A definição dos indicadores de dualidade a partir da base de dados escolhida e dos critérios elencados guarda severas restrições. Por conta delas, os indicadores recebem denominações alternativas de setor intensivo e setor não intensivo
em escala, pelo que está se admitindo explicitamente a incapacidade dos mesmos em separar plenamente a mão-de-obra entre setores distintos segundo os critérios mais rígidos de tradicionalidade e modernidade, no espectro regional selecionado. A separação em questão, além de deixar surgir elementos de modernidade no setor dito tradicional, inegavelmente capta apenas uma parte das condições mais precárias desse mercado, conforme o procedimento usual de outros estudos em captar a
parcela de trabalho considerada subempregada21.
Nos próximos capítulos, os indicadores de setor intensivo e não intensivo são utilizados em plena correspondência com as definições teóricas de setor moderno e setor tradicional, respectivamente. Entretanto, são levadas em conta todas as restrições mencionadas, de modo a serem destacados os efeitos indesejados por conta do uso das mesmas.
Segundo o disposto, as restrições são especialmente críticas no indicador do setor não intensivo. Esta é uma razão para que questões como a transformação estrutural, sejam preferencialmente consideradas, adiante, a partir do indicador do setor intensivo, cujos valores maiores devem, ao invés de servir como medida precisa,
indicar a menor dualidade da renda e dos padrões de remuneração do trabalho.
Para outras questões, ambos os indicadores podem ser utilizados com restrições bem menos extremas, como é o caso do diferencial de salários. Em outras situações, a preferência permanece sobre o indicador do setor intensivo.
Entretanto, outra razão importante para ter o indicador de setor intensivo como indicador privilegiado de análise refere-se a todos os significados teóricos que carrega. Retomando-se as observações da seção 1.4 do capítulo um, este indicador deve captar características típicas do teórico setor moderno como o uso de volumes mais importantes de estoque de capital, retornos crescentes de escala ao nível da planta e advindos da operação conjunta das firmas no setor e a aplicação de prêmios salariais ou de políticas de salário eficiência.
Além disso, sua função indicativa de tamanho relativo do setor moderno deve conter componentes explicativos do próprio tamanho que alcança. Entre estes componentes destacam-se as externalidades pecuniárias relativas a transbordamentos de renda advindos de salários mais altos e a reduções de custos ocorridas (por conta dos ganhos implícitos de escala) à medida que mais ramos da atividade econômica se modernizem – respectivamente, conforme os entendimentos pretendidos por Rosenstein Rodan e Nurkse. A presença destes componentes deve estar mais clara nos dois próximos capítulos, particularmente nos momentos em que indicadores de sua diversificação produtiva são aplicados.
Como é argumentado ao final, esse indicador além de apresentar um modo indireto de se apreciar a questão da dualidade deve se apresentar crucial pelo fato de, em conjunto com a noção de oferta elástica de mão-de-obra, explicar o próprio avanço da modernidade e da redução da heterogeneidade de renda.
3 DUALIDADE, EXTERNALIDADES E COMPLEMENTARIDADE: ANÁLISE EMPÍRICA
As idéias trabalhadas pelos teóricos do desenvolvimento inspiram formas de tratamento ao tema, alternativas àquelas, por exemplo, de corte neoclássico. De acordo, o alcance de níveis superiores de renda per capita, embora não se dissocie de fontes primárias tradicionais como taxa de poupança, investimento, acúmulo de fatores produtivos etc., vincula-se a outros tipos de forças e por conta delas escapa de dinâmicas comportadas no tempo.
Em primeiro lugar, o processo de transformação estrutural é pertinente a países menos desenvolvidos e nos quais a escassez de capital e o excesso de mão-de-obra estimulam a substituição de formas ditas tradicionais por métodos modernos de produção, intensivos em tecnologia e capital. Em segundo, tal processo e o desenvolvimento econômico em si não são automáticos nem eqüitativamente distribuídos entre os vários contextos regionais. Na realidade, tanto dependem daquele grupo alternativo de condicionantes (complementaridade e retornos crescentes) como, devido aos mesmos, resultam em um processo concentrado.
Em terceiro lugar – e associado ao ponto imediatamente anterior –, o desenvolvimento se explica por idiossincrasias específicas que cumulativamente se formam nos contextos regionais. Dentre diversas linhas de argumentação, cite-se a que destaca o papel da história e expectativas, as quais moldam atitudes dos agentes e definem as trajetórias prováveis de desenvolvimento da coletividade na qual se inserem, conforme tratado em Krugman (1995) e Ray (2000).
Abordando estes elementos de outra forma, outras linhas – em parte, dispostas na parte final do capítulo teórico – destacam a influência das condições iniciais ou simplesmente o papel desempenhado por certas condições como o tamanho de mercado, a presença de fornecedores locais e a coordenação de decisões de investimento dos agentes cujas expectativas individuais não coincidem com as expectativas coletivas em ambientes em que imperam retornos crescentes de escala.
Todas essas visões têm recebido algumas comprovações empíricas, já mencionadas. Por sua vez, o presente trabalho busca uma linha alternativa para lidar com essas questões, cuja principal característica é evitar a camisa de força representada pelas estatísticas habitualmente disponíveis para esse tipo de estudo. Por isso, o propósito das páginas seguintes é, além de avaliar a eficiência empírica dos indicadores propostos na seção metodológica, testar alguns fundamentos por meio destes mesmos indicadores, especificamente relacionadas ao tema das externalidades.
A seção 1 tece comentários sobre o método quantitativo aplicado e os principais problemas enfrentados. A segunda dedica-se ao tema da dualidade versus desenvolvimento, enquanto a seção 3 trata da questão do diferencial de salários. Por fim, a seção 4 elabora sobre os determinantes da diversificação produtiva em setores de produção intermediária.