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A palavra indicador é originário do latim indicare e refere-se a algo que serve para apontar, indicar, estimar, mostrar algo através de sinais ou indícios (HAMMOND et al. 1995). Pode-se considerar que são variáveis que são escolhidas para medir um conceito abstrato com o intuito de orientar decisões sobre determinado fenômeno de interesse.

Para Van Bellen (2005) os indicadores devem ser entendidos como variáveis, ou seja, a representação operacional de um atributo (qualidade, característica, propriedade) de um sistema, cujo objetivo principal consiste em agregar e quantificar informações ressaltando sua significância, visando melhorar o processo de comunicação e entendimento dos fenômenos complexos.

A utilização dos indicadores tem sido basilar na formulação de políticas públicas, pois possibilitam uma análise atual, conhecendo verdadeiramente a situação que se almeja modificar, como também o monitoramento temporal, permitindo um melhor acompanhamento das variáveis analisadas, uma melhor avaliação dos processos e planejamento de ações e, por conseguinte melhor utilização dos recursos investidos.

Para o IBGE (2010, p. 33),

Indicadores são ferramentas constituídas por uma ou mais variáveis que associadas através de diversas formas, revelam significados mais amplos sobre os fenômenos a que se referem. Entretanto, a complexidade desse conceito com suas múltiplas dimensões e abordagens tem dificultado a utilização mais consciente e adequada destas ferramentas.

Vale destacar que a função dos indicadores é o de mensurar uma realidade complexa e que é constituída por uma variedade de partes que se complementam e estão

em constante relação de interdependência. Nessa perspectiva, torna-se preponderante identificar as interligações existentes entre os diversos aspectos relacionados ao conceito do fenômeno que se está estudando, aqui de forma específica, a vulnerabilidade socioambiental, para se obter soluções também interligadas para os problemas existentes e potenciais.

Desse modo, qualquer indicador, quer seja ele descritivo ou normativo, se apresenta com uma significância própria. Ou seja, quando comparado com os outras formas de informação dentro do contexto que se está sendo estudado, que definirá a sua importância no direcionamento do planejamento e de ações. Assim, não basta ser apenas significativo para os tomadores de decisão, é preciso antes de tudo, que revele a realidade da sociedade, devendo ser, portanto, importante para o público em geral.

Um bom indicador é aquele que é capaz de revelar um realidade, simplificando as informações relevantes, comunicando-as e esclarecendo suas facetas. Para Van Bellen (2002), os indicadores são de fato um modelo da realidade, mas não podem ser considerados como a própria realidade, entretanto devem ser analiticamente legítimos e construídos dentro de uma metodologia coerente de mensuração.

Para a análise de problemas complexos como é o caso da vulnerabilidade socioambiental, se deve pensar na utilização de indicadores que possam estar interligados e que agreguem várias informações que possam retratar o mais próximo possível uma realidade.

Com base nesta compreensão, e por entender que a vulnerabilidade socioambiental é um tema abrangente, complexo e multifacetado, diversos enfoques tem sido dado nos estudos realizados por instituições e pesquisadores, com o objetivo de se obter uma forma mais adequada de sintetizá-la e mensurá-la. Vários são os sistemas de indicadores de vulnerabilidade socioambiental existentes na literatura, dentre os quais, alguns estão destacados no Quadro 1.

Quadro 1: Sistemas de Indicadores de Vulnerabilidade Socioambiental

Modelos de Mensuração da

Vulnerabilidade Socioambiental Abordagem

Indicadores de Vulnerabilidade (Maior, 2014)

Refere-se a uma metodologia de cunho participativo para cálculo e análise do nível de vulnerabilidade socioambiental da população na cidade de João Pessoa. Para tanto, fez uso da análise de percepção dos citadinos em relação a sua situação de vulnerabilidade.

Indicador e avaliação da vulnerabilidade socioambiental no

Este trabalho apresenta uma análise multidimensional da vulnerabilidade do município de São Paulo frente a processos relacionados a eventos extremos de precipitação, sobretudo

município de São Paulo (Gamba e Ribeiro, 2012)

escorregamentos de vertentes. Ele indica a estreita relação entre vulnerabilidade social e infraestrutural com áreas mais suscetíveis a este tipo de fenômeno, situação que caracteriza a segregação urbana.

Modelo de Mensuração da Vulnerabilidade de Alves (2010)

Foi desenvolvido no contexto urbano do Litoral Paulista, contendo 16 cidades, para identificar áreas com alta vulnerabilidade às mudanças climáticas, permitindo, assim, a construção de indicadores em escala desagregada, que representem as dimensões da vulnerabilidade – susceptibilidade e exposição ao risco ambiental – com a integração de dados socioeconômicos, demográficos e ambientais.

Modelo de Mensuração de Almeida (2010)

Refere-se a sua pesquisa de tese, na qual estudou as vulnerabilidades socioambientais de rios urbanos na Região Metropolitana de Fortaleza-CE e teve como objetivo analisar os riscos e as vulnerabilidades socioambientais de rios urbanos no Brasil, tendo a bacia hidrográfica do rio Maranguapinho, localizada na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), como área de estudo de caso para compreensão das inter- relações das vulnerabilidades sociais e exposição aos riscos naturais, principalmente os riscos de inundações.

Índice de vulnerabilidade socioambiental para a vigilância e gestão de desastres naturais no RJ – IVSA

(Guimarães et al. 2005)

Tem como objetivo um indicador composto para predição de vulnerabilidade na ocorrência de desastres naturais. O índice foi aplicado nos municípios do estado do Rio de Janeiro e comparado aos números oficiais da Defesa Civil.

Social Vulnerability Index (SoVI) (Cutter et al. 2003)

É uma avaliação quantitativa das características que influenciam a vulnerabilidade social aos riscos (pré-acontecimentos) e facilita a comparação entre unidades geográficas (distritos, secções censitárias) em termos dos seus níveis relativos de vulnerabilidade social. Os perfis socioeconómicos são gerados a partir da informação dos censos e submetidos a um procedimento estatístico para reduzir o número de variáveis a um conjunto menor de fatores que descrevem a vulnerabilidade.

Fonte: Elaboração própria (2019)

A partir da identificação e da análise dos diversos sistemas de indicadores existentes, percebe-se que ainda existem lacunas na literatura para se estudar as cidades brasileiras. É possível atentar para outras variáveis imprescindíveis no estudo da vulnerabilidade socioambiental, como por exemplo, as questões que envolvem o processo de expansão urbana nas cidades. Como identificar essas variáveis?

Para tanto, alguns estudos desenvolvidos no contexto urbano enfatizam as problemáticas que acometem as cidades. Dentre eles, destacam-se os autores: Herculano (2000), Sposati (2000), Braga, Freitas e Duarte (2002), Nahas (2002), Rossetto (2003), Machado (2004), Braga (2006), Alves (2006), Morato (2008), Figueiredo (2008), Ribeiro (2008), Roggero (2009), Florissi (2009), Kowarick (2009), Souza (2009), Veiga (2010), Jacobs (2011), Pessoa (2012), Araújo e Cândido (2014), Maior (2014), Maricato (2014),

Gehl (2015), Rogers (2015), Rolnik (2015), Roggero (2015), Martins e Cândido (2015), Pereira e Vieira (2016), Gomes e Gomes (2017).

Após a análise dos estudos desenvolvidos por esses autores, constatou-se que as variáveis apresentadas circundam em torno de alguns aspectos que se repetem. Desse modo, foi possível listar uma série de variáveis que são imprescindíveis ao estudo da vulnerabilidade socioambiental nas cidades, sobretudo, as cidades brasileiras, uma vez que a maioria dos estudos empíricos objetivaram a análise destas como cenário.

O Quadro 2 lista os temas abordados pelos autores citados, possibilitando a identificação de quais aspectos são mais enfatizados nos estudos.

Quadro 2: Aspectos tratados pelos autores para estudar as problemáticas urbanas

Autores

Aspectos analisados pelos autores

So cia l E du ca çã o e Cultura T ra ba lho e Renda Ambi ent a l M o ra dia P o lític a J us tiça Sa úd e Infr a estr utura urba na Seg ura nça Herculano (2000) Sposati (2000)

Braga, Freitas e Duarte

(2002) Nahas (2002) Rossetto (2003) Machado (2004) Braga (2006) Morato (2008) Figueiredo (2008) Ribeiro (2008) Souza (2009) Roggero (2009) Kowarick (2009) Florissi (2009) Veiga (2010) Jacobs (2011) Pessoa (2012) Araújo e Cândido (2014) Maricato (2014) Maior (2014) Roggero (2015) Rogers (2015) Gehl (2015) Rolnik (2015) Martins e Cândido (2015)

Pereira; Vieira (2016)

Gomes e Gomes (2017)

Fonte: Elaboração própria (2019)

A elaboração desse Quadro 2 foi importante, na medida em que permite identificar os aspectos analisados por cada autor ao desenvolverem seus estudos sobre a vulnerabilidade socioambiental e sobre as questões urbanas.

Desse modo, torna-se premente tomar como base tais autores para que se consiga propor um arcabouço de indicadores que permita avaliar e a vulnerabilidade socioambiental em cidades brasileiras. Tal embasamento, proporcionará a análise do fenômeno da vulnerabilidade socioambiental, de forma complexa e envolvendo variáveis que abrangem vários aspectos das cidades brasileiras.

Embasada em todas as discussões até aqui realizadas, o tópico seguinte explicitará área de estudo que será aplicada o sistema de indicadores proposto neste estudo.

3 CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ÁREA DE ESTUDO

A cidade escolhida para a realização deste estudo foi Natal (Figura 2), capital do estado do Rio Grande do Norte, na região Nordeste do Brasil. Segundo o IBGE (2010) a referida cidade possui uma área territorial de 167,264 km2 e sua população está estimada em 885.173 habitantes.

Figura 2: Mapa de localização da cidade de Natal – RN

Criada já com caráter de cidade, Natal foi fundada em 25 de dezembro de 1599 (IBGE, 2010). Sua urbanização teve início por meio da colonização portuguesa e o aumento populacional ocorreu de forma lenta. No final do século XIX a cidade possuía apenas 16.050 habitantes (IBGE, 2010).

Nas décadas finais do século XX, o desenvolvimento da cidade atraiu substancial migração para a denominada Região Metropolitana de Natal, cuja população, a partir de 2000, ultrapassou um milhão de habitantes. A cidade de Natal tem como cidades limítrofes Parnamirim, São Gonçalo e Extremoz e juntos, segundo o IBGE (2010), concentra 42,64% da população do estado (1.361.445 habitantes).

O investimento de infraestrutura tornou-se mais intenso a partir da década de 1980, onde diversas ações de políticas públicas foram colocadas em prática, como por exemplo, a habitação popular, o investimento na área industrial e investimento no turismo, atividade que se tornou a principal atividade econômica da cidade.

Conforme Costa (2000) o crescimento urbano da cidade, mesmo com as intervenções e os planos urbanísticos, ocorreu segregando o espaço entre as classes de

alta renda e as classes de baixa renda. Assim, observa-se que mesmo não sendo áreas homogêneas, pode-se afirmar que nas áreas Norte e Oeste da cidade estabeleceram-se a população mais pobre da cidade, colocando-as em situações de maior vulnerabilidade socioambiental, e as áreas Sul e Leste foram ocupadas pela população mais rica. Desse modo, a cidade possui segregação social e espacial e que não é sua característica exclusiva, mas uma característica das cidades brasileiras.

Segundo Costa (2000), os investimentos habitacionais e as políticas públicas de Estado e de Governo em Natal também foram estabelecidas segregando espacialmente a cidade. Ao passo que as habitações para a população de alta renda eram realizadas na Zona Sul da cidade, pelo Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais do Rio Grande do Norte, (INOCOOP-RN) e que tinha uma parceria de financiamento com a Caixa Econômica Federal; as habitações para a população mais pobre eram construídas na Zona Norte da cidade pelo Estado através do Plano Habitacional Popular, por meio da Companhia de Habitação Popular do Rio Grande do Norte (COHAB-RN) e que tinha como financiador o Banco Nacional de Habitação.

Atualmente, a cidade de Natal apresenta crescimento vertical, em decorrência de sua região metropolitana se apresentar conurbada, o que impossibilita que se cresça horizontalmente. A espacialização da cidade de Natal pode ser observada no Figura 3 e que segundo dados do IBGE (2010), hoje é composta por 36 bairros subdivididos em quatro regiões administrativas.

Figura 3: Mapa das regiões administrativas e bairros da cidade de Natal – RN

A região administrativa Norte é composta por 07 bairros (Lagoa Azul, Nossa Senhora da Apresentação, Igapó, Potengi, Pajuçara, Redinha e Salinas) e abriga 303.543 habitantes, segundo dados do IBGE (2010), sendo considerada a maior tanto em área territorial, quanto em número de habitantes dentre as quatro regiões.

A região administrativa sul é composta por 07 bairros (Lagoa Nova, Nova Descoberta, Candelária, Capim Macio, Pitimbu, Neópolis, Ponta Negra) e abriga 166.491 habitantes (IBGE, 2010).

A região administrativa Leste é composta pelos primeiros bairros da cidade, e no total, compreende uma área composta por 12 bairros (Santos Reis, Rocas, Ribeira, Praia do Meio, Cidade Alta, Petrópolis, Areia Preta, Alecrim, Barro Vermelho, Lagoa Seca, Tirol, Mãe Luiza) e contam com 115.300 habitantes (IBGE, 2010).

A região administrativa Oeste compreende 10 bairros (Nordeste, Quintas, Bom Pastor, Dix-Sept Rosado, Nossa Senhora de Nazaré, Felipe Camarão, Cidade da Esperança, Guarapes, Cidade Nova, Planalto) e abriga um total de 218.405 habitantes, segundo o IBGE (2010).

É importante também destacar as característica naturais da cidade em questão. Natal apresenta uma diversidade de ecossistemas, dentre os quais destaca-se os estuários, planícies de mangue, praias, terraços e vales fluviais, campos dunares, restingas e mata

atlântica. De acordo com Nunes (2000), quanto a sua morfologia, Natal apresenta terrenos com suaves ondulações que tem sua continuidade interrompida pelo aparecimento de verdadeiros cordões de dunas.

Ainda de acordo com Nunes (2000), os recursos hídricos na cidade apresenta-se de forma abundante e com qualidade, pois dispõe de águas subterrâneas dos aquíferos Dunas e Barreiras. Ademais, o supracitado autor ainda faz menção as águas superficiais (bacias dos rios Ceará-Mirim, Doce, Potengi, Jundiaí, Pitimbu e Pium) e de lagoas naturais.

Com base na descrição que aqui foi realizada, desperta o interesse de desenvolver a pesquisa na referida cidade, exatamente para se analisar o nível de vulnerabilidade socioambiental urbano e oferecer subsídios para que um melhor planejamento ocorra e possa minimizar os impactos ocasionados pelo processo de urbanização.

Após a explanação da cidade de Natal, área de estudo, o tópico seguinte trata da metodologia geral do estudo, bem como de cada um dos artigos elaborados para o alcance do objetivo estabelecido.

4 METODOLOGIA GERAL

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