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Indicadores e cálculo da sensibilidade da população e do edificado

4. METODOLOGIA

4.1. ABORDAGEM À VULNERABILIDADE CLIMÁTICA

4.1.3. Indicadores e cálculo da sensibilidade da população e do edificado

Sempre que determinada área ou sistema são expostos a mudanças no clima, tal como o aumento da magnitude, frequência e duração de eventos extremos associados à temperatura e precipitação, torna-se fundamental avaliar até que ponto as várias componentes do sistema são afetadas, seja negativa ou positivamente (Fritzsche, 2014; Manik & Syaukat, 2015; Yiran et al., 2015). Neste contexto, Stwart et al. (2012) distinguem três categorias principais de sensibilidade aos extremos climáticos: (i) sensibilidade social, ou da população; (ii) sensibilidade económica, ou dos bens imobiliários urbanos (parque edificado residencial, industrial e comercial); e, (iii) sensibilidade de serviços e infraestruturas críticos (provisão de energia, água, transporte), vitais ao funcionamento urbano. Na presente dissertação, apenas se abordou a sensibilidade da população e do edificado residencial (Figura 7).

A sensibilidade social é aqui entendida como a predisposição de uma dada população para sofrer danos ou perdas na sequência de um evento climático extremo, em função das suas debilidades intrínsecas (Pinheiro & Laranjeira, 2016). Desta forma, depende de fatores socioeconómicos e fisiológicos (Manangan et al., 2014), e estáestreitamente relacionada com a estrutura e condições demográficas (Wongbusarakum & Loper, 2011; Malik et al., 2012) da população em causa.

Para caraterizar a sensibilidade social, foram selecionados indicadores relativos a certos grupos da população que são desproporcionalmente afetados pelas temperaturas excessivamente elevadas (Pinheiro & Laranjeira, 2016), bem como pelos danos e perdas associados às inundações fluviais, em particular (aspetos estes já revistos no capítulo 2). A literatura destaca especificamente dois grupos etários – o dos idosos (população ≥ 65 anos) e o das crianças dos 0 aos 4 anos – como os mais sensíveis em termos de saúde ao calor extremo, estando-lhes associadas elevadas taxas de morbilidade e mortalidade (Loughnan et al., 2012; Maier, 2012). Do mesmo modo, o isolamento social por parte dos idosos que vivem sozinhos aumenta potencialmente a sua suscetibilidade, em comparação com os restantes membros da sociedade (Maier, 2012), elevando a mortalidade ligada a esta faixa etária durante ondas de calor (Vandentorren et al., 2006)e conduzindo a situações de grande precariedade no caso de inundações, devido à falta de recursos adequados, bem como

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à ausência de auxílio e assistência. Na Tabela 9 sintetiza-se a relevância, descrição e fonte dos dados utilizados, para cada um dos indicadores da sensibilidade da população analisados.

A sensibilidade do edificado aos extremos climáticos foi interpretada sob duas perspetivas. Do ponto de vista económico, quanto pior forem as condições físicas prévias dos edifícios (idade, tipo de construção, estado de conservação) mais prováveis serão as situações de estrago ou destruição e, consequentemente, mais elevados deverão ser os custos associados a tais danos ou perdas materiais. Deste modo, a existência de um parque edificado residencial envelhecido e deteriorado determina um ambiente construído pouco resiliente, o que implicará esforços acrescidos e um maior investimento em medidas de adaptação às mudanças climáticas.

Por outro lado, as caraterísticas do edificado afetam distintamente as condições de habitabilidade (como o conforto higrotérmico) e permitem identificar situações de fragilidade sociomaterial, que influenciam o modo como os residentes suportam a exposição (Manangan et al., 2014) a eventos climáticos extremos.

Nesta sequência, derivou-se a sensibilidade do edificado da ARU da Póvoa de Lanhoso a partir de um conjunto de indicadores, que inclui os edifícios com construção anterior a 1960, os edifícios com estrutura de paredes presumivelmente mais instável (alvenaria sem placa, abobe ou alvenaria de pedra solta), os edifícios degradados e, por último, os alojamentos vagos. Estes indicadores são explanados em pormenor na Tabela 9.

Ainda no que diz respeito às condições de habitabilidade, dados relativos à população sem acesso a água, saneamento, gás natural e eletricidade não integram esta análise, em virtude da quase totalidade dos alojamentos da ARU possuírem estas infraestruturas, de acordo com a informação do INE.

44 Tabela 9 - Indicadores de sensibilidade selecionados para a análise.

Indicador Relevância Descrição Fonte dos dados

Se ns ib ilid ad e da pop ulaç

ão Populaç

ão

65

an

os

(%) Evidenciam a importância, numa dada população, dos dois grupos etários que demonstram maior fragilidade perante episódios climáticos extremos. Quanto maior a proporção de idosos, bem como de crianças muito jovens em relação ao total da população residente, mais elevado será o respetivo grau de sensibilidade, ao nível da saúde pública.

Idosos (indivíduos ≥65 anos) e crianças muito jovens (0-4 anos) constituem grupos populacionais que potencialmente dependem de terceiros e necessitam de assistência médica, em caso de paroxismos climáticos (Antwi et al., 2015). Apresentam elevada suscetibilidade física ao calor excessivo e maior propensão a lesões e doenças na sequência de extremos hidroclimáticos, tal como atestam diversos estudos.

Censos de 2011, BGRI, INE. Pop ulaç ão 0 – 4 an os (%) Pop ulaç ão id os a e isol ada (%)

Indica a seriedade do isolamento social da população idosa,

ampliando a sua sensibilidade. Percentagem da população idosa (com ≥ 65 anos) que vive sozinha e pode, em último caso, depender do cuidado de terceiros, desde a execução de tarefas quotidianas até à assistência médica regular. Em situações de emergência, este grupo de idosos poderá ver-se privado do auxílio necessário e dos recursos adequados para suportar e reagir aos extremos climáticos.

Gabinete Municipal de Informação Geográfica da Póvoa de Lanhoso. Se ns ib ilid ad e do ed ifi cado Ed ifí ci os c om cons tru ção an te rior a 1960 (%)

Expressa o envelhecimento do edificado existente. Assumiu- se que os edifícios cuja construção antecede 1960 apresentam maior suscetibilidade climática, por comparação ao restante parque habitacional.

A data de 1960 foi tomada como referência, tendo em consideração que, para a apresentação de uma candidatura ao PARU e obtenção de financiamento no âmbito do PI 6.5 do Programa Operacional Norte 2020, as áreas habitacionais mais antigas e tradicionais devem corresponder a espaços em que pelo menos 15% do edificado tem idade superior a 60 anos.

Censos de 2011, BGRI, INE. Ed ifí ci os de es tru tur a m enos e st áv el (%)

Indica a fragilidade estrutural da construção. Quanto maior a proporção de edifícios com estruturas menos estáveis numa área urbana, maior a sua sensibilidade económica aos extremos climáticos.

Edifícios com estrutura menos estável são mais suscetíveis de ser danificados, e mesmo destruídos, aquando eventos de precipitação excessiva e/ou intensa, por ação mecânica da chuva, infiltrações, alagamento ou inundação fluvial. Por outro lado, os materiais construtivos condicionam o isolamento térmico das habitações, podendo ser responsáveis pelo seu sobreaquecimento em períodos de calor extremo. Em ambos os casos, este tipo de edifícios proporciona uma menor proteção à população residente (Dong et al., 2015).

Neste contexto, foram consideradas duas tipologias de construção: edifícios com estrutura de paredes de alvenaria sem placa; e, edifícios com estrutura de paredes de adobe ou alvenaria de pedra solta.

Censos de 2011, BGRI, INE Ed ifí ci os de gra dados (%)

Carateriza o estado geral de conservação do edificado existente. Quanto mais significativa for a degradação dos edifícios, maior o grau de sensibilidade na área urbana em causa.

A elevada representatividade dos edifícios residenciais degradados numa área urbana é indicativa da fragilidade sociomaterial da população residente, e assim corresponde simultaneamente a uma maior sensibilidade económica e da população aos extremos climáticos.

Levantamento de campo Al oj am ent os va gos (%)

Indica a importância relativa dos alojamentos com proprietário ausente, que poderão estar sujeitos a uma deterioração progressiva, sendo por isso virtualmente mais sensíveis aos danos provocados por episódios climáticos extremos, mais intensos e recorrentes.

Os alojamentos vagos encontram-se, com alguma frequência, em edifícios mais antigos e degradados, representando situações de grande precariedade do edificado e, simultaneamente, de reabilitação problemática. A percentagem de alojamentos vagos foi calculada em função do total de alojamentos familiares clássicos, para cada subseção.

Censos de 2011, BGRI, INE.

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A tabela seguinte (Tabela 10) sintetiza o processo de normalização dos dados para cada um dos indicadores de sensibilidade da população a eventos climáticos extremos.

Tabela 10 - Normalização dos dados dos indicadores de sensibilidade da população

A partir dos dados normalizados, calculou-se a sensibilidade da população, para cada subseção da ARU da Póvoa de Lanhoso, de acordo com a seguinte equação:

𝑆𝑝𝑜𝑝 =𝑃≥65+ 𝑃0−4+ 𝐼𝑑𝑠 3

em que:

Spop = Sensibilidade da população a extremos climáticos;

P≥65 = População ≥ 65 anos (representatividade normalizada);

P0-4 = População 0 – 4 anos (representatividade normalizada);

Ids = População idosa (≥ 65 anos) e isolada (representatividade normalizada).

No que respeita à sensibilidade do edificado aos eventos climáticos extremos, a normalização dos respetivos indicadores foi efetuada tal como consta na tabela abaixo (Tabela 11).

Tabela 11 - Normalização dos dados dos indicadores de sensibilidade do edificado

Para calcular a sensibilidade do edificado utilizou-se a seguinte expressão:

𝑆𝑒𝑑=𝐸𝑑<1960+ 𝐸𝑑𝑒𝑠𝑡𝑟𝑢𝑡𝑢𝑟𝑎+ 𝐸𝑑𝑑𝑒𝑔+ 𝐴𝑙𝑣𝑔 4

em que:

Sed = Sensibilidade do edificado a extremos climáticos;

Ed<1960 = Edifícios contruídos antes de 1960 (representatividade normalizada);

Edestrutura = Edifícios com estrutura menos estável (representatividade normalizada);

Eddeg = Edifícios degradados (representatividade normalizada);

Indicador População ≥ 65 anos População 0 - 4 anos População idosa (≥ 65 anos) socialmente isolada (vivendo sozinha)

Classificação

Método de classificação da série de dados original:

Quartis Quebras naturais Quebras naturais quantitativa

(%) ordinal quantitativa (%) ordinal quantitativa (%) ordinal

0 – 1,87 1 0 1 0 1

1,87 – 10,7 2 1,1 – 6,3 2 4,5 – 15,6 2

10,7 – 21,82 3 7,1 – 10 3 20 – 33,3 3

21,82 – 91,8 4 11,1 – 20 4 40 - 100 4

Indicador Edifícios construídos antes de 1960 Edifícios com estrutura de menor estabilidade Edifícios degradados Alojamentos vagos

Classificação

Método de classificação da série de dados original: Quebras naturais quantitativa

(%) ordinal quantitativa (%) ordinal quantitativa (%) ordinal quantitativa (%) ordinal

0 1 0 1 0 1 0 1

1,2 – 15 2 2,3 – 12,5 2 2,1 – 12,5 2 0,8 – 9,7 2 15,8 – 34,8 3 14,3 – 31,1 3 14,3 – 25 3 11,1 – 25 3 40 – 75 4 36,4 - 100 4 33,3 – 75 4 27,8 – 100 4

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Alvg = Alojamentos vagos (representatividade normalizada).

Por fim, a sensibilidade geral exibida pelas subseções da ARU da Póvoa de Lanhoso foi obtida pela combinação da sensibilidade da população e do edificado, de acordo com a equação seguinte:

𝑆 =𝑆𝑝𝑜𝑝+ 𝑆𝑒𝑑 2

em que:

S = Sensibilidade geral a extremos climáticos; Spop = Sensibilidade da população;

Sed = Sensibilidade do edificado.