1.3 A RECUPERAÇÃO E FORMALIZAÇÃO DE INSIGHTS
1.3.2 O PAPEL DA COMPLEMENTARIDADE E DA COORDENAÇÃO NA
1.3.2.1 O modelo de big push
O seminal artigo de Murphy et al. (1989b) contém a formalização que abriu caminhos para a exploração recente da noção de big push de Rosenstein-Rodan (1943). Em grande parte, os avanços por eles obtidos descendem da macroeconomia keynesiana de ciclos e desemprego. Essa macroeconomia é pressuposta na concorrência imperfeita, desenvolvida ao longo da década de oitenta, e que deriva, ainda, da própria modelagem de concorrência imperfeita proposta nos anos setenta (intensivamente aplicada ao estudo da economia internacional). Os pontos que unem
essa macroeconomia e o desenvolvimento econômico corres-pondem justamente ao tratamento multissetorial da economia (em complemento à análise convencional agregada), a aceitação da concorrência imperfeita e a idéia de coexistência de estruturas produtivas concorrenciais e de concorrência imperfeita, a qual, a propósito, em passado remoto ganhou espaço na visão macroeconômica de concorrência de Steindl (1952).
Várias destas leituras e especialmente Weitzman (1982) entendem a economia formada, de um lado, por firmas monopolísticas, cuja operação exige custos fixos mínimos e gera retornos crescentes ao nível da planta, e, de outro, por setores mais próximos a um contexto concorrencial, operantes em dois estágios de produção; um desses estágios associa-se a firmas especializadas de porte muito pequeno e o outro, ao fator trabalho (em termos individuais). Para o autor, esse framework serve para explicar o nível de desemprego voluntário do ponto de vista dos agentes que optam por não se empregarem naqueles estágios, em virtude da espera por oportunidades de ganhos superiores no setor monopolístico.
Shleifer (1986) bebe dessa fonte para modelar expectativas e ciclos e/ou equilíbrios moventes (ou curva "comportada", desprovida de expectativas e daí, de
boom ou lump) de implementação tecnológica em ambientes influenciados pela ação
conjunta de agentes detentores de poder de inovação (no caso firmas monopolísticas). Finalmente, Shleifer e Vishny (1987) complementam esse aparato dedicado a falhas de coordenação com efeitos pecuniários do investimento ou de transbordamentos de lucro sobre a demanda agregada e sobre o fluxo subseqüente dos investimentos (o qual, conforme visto adiante, são a pedra de toque do modelo de big push).
Ainda que vise à compreensão de movimentos da renda e do emprego, o instrumental disposto por essa literatura encaixa-se adequadamente ao entendimento tanto da perpetuação de baixos níveis de renda no tempo como da trajetória a níveis de renda mais elevados tal como vislumbrados pela teoria clássica do desenvolvimento. Adequado a ponto de justificar sua plena aplicação à retórica do que pode se chamar das possibilidades de "salto de industrialização" em economias atrasadas.
O modelo proposto pode ser compreendido em duas etapas, relativas à natureza e à forma das externalidades pecuniárias e, ainda, às condições que estas externalidades e a oferta elástica de mão-de-obra representam para a coordenação de investimentos.
A economia é compreendida na figura do agente representativo, que tem à sua disposição uma renda y e que, por hipótese, a despende de forma equânime em um número bastante grande de n bens de consumo. Por outro lado, esse agente oferta inelasticamente uma quantidade L de unidades de trabalho a um nível de salário dado, e detém os lucros agregados supranormais Π, potencialmente existentes na economia. O principal significado de o agente deter todos os lucros é o de que estes, quando gerados (por isso, o termo potencialmente), são distribuídos a todos os detentores de participação nos mesmos. Assim, supondo-se o salário como numerário, a restrição de renda impõe ao agente a seguinte distribuição dos recursos:
y = Π + L (1.37)
Cada um dos n bens pode ser produzido sob duas formas, utilizando (para fins de simplificação da exposição) apenas o fator trabalho. Uma delas corresponde a uma franja competitiva de firmas atomizadas em um setor S, cuja produção ocorre
sob retornos constantes. A outra é dada por uma firma monopolista Mi que detém
uma tecnologia de produção baseada na operação de custos fixos F e que gera retornos crescentes de escala.
S = L (1.38)
Mi = α(L – F) (1.39)
A entrada de firmas monopolistas em seus respectivos mercados – e o deslocamento da produção tradicional – depende da taxa de lucro esperada, dada pela diferença entre receitas permitidas pelo tamanho de mercado e o volume de mão-de-obra utilizado, conforme o rearranjo da equação 1.37 para a equação 1.40. Depende, também, de hipóteses adicionais sobre sua concorrência com a franja competitiva. Nesse caso, aquelas firmas se vêem obrigadas a praticar os preços de
mercado, porque, de modo contrário, perdem todo o seu mercado para as firmas competitivas. Tendo em vista a demanda do consumidor com elasticidade unitária, também não reduzem os preços sob pena de perder receita e reduzir os volumes de lucro.
Π = y – L (1.40)
Agora, suponha-se, primeiro, que a última dessas firmas que trabalhe com a expectativa de lucros superiores a zero adote a tecnologia redutora de custo. E, segundo, que esta firma corresponda à última de todas as firmas monopolistas existentes no mercado. Quando todas investem, a demanda por L trabalhadores varia com o tamanho do mercado (dado por y) e responde às exigências de F trabalhadores fixos, segundo o rearranjo da equação 1.39 para a equação 1.41. Inserindo-se essa expressão em 1.41 os lucros agregados são dados na equação 1.42.
Entretanto, o caso mais geral deve prever o investimento de uma fração n de monopolistas investe de modo que os lucros agregados correspondem aos lucros dessa fração n. Contudo, como o monopolista individual domina apenas uma fração n do mercado produz apenas parte devida, utilizando para tal o necessário em termos de mão-de-obra e dos recursos fixos de produção. Nesses termos, a equação 1.42 é multiplicada pela fração n e os lucros agregados passam a depender dessa proporção de monopolistas que decidem investir (equação 1.43).
L = y/α + F (1.41)
Π = ay – F (1.42)
Π = n(ay – F) com a = (α – 1)/α (1.43)
O efeito dos lucros sobre a renda pode ser reavaliado inserindo-se a equação 1.43 na restrição orçamentária (1.37), da qual manipulações algébricas resultam na equação 1.44:
É imediato verificar que aumentos em n, de grau de industrialização, expande os níveis renda para cada unidade adicional de mão-de-obra (diferença entre L e F) aplicada nas tecnologias redutoras de custo. Além disso, o tamanho dos retornos de escala, expressos em α, influencia igualmente a renda final. Implici-tamente, a produtividade superior das plantas aumenta os níveis gerais de produtividade. Esses níveis possibilitam lucros positivos que são posteriormente gastos no consumo de bens de todos os setores que industrializam o que, em outros termos, pode ser entendido como transbordamentos de demanda ou, mais especificamente, de lucros. A equação 1.43 indica que lucros positivos decorrem de y > F/a. Do contrário, as firmas monopolistas incorrem em prejuízos, que transbordam para os demais setores aumentando a massa de prejuízos e reduzindo a renda global. Essas direções podem ser apreciadas na simples derivação da equação 1.44 de renda.
dy(n)/dn = π(n)/(1 – na) (1.45)
Quando os lucros são o único canal de transmissão das vantagens ou desvantagens da produção moderna, os monopolistas têm duas possibilidades cole-tivamente racionais: investirem se a expectativa de lucro for positiva ou não investirem se tal expectativa for negativa. Portanto, há um único equilíbrio, sem industrialização (com todos os trabalhadores alocados na produção tradicional S) ou com total industrialização (com todos os trabalhadores alocados na produção moderna M).
De acordo com Rosenstein Rodan (1943), o mercado pode ser suficientemente ampliado se os benefícios da produção moderna forem em parte repassados aos salários, de forma que, mesmo que os investimentos não sejam inicialmente lucrativos, o aumento do volume de salários pode contrabalançar as perdas iniciais e transformá-las em ganhos a partir de certo grau de industrialização. Murphy et al. (1989) introduzem o diferencial de salários, no sentido convencional de atração de mão-de-obra do setor tradicional. Com o salário efetivo w = 1 + v, a restrição orçamentária passa a ser y = wL + П. Para a apreciação desse ponto, a equação 1.43 de lucros pode ser reformulada pela introdução da nova distribuição da renda orçamentária.
À exceção do salário prêmio, outra equação de lucros em que se introduzisse a restrição orçamentária da equação 1.37 na equação 1.43 seria idêntica à equação 1.46. Contudo, a inclusão dos salários prêmios na última equação é de importância crucial à lógica do Big Push, porque os lucros não dependem mais somente da diferença entre a mão-de-obra L (multiplicada pelo fator de produtividade) e os custos fixos F. Agora, também estão afetos àqueles salários, agora surgindo como um novo canal de demanda e cuja influência se modifica à medida do grau de industrialização.
Na realidade, mesmo sob a nova modificação, podem ser alcançados os mesmos equilíbrios racionais anteriores. Pela exposição de Ros (2000), as condições
Π(0) < 0 e Π(1) > 0 exigem algumas considerações. Para a primeira, a renda
alcançada refere-se a lucros (no caso, negativos) e à mão-de-obra remunerada ao nível dos salários praticados no setor tradicional, valendo, então, a restrição 1.37. Em complemento deve-se supor haver algum investimento em custo fixo, de forma que a manipulação do lado direito de (1.46) resulta em F > a(L)/w. Essa desigualdade indica que mesmo com salários prêmios o tamanho de mercado alcançado permanece insuficiente para padrões mais altos de industrialização.
Para a segunda condição não há a necessidade de reparos em (1.46) de forma que conforme seu rearranjo F < a(L). Nessa desigualdade, o tamanho de mercado inicial revela-se suficiente (ou lucrativo) para que todas as firmas possam investir e, desse ponto, elevarem os padrões de industrialização e renda final.
Além das situações de lucro anteriormente mencionadas, a equação 1.46 permite elaborar sobre outra intermediária e que reflete o espírito do Big Push. Para isso, a combinação de certos valores de F e de w devem permitir a oscilação entre os dois equilíbrios extremos, sem ou com industrialização. Sob baixos níveis de industrialização, próximos a zero, projetos de investimento não são rentáveis ou Π(0)
< 0; porém, à medida que os mesmos são efetivados, o decorrente pagamento de
salários prêmio (superiores aos praticados na produção tradicional) transborda entre os setores sob a forma de demanda e que gradativamente compensa aquele extravasamento de lucros inicialmente negativos. A partir de certo ponto, a diferença torna-se positiva e níveis plenos de industrialização podem ser alcançados. De outra forma, Π(1) > 0.
Nessa terceira situação, há que se enfatizar que, individualmente, os monopo-listas não incluem em seus cálculos os efeitos pecuniários da implantação e operação de suas atividades, de modo que diante da perspectiva de perderem dinheiro, decidem por não investir. É nesse sentido que na presença de externalidades pecuniárias – em sua modalidade horizontal (utilizando-se da taxonomia de Fleming (1955) – a racionalidade individual conflita com a racionalidade coletiva, e a economia em seu conjunto pode se equilibrar sob baixos padrões de renda e modernização. Por isso, o alcance do segundo equilíbrio depende da coordenação dos projetos de investimento, capaz de, dito de outra maneira, superar as falhas impostas pela racionalidade individual.