CAPÍTULO 3: ANÁLISE CONTRASTIVA A POSTERIORI
3.1 TIPOLOGIA DE ERROS
3.1.1 Gerúndio
3.1.2.5 Infinitivo: problemática flexional
Tendo em vista o fato de o infinitivo poder ou não ocorrer de forma flexionada, refletiremos sobre seu uso na forma impessoal e na pessoal. Assim sendo, os registros seguintes com seus respectivos comentários serão apresentados respeitando-se essa distinção, respectivamente, nos casos A e B.
3.1.2.5.1 Caso A: infinitivo impessoal
Exibiremos aqui as falas que confirmam o uso alternativo do infinitivo diretamente associado à incompreensão do uso e flexão dos tempos verbais. No entanto, ele é trocado por várias formas verbais em situações que exigem sua presença.
F1 I “É uma aula de português para ajuda o trabalho”. L2 "São aulas de português para ajudar no trabalho."
F2 I “[...] as pessoas que têm um talento das línguas não está as pessoas melhores ensaia língua”.
L2 "[...] as pessoas que têm facilidade para línguas não são as mais
indicadas para ensinar uma língua."
F3 I “O entusiasmo dos brasileiros conhece outros países”. L2 "O entusiasmo dos brasileiros em conhecer outros países."
e
F4 I “[...] talvez aprenda a História do Brasil é muito interessante”. L2 "[...] talvez seja muito interessante aprender História do Brasil."
As formas do modo finito ajuda, ensaia, conhece, no presente do indicativo e
aprenda, no presente do subjuntivo, destoa em lugar reservado ao infinitivo
Analisando essas quatro ocorrências, nota-se o emprego inadequado das formas verbais que não o infinitivo, usadas mecanicamente, gerando agramaticalidade.
Considerando as falas, observamos o seguinte: o entrevistado para evitar um possível erro através do uso alternativo do infinitivo provoca a impropriedade pelo caminho inverso, pois, como vimos, nos três primeiros casos, usa-se erroneamente o presente do indicativo, ajuda, ensaia e conhece. Nas duas falas iniciais ajuda e
ensaia aparece em lugar do infinitivo ajudar e ensaiar ("treinar") para indicar
finalidade, que no primeiro caso ficaria assegurada pela marca da preposição para (para ajudar); no segundo caso, no entanto, observa-se um agravante: a ausência da respectiva preposição para dificulta ainda mais a inferência da intenção da falante. No terceiro caso, o presente do indicativo, conhece, foi usado em lugar do infinitivo conhecer, que deveria aparecer precedido da preposição em para exercer a função de complemento nominal do núcleo entusiasmo. No quarto caso seleciona- se, de maneira errada, a forma aprenda do presente do subjuntivo, que ficou em lugar do correto infinitivo aprender para exercer a função de sujeito, isto, provavelmente, pela influência do advérbio talvez.
Os falantes exteriorizam certa ansiedade com a possibilidade de incorrer no mesmo erro ao escolherem, durante a elaboração de suas falas, a forma impessoal ― não flexionada ― do infinitivo, por não terem assimilado adequadamente os mecanismos de flexão verbal no tempo e pessoa correta, como já ocorrera em várias situações constrangedoras ao cometerem uma falha que comprometia significativamente a boa expressão em português.
Os entrevistados, por falta de domínio da forma verbal procedente, utilizam uma forma alternativa que, embora evidencie desencontros de empregos não chegam a comprometer significativamente a decodificação da mensagem do texto. Tais ocorrências serão demonstradas nos casos que passaremos a apreciar.
Nas falas anteriormente comentadas e em outras ocorrências semelhantes empregam-se os verbos no modo finito (presente do indicativo nos três primeiros casos; presente do subjuntivo no quarto caso), uma maneira de flexionar supostamente apropriada para os falantes, mas inadequada de acordo com as normas oficiais da língua portuguesa, pois esses contextos requerem infinitivo. Ocorreu então o mesmo nível de agramaticalidade dos casos contrários em que a ausência do infinitivo, não mais a sua presença, é o que causa impropriedade e
improcedência no uso, gerando o erro. Conseqüentemente, comete-se um erro comum com iniciativas opostas: quer por não se flexionar o verbo em algumas situações quer por flexioná-lo em outras. Na verdade, as formas apropriadas, exigidas por dois contextos diferentes, não são percebidas.
3.1.2.5.2 Caso B: infinitivo pessoal
Quanto ao emprego do infinitivo pessoal, observem-se as ocorrências 1 e 2:
F1 I “[...] até agora não existe um médio a coisas internacionais para eles trabalham e usam esta língua.
Equivalente às seguintes correspondências em L2:
F1 L2 a) “[...] até agora não existe um meio para eles trabalharem e usarem
essa língua com assuntos (atividades) internacionais.”
ou b) “[...] até agora não existe um meio para que eles trabalhem e
usem essa língua com assuntos internacionais.”
Em (a) apresentamos uma opção de infinitivo pessoal (forma flexionada do infinitivo) não usada pelos falantes provavelmente por se tratar de um tipo de flexão menos rotineira e ainda não convenientemente assimilada, que exigiria a concordância em número com o referente eles – trata-se de um problema encontrado até no falante-nativo da língua portuguesa no Brasil. Os verbos aparecem, então, como alternativa na forma de presente do indicativo, para eles
trabalham e usam, um uso impróprio por não expressarem a idéia de finalidade
claramente subentendida na expressão, que alcançou total adequação na forma de infinitivo em L2.
Em (b) apresentamos uma situação diferente: utilizamos uma paráfrase com um tipo de construção desdobrada, para que eles ttrabalhem e usem, também aceitável, através do uso do subjuntivo, indicando possibilidade ou eventualidade,
mas, por ser uma forma de difícil assimilação, aparece com pouca freqüência nas falas elencadas.
Focalizemos agora segunda fala e sua respectiva correspondência:
F2 I “[...] esse coisa de todas palavras português têm muito diferente sentido.”
L2 “[...] esse problema de todas as palavras do português terem sentidos
muito diferentes [...].”
A opção pelo infinitivo pessoal em L2, uma flexão possivelmente inacessível aos falantes, como já observamos, vem corrigir o uso inadequado e improcedente do presente do indicativo na interlíngua, que aparece na oração: esse coisa de todas
palavras português têm muito diferentes sentido [...], onde a expressão: de todas palavras português [...], exerce a função de um complemento nominal da palavra coisa, como podemos comprovar pela presença da preposição de. O deslocamento
dos componentes da oração — inversão de sujeito e verbo na L2: essa coisa de
terem todas as palavras do português sentidos muito diferentes. deixa mais evidente
a necessidade do uso do infinitivo flexionado no plural, concordando em número com o núcleo do sujeito palavras.
Essa ocorrência mostra um caso mais problemático do infinitivo pessoal, pois envolve transformações do texto para a compreensão de uma estrutura subjacente, como demonstraremos adiante.
Conforme observamos, o infinitivo pessoal, a forma flexionada do infinitivo, revelou-se uma das maiores dificuldades para a assimilação das disponibilidades morfológicas encontradas no universo de flexões da língua portuguesa. Esse fato, no entanto, apesar de incomodar os estudiosos da língua, não dificultou a decodificação da mensagem.
Trataremos a seguir dos problemas relativos à combinação das formas verbais, ― os chamados sintagmas verbais.