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Potencialidade, não-ser e impassibilidade

II. SEGUNDA PARTE: A RECEPÇÃO DO INTELIGÍVEL E O ESTATUTO DA IMAGEM SENSÍVEL

3. A natureza da matéria e a sua impassibilidade no tratado III 6 (26)

3.5. Potencialidade, não-ser e impassibilidade

Se a matéria é destituída de todas as determinações e se identifica com a privação, deve ser considerada como não-ser. No passo III 6 (26), 7, 1-18, Plotino repete a doutrina do tratado II 4 (12) ao afirmar que a incorporeidade da matéria não a eleva à condição de ente, mas ao contrário, coincide com a sua condição de não-ser. Já vimos que Plotino usa diversas fórmulas para designar o não-ser da matéria. Esta é considerada, nos tratados sobre a matéria, como a

“forma do não-ser” ou ainda aquilo que “é realmente e verdadeiramente não-ser”, fórmulas que

se encontram nos seguintes passos: II 5 (25), 5, 24 (o)/ntwj mh\ o)/n); III 6 (26), 7, 12-13 (a)lhqinw=j mh\ o)/n) e I 8 (51), 3, 4-5 (eiÅdoj ti tou= mh\ o)/ntoj o)/n).

A identificação da matéria com a privação e essas fórmulas utilizadas nos levam naturalmente a pensar o tipo de não-ser que a matéria representa. O tratado II 5 (25), que já investigamos quando discorremos acerca da potência do Uno, esclarece de modo notável em que sentido a matéria é não-ser e mostra a sua relação essencial com o conceito de potência. Desse modo, constitui um elo importante entre o tratado II 4 (12) e III 6 (26), pois ao enunciar a sua doutrina da potencialidade da matéria e da impossibilidade de sua atualização real, antecipa e prepara a tese da impassibilidade da matéria sem, contudo enunciá-la explicitamente. Nos dois primeiros capítulos, examina os conceitos de ato e potência, no terceiro se dedica a elucidar esses conceitos em relação ao mundo inteligível e nos dois últimos capítulos (4 e 5), investiga a matéria do mundo sensível e a sua condição de não-ser.

Antes de expor a posição do tratado em relação ao não-ser da matéria e sua relação com a potencialidade, devemos investigar a posição de Plotino a respeito do não-ser absoluto de Parmênides, fundamental para a negação do múltiplo, e que papel desempenha no âmbito da ontologia plotiniana. De alguns passos das Enéadas, o que se depreende é que Plotino segue a

crítica do Sofista349 no que diz respeito ao não-ser do Eleata e não admite o não-ser absoluto (to\

mh\ o)\n au)to\ kaq’ au)to/, a negação pura e simples do ser, que assim não desempenha

nenhuma função em sua concepção do múltiplo. Plotino menciona pouquíssimas vezes esse não- ser absoluto, cujas ocorrências são as seguintes: pantele\j mh\ o)/nVI 9 (9), 11, 38);

pantelw=j mh\ o)/n (I 8 (51), 3, 6-7); pa\nth mh\ o)/n III 6 (26), 14, 20) e (VI 9 (9), 11, 36). Nas

duas ocorrências em VI 9 (9), afirma que a alma jamais poderá descer até o não-ser total ou não- ser absoluto, mas somente até o mal e o não-ser representados pela matéria, o que implica dizer que não pode ser destruída. No segundo passo, discorre sobre a natureza do mal e diz que é uma das espécies do não-ser e está entre os não-seres, alusão ao sensível, ou em coisas misturadas com o não-ser, alusão à matéria, mas indica que este não-ser não se confunde com o não-ser absoluto, o nada puro e simples. No passo III 6 (26), 14, 20, o não-ser absoluto é citado novamente, mas ao contrário dos outros, agora em relação à matéria, como se fossem idênticos, o que gera dúvidas acerca da posição do tratado a respeito do estatuto da matéria, mas isso indica apenas o interesse peculiar do tratado III 6 (26) em mostrar a natureza ontológica do sensível e de seu substrato em sua precariedade. Em todos os passos mencionados acima, não há nenhum indício de que o não-ser absoluto desempenhe algum papel no sistema plotiniano, ou que seja tomado como ponto de apoio para a negação do múltiplo, mesmo o sensível, ou que coincida com a própria matéria em sua ausência de ser. Concordamos com a interpretação de Santa Cruz (1979, p. 95-107) a respeito das expressões dos tratados II 5 (25) e III 6 (26) que afirmam que a matéria é um real não-ser, como no caso do Sofista em relação à imagem. Essas expressões representam a condição de alteridade da matéria em relação ao ser verdadeiro, que realmente é, mas isso não implica a afirmação de que a matéria é o não-ser absoluto.

A eliminação das determinações quantitativas, qualitativas e formais da matéria permitiu a Plotino mostrar que, conquanto não se identifique com o não-ser absoluto, a matéria é uma das espécies de não-ser, a alteridade, porém tampouco a que é considerada como gênero, mas sim a alteridade absoluta, totalmente outra que o ser (III 6 (26), 7, 9-12). A mesma posição é

apresentada no passo a seguir: “Ela seria, portanto, isto, não-ente, não como diferente do ente,

como é o movimento; pois este cavalga o ente como se proviesse dele e estivesse nele, mas ela é, por assim dizer, banida, totalmente afastada e incapaz de transformar a si mesma, mas o que ela

349 No passo 237b7-e7 do Sofista, Platão afirma que o não-ser absoluto tampouco pode ser negado sem que isso

era desde o princípio - e ela era não ente – assim é sempre.” (II 5 (25), 5, 9-13 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: eiÃh a)/n ouÅn tou=to mh\ o)/n, ou)x w(j e(/teron tou= o)/ntoj, oiâon ki/nhsij.

au(/th ga\r kai\ e)poxei=tai t%= o)/nti oiâon a)p’ au)tou= kai\ e)n au)t%= ouåsa, h( de/ e)stin oiâon e)krifei=sa kai\ pa/nth xwrisqei=sa kai\ metaba/llein e(auth\n ou) duname/nh, a)ll’ o(/per e)c a)rxh=j hÕn - mh\ o)\n de\ hÕn - ou(/twj a)ei\ e)/xousa. Enquanto cada coisa pode ser considerada como constituída de certa alteridade em função de cada uma ser um algo determinado, possuidor de forma, mas por isso mesmo também identidade, a matéria pode ser

considerada alteridade pura, “outra” (a)/lloj em relação a todos os seres, em função da sua

indeterminação (II 4 (12), 13, 26-33). Plotino chega a afirmar que deveríamos chamar a matéria

de “outras” (a)/lla, usando o plural para evitar a sua determinação com a aplicação do singular

(II 4 (12), 13, 30-32). Como vimos, a matéria, no entanto, não pode ser considerada idêntica à alteridade (e(tero/thj), mas a uma espécie de alteridade, aquela contraposta aos seres que são razões (lo/goi, II 4 (12), 16, 1-4), em identidade com a privação (sterh/sei tau)to/n, pois a privação está sempre em contraposição ao que possui estatuto de razão. Além de afirmar que a matéria representa uma modalidade de alteridade distinta da alteridade como gênero, por ser completamente indeterminada e distinta do ser, Plotino enuncia que a sua condição de não-ser permanece, o que evidencia que a matéria jamais abandona a sua natureza, preparação clara da tese de sua impassibilidade.

No tratado II 5 (25), Plotino relaciona o não-ser e indeterminação da matéria com a sua condição de potencialidade pura. Já vimos que Plotino faz uma importante distinção entre o

conceito de “potência” e o de “em potência”, e ilustra este último caso mediante o exemplo

Aristotélico do bronze (Phys. III, 201 a 30), utilizado para mostrar que algo está sempre em potência em relação a outra condição que, por sua vez, deve estar já presente como uma disposição (1. 10-15). Plotino define então o “em potência” do seguinte modo: “Pois o que está em potência é tal como um substrato para afecções, formatos e formas que há de receber e recebe

por natureza; (...).” (II 5 (25), 1, 29-31 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]:to\ me\n dh\ duna/mei toiou=ton w(/sper u(pokei/meno/n ti pa/qesi kai\ morfai=j kai\ eiÃdesin, a(\ me/llei de/xesqai kai\ pe/fuken:. A respeito da condição da matéria Plotino indaga, no início do

alguma outra coisa. De acordo com Plotino, esse raciocínio não pode ser aplicado à matéria, pois esta não pode ser considerada algo em ato que está em potência em relação a outra condição (II 5 (25), 4, 1-3). A matéria, sendo todos os seres em potência (pa/nta duna/mei ta\ o)/nta), não pode ser nenhum em ato350, sob pena de deixar de ser todos os seres em potência (4. 5-6), ou seja, deixar de ser a matéria de todos os seres, para se tornar a matéria de um ser particular, conforme

o seguinte passo: “Pois, se for algo em ato, aquilo que ela é em ato não será a matéria: ela não

será então totalmente matéria, mas como o bronze.” (II 5 (25), 5, 7-8 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]:ei¹ ga\r e)/stai ti e)nergei/#, e)kei=no o(/ e)stin e)nergei/#, ou)x h( u(/lh e)/stai: ou)

pa/nth ouån u(/lh, a)lla\ oiâon o( xalko/j.). Plotino reafirma o que já havia sido dito no tratado

II 4 (12) a esse respeito e conclui pela impossibilidade de associá-la ao que é ser, pois não pode ser em ato nenhum dos seres que nela estão e tampouco forma (II 5 (25), 4, 3-14), restando a ela a condição de não-ser (mh\ o)/n). Aqui, não-ser, alteridade e potencialidade se vinculam, pois não sendo nenhum dos seres em ato e totalmente outra, por isso mesmo é idêntica ao não-ser. Como não é o não-ser absoluto, deve possuir alguma existência, o que torna imperativa a pergunta pelo sentido dessa existência (4. 14-18). Essa é uma das questões mais complexas do tratado, cuja tentativa de elucidação se encontra no quinto capítulo, que procura mostrar como a matéria pode ser algo, ainda que indeterminação pura e não-ser.

Plotino responde a essa questão explicando de modo mais aprofundado em que sentido a matéria é não-ser e apresenta três razões para essa identificação: ela pode ser considerada como não-ser na medida em que não é nenhum dos seres que se apresentam nela, ou seja, os seres sensíveis; a sua informidade (a)nei/deon) impede que seja considerada forma (eiÅdoj) e mesmo razão (lo/goj) e, finalmente, tampouco se identifica com os inteligíveis transcendentes (4. 11-13). A matéria, quando comparada ao seres verdadeiros, inteligíveis, e mesmo aos que existem falsamente, os seres sensíveis, apresenta-se como uma das espécies de não-ser, idêntica à privação, mas não ao não-ser absoluto, o que implica admitir que ela é alguma coisa, um tipo de não-ser que insiste em ser. Esse não-ser que insiste em ser é potencialidade

pura, conforme o passo a seguir: “Assim, porque já é em potência, já é então conforme ao que há

de ser? Mas o ser para ela é só um anúncio do porvindouro: como se o seu ser fosse procrastinado

para aquilo que ela será.” (II 5 (25), 5, 2-5 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]:ou)kou=n, o(/ti h)/dh

duna/mei, h)/dh ouån e)/sti kaqo\ me/llei; a)lla\ to\ eiånai au)t$= mo/non to\ me/llon e)paggello/menon: oiâon to\ eiånai au)t$= ei¹j e)kei=no a)naba/lletai o(\ e)/stai.O ser da

matéria consiste em manter-se nessa possibilidade sem jamais realizá-la, o que significa, em consonância com o tratado III 6 (26), que é impassível à atuação dos seres inteligíveis:

E ela não era, desde o princípio, algo em ato afastada de todos os entes e não se tornou: pois não é capaz sequer de colorir-se das coisas que quiseram mergulhar nela, mas permaneceu voltada para outro, sendo em potência em relação às coisas seguintes, e, quando os entes já se detinham, ela apareceu e foi tomada por aqueles que surgiram depois dela e se estabeleceu derradeira mesmo entre eles. Então, sendo tomada por ambos, não seria em ato nenhum deles, mas resta- lhe ser apenas em potência uma imagem frágil e turvada incapaz de ser informada.

II 5 (25), 5, 13-22 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: ou)/te de\ hÕn e)c a)rxh=j e)nergei/# ti a)posta=sa pa/ntwn tw=n o)/ntwn ou)/te e)ge/neto: a(\ ga\r u(podu=nai h)qe/lhsen, ou)de\ xrwsqh=nai a)p’ au)tw=n dedu/nhtai, a)lla\ me/nousa pro\j a)/llo duna/mei ouÕsa pro\j ta\ e)fech=j, tw=n d’ o)/ntwn h)/dh pausame/nwn e)kei/nwn fanei=sa u(pó/ te tw=n met’ au)th\n genome/nwn katalhfqei=sa e)/sxaton kai\ tou/twn kate/sth. u(p’ a)mfote/rwn ouÕn katalhfqei=sa e)nergei/# me\n ou)dete/rwn a)\n eiãh, duna/mei de\ mo/non e)gkatale/leiptai eiånai a)sqene/j ti kai\ a)mudro\n eiãdwlon morfou=sqai mh\ duna/menon.

O mesmo é afirmado no passo a seguir: “Todavia, para a matéria, não há acréscimo

nenhum em sua constituição, advenha-lhe o que quer que seja: pois ela não se torna o que é quando essa coisa lhe advém, nem há diminuição quando a coisa sai: ela permanece o que era

desde o princípio.” (III 6 (26), 11, 15-18 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: t$= de\ u(/l$ ou)/te ti ple/on ei¹j th\n au)th=j su/stasin proselqo/ntoj o(touou=n: ou) ga\r gi/gnetai to/te o(/ e)sti proselqo/ntoj, ou)/te e)/latton a)pelqo/ntoj: me/nei ga\r o(\ e)c a)rxh=j hÕn.). A matéria

consiste em ser a potencialidade que jamais assume qualquer atualidade, mesmo quando recebe a forma351. Essa potencialidade mantém-se outra tanto em relação ao que vem antes dela quanto em relação aos seres sensíveis, permanecendo desde sempre e para sempre não-ser (II 5 (25), 5, 5- 14). Anunciando o que vai ser dito no tratado III 6 (26) sobre a impassibilidade da matéria,

351 Para Narbonne (1998, p. 118), a matéria consiste em ser puramente relacional, como a matéria prima de

Aristóteles, embora esta seja sempre qualquer coisa em ato, ao contrário da matéria plotiniana. Para Narbonne (p.

137), dizer que a matéria é “realmente não-ser” significa exatamente dizer que não é nada em ato e que tem como

Plotino afirma a sua incapacidade de receber qualquer conformação real. Segundo nosso autor, o

que a matéria é em ato é justamente o seu falso ser, “imagem e falsificação em ato” (e)nergei/# eiãdwlon yeu=doj), “uma verdadeira falsidade” (a)lhqinw=j yeu=doj), “inconsistente e obscuro simulacro” (a)sqene/j ti kai\ a)mudro\n eiãdwlon), “um real não-ser” (o)/ntwj mh\ o)/n) e, caso

esse ser quimérico fosse perdido pela introdução real da atualidade, o que a matéria possui de entidade se perderia e ela se reduziria ao nada absoluto (II 5 (25), 5, 25-33). Plotino a considera como não-ser apenas como completamente outra em relação ao ser verdadeiro.

A matéria então é não-ser, encontra-se em potência em relação a todos os seres e deve permanecer sempre assim, pois se ela é uma condição para a existência do múltiplo, deve permanecer o que é, sob pena da impossibilidade mesma da existência do mundo sensível. Como

vimos, a distinção entre o que está “em potência” e o que é “potência” não permite a confusão

entre o ser em potência da matéria (duna/mei eiÅnai) com a potência352 produtora que caracteriza os seres capazes de produzir algo, ou a potência do agente. A matéria não é capaz de produzir

coisa alguma ou mesmo se tornar realmente algo, mas a relatividade implicada na expressão “em potência” e que aparentemente indica uma relação com o ato que poderia atingir, significa apenas

a capacidade da matéria de receber tudo, mesmo sem ser afetada ou transformada no ou pelo que recebe, como posteriormente é afirmado exaustivamente no tratado III 6 (26). Plotino alerta que não se deve jamais cair no equívoco das posições estoicas que ele critica (VI 1 (42), 25) e que consistem em colocar o que está em potência antes do ato. Paradoxalmente, a matéria é completamente passivaembora não seja afetada por nadae por isso capaz de tudo receber sendo potencialidade pura e incapaz de qualquer coisa por si mesma, a matéria não poderia produzir coisa alguma353.

352 A diferença entre a matéria e o composto em potência, é que ela jamais abandona o seu ser potencial para se

transformar em outra coisa.

353

De acordo com Igal (1992, p. 69, vol. I), a diferença entre Aristóteles e Plotino com relação à potencialidade da

matéria é a seguinte: “Para Aristóteles, a matéria está em potência porque pode chegar a alcançar a forma (Met. IX 8,

1050 a 15). Quer dizer, a matéria é x em potência porque pode chegar a ser x em ato. Não teria sentido dizer que é x em potência, se nunca pudesse chegar a ser x em ato. (...). Para Plotino, a matéria é não-ser porque, sendo todos os seres em potência, não é em ato nenhum deles (II 5, 4, 3-11), no sentido de que nunca é e nunca pode ser em ato nenhum deles, sob pena de deixar de ser o que é: matéria, quer dizer, privação (ibid. 5, 33-36). Para Aristóteles, ao contrário, a matéria não deixa de ser matéria por receber a forma, porque para ele a matéria não é privação, porém

indiferentemente substrato da forma ou da privação.” Esse ponto de vista é compartilhado por Narbonne (1998, p.

117), que interpreta a diferença entre a doutrina plotiniana e aristotélica exatamente no mesmo sentido: “À cette même difficulté, Aristote répondait tout autrement. La matière non seulement peut, mais devient effectivement quelque chose (...).” Narbonne (1998, p. 118) também mostra que para ambos o ser da matéria é relacional, mas para

Uma vez que a matéria, como potencialidade, privação e não-ser, não pode aportar para si quaisquer características que pertencem ao mundo inteligível ou corpóreo, devemos então perguntar de que modo se realiza a sua configuração e ordenação, ou seja, de onde retira a

e)ne/rgeia para que o cosmo sensível do qual é substrato possa aparecer com ordem, medida e

vida, mesmo que de forma aparente, pois a matéria, como vimos, permanece sempre a mesma. Em decorrência da sua identidade com a privação e o não-ser, da sua condição de potencialidade pura, Plotino, no passo III 6 (26), 19, 17-19, afirma que seus nomes mais adequados são o de

“receptáculo” e “nutriz”, e que o termo “mãe” deve ser aplicado a ela com restrição, de tal modo

a indicar que apenas aloja o que nela está, sem nada lhe transmitir de positivo, pois não possui poder para tanto. A matéria é infecunda, não gera nada de si mesma, potencialidade pura que Plotino compara ao mito da deusa mãe, rodeada por eunucos impotentes, incapazes de gerar354. O poder produtor que deve complementar a matéria é simbolizado nos ritos de Hermes, cujo órgão gerador indica o poder de realizar e engendrar, típico dos seres inteligíveis. Se o Uno é potência de todas as coisas em sua perfeição suprema, a matéria é em potência todas as coisas, em função de sua carência, distinção que permite que jamais sejam confundidos.

A identidade da matéria com o não-ser e a potencialidade pura é uma condição para a sua impassibilidade. Em função de permanecer sempre em potência, a matéria jamais abandona o que é, e a forma aportada a ela não é capaz de retirá-la de sua condição. A doutrina da impassibilidade da matéria implica que esta não tem poder de atualizar a si mesma e tampouco pode ser atualizada pela imagem da forma que nela procura atuar. A matéria então permanece como potência sempre irrealizada, jamais capaz de se tornar em ato qualquer outra realidade. Por permanecer sempre em potência, a matéria é impassível, não sofre qualquer alteração355 e conserva a sua natureza de matéria, sem se apropriar dos seres que estão sobre ela, permanecendo como receptáculo de tudo, ponto de vista sintetizado no passo abaixo.

Uma vez que essa natureza mencionada não deve ser nenhum dos entes, mas deve ter escapulido toda ela da essência dos entes e ser completamente outra – o Estagirita a matéria primeira é outra em potência, mas também a cada vez em ato, enquanto para Plotino, a matéria permanece sempre outra não sendo nada em ato.

354 Consultar a tradução de Igal (1985, p. 190, notas 151 e 152, v. II) e de Radice (2002, p. 698, nota 66).

355 Narbonne (1998, p. 82-84), em seu comentário ao primeiro capítulo do tratado II (5) 25, mostra que Plotino nega

à matéria a possibilidade de se transformar em qualquer coisa em ato e, sendo refratária à atuação de outro ser sobre ela, é por isso mesmo impassível. Narbonne (p. 83-84) mostra que Alexandre de Afrodísia já fazia a distinção entre a tradição platônica e aristotélica a respeito da transformação da matéria, ao indicar que para os primeiros, a matéria prima é passiva e sofre alteração pela presença da forma, enquanto que para os segundos é inalterável.

porque aqueles são razões e razões realmente existentes –, sendo por essa alteridade a guardiã da sua própria segurança que lhe coube guardar –, é necessário que ela não apenas seja irreceptiva dos entes, mas também que, se há alguma cópia dos entes, ela não participe sequer disso para uma apropriação: pois é assim que ela é completamente outra; se não, se se apropriasse de alguma forma tornando-se com ela algo diferente, destruiria seu ser outra e lugar de todas as coisas e receptáculo de qualquer coisa.

III 6 (26), 13, 21-29 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: e)peidh\ th\n legome/nhn tau/thn fu/sin ou)de\n dei= eiÅnai tw=n o)/ntwn, a)ll’ a(/pasan e)kpefeuge/nai th\n tw=n o)/ntwn ou)si/an kai\ pa/nth e(te/ran - lo/goi ga\r e)kei=na kai\ o)/ntwj o)/ntej -, a)na/gkh dh\ au)th\n t%= e(te/r% tou/t% fula/ttousan au)th=j h(\n eiãlhxe swthri/an - a)na/gkh au)th\n mh\ mo/non tw=n o)/ntwn a)/dekton eiÅnai, a)lla\ kai/, eiã ti mi/mhma au)tw=n, kai\ tou/tou a)/moiron ei¹j oi¹kei/wsin eiÅnai. ou(/tw ga\r a)\n e(te/ra pa/nth: h)\ eiÅdo/j ti ei¹soikisame/nh met’ e)kei/nou a)/llo genome/nh a)pw/lese to\ e(te/ra eiÅnai kai\ xw/ra pa/ntwn kai\ ou)deno\j o(/tou ou)x u(podoxh/.