CAPÍTULO 2. A GERAÇÃO DE SEGURANÇA HUMANA – UMA PROPOSTA DE
2.4. INDICADORES SUBJETIVOS E INDICADORES OBJETIVOS
O segundo aspecto complicador, a subjetividade de determinados elementos, tem grande importância, se tratamos de Segurança Humana, em especial. Isso diz respeito, provavelmente, à uma das críticas apontadas no capítulo anterior, a de que a subjetividade do conceito tornaria a Segurança Humana imensurável. Há consenso quanto ao fato de que nem todos os elementos que compõem a Segurança Humana são objetivos, entretanto, compartilha-se aqui a ideia de que esse não é um impedimento para a sua mensuração. Afinal, elementos subjetivos também podem, e devem, ser levados em consideração.
Dessa forma, o conceito parece subdivido em dois tipos de variáveis. A primeira categoria, o mediria através de certos fatos observáveis, tais como estatísticas econômicas, sociais e ambientais. Assim, a Segurança Humana das pessoas é avaliada indiretamente através de medidas cardinais. Por outro lado, as medidas subjetivas capturam os sentimentos de das
pessoas ou sua experiência real de uma forma direta, avaliando o bem-estar através de medidas ordinais (MCGILLIVRAY, CLARKE 2006; VAN HOORN, 2007).
2.4.1. Incapacidade de Mensuração de Fatores “Subjetivos”
Há uma série de elementos que, ao longo de toda a tradição metodológica nas ciências sociais, vem sendo considerados como variáveis perturbadoras ou, com frequência, relegados ao erro. Aspectos como a cultura, a linguagem, o nível de religiosidade, ou a alegria, passaram a ser tratados como dimensões irrelevantes ou até mesmo sem sentido para a compreensão do fenômeno internacional, uma vez que sua avaliação não era alcançada pelos modelos tradicionais de análise. (LAPID, 1989).
Com a ampliação do debate, em especial durante a expansão de temas e agendas no pós- Guerra Fria, tais elementos ganham proeminência, tanto quanto a sua necessidade de mensuração. Para tanto, estimadores alternativos são desenvolvidos de acordo com a forma da interação estratégica, que vão desde jogos simples aos jogos dinâmicos de sinalização, e jogos dinâmicos de escolha contínua. Se o tema é dissuasão (SIGNORINO, TARAR, 2006), sanções econômicas, ou crises monetárias internacionais (LEBLANG, 2003), o uso desses estimadores tornou possível para a estimativa empírica acompanhar de perto e manter-se compatível com o modelo teórico subjacente que envolve a interação estratégica. (BAS, 2010, p.2).
Entretanto, a criação de estimadores paralelos ou proxies continua obedecendo um caráter de aproximação, por vezes perdendo a precisão em apreender ou capturar as dimensões reais sentidas pelos objetos de suas análises. Com a Segurança Humana, essa relação é intensificada, por vezes, quando o conceito é arremessado à arena da subjetividade, digladiando contra a necessidade de inferir sobre felicidade ou a percepção de segurança sentida pelos seus indivíduos. (ALKIRE, 2010.)
Embora haja uma rica produção, em pujante desenvolvimento, sobre a mensuração da felicidade18 ela abriga alguns problemas metodológicos graves. Principalmente, o fato de que, na abordagem da felicidade, as pessoas são vistas como especialistas de seu próprio bem-estar e sua resposta ao questionário sobre seu estado subjetivo é tratado como autoridade. No entanto as pessoas comuns não estão envolvidas como agentes para decidir como avançar sua própria
18 O desenvolvimento atual de medidas melhoradas de felicidade e exploração de sua validade transcultural estão
fornecendo insumos críticos para este aspecto subenfatizado da segurança humana. Índices de felicidade e mensuração da mesma são elementos trabalhados globalmente, inclusive para a definição de políticas públicas de determinados Estados, como o Butão. Mais sobre o tema em Alkire, 2010.
felicidade. Também não é possível para eles para a troca bem-estar subjetivo com outras dimensões da vida. (ALKIRE, 2010. DRÈZE, MURTHI, 2001).
Quanto à percepção de segurança, sua mensuração reside particularmente no campo da psicologia, assim como toda a produção sobre percepções. As Relações Internacionais, em larga escala, se preocupam com a percepção, no campo da segurança, de maneira particular, no tocante à segurança, mas especificamente, à percepção de ameaças.
Podemos dividir as ameaças em duas categorias: as ameaças contra nós como indivíduos e ameaças contra grupos de indivíduos. As relações internacionais concentram-se principalmente, mas não exclusivamente na segunda categoria de ameaças. Ameaças contra coletividades podem ser na forma de (1) ameaças militares, (2) ameaças económicas, ou (3) ameaças culturais. Em contraste, as ameaças contra um indivíduo podem ser na forma de consequências negativas para a sua (1) segurança física, (2) a riqueza pessoal e renda, ou (3) os valores e crenças pessoais. (ROUSSEAU, GARCIA-RETAMERO. 2007, p.745).
Seguramente, essa lógica se aplica, primordialmente, aos modelos tradicionais de análise, observando as ameaças ao Estado e ao indivíduo como coligadas a um centro de poder, e a percepção estaria vinculada à perda desse mesmo poder, em dimensões diversas. Entretanto, ameaças podem ser verbais e físicas. Ameaças verbais são declarações condicionais projetadas para sinalizar a capacidade e a intenção de infligir dano, se os resultados desejados não estão por vir. Enquanto as ameaças físicas também não se dão apenas de maneira direta, assim como as violências, como discorrido em capítulo anterior.
A subjetividade dessa dimensão, portanto, reside não na origem da ameaça, mas na percepção do seu peso, por conseguinte, na segurança do objeto. “Ameaças não inequivocamente falam por si. A compreensão do significado das ameaças é mediada pela percepção do alvo.” (STEIN. 2013, p.2)
A subjetividade de determinados elementos pode, doravante, ser mensurada, embora a opção pelo mesmo acarrete em um alto nível de comprometimento com a relativização de resultados práticos, o que dificilmente pode ser tolerado em programas de aplicação de políticas públicas. Dada a importância da subjetividade, em especial da percepção de segurança – que, por sua vez, implica na felicidade do indivíduo – para a Segurança Humana, será levado em consideração o fator subjetivo, na pesquisa em questão, mesmo que isso implique um grau de objetividade de um elemento subjetivo.
Isto se dará a partir da análise do bem-estar da população, que contará como positivo ou negativo em cada mensuração. Tradicionalmente, o bem-estar tem sido identificado com uma única dimensão objetiva: bem-estar material medido pela renda ou PIB. Em seguida, expandiu- se para medidas como a renda per capita e a pobreza. A ligação entre a renda e bem-estar se baseia na suposição de que a renda permite aumentos no consumo e aumenta o consumo de utilidade. (CONCEIÇÃO, BANDURA, 2008, p.2). Portanto, consideramos aqui que tal elemento, embora subjetivo, seja contemplado pela análise mais objetiva aqui empregada.