutuante – as embarcações e as aeronaves, por força de uma ficção jurídica. Em sentido estrito, território abrange solo (e subsolo) contínuo e com limites reconhecidos, águas interiores, mar territorial (plataforma continental e respectivo espaço aéreo).

Esta doutrina tem como fundamento o artigo 5º do Código Penal Brasileiro, que diz:

Art. 5º - Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no território nacional (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 1984).

§ 1º - Para os efeitos penais, consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e aeronaves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem, bem como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, que se achem, respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em alto-mar (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 1984).

§ 2º - É também aplicável à lei brasileira aos crimes praticados a bordo de aeronaves ou embarcações estrangeiras de propriedade privada, achando-se aquelas em pouso no território nacional ou em voo no espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar territorial do Brasil (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 1984). (BRASIL, 1940).

A par da insuficiência de conceito para definir o que é o Estado brasileiro, a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) define-o, em seu artigo primeiro, como:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

I - a soberania; II - a cidadania;

III - a dignidade da pessoa humana;

IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político.

No direito privado, adotando a técnica aceita pela norma constitucional, o art. 41 do Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002) diz o seguinte:

Art. 41. São pessoas jurídicas de direito público interno: I - a União;

II - os Estados, o Distrito Federal e os Territórios; III - os Municípios;

IV - as autarquias, inclusive as associações públicas; (Redação dada pela Lei nº 11.107, de 2005);

V - as demais entidades de caráter público criadas por lei.

Da definição apresentada acima, o Estado brasileiro é o resultado da união dos seguintes elementos: território, povo e poder soberano. O território é representado por toda a estrutura exposta acima; o povo é definido por Reis (2002, p. 39) como o somatório de nacionais no solo pátrio e no exterior. E soberania, como define o mesmo autor:

Traduz-se no elemento abstrato, de matiz político, que permite, em última análise, a indispensável concreção aos denominados elementos perceptível (povo e território), viabilizando o Estado como inexorável realidade efetiva (vinculação político-jurídica). (REIS, 2002, p. 40).

Moraes (2009, p. 21) apresenta a seguinte significação de soberania:

Um poder político e independente, entendendo-se por poder supremo aquele que não está limitado por nenhum outro na ordem interna e por poder

independente aquele que, na sociedade internacional, não tem de acatar regras que não sejam voluntariamente aceitas e estar em pé de igualdade com os poderes supremos dos outros povos.

Percebemos, portanto, que o Estado brasileiro não se resume a um poder central, que está no topo da estrutura organizativa da administração. Ao contrário, é uma República Federativa com um poder político central que representa a soberania do Estado e está nas mãos da União, e é o foco dos poderes regionais, representados pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, que possuem poderes autônomos exercidos de forma democrática.

No dizer de Reis (2002, p. 49):

A soberania na qualidade de poder institucionalizante, que, desta feita, constitui o próprio Estado, possui, dentre outros, quatro atributos básicos: a) poder originário (à medida que surge com o próprio Estado); b) poder indivisível (apenas o exercício do poder é que é divisível); c) poder inalienável (pois emana diretamente do povo) e d) poder coercitivo (à medida que baixa normas e obriga o seu cumprimento).

Foucault (2016, p. 14) assim conceitua soberania: “O poder é aquele, concreto, que todo indivíduo detém e que viria a ceder total ou parcialmente, para constituir um poder, uma soberania política.” O autor, além de titular esse conceito de “jurídico-político de soberania”, aconselha-nos a abandoná-lo. No entanto, embora muitas vezes ele tente excluí-lo de suas análises, é dele que se utiliza majoritariamente em suas obras como único modelo de soberania, mesmo porque não apresenta outro que melhor explique a sua teoria do poder político. A princípio parece ser esta uma definição de poder, o que não é de todo errado. Na teoria de Foucault, o poder como abordado neste capítulo, “poder político”, é o elemento definidor e justificador da soberania. Definidor, porque a soberania é algo abstrato, mas justificado pela concessão de direitos. O filósofo e historiador afirma, sobre a teoria da soberania:

Parece-me que a teoria da soberania, se confere no início, uma multiplicidade de poderes que não são poderes, no sentido político do termo, mas são capacidades, possibilidades, potências, e que a ela só pode construí- los como poderes no sentido político do termo, com a condição de ter, entrementes, estabelecido entre as possibilidades e os poderes, um momento de unidade fundamental e fundadora que é a unidade do poder. Que essa unidade do poder assuma a fisionomia do monarca ou a forma do Estado pouco importa; é dessa unidade do poder que vão derivar as diferentes formas, os aspectos, e instituições do poder. (FOUCAULT, 2016, p. 37).

Para melhor entendimento, é conveniente observar que Foucault, diversas vezes, quando cita a soberania, a refere como unidade de poder e não como poder. Assim, a soberania é única; as outras formas de exercício de poder político-administrativo fundamentam-se nela.

Outra questão que nos interessa é a diferenciação entre povo e nação. Observamos que o Estado tem como elementos que o integram: um determinado povo, ocupando um território sob a chefia de um poder soberano. A distinção entre povo e nação é apresentada por Nader (2007, p. 131), ao argumentar:

Denomina-se povo aos habitantes de um território, considerados do ponto de vista jurídico, como indivíduos subordinados a determinadas leis, e que podem apresentar nacionalidade, religião e ideias diferentes. Nação é uma sociedade formada por indivíduos que se identificam por alguns elementos em comum, como a origem, língua, religião, ética, cultura, e sentem-se unidos pelas mesmas aspirações. Enquanto que o povo se forma pela simples união de indivíduos que habitam uma mesma região e se subordinam a soberania do Estado, a nação corresponde a uma coletividade de indivíduos irmanados pelo sentimento de amor a pátria. Essa coesão decorre de um longo processo histórico [...] povo é uma entidade jurídica e uma nação uma entidade moral.

Esta definição é aceita por toda a doutrina jurídica, a exemplo de Reis (2002, p. 35), que afirma:

Nação deriva do verbo latino nascere, referindo-se, portanto, ao conjunto de pessoas de mesma origem racial. É unidade étnica, herança histórica, e

destino comum de um mesmo grupo social, muito embora,

contemporaneamente, como já afirmamos, seu sentido específico seja mais elástico para abranger qualquer vínculo (ou vários deles) em comuns, tais como: raça, religião, credo, língua, etc.

Percebemos que o conceito de povo é mais restrito que o de nação. Enquanto o povo tem que estar em determinado território, submetido a um determinado poder, a nação pode estar em qualquer território, submetida a quaisquer poderes. Apesar dessa distinção, os dois estão unidos por um espírito de nacionalidade. Dessa forma, podemos falar do povo brasileiro quando nos referimos àqueles que habitam o território brasileiro, mas usamos a expressão nação brasileira para nos referirmos aos conjuntos de pessoas de nacionalidade brasileira que vivem em qualquer lugar do mundo.