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Modelo concetual e a seleção dos indicadores

4. METODOLOGIA

4.1. ABORDAGEM À VULNERABILIDADE CLIMÁTICA

4.1.1. Modelo concetual e a seleção dos indicadores

A vulnerabilidade climática foi aqui analisada sob a perspetiva do planeamento urbano, visando a melhoria da capacidade de lidar com os perigos existentes e a compreensão das prioridades em termos de adaptação. Desta maneira, o seu estudo realizou-se de acordo com Adger et al. (2004) – ou seja, não através do conhecimento detalhado do clima (presente e futuro), mas pela avaliação da suscetibilidade de uma dada área geográfica, sistema biofísico e grupo populacional aos efeitos adversos de uma série de perigos, atuais e/ou previstos, com base em fatores não-climáticos que determinam a exposição, sensibilidade e capacidade de adaptação. Esta abordagem metodológica carateriza-se pela redução da dependência aos modelos e projeções climáticos que, apesar dos recentes avanços, ainda são desenvolvidos a escalas muito abrangentes (Heltberg & Bonch, 2010), global e regional, passíveis de gerar elevados graus de incerteza face a dimensões locais (Hahn et al., 2009). Avaliou-se, portanto, a vulnerabilidade intrínseca, segundo a aceção de Brooks (2003), determinada apenas em função das propriedades inerentes a determinado sistema (em sentido amplo). Analisar e compreender este fenómeno, à escala local, exige assim informação integrada sobre os (sub)sistemas biofísicos, sociais e económicos (Preston et al., 2007; Antwi et al., 2015).

Em consonância com autores como Corobov et al. (2013), Pamungkas et al. (2014) e Dunford et al. (2015), relativamente à questão de a análise da vulnerabilidade a qualquer fenómeno ter como pré-requisito a definição de uma estrutura concetual clara, na presente dissertação tomou-se como base o modelo teórico apresentado na Figura 7, enunciado em inúmeras publicações científicas e largamente consensual. Este modelo assenta no conceito de vulnerabilidade enquanto função da interação de três componentes principais: exposição, sensibilidade e capacidade de adaptação (IPCC, 2001, 2007, 2014). Em termos metodológicos, cada componente da vulnerabilidade representa um conjunto de indicadores que a descrevem (Balica et al., 2012), uma interação entre variáveis biofísicas e humanas, com determinadas dinâmicas espaciais e temporais (Tedim, 2013; Gizachew e Shimelis, 2014; Antwi et al., 2015). De um modo geral, para o caso em estudo, a exposição é determinada pelas caraterísticas do ambiente térmico e as condições hidrológicas na ARU da Póvoa de Lanhoso, enquanto a sensibilidade e a capacidade de adaptação dependem das respetivas condições sociais e económicas (Figura 7).

Os indicadores têm sido utilizados frequentemente em análises empíricas, a várias escalas (Vicent & Cull, 2010), como um instrumento eficaz na compreensão dos fatores que contribuem para a vulnerabilidade (Damm, 2009). Assim, neste contexto, um indicador representa um atributo (Tetra Tech ARD, 2014) ou uma caraterística própria a partir da qual se estima a condição de um sistema (Balica et al., 2012) que, direta ou indiretamente, de forma individual ou sinérgica (com outros indicadores), produz um resultado específico de vulnerabilidade (Antwi et al., 2015).

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Apesar de um grande número de estudos aplicar um conjunto de passos metodológicos rígido (Fekete, 2009), a investigação em torno da vulnerabilidade é, dado o seu caráter holístico (ao incorporar interações complexas entre as dimensões humana e biofísica; Dickin et al., 2013), relativamente flexível no que diz respeito à entrada de dados e incorporação de diversas fontes de informação (Preston et al., 2007) – ou, por outras palavras, à seleção de indicadores –, conquanto estes sejam pertinentes e contextuais.

Neste trabalho, a triagem dos indicadores para as três componentes da vulnerabilidade resultou da combinação de dois procedimentos: (i) pesquisa e revisão bibliográfica, sustentada em estudos que aplicam indicadores para caraterizar de forma distinta cada uma das componentes, especificamente no que se relaciona com os paroxismos climáticos analisados (ver ANEXO C); e, (ii) levantamento das fontes de informação de base e dos dados disponíveis, nomeadamente ao nível da subseção, para a área de estudo. Daqui adveio uma seleção de 22 indicadores, derivados a partir do processamento de uma grande variedade de dados e em conformidade com a escala de análise (Figura 7). É de salientar que alguns autores, tal como Preston et al. (2008) e Wolf e McGregor (2013), incluem, em certas situações, o mesmo indicador em várias dimensões. Não obstante, aqui atribuíu-se cada indicador à componente a que mais se adequa, de acordo com a literatura e características locais, evitando a sua repetição.

Os indicadores selecionados, bem como os parâmetros utilizados para os derivar, referem-se às subseções estatísticas compreendidas pela ARU da Póvoa de Lanhoso, e baseiam-se em fontes de informação primárias e secundárias. Efetuou-se uma série de levantamentos: orientação da rede viária; cércea do edificado; delimitação dos espaços/usos do solo permeáveis e impermeáveis; delimitação dos espaços públicos; e, por fim, cobertura arbórea dos espaços públicos. Foram facultados pelo Gabinete Municipal de Informação Geográfica da Póvoa de Lanhoso, na sequência do estágio curricular realizado, bases cartográficas (rede viária, curvas de nível, pontos cotados, rede hidrográfica, perímetro da ARU), ortofotomapas e os dados sobre idosos que vivem sozinhos. De igual modo, teve-se acesso ao PDM, à Proposta de Delimitação da REN, Proposta Preliminar e Relatório da Estratégia de Reabilitação Urbana da vila da Póvoa de Lanhoso. A partir dos dados de uma imagem do satélite Landsat 8 OLI/TIRS derivaram-se as temperaturas de superfície e índices espectrais. Entre as fontes secundárias, salientam-se os dados estatísticos oficiais do INE, a Carta Geológica de Portugal, bem como a COS 2007 e a CAOP 2015 da DGT. Embora esta metodologia incorpore uma gama muito diversificada de informações, a utilização de unidades de análise de base estatística oficialmente definidas pelo INE, bem como de alguns dados de acesso livre, permite que possa vir a ser eventualmente replicada noutras áreas, ou ainda que informação adicional possa ser facilmente acrescentada (Rose & Wilke, 2015).

Inevitavelmente, os indicadores utilizados neste estudo foram influenciados pela disponibilidade de dados, não tendo sido possível incluir outros que certamente enriqueceriam esta investigação. Refira-se, para o caso

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da sensibilidade, o estado de saúde da população (Moss et al., 2001; Ibarrarán et al., 2008; Koh, 2010; Rinner et al., 2010; Lindley et al., 2011; Malik et al., 2012; Tedim et al., 2014; Tetra Tech ARD, 2014; Villordon & Gourbesville, 2014; Manik & Syaukat, 2015). Já no que concerne à capacidade de adaptação, pode-se citar a população dependente (Ibarrarán et al., 2008; Kienberger & Hagenlocher, 2014), a renda dos agregados familiares (Preston et al., 2007; Ibarrarán et al., 2008; Preston et al., 2008; Yusuf & Francisco, 2009; Heltberg & Bonch-Osmolovskiy, 2010; Malik et al., 2012; Measham & Preston, 2012; Rahman & Salman, 2013; Fritzsche et al., 2014; Villordon & Gourbesville, 2014; Akukwe & Ogbodo, 2015; Binita et al., 2015; Coulibaly et al., 2015; Manik & Syaukat, 2015), os indivíduos que recebem apoios financeiros ou sociais (Kim & Kim, 2013; Wolf & McGregor, 2013), e a população com seguro de habitação ou de saúde (Deems & Bruggeman, 2010; Lindley et al., 2011; Swart et al., 2012; Kim & Kim, 2013; Nasiri & Shahmohammadi-Kalalagh, 2013; Tedim et al., 2014; Tetra Tech ARD, 2014; Kim et al., 2016).

As variáveis analisadas, de natureza distinta ou com unidades de medida diferentes, foram normalizadas através da sua reclassificação para uma escala ordinal, com base na definição prévia de classes nominais, por quebras naturais e, quando possível, pelos quartis das séries de dados originais.

37 VULNERABILIDADE IMPACTE POTENCIAL EXPOSIÇÃO EXTREMOS TÉRMICOS Temperatura de superfície Exposição solar das vertentes Ventilação Orientação da rede viária Altura do edificado Densidade da população EXTREMOS HIDROCLIMÁTICOS Rede hidrográfica Depósitos aluviais Áreas inundáveis (cheia) Áreas alagáveis Declives < 5% S/áreas de máxima infiltração Áreas construídas SENSIBILIDADE POPULAÇÃO População ≥ 65 anos População 0 - 4 anos População idosa e isolada EDIFICADO Edifícios anteriores a 1960 Edifícios c/ estrutura menos estável Estrutura de paredes de alvenaria s/ placa Estrutura de paredes de adobe ou alvenaria de pedra solta Edifícios degradados Alojamentos vagos CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO POPULAÇÃO Grau de instrução Sem instrução 1 º Ciclo do Ensino Básico População desempregada Pensionistas e reformados Alojamentos arrendados EQUIPAMENTOS E ESPAÇOS PÚBLICOS Abrigos Rede escolar Pavilhões desportivos Igrejas Espaços verdes arbóreos

Figura 7 - Esquema concetual da vulnerabilidade climática

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