2. Valor da causa no processo civil
2.8. Influência do valor da causa no processo civil
37 Havendo correção de ofício na sentença ou nesta for decidida a impugnação do valor da causa, caberá recurso de apelação, porque da sentença que extingue o processo caberá apelação (art. 1009 do CPC). Situação curiosa é a apresentada por Daniel Amorim,86 quando a parte vencedora no mérito ou na extinção do processo sem mérito, sair vencida no capítulo incidente da impugnação ao valor da causa, entendendo que neste caso, mesmo sendo vencedora na questão principal, a parte terá interesse e, pode recorrer do capítulo em que saiu vencida na impugnação ao valor da causa. Assim também parece ser possível no caso de julgamento intermediário (antes da sentença), em que vencida a parte no incidente, mesmo que ao final seja vencedora na questão principal. Isto porque, não se admitindo o recurso de agravo por instrumento por ocasião da decisão, esta questão ficará pendente e poderá ser objeto de recurso de apelação por qualquer das partes após a sentença. A questão ficará pendente, desde que se entenda não ser cabível de imediato o recurso de agravo. Em se entendendo que é cabível de imediato o agravo e este não sendo interposto, parece ocorrer preclusão. A questão é interessante e exige uma posição firme e definitiva da doutrina e da jurisprudência.
38 No direito processual do trabalho, encontra-se norma específica sobre o assunto a indicar os princípios a serem seguidos no que diz respeito ao valor da causa. Sem se afastar da norma geral do processo, a Lei 5.584/1970 dispõe que, nos dissídios individuais, proposta a conciliação e não havendo acordo, o presidente da Junta ou o juiz, antes de passar à instrução da causa, fixar-lhe-á o valor para fixação da alçada, se este for indeterminado no pedido (cf. art. 2º) e aplicação do procedimento sumaríssimo às causas de valor até 40 salários de referência (art. 852-A da CLT) o impedimento de interposição de recursos para a segunda instância em causas de valor inferior ao de alçada,89 bem como da competência para causas de igual valor.90
Além de servir de valor para indicar a forma processual com possibilidade de ser dispensado o resumo dos depoimentos, na forma do § 3º do art. 2º vai mais longe, impedindo a apresentação de qualquer dos recursos previstos no art. 893 da Consolidação das Leis do Trabalho, toda vez que a causa tiver valor igual ou inferior à alçada prevista, que é de duas vezes o salário mínimo vigente, conforme expressa o § 4º do mesmo dispositivo supra, ressalvada a possibilidade em caso de discussão sobre matéria constitucional. Defrontamos aí com uma norma específica do processo do trabalho, mas que encontra respaldo em toda sistemática processual em geral.
A mesma CLT com a nova redação que lhe deu a Lei 9.957/2000, em seu art.
896, § 6º, afirma que nas causas de procedimento sumaríssimo somente será admitido o recurso de revista por contrariedade a súmula de jurisprudência uniforme do Tribunal Superior do trabalho e violação direta da Constituição da República, o que, indica, a contrário sensu, que fora estas hipóteses não será possível a interposição de recurso de revista no procedimento sumaríssimo, que foi instituído no processo trabalhista, unicamente em função do valor da causa. Mais uma demonstração de que a cada vez mais o legislador se preocupa com o valor da causa e de sua implicação na sistemática recursal.
89 Em relação aos recursos, somente terá acesso ao segundo grau as causas cujos valores ultrapassarem o valor de alçada.
90 “Valor da causa. Competência ‘ad valorem’ da Justiça do Trabalho. A competência ‘ad valorem’ na Justiça do Trabalho impede recurso de sentença de primeiro grau em que o valor da causa não ultrapasse a dois salários mínimos, salvo quando envolva matéria constitucional. Essa exceção ao duplo grau de jurisdição, garantido constitucionalmente de forma implícita, não foi, até o momento, declarada inconstitucional pelo STF. Toda causa tem um valor econômico e a ela deve ser atribuído um valor certo”
(RRev 2.420/81, 1ª Turma do TST, RF, v. 283, p. 387).
39 Em se tratando de valor da causa instituto com natureza de direito público, a sua influência é ainda maior quando se trata de competência absoluta.91 Sem se afastar da norma geral do processo, a Lei 5.584/1970 dispõe que, nos dissídios individuais, proposta a conciliação e não havendo acordo, o presidente da Junta ou o juiz, antes de passar à instrução da causa, fixar-lhe-á o valor para adequação da alçada, se este for indeterminado no pedido.92
Nesse caso, o valor da causa, além de servir de valor para indicar a forma procedimental, com possibilidade de ser dispensado o resumo dos depoimentos, na forma do § 3º do art. 2º vai mais longe, impedindo a apresentação de qualquer dos recursos previstos no art. 893 da Consolidação das Leis do Trabalho, toda vez que a causa tiver valor igual ou inferior à alçada prevista, que é de duas vezes o salário mínimo vigente, conforme expressa o § 4º do mesmo dispositivo supra, ressalvada a possibilidade em caso de discussão sobre matéria constitucional. Defronta-se aí com uma norma específica do processo do trabalho, mas que encontra respaldo em toda sistemática processual em geral.
A mesma CLT, com a nova redação que lhe deu a lei 9.957/2000, em seu art.
896, § 6º, afirma que nas causas de procedimento sumaríssimo, somente será admitido o recurso de revista por contrariedade a súmula de jurisprudência uniforme do Tribunal Superior do Trabalho e violação direta da Constituição da República, o que indica, a contrário sensu, que fora estas hipóteses não será possível a interposição de recurso de revista no procedimento sumaríssimo, que foi instituído no processo trabalhista, unicamente em função do valor da causa. Mais uma demonstração de que cada vez mais o legislador se preocupa com o valor da causa e de sua implicação na sistemática recursal.
Também, a Lei 10.259/2001, que regula os Juizados Especiais Cíveis e Criminais no âmbito da Justiça Federal, após limitar a competência desses órgãos para as causas de valor até sessenta salários mínimos (art. 3º), afirma que somente será admitido recurso de sentença definitiva (art. 5º), afastando com isso o recurso das decisões interlocutórias e até mesmo de sentenças que não sejam definitivas (sentenças sem
91 Absoluta, real ou de “atribuições”, tem em vista a natureza e o valor das causas, a condição das pessoas e o grau hierárquico de jurisdição. Relativa, territorial, é determinada pelos limites da circunscrição dentro da qual o juiz exerce suas funções. A distinção é relevante pois a competência absoluta é instituída por motivos de ordem pública e não pode ser modificada pela vontade das partes. O próprio juiz tem o dever de dar-se como incompetente ‘ex officio’” (TJRS, Revista jurídica, v. 38, p. 107; PAULA, Alexandre de Paula. Código de Processo Civil, v. 1, p. 362).
92 Lei 5584/1970, art. 2º.
40 mérito), ressalvando, somente, paras os casos de decisões sobre medida cautelar (art. 4º), além de dispor expressamente tratar-se o valor da causa de caso de competência absoluta.93
Hoje, existe uma tendência muito grande em se tentar limitar os recursos através de vários expedientes, e entre os quais, encontra-se o assunto ora tratado, que é o valor da causa. Melhor seria se assim não fosse; não há como não se curvar diante desta realidade injustificável, mas que está sendo cada vez mais aplaudida e acolhida pelas legislações contemporâneas. Melhor se assim não fosse, visto que este tratamento diferenciado corresponde a uma discriminação econômica de forma indireta e, se não chega a afrontar a Constituição Federal, art. 5º, pelo menos afronta o bom senso.
No que se tange à esfera recursal, essas leis limitadoras de recurso, em razão do valor da causa, proporcionaram o surgimento da expressão “alçada” e “recurso de alçada”, para indicar que somente é cabível recurso de valor superior ao mencionado. O cabimento desta ou daquela modalidade recursal está disciplinado e subordinado ao valor da causa. Conforme for o valor da causa, também o será a modalidade recursal.
Além da influência no cabimento do recurso e sua modalidade, o valor da causa também vai influenciar nas custas relacionadas ao preparo, sempre que a legislação pertinente assim preveja, reflete também no cabimento de remessa necessária.94 Quando a legislação que disciplina a exigência das custas judiciais dispuser que o recurso será preparado de acordo com o valor da causa, este vai ser o norte ou a base de cálculo para a apuração quantum devido. O valor da causa apresentado na petição inicial tem caráter provisório, visto que pode ser alterado de ofício pelo juiz ou em caso de incidente de impugnação (art. 293 do CPC) e terá como base o valor da condenação, para efeito de
93 “2. O valor da causa deve corresponder ao proveito econômico perseguido na ação, podendo ser ajustado exofficio, mormente quando implicar na modificação da competência para os JEFs, eis que é absoluta, nos termos do § 3º do art. 3º da Lei nº 10.259/2001. 3. Hipótese em que é patente a incompetência absoluta da Justiça Federal Comum” (TRF, 5ª Região, PJE 08003222020124058300, AC/PE, 3ª Turma, rel. Des. Fed.
Luiz Alberto Gurgel de Faria, j. 24.01.2013. RSDCPC, v. 86, pp. 197-198).
94 “DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO – Reexame necessário – Valor da causa – Quantia incerta – Verificação da incidência do regime disposto no art. 475 do CPC que, em tais hipóteses, deve dar-se no momento da prolação da sentença.
“O valor da causa é um dos parâmetros utilizados pela lei para restringir o reexame necessário. E, sendo este condição de eficácia da sentença, o momento processual adequado para a verificação do valor limitante é justamente o da prolação da sentença, porquanto é nessa oportunidade que se examina se há ou não a incidência do regime disposto no art. 475 do CPC” (STJ, AgRg no REsp 661.874-RS, 5º Turma, rel. Min.
Laurita Vaz, j. 06.09.2005. Revista dos Tribunais, v. 844, p. 212).
41 remessa necessária, preparo recursal e para eventual ação rescisória.95 Após o julgamento, a condenação é quem vai indicar o valor da causa para o cálculo do preparo do recurso.96
O quantum devido para o preparo é de regra extraído do valor da causa, o que ocorre mesmo quando se diz que o preparo deve corresponder ao valor da condenação,97 visto que, a partir do julgamento condenatório, o que ali ficar consignado, passa a ser o valor da causa para todos os efeitos, como o é para efeito de liquidação e execução (cumprimento do julgado). Mas, se recurso visa atacar apenas parte do julgado, somente esta parte atacada é que deve servir de base para a apuração do preparo e não o valor da causa originário e nem o valor da condenação por inteiro, porque em sendo o recurso em menor parte, menor será o benefício a ser obtido.