II. SEGUNDA PARTE: A RECEPÇÃO DO INTELIGÍVEL E O ESTATUTO DA IMAGEM SENSÍVEL
3. A natureza da matéria e a sua impassibilidade no tratado III 6 (26)
3.3. Indeterminação da matéria e impassibilidade
O tratado III 6 (26) declara a matéria como incorpórea e, a partir dessa afirmação, indaga acerca da sua passibilidade ou impassibilidade, já que os incorpóreos inteligíveis são
de outro modo, deve-se investigar também a seu respeito, de que modo ela é, caso seja passível, como se diz, modificável de acordo com todas as coisas, ou se também ela deve ser concebida como impassível e qual é o modo de sua impassibilidade.” (III 6 (26), 6, 3-7 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]:e)pei\ de\ kai\ h( u(/lh e(/n ti tw=n a)swma/twn, ei¹ kai\ a)/llon tro/pon,
skepte/on kai\ peri\ tau/thj ti/na tro/pon e)/xei, po/tera paqhth/, w(j le/getai, kai\ kata\ pa/nta trepth/, h)\ kai\ tau/thn dei= a)paqh= eiÅnai oiÃesqai, kai\ ti/j o( tro/poj th=j a)paqei/aj.). A tese da impassibilidade da matéria apresentada no tratado III 6 (26) é sustentada
inicialmente pela afirmação de sua incorporeidade, pois todos os corpos são passíveis e, caso a
matéria fosse um corpo, só poderia ser passível, como se afirma no passo a seguir: “Deve-se dizer
ainda que o corpo é de um tamanho determinado e é uma magnitude, mas naquilo que não é magnitude não ocorrem as afecções da magnitude e, de modo geral, tampouco se originam naquilo que não é corpo as afecções do corpo; assim, todos que fazem a matéria passível devem
concordar também que ela seja corpo.” (III 6 (26), 12, 53-57 [trad. BARACAT JÚNIOR, J.
C.]:e)/ti lekte/on toso/nde ga\r eiÅnai kai\ me/geqoj eiÅnai, t%= de\ mh\ mege/qei ou)de\ ta\
mege/qouj pa/qh e)ggi/gnesqai kai\ o(/lwj dh\ t%= mh\ sw/mati mhde\ ta\ sw/matoj pa/qh gi/gnesqai: w(/ste o(/soi paqhth\n poiou=si kai\ sw=ma sugxwrei/twsan au)th\n eiÅnai.).
Assim, a condição para que a matéria seja impassível é que deve ser um incorpóreo e a demonstração de sua incorporeidade é uma exigência a ser cumprida na demonstração de sua impassibilidade. A demonstração da incorporeidade da matéria, por sua vez, requer a demonstração da sua indeterminação, pois como todos os corpos são constituídos de matéria e forma, são determinados em função desta última. Resta à matéria a condição de incorpóreo indeterminado, destituída das características próprias da forma e também do composto.
Em sua defesa da indeterminação e incorporeidade da matéria, Plotino se mostra um exegeta das doutrinas de Platão expostas no Timeu328, mas assimila profundamente o ponto de
328
No Timeu, Platão afirma que a relação entre os seres inteligíveis e os sensíveis deve ser compreendida em termos de modelo e imagem. A função de receptáculo só pode ser desempenhada pela causa errante se esta for destituída de quaisquer características. Platão elimina então todas as determinações qualitativas, mantendo apenas uma determinação quantitativa, a extensão ou espacialidade (xw/ra, na medida em que a sua função é a de propiciar um lugar (to/poj para as imagens das formas. Ao ser destituído de todas as características e por manter-se sempre idêntico a si mesmo, sem assumir definitivamente nada daquilo que entra nele, o receptáculo pode ser considerado como capaz de receber tudo. A ausência de características próprias é que permite ao receptáculo refletir o que entra nele da maneira mais fiel possível, o que não ocorreria caso tivesse alguma determinação inerente, pois esta necessariamente deformaria aquilo que se reflete (Timeu 50).
vista de Aristóteles acerca da indeterminação da matéria329. Com relação aos estoicos330, Plotino se mostra principalmente um crítico da identificação entre matéria e corpo e, em seu diálogo com alguns médio-platônicos331, como Plutarco332, Plotino discute e rejeita as suas interpretações do
Timeu. A respeito da natureza da matéria, no tratado II 4 (12) encontram-se os principais
argumentos que sustentam que não possui qualquer tipo de determinação, que é desprovida de
329
O Estagirita inscreve a sua reflexão sobre a u(/lhno âmbito da tradição platônica e distingue também dois tipos de matéria: a inteligível e a sensível. Essa distinção aparece em Met. 10, 1036 a9-12 (trad. REALE, G.): “E existe uma matéria sensível e uma inteligível (u(/lh de\ h( me\n ai¹sqhth/ e)stin h( de\ nohth/); a sensível é, por exemplo, o bronze ou a madeira ou tudo o que é suscetível de movimento; a inteligível é, ao contrário, a que está presente nos seres sensíveis mas não enquanto sensíveis, como os entes matemáticos.” Em outro passo, em Met. H 6, 1045 a 33ss (trad. REALE, G.), aparece novamente a distinção, mas com significado distinto: “E existem dois tipos de matéria: uma inteligível e a outra sensível, e uma parte da definição é sempre matéria e a outra ato: por exemplo, o círculo é
definido como figura plana.” Os dois passos citados mostram as duas definições aristotélicas de matéria inteligível.
O primeiro a define como o espaço matemático abstraído dos seres sensíveis; no segundo passo, a matéria inteligível é concebida como o gênero de uma definição. Há uma grande afinidade entre a matéria plotiniana e a concepção
aristotélica de matéria, em função de nesta não haver qualquer determinação qualitativa e quantitativa: “Chamo
matéria aquilo que, por si, não é nem algo determinado, nem uma quantidade nem qualquer outra das determinações do ser. Existe, de fato, alguma coisa da qual cada uma dessas determinações é predicada: alguma coisa cujo ser é diferente do ser de cada uma das categorias. Todas as outras categorias, com efeito, são predicadas da substância e esta, por sua vez, é predicada da matéria. Assim, este termo, por si, não é nem algo determinado, nem quantidade nem qualquer outra categoria: e não é nem sequer as negações destas, porque as negações só existem de modo
acidental” (Met. Z 3, 1029 a 20-27, trad. REALE, G.). A ausência de determinações da matéria permite a Aristóteles
declarar a matéria como incognoscível (Met. Z 10, 1036 a 8-9).
330 Os estoicos também contribuíram para o desenvolvimento de uma concepção de matéria e diferiram tanto do
ponto de vista platônico quanto do aristotélico. Para Zenon e seus discípulos, a matéria é um corpo () ou
substância destituída de qualidades (h( a)/poioj ou)si/a(S.V.F. II, 313) passivo (to\ pa/sxon S.V.F. II, 300), inengendrado e incorruptível (S.V.F. II, 408) e configurado pela atuação do lo/goj, considerado um corpo dotado de qualidades e ativo (to\ poiou=nque a penetra e forma com ela um todo coeso e unitário, sendo isso possível em função da mistura total (kra=sij) ou penetrabilidade (S.V.F. II, 481) dos corpos. Plotino se separa dos estoicos em quase todos os aspectos da concepção destes de matéria, mas mantém em comum com eles a noção de uma matéria destituída de qualidades e dotada de unidade (S.V. F. I, 88 e II, 533). Tanto a afirmação da corporeidade quanto da passibilidade da matéria são contrárias ao ensinamento plotiniano exposto em III 6 (26), embora haja ambiguidade em relação a este último aspecto, nas Enéadas.
331 Thévenaz (1938, p. 109) afirma a respeito da presença do aristotelismo no médio-platonismo: “L’aristotélisme, en fixant définitivement une certaine vue sur la matière, avait rendu dès lors impossible l’acceptation pure et simple des
théories du Timée”.
332 A interpretação do Timeu elaborada por Plutarco, principalmente no que diz respeito à alma, ao devir e à matéria,
foi estudada por Thévenaz (1938, p. 108-118). Segundo esse intérprete (p. 108), o ponto de vista de Plutarco a respeito da matéria permaneceu flutuante, pois no De animae procreatione a matéria é concebida como destituída de qualidade e absolutamente passiva, sem capacidade de atuar como causa de algo; no de De Iside et Osiride, a matéria aparece como um elemento receptivo, mas com certas características e tendências, como por exemplo, o desejo por Deus, o que evidencia uma certa aproximação ao pensamento de Aristóteles, já que a matéria, para este último, deseja a forma. Os dois tratados anteriores rejeitam considerar a matéria como o mal, mas no livro De defectu
oraculorum, a matéria aparece como privação e causa do mal, o que parece antecipar a posição de Plotino. Thévenaz
(1938, p. 109) atribui essa flutuação de Plutarco aos múltiplos problemas filosóficos e religiosos tratados em diferentes contextos, nem sempre de maneira sistemática, o que dificultou a sua elaboração de uma teoria unificada da matéria. Segundo o citado intérprete (1938, p. 110-113), Plutarco assimila a teoria platônica, estoica e aristotélica de matéria, adotando como núcleo central a sua ausência de forma (a)/morfoje oscilando entre uma total ausência de qualidades e uma matéria informe, mas corpórea.
qualidade (a)/poioj quantidade (a)me/getej e que, em última instância, coincide com a própria privação (ste/rhsije, por isso, incognoscível, feiúra absoluta e o mal em si.
Plotino, em decorrência da absoluta indeterminação da matéria, afirma que esta é una (mi/a), contínua (sunexh/j)333 e sem qualidades (a)/poioj) (II 4 (12), 8, 1-2)334. Tais definições parecem aproximá-la perigosamente do Uno e dificultar qualquer tipo de distinção entre os dois. A simplicidade da matéria é afirmada em função da ausência de quaisquer determinações formais presentes nela, o que implica dizer que a sua simplicidade e unidade decorrem do seu distanciamento da forma. Como a forma é princípio de distinção entre os seres e está presente em um substrato, não haveria sentido em se dizer que a matéria é composta. A unidade da matéria é sinônima da sua indefinição e ilimitação e, desse modo, representa uma negação absoluta em relação ao Uno, cuja unidade transcende a forma, mas não traz consigo qualquer dispersão. A matéria é tendência indefinida ao mais e ao menos, e, por isso, indefinida sem qualquer positividade, pois sua simplicidade é ausência de perfeição e poder. Breton (1993, p. 79-80)
interpreta a continuidade e unidade da matéria no sentido de ser um “subjacente universal”, ou
seja, matéria da totalidade do sensível e não uma matéria particular. É nesse sentido que Narbonne (1993, p. 161-162) aborda a questão, ao afirmar que é una em função de ser o substrato único dos corpos. Importante salientar que a continuidade da matéria é a condição para que os corpos existam, pois Plotino endereça uma crítica aos atomistas procurando mostrar que a descontinuidade dos átomos representaria um impedimento para a formação dos corpos, como já vimos na seção sobre a Alma.
Uma vez considerada a simplicidade da matéria no tratado II 4 (12), Plotino aborda separadamente as duas determinações mais gerais dos corpos, a quantidade e a qualidade, e procura demonstrar que não são possuídas de modo inerente pelo substrato último material. A matéria deve ser concebida em sentido absoluto, como matéria de todos os corpos e, então, não pode possuir em si nenhuma das características presentes nos seres sensíveis (II 4 (12), 8, 1-10). Para Plotino, atributos como a cor, o calor, a frieza, o peso, a densidade, a magnitude ou mesmo a figura, não são algo que pertença à natureza da matéria e não podem ser predicados dela, pois a tornariam matéria deste ou daquele corpo, mas não de todos os corpos. A matéria pode receber essas características, mas não pode ser identificada com elas. Todas essas determinações devem
333 É difícil entender como a matéria possa ser contínua antes de receber suas determinações quantitativas. 334 A afirmação da unidade da matéria também está presente no passo III 6 (26), 9, 37.
vir a ela de algum outro ser e ela só poderá recebê-las na medida em que não se identificar com nenhuma, o que indica a sua condição de receptáculo da forma, capaz de acolher a todas. A respeito dessa questão, o tratado III 6 (26) é bastante claro, pois caso a matéria pudesse ser afetada pelas coisas que nela entram e saem, deixaria de ser a matéria de todos os corpos para se tornar uma matéria particular e teria comprometida a sua própria existência:
Então, se a matéria é afectada, deve receber algo da afecção, seja a própria afecção, seja uma disposição distinta da que tinha antes que nela penetrasse a afecção. Por conseguinte, sobrevindo-lhe uma outra qualidade depois daquela, aquele que a recebe já não será matéria, mas matéria de certa qualidade. E se também essa qualidade é retirada depois de ter deixado um traço de si mesma como resultado de sua ação, o substrato se modificará mais ainda. E prosseguindo desse modo, o substrato se tornará outra coisa distinta da matéria, um substrato multifacetado e multiforme; assim, também não será onirreceptivo ao converter-se em obstáculo para as muitas coisas que tratam de entrar, e a matéria já não permanece: não será, portanto, imperecível; assim, se a matéria deve existir, como existia desde o princípio, dessa forma é preciso que ela seja sempre a mesma; assim, dizer que a matéria se altera equivale a renunciar a preservá-la como matéria.
III 6 (26), 10, 1-13 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: )/Epeita, ei¹ pa/sxei h( u(/lh, dei= ti e)/xein au)th\n e)k tou= pa/qouj h)\ au)to\ to\ pa/qoj h)\ e(te/rwj diakei=sqai h)\ tri\n ei¹selqei=n ei¹j au)th\n to\ pa/qoj. e)piou/shj toi/nun a)/llhj met’ e)kei/nhn poio/thtoj ou)ke/ti u(/lh e)/stai to\ dexo/menon, a)lla\ poia\ u(/lh. ei¹ de\ kai\ au(/th h( poio/thj a)postai/h katalipou=sa/ ti au)th=j t%= poih=sai, a)/llo a)\n e)/ti ma=llon gi/gnoito to\ u(pokei/menon. kai\ proiou=sa tou=ton to\n tro/pon a)/llo ti h)\ u(/lh e)/stai to\ u(pokei/menon, polu/tropon de\ kai\ polueide/j: w(/ste ou)d’ a)\n e)/ti pandexe\j ge/noito e)mpo/dion polloi=j toi=j e)peisiou=si gigno/menon, h(/ te u(/lh ou)ke/ti me/nei: ou¹de\ a)/fqartoj toi/nun: w(/ste, ei¹ dei= u(/lhn eiånai, w(/sper e)c a)rxh=j hÕn, ou(/twj a)ei\ dei= au)th\n eiånai th\n au)th/n: w(j to/ ge a)lloiou=sqai le/gein ou)k e)/stin au)th\n u(/lhn throu/ntwn. A ausência de afecção da matéria é fundamental para preservá-la e para que desempenhe continuamente o seu papel de receptáculo de todas as imagens das formas. Admitir que o que entra nela possa afetá-la, significaria admitir que se transforma continuamente de acordo com o que acolhe e que mantém um traço disso que recebe a cada vez que nela entram, o que implicaria transformá-la em uma matéria determinada e, portanto, incapaz de ser um receptáculo universal. A afecção da matéria implicaria também que, ao deixar de ser o que é, matéria indeterminada, simplesmente pereça por ter sido afetada pela imagem da forma que
recebe. Dessa maneira, a sua função cosmológica exige que a matéria não possa ser determinada de modo inerente, nem tampouco que possa vir a sê-lo realmente.
Plotino, nos capítulos 8 a 12 do tratado, desenvolve uma série de argumentos para mostrar que a matéria não é quantidade nem massa. De acordo com Plotino, caso a matéria fosse inerentemente dotada de uma determinação quantitativa, as coisas transmitidas a ela deveriam se adequar a tal magnitude335 e não o contrário, a matéria à magnitude transmitida pela forma336, pois segundo o filósofo alexandrino, é o doador da forma que deve sujeitar a matéria em função de sua precedência ontológica (II 4 (12), 8, 18-21). Tal argumentação procura mostrar que a matéria precisa estar livre de qualquer determinação quantitativa para poder recebê-la de um
lógos ou razão e caso tivesse uma determinação prévia, isso a tornaria resistente aos princípios
que nela atuam. Plotino a considera completamente dúctil e esse ponto de vista é repetido nos capítulos 15 a 18 do tratado III 6 (26), pois aí se afirma que a forma aporta todas as determinações quantitativas à matéria, o que mostra que o fato da matéria assumir a quantidade de acordo com os lógoi não implica incompatibilidade com a sua impassibilidade. A afirmação, porém, de que o produtor faz exatamente o que quer com a matéria (II 4 (12), 8, 19-21), parece implicar uma dificuldade, pois no tratado III 6 (26) é dito claramente que a matéria é impassível mesmo em relação ao Bem, como veremos.
O argumento subsequente elaborado por Plotino procura mostrar que há realidades sem determinações quantitativas e que, portanto, o ser e a quantidade são distintos ((II 4 (12), 9, 1-5), o que implica dizer que a matéria também pode ser destituída de quantidade. Plotino sustenta seu ponto de vista por meio da doutrina da participação e mostra que alguns seres são quantificados pela participação na forma da quantidade, enquanto esta mesma não é quantificada (9. 5-7). O filósofo neoplatônico argumenta que a veracidade dessa afirmação reside na distinção entre o ser (to\ o)/n) e a quantidade (to\ poso/n) e na possibilidade de se conceber seres que não possuem grandeza (a)/poson, como é o caso de todos os incorpóreos (a)sw/matoj, ou seja, os inteligíveis e a própria matéria. De acordo com Plotino (II 4 (12), 9, 7-15), se tudo o que é quantificado é tal pela quantidade, esta não pode ser quantificada e deve ser considerada como
335 Plotino não parece levar em conta que a xw/raplatônica possua determinação quantitativa.
336 No passo II 4 (12), 8, 1-3, Plotino mostra-se um crítico dos estoicos, pois julga ser contraditória a doutrina destes
quando afirmam que a matéria é um corpo passivo e sem qualidade (a)/poiojS.V.F., II, 309 e 310), mas dotado de quantidade, já que é impossível que um corpo, enquanto tal, não tenha qualidade. Além do mais, se a matéria possui magnitude por si mesma, seria contraditório afirmar que a magnitude dela se adapta à forma ou às razões, mas ao contrário, estas estariam sujeitas à magnitude da matéria, segundo Plotino (8. 16-19).
uma forma (eiÅdoj que aporta a quantidade aos seres que, por meio desta, tornam-se quantificados. A matéria, inicialmente desprovida de quantidade, torna-se possuidora de uma determinada quantidade na medida em que recebe a atuação de uma razão (lo/goj e participa assim da própria quantidade considerada como forma inteligível. A forma da quantidade não é quantificada, do mesmo modo que a forma da brancura não é branca, mas tudo o que participa de uma e outra se torna branco ou quantificado, ponto de vista que implica a rejeição da autopredicação da forma337.
Nos capítulos 11 e 12, Plotino aborda especificamente o problema da identificação entre matéria (u(/lh) e massa (o)/gkoj)338 e apresenta argumentos no sentido de mostrar que não coincidem. O problema se articula com a necessidade de um substrato para a composição dos corpos e surge da argumentação de um contraditor, que afirma que a matéria precisa ser massa para receber as formas. No passo II 4 (12), 11, 1-7, Plotino apresenta sucintamente o problema: se há a necessidade de um sujeito receptivo, este é massa e identifica-se com a quantidade, mas se não é massa, é inútil, pois não poderá receber nada. A resposta de Plotino consiste em mostrar que nem todo sujeito receptivo necessita ser massa, como a alma, que não possui grandeza e recebe as coisas sem estendê-las em magnitude. Ademais, embora seja necessário admitir a necessidade de um receptáculo que receba os seres, no caso a matéria, esta não precisa ser necessariamente massa, pois pode receber a magnitude para posteriormente estender tudo o mais em magnitude. De acordo com Plotino, o fato da matéria determinada de seres como os animais e as plantas possuírem magnitude e receberem todas as outras qualidades em magnitude, não implica que a matéria considerada em si deva possuí-la, pois sendo justamente matéria em si, e não deste ou daquele corpo, deve receber tudo de outro, inclusive a magnitude (II 4 (12), 11, 19- 25). Plotino rejeita o ponto de vista de que a matéria, desprovida de magnitude, é inútil por não aportar nada para a existência dos corpos e não contribui com a forma (eiådoj), nem com a qualidade (poio/n nem com aquilo que apenas aparentemente provém dela, a grandeza (me/geqoj) ou magnitude339. As objeções lançadas contra a ausência de magnitude da matéria se
337Consultar a esse respeito o texto de D’Anconna Costa (1992) acerca do problema da regressão ao infinito e da
autopredicação da forma.
338 Excelente estudo sobre a questão da massa encontra-se em Brisson (2000, p. 87-111). 339
De acordo com Narbonne (1993, p. 224-225), as objeções acima apresentam um dos principais problemas para a teoria plotiniana, pois a completa ausência de determinações quantitativas leva a uma desrealização da matéria e parece privá-la de qualquer papel cosmológico ou ontológico, pois sequer pode dar, por si mesma, a dispersão
inspiram, segundo Igal (1992, p. 426, nota 52, v. I)340, em um contraditor que parece interpretar a matéria como extensão, em um sentido próximo ao da xw/rado Timeu.
Plotino procura rebater, no décimo segundo capítulo, as objeções dos que afirmavam que a matéria não contribui em nada para os corpos, tentando salvar as suas funções, cuja principal é a de ser a condição para a existência dos seres corpóreos. A razão principal é que as formas dos corpos (eiãdh tw=n swma/twn só podem existir em um substrato da magnitude, mas não na magnitude em si, pois caso contrário, permaneceriam como razões (lo/goi) e não haveria o corpóreo, pois a magnitude considerada em si mesma é uma razão (II 4 (12), 12, 1-6). Desse modo, emerge do que foi dito acima, a própria função da matéria, segundo Plotino, que é a de ser um receptáculo capaz de receber inicialmente a magnitude e depois, tudo o mais em magnitude. Para Plotino, a matéria tampouco deve ser confundida com o lugar (to/poj), pois este é posterior aos corpos (II 4 (12), 12, 10-13)341. A conclusão da exposição acima é que a matéria é uma condição para a quantidade, as qualidades e, consequentemente, para os corpos, sendo, portanto, distinta de todos estes (II 4 (12), 12, 20-23). Em razão disso, segundo Plotino, não se pode dizer que haja corporalidade da matéria, pois o corpóreo já é uma razão (lo/gojna matéria e, por isso, possui determinação, ordem e medida (II 4 (12), 12, 23-37). A matéria só pode desempenhar a sua função de receptáculo da quantidade em razão de sua unidade e continuidade e, dessa forma, Plotino tenta mostrar precisamente qual é o seu papel na economia da constituição dos seres
sensíveis: “É preciso, então, que aqui a multiplicidade de formas esteja em algo uno; e é isso que possui magnitude: mas isso é diferente da magnitude.” (II 4 (12), 12, 6-7 [trad. BARACAT