CAPÍTULO 3: ANÁLISE CONTRASTIVA A POSTERIORI
3.1 TIPOLOGIA DE ERROS
3.1.3 Sintagmas verbais
3.1.3.1 Sintagmas com dois componentes
Observem-se as falas do primeiro grupo:
F1 I “Nós preferimos tem contratos, papel”
L2 “Nós (do Conselho) preferimos ter contratos por escrito.”
F2 I “Eu tento falo, mas não conseguio.” L2 “Eu tento falar, mas não consigo.”
F3 I “[...] realmente eu gosto fala português, mas [...]” L2 “[...] realmente eu gosto de falar português, mas [...]”
F4 I “[...] agora eu posso entendo as notícias.”
L2 “[...] agora eu posso entender as notícias do rádio.”
e
F5 I “Eu não saber contar o motorista do táxi meu endereço.”
L2 “Eu não soube dizer (informar) ao motorista do táxi o meu endereço.”
Nos casos 1, 2, 3 e 4, os verbos regentes flexionados, respectivamente
No entanto, o falante conjugou erroneamente os dois verbos tanto o regente como o regido no presente do indicativo, preferimos tem, tento falo, gosto fala e posso
entendo, influenciados talvez, em 2, tento falo e 4, posso entendo, pela terminação
dos verbos regentes, num processo de contaminação.
No caso 3, gosto fala, nota-se a má estruturação do sintagma, causada pelo desrespeito à regência do verbo gostar que requer a presença da preposição de. Atribuímos, ainda, a agramaticalidade desse sintagma ao fato de as mesmas formas poderem representar classes gramaticais diferentes: fala (verbo) e fala (nominalização do verbo, um deverbal), o que admitiria a expressão gosto da fala, em que a palavra fala, precedida do determinante a, passa a assumir a função (o valor) de um nome (substantivo).
No caso 5, eu não saber contar, além da inadequação semântica encontrada no verbo regido contar em vez de dizer ― uma dificuldade bastante freqüente nas falas analisadas, não se conjugou o verbo regente, possivelmente por desconhecimento da conjugação ou eventualmente por contaminação morfológica e até mesmo fonética do sufixo -er do verbo vizinho (próximo) a ele agregado. Conseqüentemente, os dois verbos permaneceram no infinitivo, saber contar.
Observou-se, nesse primeiro grupo de sintagmas, uma contaminação morfológica justificada pela influência do verbo regente sobre o verbo regido
No segundo grupo temos:
F1 I “Eu gostaria ter um trabalho no Brasil.” L2 “Eu gostaria de fazer um trabalho no Brasil.”
F2 I ”Eu precisei ter uma autoridade [...]”
L2 “Eu precisava manter minha autoridade (me impor) [...]”
F3 I “Eu preciso de explicar para vocês [...]” L2 “Eu preciso explicar para vocês [...]”
e
F4 I “[...] então eu falei inglês porque eu precisei ter uma posição do chefe.” L2 “[...] eu falava, então inglês porque eu precisava assumir uma postura
No caso 1, desrespeita-se a regência do verbo gostar pela omissão da preposição de; usa-se gostaria ter.
As falas 2 e 3 exibem uma instabilidade na construção do sintagma verbal devido ao acerto da regência do verbo precisar na fala 2, precisei ter, e o erro do mesmo falante na fala 3, evidenciado pela presença desnecessária da preposição
de em preciso de explicar.
A fala 4, conforme o contexto, destina-se a exprimir ações habituais no passado, mas torna-se descaracterizada pelo uso de tempos verbais incompatíveis. Entretanto, o sintagma verbal precisei ter se apresenta bem estruturado, pois optou- se corretamente pelo verbo regente, o modal precisar , que denota essa obrigatoriedade. Contudo, não se alcançou a adequação no emprego do tempo verbal: usou-se o pretérito perfeito do indicativo em lugar do imperfeito, uma forma requerida também na oração principal para o estabelecimento de uma correlação de hábitos. Apesar de o sintagma verbal ter sido bem estruturado quanto à escolha do verbo precisar, cabe ressaltar a escolha semântica imprópria do verbo principal: houve opção por ter, como verbo vicário, em vez de o mais indicado assumir.
Conforme verificado os verbos gostar e precisar assumem, nessas falas, a função de verbo regente.
No terceiro grupo, teceremos comentários a respeito da expressão
ir+infinitivo, tendo em vista a estruturação dos sintagmas.
Analisem-se as falas:
F1 I “Eu vou viver em São Paulo até três anos”
L2 “Eu vou ficar (morar) em São Paulo por três anos.”
F2 I “Eu estou nervioso você vai usar por uma outra assunto.”
L2 “Eu estou preocupada porque você pode usar (esta entrevista) para
uma outra finalidade.”
ou "Eu estou achando28 que você vai usar para uma outra [...]."
28
Esse sintagma já traz subentendida a idéia de preocupação e pode admitir, então, a permanência de “vai usar”.
F3 I “[...] porque você gostaria aprender inglês, você vai ficar lá uns seis meses.!”
L2 “[...] se você gostaria de aprender (quer aprender) inglês, você
deveria (deve) ficar lá (na Inglaterra) uns seis meses.”
F4 I “Eu não espero o projeto vai mudar.” L2 “Eu não espero que o projeto mude.”
ou “(Eu espero que o projeto não mude.)”
F5 I “Se eu vou ir pra outra país, agora eu vou desenvolver uma sistema muito bom.”
L2 “Se eu for para outro país, agora (depois de toda essa experiência) eu
vou (sei, saberei) desenvolver (criar) uma técnica muito boa.”
F6 I “[...] hoje nós vamos falar com o vocabulário do aeroporto.”
L2 “[...] hoje nós vamos usar (trabalhar ( quero aprender) o vocabulário
do aeroporto.”
Em 1, registra-se vou viver, forma de expressão que atribuímos à influência do inglês going to; sendo, nesse caso, mais apropriada a alternativa sugerida em L3,
vou ficar ("morar").
Em 2, apesar de a correspondência do sintagma verbal em L2, pode usar, ficar mais adequada para explicitar a idéia de eventualidade pretendida, a escolha
vai usar, presente na oração subordinada, não destoa, por se encontrar em um
contexto em que a expressão da oração principal introdutória Eu estou nervioso já transmite essa intenção.
Em 3, além da falha na regência do verbo gostar, gostaria aprender, na oração subordinada, o sintagma verbal em L2 com o verbo modal deveria/deve correspondente a vai ficar presente na interlíngua, expressa de forma mais adequada a idéia de conselho, (“sugestão”) subentendida no contexto.
Em 4, usou-se o sintagma vai mudar por influência do inglês going to até para o modo subjuntivo em L2, na oração subordinada do período espero que o projeto
mude. Escolhe-se uma forma que transmite uma idéia real em vez da hipotética mude/venha mudar.
Em 5, queremos crer que também se encontra uma possível influência do inglês going to go. Usaram-se formas inadequadas à construção de orações condicionais. Criou-se uma mistura entre os modos da oração principal e os da subordinada: o indicativo vou aparece, erroneamente na subordinada em lugar do subjuntivo se eu for.
Em 6, além da escolha semanticamente imprópria do verbo regido falar, o sintagma vamos falar com não corresponde à intenção do falante, inferida pelo contexto, uma tomada de decisão, o que se obtém pela expressão quero aprender.
Da observação do uso do verbo ir+inf, conclui-se que os entrevistados, de acordo com o contexto, estruturam o sintagma verbal de maneira inadequada, devido à combinação imprópria do verbo ir como verbo regente seguido pelo infinitivo, uma forma estigmatizada para a função de futuro imediato.
Considere-se agora a fala:
F1 I “Eu acho que agora eu deve dar os aulas pra você [...]”
L2 “Eu julgo que agora eu (já) posso, consigo (possa, consiga) dar
aulas para você [...]”
No sintagma deve dar verifica-se uma escolha inadequada de verbo regente
dever para exteriorizar a idéia de capacidade, condições que, de acordo com o
contexto, estaria devidamente representada pelos verbos poder, conseguir. A forma
deve registrada nessa fala apresenta ainda mais dois tipos de erros: quanto à
pessoa do verbo, deve em vez de devo, e quanto ao modo verbal, deve em vez de
deva.
As formas verbais posso, consigo no modo indicativo, sugeridas em L2, correspondentes ao que se observa em deve na interlíngua, também nesse mesmo modo, não ocasionariam problema de acordo com a norma usual. O subjuntivo, no entanto, representa de maneira mais expressiva a idéia de probabilidade face à intencionalidade do falante.
Se compararmos essa fala com a fala 3 do grupo anterior, percebemos que o verbo dever sugerido na fala 3 em L2, substitui a inadequação semântica do emprego do verbo ir da interlíngua. Entretanto, na fala em análise, o verbo dever, presente em eu deve dar, corresponde a "poder", "conseguir" o que demonstra que
o mesmo verbo solicitado em um contexto 1 é rejeitado em outro, ocasionando um problema de seleção lexical para o falante.
Na fala:
F1 ou
I L2
“Realmente eu quiser voltar pra Inglaterra, [...]"
“Realmente, (na verdade) eu quis voltar (pensei em voltar). para a Inglaterra.”
Nota-se agora uma dificuldade na conjugação do verbo. Usou-se equivocadamente o futuro do subjuntivo quiser, que sugere uma certa aproximação morfológica com o infinitivo querer, mais especificamente por apresentarem o mesmo tipo de sufixo, já que é muito freqüente o registro de sintagmas verbais inadequados, a exemplo da composição aceitável de dois infinitivos: querer voltar. Não se deve descartar também a possibilidade de a opção improcedente pela forma do subjuntivo ter acontecido conscientemente, considerando o fato de ela muitas vezes coincidir, na língua portuguesa, com a forma do infinitivo. Essa confusão no uso do verbo gerou um erro em eu quiser voltar, que encontra correspondência correta em eu quis voltar, conforme L2.
Observou-se aqui um caso específico: sintagma mal estruturado em que o verbo regente no modo subjuntivo, quiser, substituiu o indicativo, quis, tornando-se necessária a inferência para que se pudesse compreender a mensagem.
Atente-se a seguir para as falas:
F1 I “Uma vizinha também [...]”
L2 “Uma vizinha também vinha assistir.”
e
F2 I “Eu li os palavras.”
L2 “Eu conseguia ler (lia) as palavras.”
A exemplo do que ocorreu anteriormente, subentende-se, na fala 1, pela presença de também a informação inferida pelo contexto, tendo em vista as referências precedentes. Essa informação foi veiculada em L2 pelo sintagma vinha
assistir, que o falante não construiu apesar de esta possibilitar uma transferência
direta do inglês, came to watch.
Em 2, não se criou também um sintagma que transmitisse a idéia de
capacidade, (“condições”) como se observa em L2: empregou-se, iinclusive, o
pretérito perfeito do indicativo do verbo ler, (li) em lugar do imperfeito lia, descaracterizando a idéia de freqüência de ação no passado, implícita no contexto.
Quanto aos sintagmas verbais com dois componentes, verificamos que as construções desrespeitaram as formas apropriadas de tempo, modo, número, pessoa e aspecto verbal, incluindo a indevida combinação lexical, decorrente muitas vezes da influência da língua inglesa como demonstraremos a seguir.
3.1.3.1.1 Sintagmas de dois componentes: influências do inglês
Na seqüência da análise dos sintagmas verbais compostos por dois elementos, reservamos este espaço para as prováveis influências da língua inglesa, refletidas nas estruturas subseqüentes.
Sobre a incidência da construção ir + infinitivo considerem-se: F1 I “Eu vou viver em São Paulo até três anos.”
L2 “Eu vou ficar, ficarei (vou morar, morarei) em São Paulo por três anos.”
F2 I "Eu estou falando com pessoa, com certeza, não vai estar lá durante 99." L2 "Eu estou falando com uma pessoa que, com certeza não estará lá em
99."
F3 I "Quatro ou cinco anos eu acho que eu vou ficar aqui." L2 "Eu acho que ficarei aqui por quatro ou cinco anos."
F4 I "[...] hoje nós vamos falar com o vocabulário do aeroporto."
L2 "[...] hoje nós vamos usar, usaremos (trabalharemos com) o
F5 I "Eu acho que eu vou voltar para a Inglaterra, outro país, mas não é [...]" L2
ou
a) "Eu voltarei para a Inglaterra ou para outro país, mas não é nada certo."
de acordo com o contexto, infere-se pela obrigatoriedade do retorno ou "Eu devo voltar para a Inglaterra ou para outro país, mas não é nada
certo."
F6 I "Eu estou nervioso você vai usar por uma outra assunto."
L2 a) "Eu estou preocupada porque usará (esta entrevista) para uma outra
finalidade."
ou "Eu estou preocupada porque você pode usar (esta entrevista) para uma outra finalidade."
F7 I "[...] porque você gostaria aprender inglês, você vai ficar lá uns seis meses."
L2 "[...] se você gostasse ("quisesse") inglês, você deveria ficar lá (na
Inglaterra) uns seis meses."
F8 I "Eu não espero o projeto vai mudar."
L2 "Eu não espero que o projeto possa mudar."
F9 I "Se eu vou ir pra outra país, agora eu vou desenvolver uma sistema [...]" L2 "Se eu for para outro país, agora eu sei (saberei) criar uma técnica [...]"
Encontramos nas nove falas transcritas a rotineira influência do going to do inglês, já observado anteriormente, transferido literalmente para o português, como
vou ver, vai estar, vou ficar, vamos falar, vou voltar e vai usar, numa emissão quase
padronizada das formas correspondentes ao futuro em português. Trata-se da incidência do ir+infinitivo na expressão dos falantes da língua inglesa, portanto, um reflexo bem perceptível dessa influência.
Observamos, ainda, que os sintagmas compostos por verbos modais, como,
poder, dever presentes em L2, são bastante expressivos semanticamente por
imprimirem às respectivas noções de possibilidade e de obrigatoriedade correspondentes à intenção do falante, como se pode inferir pelo contexto nas falas
de números: 5, vou voltar por devo voltar; 6, vai usar por pode usar; 7, vai ficar por
deveria ficar e 8, vai mudar por possa mudar.
Esses casos demonstram uma dificuldade na assimilação e domínio dos verbos modais bastante presentes e semanticamente necessários aos diálogos.
Devemos destacar ainda as ocorrências em que se trunca a informação da mensagem, devido à hesitação do falante na construção do sintagma verbal, uma insegurança representada pelas reticências, como ocorre em:
F1 I “[...] e também ele quis [...] en [...] ensaio gramática.” L2 “[...] e também ele quis treinar gramática.”
Percebe-se nessa fala, uma dificuldade de estruturação do sintagma: conjugaram-se os dois verbos da construção, causando estranheza e agramaticalidade à expressão, que requer o verbo regido na forma de infinitivo,
ensaiar ("treinar"). Podemos, ainda, inferir nessa estrutura um outro tipo de
problema, gerado por uma confusão de classes, pois usou-se em lugar do infinitivo o deverbal ensaio, um substantivo, visivelmente reconhecido pelo fato de o verbo regente querer estar no pretérito perfeito e na 3ª pessoa do singular.
Apreciem-se, agora:
F1 I “Esto uma história muito interessante porque eu fiquei aqui seis meses mais ou menos.”
L2 “Esta é uma história muito complicada porque eu fiquei/tive de ficar
(resolvendo esse problema) 6 meses mais ou menos.” e
F2 I “Depois do jantar, a família, a erma fica com televisão, com a novela das oito.”
L2 “Depois do jantar, a família toda e a irmã ficavam assistindo à
televisão, à novela das oito.”
Em 1, a correspondência com o sintagma: fiquei resolvendo (esse problema) foi inferida pelo contexto.
Em 2, apesar de essa estrutura com gerúndio, ficar assistindo, em L2 corresponder diretamente à do inglês, keep watching, permitindo uma transferência
positiva para o português, isto não se verifica nessa construção. Além disso, no sintagma ocorre ainda o uso da preposição com gerando a expressão ficar com, que acabou, por seu uso aleatório, destoando dentro do referido contexto.
As ausências de formas lexicais necessárias à estruturação dos sintagmas verbais pertinentes à fala dos entrevistados confirmam a falta de acesso dos falantes a tais construções. É um fato atrelado ao nível de exigência na composição dessas expressões, apesar de elas apresentarem, muitas vezes, uma relação com a língua inglesa, como o caso das mencionadas estruturas correspondentes a ir + gerúndio na L2.