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4.2. Lembrar, narrar e ser ouvido: se compreender se transformar

4.2.1 O inesperado, o incidente

Helena, Jade e João trouxeram em seus relatos que algo de inesperado acontece e dispara uma sequência de sentimentos e emoções. Retomo a seguir os inesperados:

de Helena - a mestra percebe que ela estava cochichando com a amiga sobre a sua barriga e lhe castiga com uma prova;

de Jade - o mestre se irrita pelo fato de a aluna estar falando com o colega, durante a explicação da matéria, e a manda sair da sala, expondo-a por uma fala extremamente grosseira e preconceituosa;

de João - quando o mestre sai da sala, o aluno vai até a mesa dele e descobre que ele lê as respostas e conclui que ele engana os alunos.

Woods (1993, p. 2) explica: “Ao contrário dos incidentes críticos, eventos críticos são planejados, antecipados ou controlados”9, do que se se atribui aos incidentes críticos as

características de não, planejamento, não antecipação e não controle. Isso confere um caráter de surpresa aos incidentes que torna a situação diferente daquilo que poderia se estar prevendo. Como nos esclarecem Almeida e Silva (2020 [no prelo]):

(...) as características indispensáveis à dinâmica de elaboração do incidente crítico: o efeito surpresa ocasionado pelo imprevisto do conteúdo, possibilitando a suspensão do automatismo; a reflexão do vivido; o alargamento do campo da consciência; e o processo de mudança.

A retomada dos três inesperados componentes dos episódios permitiu aos professores que regatassem elementos da situação vivida, assim como refletissem sobre eles. O episódio parecia intacto, como se estivesse num quadro, na memória de cada um. Essa característica - estar em suspensão -, parece possibilitar que análise e observações sejam feitas com riqueza 9 Tradução livre do original: “Unlinke critical incidentes, critical events are in large measure, intended, planned and controlled”

de detalhes e com emoções e sentimentos revividos. Algumas reelaborações sobre o vivido ficaram evidentes nos relatos.

Helena relatou que o episódio a levou a pensar sobre o jeito impulsivo de falar. Concluiu que talvez fale assim desde pequena e revelou com isso uma mudança sobre o olhar para si própria e para a maneira como age hoje em algumas situações comunicativas:

“Eu acho que o que mais me marcou foi assim... Eu não tinha a intenção de fazer tudo isso, de causar isso na professora, era simplesmente uma brincadeira de criança, mas entendo ... compreendi hoje, que para ela, na época, era uma questão forte. (...) Refletindo isso agora, acho que desde cedo o meu jeito de falar, de me expressar, às vezes as pessoas não me compreendem. (...) Acho legal que, quando a gente viveu a experiência dessa atividade, a gente percebe que no fundo, no fundinho, tem a ver com a gente hoje.”

Jade contou que relatar sua experiência a levou a redimensionar o sentimento que tinha até então sobre o ocorrido. Disse ter escolhido o episódio por considerar que seria chocante e, por isso, um momento que dispararia boas discussões. No entanto, surpreende-se com a análise dos colegas, e passa a ver toda a situação também de uma nova perspectiva:

“Ah, de certa forma, eu me senti aliviada de ter contado, mas também… como eu percebi… as pessoas se chocaram, de certa forma, com o fato do que o professor falou comigo. Mas também não foi aquela coisa de: “Nossa! Que absurdo!! Gente! Nossa! Coitada!” Sabe, porque existe coisa mais séria. Mas eu pensei assim… Depois eu comecei a olhar de um outro lugar, sabe? Eu comecei a… Ah, eu acho que eu fiquei com um pouco de… não é pena do professor. Ah, eu fiquei pensando que ele… talvez ele não tivesse outras possibilidades. Entendeu?”

João, por sua vez, relata:

“E aí que eu vi que era livro, e eu nem sabia que existia livro de professor. Eu falei: “É o livro que tem pergunta e resposta!! Igual o que ele fala para a gente fazer. Ó, está escrito a pergunta em preto e a resposta em azul.” E voltei logo para a minha carteira, o pessoal: “Não, mas é, não é?” Eu falei: “Vai lá ver!”. Mais uns dois ou três foram para olhar e constataram isso.”

João explicou que foi tomado por tamanha decepção que, muitas vezes em seu percurso profissional, agiu de modo inverso daquilo que o marcou em relação àquele mestre. Também relatou na entrevista que sentiu ter adquirido mais consciência sobre o quanto a descoberta inesperada, a respeito da mentira do mestre, está relacionada com o desejo de ser um professor que transmita segurança e confiança aos seus alunos.

Nos trechos destacados dos episódios dos três docentes (Helena, Jade e João), encontram-se elementos que reforçam o quanto incidentes críticos têm potencial formativo, reflexivo e transformador, uma vez que levaram os envolvidos a uma alteração de perspectiva sobre si, sobre o outro ou sobre a situação.

Um aspecto a se destacar na retomada dos episódios narrados é que, nos de Rodrigo e Valéria, não aparecem elementos inesperados ou surpreendentes, e sim uma sequência descritiva das ações de seus mestres, que permitem ao ouvinte ou ao leitor compreender a importância da situação descrita. Essas características alinham os incidentes à modalidade “descrição”, como explica Almeida (2009, p. 188):

(...) é uma descrição detalhada de um fato e da situação que lhe deu origem, de modo que as informações contidas na descrição ofereçam base para o leitor \ ouvinte, chegue ao enunciado de uma opinião (...).=

Ainda que não tenha sido explicitado um ponto inesperado na situação descrita pelos dois docentes, suas narrativas foram suficientemente claras para o grupo compreender como significaram um marco na trajetória pessoal e profissional deles.