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ENCICLOPÉDIA JURÍDICA DA PUCSP

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Academic year: 2022

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COORDENAÇÃO GERAL

Celso Fernandes Campilongo Alvaro de Azevedo Gonzaga

André Luiz Freire

ENCICLOPÉDIA JURÍDICA DA PUCSP

TOMO 3

PROCESSO CIVIL

COORDENAÇÃO DO TOMO 3 Cassio Scarpinella Bueno

Olavo de Oliveira Neto

(2)

1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA

DE SÃO PAULO

FACULDADE DE DIREITO

DIRETOR

Pedro Paulo Teixeira Manus DIRETOR ADJUNTO Vidal Serrano Nunes Júnior

ENCICLOPÉDIAJURÍDICADAPUCSP | ISBN978-85-60453-35-1

<https://enciclopediajuridica.pucsp.br>

CONSELHO EDITORIAL

Celso Antônio Bandeira de Mello Elizabeth Nazar Carrazza

Fábio Ulhoa Coelho Fernando Menezes de Almeida

Guilherme Nucci José Manoel de Arruda Alvim

Luiz Alberto David Araújo Luiz Edson Fachin Marco Antonio Marques da Silva

Maria Helena Diniz

Nelson Nery Júnior Oswaldo Duek Marques Paulo de Barros Carvalho

Raffaele De Giorgi Ronaldo Porto Macedo Júnior

Roque Antonio Carrazza Rosa Maria de Andrade Nery

Rui da Cunha Martins Tercio Sampaio Ferraz Junior Teresa Celina de Arruda Alvim

Wagner Balera TOMO DE PROCESSO CIVIL | ISBN978-85-60453-43-6

Enciclopédia Jurídica da PUCSP, tomo III (recurso eletrônico)

: processo civil / coords. Cassio Scarpinella Bueno, Olavo de Oliveira Neto - São Paulo:

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017 Recurso eletrônico World Wide Web

Bibliografia.

O Projeto Enciclopédia Jurídica da PUCSP propõe a elaboração de dez tomos.

1.Direito - Enciclopédia. I. Campilongo, Celso Fernandes. II. Gonzaga, Alvaro. III. Freire, André Luiz. IV. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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2 VALOR DA CAUSA

Gelson Amaro de Souza

INTRODUÇÃO

O nosso sistema processual contempla a figura do valor da causa como exigência ou requisito para a propositura de qualquer ação. Todavia, nota-se que o conceito de valor da causa é extremamente difícil, tanto quanto o é a conceituação do próprio valor. Valor é algo que se acrescenta a determinado ente material ou imaterial, tal como uma coisa materializada ou um direito personalíssimo imaterializado. O valor não existe por si só, sempre exige algo a ser valorizado. Mas, a dificuldade de conceituá-lo é tão grande, que não é raro encontrar manifestações sobre o valor com evasivas e imprecisões.

Emprestando atenção ao assunto, Miguel Reale entendeu: “[n]a realidade, porém, há impossibilidade de defini-lo segundo as exigências lógico-formais de gênero próximo e de diferença específica”, preferindo dizer que “valor é o que vale”.1

Muito embora nem sempre é possível estabelecer um valor certo e definido, a legislação processual exige como requisito da petição inicial que a toda causa se atribua um valor (art. 291 do CPC), sob pena de indeferimento. Acompanhando a necessidade de se atribuir um valor à causa, está a necessidade de pagamento das custas iniciais, que, de regra, são calculadas tomando por base o valor atribuído à causa. A atribuição do valor da causa também implica em determinação da competência, como Juizados Especiais, assim como na modalidade recursal e no instituto da remessa oficial, entre tantas questões processuais. Em face destas e outras questões, surge a grande importância do estudo do valor da causa, como será visto no texto a seguir.

SUMÁRIO

Introdução ... 2

1 REALE, Miguel. Filosofia do direito, p. 170.

(4)

3

1. Valor da causa ... 4

1.1. Causa e valor da causa ... 5

1.2. Valor sob o ponto de vista econômico ... 7

1.3. Valor sob o ponto de vista filosófico ... 10

1.4. Complexidade do conceito de valor ... 12

2. Valor da causa no processo civil ... 14

2.1. Obrigatoriedade do valor da causa ... 15

2.1.1.Vinculação do valor legal ... 17

2.1.2.Da dificuldade da aplicação da lei ... 18

2.2. Valor e pedido ... 20

2.3. Valor da causa e benefício econômico ... 23

2.4. O valor da causa e o elemento objetivo ... 24

2.5. Momento da atribuição do valor da causa ... 26

2.5.1.Antes do julgamento ... 28

2.5.2.Depois do julgamento ... 28

2.6. Redefinição ou refixação do valor da causa ... 31

2.7. Correção e impugnação do valor da causa ... 33

2.8. Influência do valor da causa no processo civil ... 37

3. Valor da causa e recurso ... 41

4. Recurso no valor da causa ... 43

4.1. Cabimento de recurso na decisão sobre o valor da causa ... 45

4.1.1.Valor da causa e as questões prévias ... 46

4.1.2.Natureza jurídica da decisão sobre o valor da causa. ... 48

4.2. Adequação recursal na impugnação ao valor da causa ... 51

4.3. Legitimidade para recorrer ... 52

4.4. Recurso adesivo ... 53

(5)

4

5. Valor da causa no recurso ... 56

5.1. Valor da causa e os recursos excepcionais ... 58

5.2. Valor da causa e o preparo recursal ... 59

6. Conclusões ... 62

Referências ... 64

1. VALOR DA CAUSA

O nosso sistema constitucional adotou o princípio da inafastabilidade do acesso à justiça de modo que nenhuma lei infraconstitucional poderá afastar da apreciação do Poder Judiciário, qualquer alegação de ameaça ou lesão a direito (art. 5º, XXXV, da CF).

Mesmo não se podendo afastar o acesso à justiça através do Poder Judiciário, mesmo assim, o Código de Processo Civil exige para se propor qualquer ação a necessidade de se atribuir o valor à causa, sob pena de sua petição inicial ser indeferida.

O valor da causa no sistema processual brasileiro tem implicação sobre o procedimento sob vários aspectos e, entre eles, o pagamento das custas iniciais, que por vezes representa obstáculo para muitas pessoas, que se encontram impossibilitadas de efetuar, o pagamento antecipado. Outros encargos existem e, em muitos casos, baseados no valor da causa que se não impedem o acesso à justiça, pelo menos dificultam, tais como preparo recursal, sucumbência e multas entre outros.

A fixação do valor da causa não obedece a critérios científicos. Não existe um critério para a indicação do valor da causa. Apesar da inexistência de um critério científico, o legislador procurou fazer algumas indicações legais, com imposição objetiva de qual deve ser o valor em alguns casos específicos. Mesmo assim, estas indicações não são suficientes para cobrir todos os casos. Restam muitos casos em que o valor pretensão (pedido) da parte, não pode ser aferido de forma objetiva, como certo e predeterminado.

Neste seguimento, pode-se dizer que em matéria de valor da causa, têm-se duas grandes diretrizes, a saber: Uma diretriz filosófica e outra econômica que se apresenta

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5 com duas formas diferentes: sendo uma a forma objetiva tratando de valor certo2 e a outra subjetiva sem valor certo, que deve ser fixada de forma estimativa ou imaginativa pela parte autora ou pelo réu reconvinte. Todavia, em caso de pedidos cumulados, sendo um com diretriz econômica objetiva que é regido pelo critério legal e o outro sem valor econômico, sujeitando-se à estimativa, já se decidiu que se deve levar em conta para efeito do valor da causa, apenas o primeiro que se apresenta de forma objetiva.3 Em verdade o valor da causa que deve corresponder ao pedido, haverá de ser de atribuição objetiva, ainda que a causa de pedir (ex.: dano moral) não tenha conteúdo econômico imediato.

1.1. Causa e valor da causa

Tanto a causa, bem como o valor da causa, são expressões de conteúdo impreciso.4 Não é a dicção do art. 291 do CPC, que diz que a toda causa será atribuído valor certo, capaz de traduzir o valor da causa em conceito preciso. A lei fala em atribuição de valor certo, porque este deve corresponder ao pedido (benefício pleiteado), uma vez que o pedido há de ser sempre certo, mas, isto não afasta a imprecisão dos termos valor e causa.

Uma das dificuldades maiores é encontrar um conceito para determinar o que é causa. Entre tantas concepções de causa, parece difícil encontrar uma que se adéque à causa jurídica processual. O que mais ocorre no dia a dia da sociedade é confundir “causa”

com “motivo”.5 Em vez de se perguntar qual foi o motivo, não é raro se perguntar qual foi a causa? Deste mal não escapou o próprio legislador processual ao dizer que uma ação é idêntica a outra quando forem as mesmas partes, mesmo pedido e mesma causa de pedir (art. 337, § 2º, do CPC).6 Vê-se, neste ponto que a causa de pedir corresponde ao motivo

2 “Basta verificar o valor econômico do bem da vida material perseguido e indicá-lo como valor da causa (STJ, REsp 692.580/MT, 4ª Turma, rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 25.03.2008, DJe 14.04.2008).

3 STJ, REsp. 713.800/MA, 3ª Turma, rel. Min. Sidnei Beneti, j. 11.03.2008, DJe. 01.04.2008.

4 Contra Araken de Assis: “[e]m direito processual, valor da causa tem conceito preciso. É a quantia em dinheiro que corresponde ao benefício, proveito, utilidade ou vantagem pretendida pelo autor do réu”.

(ASSIS, Araken. Processo civil brasileiro, p. 1692).

5 “Não confundamos ‘causa’ com ‘motivo’. Igualmente, não a confundamos com o objeto que, nos negócios jurídicos bilaterais, é duplo. Mas, fixamos que ela é o escopo jurídico-prático, ou a razão econômico- jurídica do negócio”. (CHAVES, Antonio. Causa (direito civil) II. Enciclopédia Saraiva de direito, p. 44.)

6 Na legislação trabalhista é utilizada a expressão “justa causa” ou “sem justa causa”, como indicativo de motivo causador da despedida do empregado.

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6 que leva a parte a postular em juízo. Tanto é assim, que a doutrina chama de causa de pedir o requisito imposto pela lei de que na petição inicial deve constar sempre o fato e os fundamentos jurídicos do pedido (art. 319, III, do CPC). Mas, não é sobre estes motivos (causa de pedir) que se ocupa o CPC ao tratar do “valor da causa”. Aqui não se cuida da causa (fato ou motivo) que leva a parte a propor a ação, mas, da causa jurídico-processual, como algo valorável, ou seja, a própria postulação (ação).

Causa pode ser entendida como o interesse material ou moral, a cuja realização tende o agente e que, se conforme à ordem jurídica, legitima o resultado procurado.7 Na versão do Código de Processo Civil (arts. 291 a 293), a causa referida é o mesmo que ação (postulação) que carrega pedido e, é este que representa o valor (art. 292, do CPC), porque sobre este é que recai o cálculo para a eleição do valor a ser dado à causa.8 Em vez de valor da causa, melhor seria se o legislador tivesse se utilizado das expressões

“valor do pedido” ou “valor da ação”. Mas, nunca a causa (fato ou motivo) que levou ao pedido ou à propositura da ação.

Todavia, no tratamento dado pelo Código de Processo Civil, causa equivale ao pleito (ação ou pedido) expresso em um processo que se desenvolve, visando obter a tutela jurisdicional.9 Neste caso, causa aparece com o sentido de ação, que, como já foi exposto alhures, não se confunde com direito de ação.10 O direito de ação é abstrato (art.

5°, XXXV, da CF), porquanto a ação é a concretização deste direito, através da demanda, que é o ato concreto de solicitar a providência jurisdicional.11

A mesma dificuldade que se apresenta para a conceituação de “causa”, aparece quando se pretende encontrar o significado da palavra “valor”. Inicialmente, para se estudar o valor da causa ou da ação no processo civil, necessário se faz uma pequena sondagem no sentido de se descobrir o que é “valor”. Em que consiste o valor? No dicionário Aurélio, encontram-se algumas definições de valor, tais como: qualidade pela qual determinada pessoa ou coisa é estimável em maior ou menor grau; mérito ou

7 CAMPOS FILHO, Paulo Barbosa de. O problema da causa no Código Civil brasileiro, p.160.

8 “Em sentido processual, valor da ação equivale a valor da causa, que é a soma pecuniária representada pelo valor do pedido ou da pretensão do autor, em quantia certa para determinar-se a alçada ou servir de base ao pagamento de taxa judiciária devida em razão desse valor” (TFR, Ap. 77.818, 5ª Turma, DJU 16.06.

1983, p. 8858, e Boletim AASP, 1.281, p. 162, de 04.07.1983).

9 MAURÍCIO, Ubiratan Couto. Assistência simples no direito processual civil, p. 48.

10 Confira nosso: Curso de direito processual civil.

11 SOUZA, Gelson Amaro de. Processo e jurisprudência no estudo do direito, p. 28.

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7 merecimento intrínseco; importância de determinada coisa, estabelecida ou arbitrada de antemão; o equivalente justo em dinheiro.

Pelas definições acima, pode-se ver que não existe um conceito unívoco de valor.

Este pode ser conceituado de uma forma dentro do campo econômico (objetivo) e por outra dentro do campo filosófico (subjetivo). No primeiro caso será a comparação do valor com relação ao preço ou, em outros termos, relacionado ao poder de troca ou poder aquisitivo. No segundo caso, e com extensão mais vasta, abrange a valorização social, psicológica, etc., ou, como preferem alguns, a valorização subjetiva. Poder-se-ia dizer que sob o prisma econômico, o valor pode ser visto de forma objetiva e sob o ponto de vista filosófico de forma subjetiva. Todavia, se tal assertiva pode ser considerada certa, levando-se em conta o ângulo de visão que tem cada observador, por outro lado, não dando uma resposta completa da questão, ficando, pois, presa aos limites da relatividade.

Por conseguinte, não se encontrará o verdadeiro conceito de valor se se detiver a procurá- lo apenas de um lado. O resultado que disso surgir será sempre incompleto e não expressará a verdadeira concepção da expressão “valor”. Por isso pretende-se analisá-lo, observando as duas faces da mesma moeda.

O conhecimento do valor ou dos valores sempre foi o sonho de qualquer pessoa sensível à realidade social. Mas, como qualquer sonho é difícil de ser realizado, assim também será o de se chegar à realidade ou ao valor correto.12 A procura do conhecimento do valor perpetua-se em todas as épocas, abrindo-se como um leque, tomando variadas direções. Valor e satisfação, ao que parece, andam de braços dados, e a descoberta de um está intimamente ligada ao conhecimento da outra. Os objetivos da vida sempre foram voltados aos valores que a vida em comum pode oferecer. Entre esses valores estão os valores: objetivo e palpável e o valor subjetivo, imaginado e sentido, mas não palpável por não ser materializado.13

1.2. Valor sob o ponto de vista econômico

12 Até mesmo Johannes Hessen, que escreveu uma clássica obra a respeito com o nome de Filosofía dos valores, mesmo assim não ousou dar uma definição segura de valor. Todavia, afirmou: “[o] conceito de valor não pode rigorosamente definir-se” (HESSEN, Johannes. Filosofia dos valores, p. 37).

13 É o que acontece no caso da valorização do dano moral, que dispensa a existência de dano material, bastando somente o dano subjetivo.

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8 Os economistas têm se preocupado com o estudo do valor, mas, como não poderia deixar de ser, procuram explicações pura e simplesmente econômicas. Não se pode, em verdade, desprezar o conceito econômico de valor, pois, até mesmo, as normas que regulam a matéria, quando muito, falam em interesse econômico e moral, como acontecia com o Código Civil de 1.916, em seu art. 76. O Projeto de Lei 634-B/1975, que resultou no atual Código Civil não fazia referência ao assunto, preferindo silenciar, no que foi seguido pelo atual Código Civil, Lei 10.406/2002, o que leva a crer que deixou por conta da norma processual o tratamento da matéria, uma vez que interessa mais de perto ao direito processual. O atual Código de Processo Civil, sem querer ser redundante, fala apenas em “interesse”, deixando ao intérprete descobrir o alcance desta palavra (art.

17 do CPC).

Para propor ou contestar uma ação é necessário ter legítimo interesse jurídico e não simplesmente interesse econômico ou moral, na antiga expressão do art. 76 do Código Civil de 1.916, hoje revogado pelo atual Código Civil de 2002. O Código de Processo Civil atual preferiu ser mais técnico e fez alusão apenas a “interesse”, pois, desde que haja interesse, há necessariamente de existir valor. A expressão interesse econômico ou moral, talvez de grande alcance para a época em que foi promulgado o Código Civil de 1916, hoje pode ser visto como caso de redundância; mesmo porque, até os interesses morais são protegidos e indenizáveis, conforme pacificou a jurisprudência, e a Constituição Federal ao acolher a indenização por danos morais (art. 5º, X, das CF).

Apesar de recair diretamente sobre a moral, o dano somente pode ser indenizado sob o ponto de vista econômico, cujo numerário deve representar uma expressão monetária ou econômica. Mas, apesar disso, não se pode perder de vista que a moral, mesmo podendo, a final ser traduzida em valores econômicos, para efeitos de indenização ou assemelhado, inicialmente, tem como ponto de partida uma valorização filosófica, como será posteriormente demonstrado.

Inicialmente faz-se uma ligeira digressão sobre as doutrinas do valor econômico.

Para Adam Smith, o valor somente pode ter sentido sob o ponto de vista econômico e ser analisado dentro dos estreitos limites do uso e da troca. A palavra valor tem significados diferentes, expressando, algumas vezes, a utilidade de algum objeto particular, e, em outras vezes, o poder de comprar outros bens, conferido pela posse daquele objeto. O primeiro pode ser chamado valor de uso; o outro, valor de troca. Para

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9 ele o que tem valor de uso não tem valor de troca e vice-versa. Cada valor é extraído da real condição da coisa e de seu objeto.

Em verdade, os economistas se prendem a analisar o valor como fato ligado ao trabalho, valor de uso, valor de troca etc. Basta ver a respeito as manifestações de Karl Marx, David Ricardo, Adam Smith, entre outros. Evidentemente esta teoria não pode ser aceita e traduzida, ao processo, já que a causa a que se tem de indicar um valor não será analisada no trabalho produzido pelos órgãos encarregados de prestar a jurisdição, nem pelo simples poder de troca ou de uso. Mas pelo proveito que essa causa possa trazer à parte em razão do prejuízo que se evitará. Não será analisada pelo ângulo de eventual produção, como pensava Marx, mas será vista pelo ângulo inverso, ou seja, verificar-se- á qual o prejuízo que será evitado pela parte que necessitará recorrer ao Judiciário para tal fim. Aliás, o interesse de agir nada mais é do que a necessidade de se socorrer do Poder Judiciário para evitar um dano.14 Não visa o que se vai produzir, mas, ao contrário, proteger e valorizar o que já está produzido e que sem a proteção judicial redundaria em prejuízo. Certo é que o valor da causa no processo civil é calculado em razão do prejuízo que se evita, e não da eventual produção. Isto porque, visa proteger algo já produzido e que está sendo ameaçado de dano ou até mesmo o ressarcimento pelo dano causado naquilo que já existia, na tentativa de recompor as coisas em seus devidos lugares. Ainda que a força do trabalho seja levada em conta para a valorização do objeto da lide, quando chega ao Judiciário, esta é uma fase ultrapassada, em que o valor já deve estar estabelecido. Com razão estava Irwing Fisher, quando disse: “[o] valor de uma propriedade, ou de direito a riqueza, é seu valor como fonte de renda e é calculado descontando essa renda esperada”.15

O mesmo autor mais adiante conclui: “o valor presente de qualquer artigo é o que os compradores estão propensos a dar por ele e os vendedores estão dispostos a aceitar por ele”.16 Pode-se ver que esta conceituação se prende ao valor de custo, mas é de se perceber que em termos de direito essa hipótese somente poderá ser aceita de forma relativa; tratando-se de um bem material tudo é possível; mas ao se tratar de interesses subjetivos, tais como os danos morais, as peças de arte com valorização estimativa etc., a

14 cf. Revista dos Tribunais, v. 565, p. 263 e ss.

15 FISHER, Irwing. A teoria do juro, p. 18.

16 Idem, p. 19.

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10 situação muda, pois uma obra artística somente terá valor para quem a conhece, e a moral individual de cada um poderá sofrer danos conforme o sentimento íntimo de cada pessoa.

Por exemplo, falar que um jogador de futebol não sabe exercer a medicina pode não lhe causar prejuízo; mas afirmar isso de um médico pode causar-lhe sérios prejuízos. As formas de valorização são outras. Ainda, se se quiser dizer que as formas são as mesmas, haverá de se admitir que as conclusões são outras. Dependendo de cada conclusão, dependerá também a valorização e, com isso, o conceito final de valor.

Não destoando da doutrina econômica de valor, Ademar Prividelo e Ivan Dutra afirmam que “valor é a relação entre a utilidade percebida por um indivíduo ou grupo e a necessidade e poder de compra que possui”.17 Valor é a relação entre a intensidade das exigências e a quantidade dos bens disponíveis para satisfazê-las. Os autores falam em

“utilidade”, “poder de compra” e “intensidade das exigências”. Esta última já não se mede por uma simples apreciação econômica, pois a necessidade e utilidade variam conforme as condições sociais de cada povo, vista sob um ponto de vista cultural. Cada povo tem necessidade e amplia ou diminui a intensidade de suas exigências conforme o seu desenvolvimento cultural. O desenvolvimento cultural costuma, em regra, trazer novas exigências e novas necessidades. Mas pode, pelo contrário, excluir algumas das anteriormente existentes. Assim, não se pode negar a existência, ao menos de forma indireta, dos elementos subjetivos na valorização dos bens, condicionando-os à cultura e à noção de moral de cada sociedade.

1.3. Valor sob o ponto de vista filosófico

Contrapondo a doutrina economista, no sentido filosófico, o valor é visto por outro ângulo. É tudo o que é desejável, como nos ensina o Dicionário de Filosofia Larousse do Brasil. É uma visão de valor no sentido axiológico. Voltada mais para moral, do que para economia.

Para a filosofia, tanto é valor a verdade, o bem e o belo. A verdade trata daquilo que é, enquanto o valor trata do dever ser. É uma intuição psicológica voltada ao dinamismo, que se verifica através de um sentimento de desejo ou sensibilidade, que

17 PRIVIDELO, Ademar; DUTRA, Ivan. Elementos de economia, p. 42

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11 invade o ser humano, já que esse é o único animal que conhece e reconhece o valor.

Quanto maior for o impulso íntimo daquele que deseja, maior será o valor a ser dado ou atribuído à coisa ou ao ser relacionado. Este impulso íntimo será maior ou menor, voltado a determinado fato ou ato, ser ou coisa, na medida em que variar a cultura da sociedade da qual se faz parte. O conceito de valor para a filosofia está ligado de perto à moral social, que por sua vez pode transparecer através de vários aspectos, tais como os conceitos a serem dados e a valorização a ser atribuída à honestidade, fidelidade, amor, fé, caráter, bondade, solidariedade, maldade etc.

Emprestando atenção ao assunto, Miguel Reale entendeu que “é impossível definir o que é valor segundo as exigências lógico-formais de gênero próximo e de diferença específica”, preferindo dizer que “valor é o que vale”.18 Contudo, várias correntes de opinião procuram analisar o valor sobre diversos prismas; tais como na interpretação sociológica, psicológica, objetiva, subjetiva, econômica etc. “O valor provém da relação das coisas com diferentes aspectos do ideal, mas o ideal não é uma fuga para um além misterioso; ele está na natureza e é da natureza”.19

Segundo ensinamentos colhidos nos meios filosóficos, podemos dizer que direito e valor andam de mãos dadas sem que possamos separá-los em definitivo. Onde está a concepção de direito, estará, sem dúvida, a concepção de valor. É certo que o direito não é um valor; o direito é uma realidade referida a valores extraídos de um fato cultural.

Dentro do sentido filosófico urge separar o valor da realidade, como percebeu Gustav Radbruch;20 diferentemente do sentido econômico em que valor e realidade normalmente se confundem, pois somente tem valor nesse último sentido aquilo que materialmente o tem.

O que se busca no sentido filosófico é valorar o direito e não a coisa propriamente dita. Todavia, o direito e a coisa vivem em constante relacionamento, pois, é sobre essa última que recai uma relação de sujeição e, entre as pessoas com a qual se relaciona, existe uma relação jurídica ou direito. A partir do momento em que se reconheceu o direito de ação independente do direito material, passou-se a discutir e estudar os dois direitos sob origens diferentes, surgindo a necessidade de se buscar uma

18 REALE, Miguel. Filosofia do direito, p. 170.

19 Idem, p. 180.

20 RADBRUCH, Gustav. Filosofia do direito, p. 40.

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12 valorização deste direito de ação em confronto com o valor da coisa eventualmente disputada. No sentido filosófico, valoriza-se a ação, mas, como ensina Ihering, a ação em si mesma jamais é fim, mas apenas um meio para alcançar um fim.21 Em sendo a ação um meio, logo a proteção do direito corresponde ao fim. Essa proteção merece ser valorizada.

Aliás, Nietzche entende que tudo o que existe no mundo é valorizável, nós é que às vezes o desvalorizamos, por não sabermos dar a cada ação ou coisa seu verdadeiro valor. Para o nominado filósofo, tudo terá o seu valor independentemente da vontade do homem. Não foi sem outra finalidade que, com muita agudeza, asseverou:

“Todos valores com os quais até agora procuramos tornar o mundo estimável para nós e, afinal, justamente com eles o desvalorizamos, quando eles se demonstram inaplicáveis – todos esses valores são, do ponto de vista psicológico, resultados de determinadas perspectivas de utilidade para a manutenção e intensificação de formações humanas de dominação: e apenas falsamente projetados na essência das coisas. É sempre ainda a hiperbólica ingenuidade do homem: colocar a si mesmo como sentido e medida de valor das coisas”.22

Para esse autor o valor existe independente da nossa vontade. Sempre haverá um valor, saibamos ou não reconhecê-lo. Reconhecer o valor é um dever de todos e por isso, em termos de processo, sempre haverá a causa de ter um valor, seja este matemático ou palpável, seja, ao contrário, apenas estimativo.

O legislador processual acolhendo esta teoria impôs obrigatoriedade de o autor dar à causa um valor, ainda que este seja apenas estimativo, caso não tenha a causa um conteúdo econômico aferível de imediato, conforme se pode ver da disposição do art. 291 do CPC, parte final. Não é o autor quem cria o valor, apenas determina, aponta um valor já existente. Há necessidade de que o autor saiba assimilar e reproduzir o valor que a causa enseja na sua peça inicial, já que toda causa, tem, aprioristicamente, um valor.

1.4. Complexidade do conceito de valor

21 IHERING, Rudolf von. A finalidade do direito, p. 6.

22 NIETZCHE, Fredrich. Sobre o niilismo, p. 339.

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13 Como se vê, o conceito de valor não é unívoco. Talvez um dos mais complexos.

Não se pode extrair o conceito de valor de forma simplória e unidimensional. Necessário se faz socorrer-se das mais variadas noções de valor para que, somente, após, uma somática de conteúdos, poderá aproximar-se, ao menos, do que realmente seja a expressão de valor.

Além das variações de conteúdos, o conceito de valor tem variado de época para época e de pessoa para pessoa. Assim, como para os filósofos valor não é a mesma coisa vista e descrita pelos dicionaristas, também tem outro sentido para os economistas.

O valor pode ser real ou subjetivo. Valor real é aquele que se identifica com o ser ou coisa, por meio do que se pode chamar participação, como magistralmente ensinou Santo Tomás de Aquino. Valor subjetivo é aquele que não guarda relação direta com o ser, mas sua relação está vinculada mais às pessoas do que a esse ser.

Ubiratan Macedo entende que “o valor é uma qualidade, um ser de ser, algo comparável à cor, nunca uma substância, e sim um acidente”.23 Sendo neste aspecto seguido por A. Machado Paupério, que afirma: “[c]ontudo, o valor não é uma livre criação do eu, sendo algo subjetivo e constituinte de um ser próprio. Este ser, embora não seja corpóreo, nem mesmo ideal, não deixa de ser realidade intuível emocionalmente”.24

O valor não pode estabelecer-se sozinho em um determinado polo. Não há de ser puramente real, pois nenhum ser ou coisa terá valor onde inexistir o homem. Somente o homem é capaz de valorar a coisa ou o ser. A pedra por mais preciosa que possa ser, somente passa a ter valor depois de posta ao alcance do homem. Também não pode ser puramente subjetivo, pois entre o estado psicológico do homem e o bem visado há de se guardar certa sintonia. “A ideia de valor está intimamente ligada à de utilidade, isto é, só tem valor aquilo que é útil. Sabemos também que utilidade é a capacidade que possuem certos entes para satisfazer uma necessidade”.25

Alfredo D. Bernard também expressou entendimento de que “valor é a expressão de uma necessidade, de um ensejo ou de um capricho”.26 Esse último conceito demonstra o valor no sentido subjetivo, já que tanto a necessidade, bem como o desejo e o capricho

23 MACEDO, Ubiratan. Introdução à teoria dos valores, pp. 22-3.

24 PAUPÉRIO, Machado. Valor. Enciclopédia Saraiva do direito, v. 76.

25 PELEGRINO, José Carlos. Engenharia de avaliação, p. 09, apud PELEGRINO, José Carlos. Aspectos do valor potencial.

26 Apud PELEGRINO, José Carlos. Aspectos do valor potencial.

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14 são elementos que invadem ou residem no nosso pensamento. Dos três, o que mais se aproxima do elemento objetivo é a necessidade, mas mesmo assim não perde a sua potencialidade subjetiva.

Gustav Radbruch afirmou que o “valor ou desvalor dependem de nós, provêm de nós, e não das próprias coisas ou dos próprios homens em si mesmos”.27 Seguindo essa mesma trilha, o Pereira e Souza, no século passado, já advertira com o seguinte alerta:

“[v]alor é a soma de utilidade, que pode resultar de alguma cousa, que nos é necessária, com relação à sua abundância ou raridade. A avaliação faz-se pelo preço nominal, ou eminente, que consiste na moeda. A moeda é a quantidade geral do valor das cousas”.28

Como não é difícil observar, o conceito de valor é por demais complexo. Envolve um elemento objetivo, um elemento subjetivo e, ainda, uma gama muito grande de fatores capazes de influenciar o valor em seus diversos sentidos, não dando margem a que o estudioso possa discerni-lo com rapidez e conceituá-lo com segurança e em estreitos limites de expressão.

Pode-se dizer que valor é aquilo que diz respeito à finalidade intrínseca do ser, guardadas as dimensões devidas entre a finalidade intrínseca e o estado psicológico do ser humano. O mesmo bem pode sofrer variação de valor, conforme sofra variação a oferta e a procura, a necessidade e a desnecessidade, a fartura e a raridade, bem como a consciência da população. Há, sem dúvida, uma variação da finalidade intrínseca, bem como do estado de espírito do homem, que ora precisa mais, ora precisa menos.

2. VALOR DA CAUSA NO PROCESSO CIVIL

As considerações postas até agora, muito embora aplicáveis ao valor de forma geral, não podem ser tratadas com todo esse rigor na esfera do processo civil. Embora guarde certa sintonia com o primeiro, no processo civil, o valor apresenta-se com face diferente, com nuances e sutilezas que merecem melhores análises. Afirma De Plácido e Silva: “[e]m sentido processual, valor da ação, valor da causa, ou valor do pedido têm

27 RADBRUCH, Gustav. Filosofia do direito, p. 44.

28 PEREIRA E SOUZA, Joaquim José Caetano. Primeiras linhas sobre processo civil, p. 40.

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15 igual significação. Entende-se a soma pecuniária, que representa o valor do pedido, ou da pretensão do autor, manifestada em sua petição”.29

No processo civil a figura do valor da causa aparece por imposição legal no sentido de que à toda causa (ação) deva ser atribuído um valor certo (definido) para atender as mais variadas implicações que este instituto tem no processo e no procedimento. O valor da causa tem influência no pagamento das custas (iniciais e recursais), multas, na remessa de ofício, no cabimento e modalidade recursal, na competência, no procedimento, entre outros aspectos.

Na análise do valor da causa tal como previsto no Código de Processo Civil, é fácil perceber-se que a matéria não mereceu do legislador pátrio tratamento especial, senão uma perfunctória disposição a respeito. Trata-se de matéria de extrema relevância, mas, que foi reduzidamente disposta em pequeno espaço, nos arts. 291 a 293, do CPC.

Foi uma escolha do legislador em tratar o assunto de maior relevância de forma sintética, como se fosse possível regular toda a matéria em apenas três (3) artigos, dificultando a atividade daqueles que buscam operarem o direito. É certo que o legislador não se preocupou em traçar com essa norma minúcias e detalhes de cada caso específico, mas também não deixou a matéria despida de regulamentação, como se poderia pensar.

Com uma interpretação sistemática, poder-se-á chegar a muitas conclusões, sem negar ou ampliar aquilo que o direito positivo contempla. Uma coisa é a ausência ou a existência de norma exaustiva; outra é a existência de norma singela pronta a exigir acuidade do intérprete para descobrir o seu real sentido e alcance para melhor interpretação de seu enunciado e, com isso, encontrar-se a solução para cada caso concreto.

2.1. Obrigatoriedade do valor da causa

O atual Código de Processo Civil disciplina a matéria concernente ao valor da causa, nos arts. 291 usque 293. O primeiro dispositivo impõe de forma peremptória a necessidade de se atribuir valor a toda e qualquer causa, ainda que esta não tenha conteúdo econômico que se possa aferir de imediato.30 Desta forma, resta entendido de que

29 DE PLÁCIDO E SILVA, Oscar Joseph. Vocabulário jurídico, p. 1624.

30 “HONORÁRIOS – Profissional liberal – Ação de arbitramento de honorários – Impugnação ao valor da causa – É obrigatória a indicação do valor da causa na petição inicial, ainda que não seja possível indicar o

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16 nenhuma causa (ação) poderá ficar sem a atribuição do valor da causa. Até mesmo nos casos de tutela cautelar antecedente em que a lei é silente, exige-se a atribuição do valor da causa.31 Na sistemática anterior havia o mesmo silêncio da lei, mas, prevaleceu o entendimento de que mesmo assim, era necessária a atribuição do valor da causa, nas ações cautelares.32

O art. 319, V, do CPC, ratificando esta exigência legal, exige como requisito da petição inicial que nela conste o valor atribuído à causa. A seguir o parágrafo único do art. 321, impõe o indeferimento da petição na ausência de algum de seus requisitos quando intimado para corrigir o vício, o autor permanecer inerte.

Mesmo, sabendo-se que tal exigência consta dos arts. 291, 319, V, e 321, parágrafo único, do CPC, é no art. 292 do mesmo diploma processual, que mesmo incompleto, estabelece um elenco de ações e como se deve atribuir o valor à causa como referido no artigo anterior. Com efeito, dispõe este artigo:

“Art. 292. O valor da causa da petição inicial ou da reconvenção e será:

I – na ação de cobrança de dívida, a soma monetariamente corrigida, dos juros de mora vencidos e de outras penalidades, se houver, até a data de propositura da ação;

II – na ação que tiver por objeto a existência, validade, o cumprimento, a modificação, a resolução, a resilição ou a rescisão de ato jurídico, o valor do ato ou de sua parte controvertida.

III – na ação de alimentos, a soma de 12 (doze) prestações mensais pedidas pelo autor;

IV – na ação de divisão, de demarcação e de reivindicação, a estimativa oficial para lançamento do imposto;

valor correto de plano - Pedido genérico – Eventual diferença do valor da causa deverá ser paga quando do cumprimento do valor fixado em sentença. Recurso não provido”. (TJSP, AI. 1.177.798-0/1, rel. Des.

Antônio Ribeiro Pinto, j. 29.07.2008; TJSP, AI 778.721-5/8-00, rel. Des. João A. de Vincenzo, j.

03.06.2008. JTJSP, v. 329, pp. 123-125, out., 2008).

31 “Apesar de não previsto nos artigos 305 a 310, entendemos que por força dos artigos 291 e 292 incumbe ao autor também atribuir valor à causa. Com efeito, considerando que o artigo 308 determina que a formulação do pedido principal não acarreta o pagamento de ‘novas custas processuais’, mostra-se evidente que, ao distribuir a inicial, à causa já deve estar atribuído seu correto valor”. (ROSSI, Carlos Alberto Del Papa. Tutelas provisórias na Lei 13.105/15 – Novo Código de Civil. Revista judiciária do Paraná, v. 11, p. 114.)

32 “Apesar do silêncio do art. 801 do CPC, a petição inicial do processo cautelar deve anunciar o valor da causa, à vista do que preceituam os arts. 258 e 259 do mesmo Código. Na cautelar de sequestro, o valor da causa será correspondente ao valor dos bens que sejam objeto do pedido de sequestro” (Revista dos Tribunais, v. 742, p. 363).

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17 V – na ação indenizatória, inclusive a fundada em dano moral, o valor pretendido;

VI – na ação em que há cumulação de pedidos, a quantia correspondente à soma dos valores de todos eles;

VII – na ação em que os pedidos são alternativos, o de maior valor;

VIII – na ação em que houver subsidiário, o valor do pedido principal”.

A lei, além exigir que à toda ação (causa) seja atribuído um valor, ainda relaciona as causas e quais os parâmetros para a atribuição do referido valor, tenha ou não conteúdo econômico imediato. Todavia, este elenco não abrange todas as modalidades de causas e, isto exige do intérprete muita acuidade para encontrar o valor correto para determinadas demandas.

A sistemática processual civil, além de impor a obrigatoriedade de atribuição ao valor da causa (arts. 291 e 292 do CPC), ainda exige como requisito insuprimível da petição inicial (art. 319, V). Todavia, não determina logo de imediato o indeferimento da inicial no caso de descumprimento deste requisito. Duas são as formais de descumprimento deste requisito legal: a não atribuição de valor à causa ou a atribuição incorretamente. Duas também são as providências a serem adotadas pelo juiz, conforme o caso. No primeiro caso, o juiz deve determinar que a parte corrija o vício no prazo de quinze (15) dias, sob pena de indeferimento da petição inicial (art. 321 e seu parágrafo único). No segundo, a lei não fala em indeferimento, diz que o juiz pode corrigir de ofício o valor da causa (art. 292, § 3º, do CPC). Sendo assim, no caso de indicação de valor incorreto, não haverá indeferimento da petição inicial, cabendo ao juiz fazer a correção de ofício em acatamento ao princípio do aproveitamento dos atos.

2.1.1. Vinculação do valor legal

A atual sistemática procurou vincular o valor da causa à disposição legal (art.

292 do CPC), mas, apesar do esforço do legislador, muitas ações ficaram de fora da listagem que não é taxativa. Comentando o art. 259 do CPC/1973, hoje revogado, mas, que em muito se assemelha ao art. 292 do atual CPC/2015, Moniz de Aragão, afirma:

“[a]s disposições do texto anunciam algumas regras genéricas e particulares, para a estimação do valor da causa. Por elas se deverá guiar o autor, que não tem poder de

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18 disposição a seu respeito, pois fica vinculado ao valor ou ao modo de estimá-lo, que a própria norma indica”.33

Este ensinamento ao que se pensa é o mais consentâneo com a realidade jurídica, mas não é, todavia, voz uníssona, muito embora, encontra respaldo em lições de outros autores de nomeada, tais como, Helio Tornaghi que ao comentar o art. 261 do CPC/73, assim expôs: “[n]ote-se que o parágrafo não estabelece presunção de concordância do réu. Somente para esse restará preclusa a via de impugnação. Não para o juiz, que pode e deve retificar o valor sempre que verificar ter havido violação de critérios impostos por lei nos arts. 259 e 260”.34 Nota-se que estes ensinamentos continuam válidos e atuais, sendo, portanto, aplicáveis na atual sistemática.

Na jurisprudência o entendimento é o mesmo, sendo que, para esta, quando a lei estabelecer o critério para a fixação do valor da causa, não pode a parte alterá-lo, nem mesmo com anuência expressa ou implícita da parte adversária.35 Prevalece o entendimento de que o juiz deve reconhecer e alterar o valor de ofício, mas, somente para ajustá-lo à previsão legal.36

Desta forma, o valor da causa há de ser vinculativo e não pode ficar à disposição das partes, sendo que as normas a respeito devem ser de obediência obrigatória e assim, a estimativa o será na forma prevista nos arts. 291 e 292 do CPC.

Outro aspecto de relevância é que a atribuição do valor da causa é sempre incondicionada, não pode ser condicionada a qualquer outro evento ou motivo, tal como efeito de alçada, para fins fiscais entre outros. O valor da causa há de ser certo e incondicionado.37 Tanto é assim, que após a condenação por quantia certa o valor da causa para eventual recurso passa a ser o da condenação ou da liquidação do julgado.

2.1.2. Da dificuldade da aplicação da lei

33 ARAGÃO, Egas Diniz Moniz de. Comentários ao CPC, pp. 400-401.

34 TORNAGHI, Hélio. Comentários ao CPC, p. 269.

35 Revista dos Tribunais, v. 541, pp. 227-228.

36 Revista dos Tribunais, v. 369, p. 295; Revista dos Tribunais, v. 378, p. 289; Revista dos Tribunais, v.

514, pp. 227-228.

37 Neste ponto confira nosso, Do valor da causa.

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19 Em superficial leitura do art. 292, do CPC, não se encontra expressa menção sobre qual é o valor que se deve atribuir à inúmeras ações, entre estas, a ação de embargos de terceiro, embargos à execução, ação rescisória,38 ação de mandado de segurança, de execução, ação de divórcio, ação de alienação de coisa comum, ação cautelar de produção antecipada de prova entre tantas outras.39 Por exemplo, a ação de embargos de terceiro, ao mesmo tempo em que esta ação guarda alguma semelhança com as ações indicadas no inciso IV do mesmo artigo, guarda também com estas, certas diferenças, que levam à impossibilidade de confundi-las.

Guarda ainda, relação indireta em alguns aspectos com a ação de cobrança prevista no inciso I, mas com a mesma não se confunde. Também, nos demais incisos não há referência aos embargos de terceiro, por isso, não é fácil encontrar-se uma vaga para se encaixar a ação de embargos de terceiro e nem a ação de embargos à execução na listagem legislativa.

Como nenhuma ação poderá ser proposta sem indicação de seu valor, conforme peremptoriamente dispõem os arts. 291 e 292, do CPC, o intérprete terá de buscar uma solução, interpretando o art. 292 e seus incisos, até encontrar neste dispositivo o lugar exato em que se possa encaixar a ação que se pretenda propor, partindo daí para encontrar o valor a ser dado à causa.

Todavia, essa tarefa não é fácil, como à primeira vista possa parecer. Necessário se faz que se investigue a natureza jurídica da ação que se pretenda propor e qual é o alcance do pedido, pois, é este que serve de referência ao valor da causa. Na ação de mandado de segurança, faz-se pedido e este deve nortear o valor da causa. Mas, não há referência neste sentido no art. 292 do CPC. Sabe-se que é o pedido quem vai nortear o valor da causa, mas, nem sempre se sabe qual é o valor deste pedido, porque em muitas vezes não é aferível de imediato. O mesmo acontece na ação rescisória e nas ações anulatórias ou declaratórias de nulidade.40 Há necessidade da atribuição do valor à causa

38 “Ação rescisória - Valor que será o correspondente ao benefício patrimonial pretendido nesta ação e não ao valor da causa originária - Embargos rejeitados” (RJTJESP, v. 99, p. 341).

39 “Se o objeto do processo acessório é a mera cautela contra evento futuro e incerto, não pode o valor respectivo ser equiparado ao valor da ação que tivesse por objeto a indenização de prejuízos já concretizados” (1º TACSP, AgI 254.014, 2ª Câmara, JTACSP, v. 59, p. 163).

40 “VALOR DA CAUSA. Ações rescisória e declaratória incidental. Quantia que deve corresponder ao valor da condenação imposta na sentença, corrigida até a data do ajuizamento de cada uma das demandas”

(TJPR, AR. 126.571-6, rel. Des. Clayton Camargo, j. 07.04.2005. Revista de processo, v. 125, p. 222).

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20 e que este deve corresponder ao benefício pleiteado (pedido),41 mas o valor deste benefício nem sempre aparece de imediato, o que em muito dificulta a perfeita atribuição ao valor da causa.

Também nas causas consideradas de jurisdição voluntária, como aquelas em que o pedido seja apenas de homologação de acordo ou transação, aparece a dificuldade para se estabelecer qual é o valor do benefício pleiteado, porque este há de corresponder ao pedido e não aparece aferível de imediato. O mesmo acontece nos casos de tutela de urgência (art. 300 do CPC) e pedido de tutela antecipada requerida em caráter antecedente (art. 303 a 304) e tutela cautelar antecedente (art. 305), que muito embora, sem previsão expressa da lei, mesmo assim, ainda se exige a atribuição de valor da causa.42 Também não há norma expressa apontando critério legal para a atribuição do valor da causa, nos casos de jurisdição voluntária. Todavia, não é a ausência de previsão expressa capaz de dispensar a atribuição ao valor da causa. Com isto, mesmo nas causas de jurisdição voluntária, como na ação de extinção de condomínio, na separação ou divórcio consensual, entre outras, exige-se que seja dado valor à causa.

2.2. Valor e pedido

Não pode haver ação (causa) sem a existência de pedido, porque é este quem representa a demanda (causa) que o juiz deve julgar. O juiz julgará sempre de acordo com o pedido (arts. 141 e 492 do CPC), por isso, valor do pedido ou dos pedidos, será o valor da causa. Se o juiz somente pode julgar nos limites do pedido, este será o limite para a atribuição ao valor da causa. O que se leva em conta para a apuração do valor da causa

41 “Ação possessória. Interdito proibitório. Ajuizamento por banco em face do sindicato, visando evitar a ocorrência de danos em agência bancária por movimento grevista que procura dificultar o acesso ao prédio.

Hipótese em que a valoração da causa não deve corresponder ao valor do imóvel, sob pena de se afastar do benefício econômico pretendido pelo autor” (1º TACSP, AgIn i.305.414-1. 6ª–B, rel. Juiz Manoel Justino Bezerra Filho, j. 03.08.2004. Revista dos Tribunais, v. 834, p. 277).

42 “28/5 – AÇÃO CAUTELAR DE PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS – VALOR DA CAUSA ART. 238 DO CPC 1. O Valor da causa deve expressar o conteúdo econômico da demanda, devendo traduzir a realidade do pedido, conforme o art. 258 do CPC. 2. Em cautelar de produção antecipada de provas, o valor da causa deve corresponder aos gastos para a realização da prova pleiteada, uma vez que este é objeto de demanda. 3. Agravo a que se dá provimento, para atribuir à causa o valor de R$ 2.000,00 (dois mil reais)” (TJMG, AgIn 1.0024.08.97760-6/001, rel. Des. Francisco Kupidlowski, DJEMG 02.02.2009. Revista Magister de direito civil e processo civil, v. 28, p. 146).

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21 será sempre o pedido do autor ou do réu-reconvinte (art. 292 do CPC).43 Não se leva em conta o direito que a parte tem ou pensa que tem. Leva-se em conta o que a parte pede (pedido),44 nada importando se tem mais ou menos direito ou, até mesmo, direito nenhum.

Como se pode ver, no processo, as sutilezas aumentam e o valor já não mais guarda sintonia com a coisa, mas sim, com o pedido do autor. Isto quer dizer que a mesma coisa objeto de um litígio pode dar causa a uma ação com valoração diferente, desde que diferentes sejam os pedidos. Assim é que Jaime Guasp ensinava: “(...) não é o mesmo reclamar uma coisa a título de propriedade e a título de usufrutuário, como diferente será o valor atribuído a uma causa quando se reclamam os interesses produzidos pelo serviço em determinado lapso de tempo e aquele a que se discute a validade da relação de serviço integral e obrigatório”.45 Ainda, para o mesmo autor, “o valor da causa de um processo depende do valor ou quantia que constitui o seu objeto; o valor ou quantia da pretensão processual constitui o interesse combinado dos dois elementos que integram: Petição e fundamento no lugar e no tempo em que a pretensão é deduzida (...)”.46 Não é a coisa ou o direito em si, que vai nortear a apuração do valor da causa, mas, o pedido que limita a cognição jurisdicional é que vai indicar o valor que deve ser atribuído à causa. A coisa ou o direito pode ser em maior extensão e o pedido em valor menor. Prevalece este.

No mesmo sentido encontram-se os ensinamentos de Liebman, para o qual tendo a causa por objeto a existência, validade ou resolução de uma relação jurídica obrigacional, o valor se determina com base na parte dessa relação que estiver em litígio, sem levar em conta o valor eventualmente maior da relação jurídica inteira.

Consequentemente, apesar da cognição do juiz ter de se estender à toda a relação, o valor

43 “289/85 – VALOR DA CAUSA – INCOMPATIBILIDADE COM OS PEDIDOS – MODIFICAÇÃO DE OFICIO – POSSIBILIDADE – A boa técnica e a legislação indicam que o valor da causa deve guardar relação com os pedidos formulados e que sua modificação se dê mediante provocação dos litigantes. Porém, a modificação de oficio se impõe se o julgador constatar que o valor atribuído pela parte na inicial vier a ser incompatível com os pedidos formulados e o benefício patrimonial/econômico almejado e/ou em valor tal que possa maliciosamente a parte pretender ‘desviar a competência, o rito procedimental adequado ou alterar a regra recursal’, já que as regras atinentes ao valor da causa por iniciativa do Juiz se inexiste fundada impugnação e/ou ponderoso motivo para tanto” (TRT 12ª Região, 08176-2006-001-12-00-4, 1ª Turma, rel.

Juíza Agueda Maria Lavorato Pereira, DJSC 13.12.2007. RDTr-notadez, v. 289, p. 125).

44 “O valor da causa é o do pedido e não aquele apresentado tão somente com o intuito de escolher o procedimento a ser dado à causa - Processo é direito público e a forma de procedimento não é posta no interesse das partes, mas tendo em vista os interesses da justiça do processo” (TRF, AgI 43.090-SP, DJU 24.02.1983, p. 1148, e Atualidades forenses, nº 67, p. 7).

45 DELGADO, Jaime Guasp. Da cuantia del processo, p. 122.

46 Idem, p. 19.

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22 da causa é fornecido só por aquela parte que constituir propriamente o objeto da demanda, que é o pedido.47

Não se afastando muito, do que acima se expôs, o extinto Egrégio Tribunal Federal de Recursos, na Apelação nº 77.818, julgada em 20 de abril de 1.983, apreciada pela Egrégia 5ª Câmara e com votação unânime, assim entendeu: “[e]m sentido processual, valor da ação equivale a valor da causa, que é a soma pecuniária representada pelo valor do pedido ou da pretensão do autor, com base no pagamento da taxa judiciária devida em razão desse valor”.48

No mesmo diapasão pode ser considerado o exemplar ensinamento de Pontes de Miranda, que teve a felicidade de afirmar que o valor da ação é o da relação jurídica de direito material, mas nos limites de petitum”.49 Quase que como uma orquestra bem afinada, Chiovenda aproximou-se desta lição ao expressar:

“Não é o valor do objeto mediato da demanda, nem da causa petendi isoladamente considerados, mas da combinação dos dois elementos, ou seja, é o valor daquilo que se pede, considerado em atenção à causa petendi, isto é, a relação jurídica baseada na qual se pede; é o valor da relação jurídica, nos limites, porém, do petitum; por exemplo, posso pedir em juízo a entrega de um bem imóvel a título de locação ou a título de propriedade; o objeto da prestação é o mesmo, mas a causa petendi não o é; muito diverso é o valor das duas lides”.50

Em regra, este sempre foi o entendimento doutrinário a respeito. Mesmo sem querer estender muito sobre o assunto, lembra-se alguns ensinamentos, que, por suas forças representativas, por serem expressos por corrente detentora de alta respeitabilidade, não poderiam ser esquecidos. Esses ensinamentos seguiram de perto a linha anteriormente citada e entre eles destacam-se alguns: “[v]alor da causa é o valor da relação jurídica de direito material, nos lindes estritos do pedido”.51 Normalmente, as pretensões recaem sobre direitos e é o valor destes que formará o fator determinante do

47 LIEBMAN, Enrico Tullio. Manual de direito processual civil, p. 61.

48 Confira Boletim AASP, nº 128, p. 162, 1983.

49 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários ao Código de Processo Civil, p. 511.

50 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil, pp. 161-162.

51 DALL'AGNOL JÚNIOR, Antônio Janyr. Revista do processo, v. 13, p. 81 e ss.

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23 valor da causa”;52 “[v]alor da causa é o equivalente monetário do bem jurídico que lhe constitui o objeto”.53

2.3. Valor da causa e benefício econômico

Existe forte ligação entre o valor da causa e o benefício econômico pleiteado pelo autor ou pelo réu-reconvinte. Como o juiz não pode julgar fora ou além do pedido, o benefício econômico sempre haverá de estar dentro dos limites do pedido. Daí, a prevalência do pedido como base para a apuração do valor da causa.

Assim, é fácil de ver que o valor da causa no processo civil é a representação da força propulsora que deu causa à demanda (ação), que é o pedido. A causa de pedir, por si mesma, não serve para a atribuição ao valor da causa. Ela serve de base para a elaboração do pedido, mas, o valor da causa deve levar em conta este e não aquela.

Sempre haverá de equivaler ao benefício que se pretende (pedido) com a ação em razão do prejuízo que se evita com o exercício do direito de ação. Quando se tratar de demanda sobre alguma coisa, deve ser observado o valor da coisa, mas sem perder de vista que nem sempre o objeto do pedido é a coisa por inteiro, ficando a força propulsora da ação limitada apenas à parte do objeto, reduzindo assim o valor do pedido. Se uma coisa é pedida a título de reivindicação (domínio) por inteiro, terá um valor, mas se esta mesma coisa estiver sendo pedida por metade o valor será diferente, o que por certo será menor.

Também se a demanda versa sobre ação revocatória (pauliana), não se deve atribuir o valor da causa correspondente ao valor da coisa, mas, somente em relação ao benefício econômico que é o valor do crédito fraudado.54

Em ação em que se disputa o mesmo imóvel, que teria um valor se fosse a causa do pedido o domínio, necessariamente, terá outro valor se o pedido for apenas de despejo.

Não é a maior ou a menor necessidade do titular do domínio que vai firmar o valor da ação, nem mesmo a intensidade da necessidade do locatário ou pretenso titular do

52 ROCHA, José de Moura. Valor da Causa – I. Enciclopédia Saraiva de direito, v. 76, p. 374.

53 MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil, p. 75.

54 “VALOR DA CAUSA – Ação Pauliana – Impugnação pretendendo que se atribua à causa valor equivalente ao do bem que teria sido alienado em fraude contra crdores – Inadmissibilidade – Fixação que deve corresponder ao valor do crédito reclamado. Recurso desprovido” (TJSP, AI 302.767-4/6-00, j.

08.10.2003. JTJSP, v. 274, p. 437).

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24 domínio será capaz de influir na valorização da causa. O que interessa para a fixação do valor da causa é o pedido. Se a parte pede mais, o valor da causa será maior - se pede menos, será menor. O que importa é o que se pede e, não o direito que tem. Se o valor do pedido é regido pelo valor legal (art. 292, do CPC), este será o valor da causa, ainda que cumulado com outro pedido apoiado pelo critério estimativo.55

2.4. O valor da causa e o elemento objetivo

O valor da causa sempre foi visto sob o ponto de vista do objeto do pedido e deve sempre corresponder ao pedido feito pela parte. O elemento subjetivo anteriormente visto e que foi antevisto pelos filósofos, evidentemente não se apresenta e, nem mesmo, terá força propulsora para diminuir ou aumentar o valor do pedido, ou, em outras palavras, fixar o valor da causa. Em verdade, no campo do processo civil, o elemento subjetivo não é elemento capaz de qualquer propulsão. Na esfera do processo, o que interessa para valorar a causa é, sem sombra de dúvida, o valor material da relação jurídica dentro dos limites do pedido. Poder-se-ia imaginar que, em se tratando de uma ação de perdas e danos para indenização de dano moral sofrido, estar-se-ia diante de um elemento subjetivo. À primeira vista, pode até parecer, verdadeira tal assertiva, mas com um pouco de reflexão é possível esquecê-la e compreender o caráter objetivo do valor da causa ou da ação.

Nesse tipo de ação precisa-se fazer a separação em duas etapas, para se descobrir em qual delas entra o elemento subjetivo. O elemento subjetivo que é capaz de indicar qual o montante do prejuízo não entra no valor da causa no campo estritamente processual. O valor da causa somente aparece depois de fixado o valor da indenização (este buscado subjetivamente). Não se pode confundir esse valor subjetivo encontrado pelo lesado com o valor a ser apurado em eventual liquidação de sentença. O primeiro é para se atribuir um valor à causa e ao pedido e, o segundo é um valor apurado para efeito de pagamento. O primeiro é descoberto pelo autor e o segundo pela liquidação de sentença

55 “Registre-se que, havendo cumulação de pedidos, sempre que o valor da causa para um deles for regido pelo critério legal ou tiver valor economicamente aferível e para o outro for causa de valor meramente estimativo, o valor da causa da ação será tão somente o do primeiro pedido” (NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Novo Código de Processo Civil: comentado, p. 455).

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25 e que pode não corresponder ao mesmo encontrado pelo autor. Primeiro, busca-se o valor da indenização no elemento subjetivo que em geral é a honra ou a intimidade do prejudicado, para depois que esse valor for descoberto tornar-se objetivo e servir para indicar o valor da causa de forma objetiva e somente no quantum da indenização. O valor ou quantia da indenização é disciplinada pelo direito material e pode ser encontrado nos elementos subjetivos do interessado, mas o valor da causa não é tirado do elemento subjetivo do autor, mas do quantum objetivamente pedido.

A fase de descoberta do quantum o autor vai pedir na indenização não é processual, é pré-processual. Somente depois que o autor sabe o quantum vai pedir (materialmente) é que à causa deve ser dado esse valor, mas já eleito e com caráter objetivo e não mais subjetivo.

Por mais que possa parecer subjetivo, o valor da causa será sempre extraído de forma objetiva. Apenas a causa de pedir que vai indicar a finalidade do processo é que é subjetiva, em localização exterior, como pedido a título de domínio ou a título de despejo etc. A eleição do pedido é subjetiva do autor que pode eleger o pedido de acordo com a sua vontade e subjetividade; todavia, uma vez eleito o pedido, o valor deve ser objetivamente retirado deste. O valor da causa deve sempre corresponder ao valor do pedido, ou ainda, em outros termos, deve corresponder ao benefício pretendido pelo autor.

A grande dificuldade em se descobrir em determinadas causas o seu valor está no fato de se descobrir objetivamente qual o valor do pedido. Mas, uma vez descoberto qual o valor objetivo do pedido, este será, necessariamente, o valor da ação, independentemente de qualquer elemento subjetivo, já que este não mais é levado em conta na fase estritamente processual, assim compreendida a do petitório inicial ou reconvencional, onde nasce, ou, em outras palavras, onde aparece o valor da causa.

Nessa linha de pensamento, deve ficar claro que, no caso de o autor errar no valor do seu pedido, o valor da causa também será na mesma medida. Pouco importa se o autor queria pedir mais ou menos, o que importa é o que realmente pediu. O pedido é que vai fixar os limites da lide (art. 141 e 492 do CPC) e seu valor, dentro de um ângulo objetivo, sendo que nesta fase a vontade do autor já não serve para impor valor ao pedido e, por consequência, o valor da causa.

Imaginando a hipótese de alguém pretender propor uma ação para proteger a servidão de passagem, que teria um valor equivalente ao valor dessa servidão, por engano

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26 propõe ação de reintegração de posse do imóvel; é evidente que o valor será objetivamente outro. Também alguém que teve uma parte de seu imóvel constrito e pretendendo defendê-lo apresenta o pedido para que toda a propriedade seja liberada, o valor da ação a ser dado à causa será o de toda a propriedade e não apenas o da parte constrita, pois, uma vez que o pedido deve versar sobre a totalidade da área, pouco importa se houve engano do autor ao formular o pedido; o que importa é o pedido objetivamente apresentado. Não há que se indagar se existia ou inexistia a causa de pedir ou interesse de agir, o que se leva em conta é o pedido.

Havendo o pedido, com ou sem razão, o valor deste vai nortear o valor a ser dado à causa. Improcedente ou procedente o pedido, o valor da causa será sempre o mesmo.56 Para o valor da causa o que importa é o que se pede e não o que se consegue. É o valor do pedido concreto e não o que era lícito pedir ou o que deveria ser pedido. Até a sentença o valor da causa deve corresponder ao pedido do autor. Procedente ou improcedente o pedido do autor, o valor da causa continua o mesmo correspondente ao pedido feito pelo autor. Depois de proferida a sentença e se esta for condenatória é que se leva em conta o valor da condenação.57 Para os eventos futuros, tais como, ação rescisória, liquidação, execução de sentença e interposição de recurso58 etc. Aí sim, o valor para o recurso e para qualquer outra ação ou outro procedimento em que se toma por base a sentença é que o resultado desta é levado em conta.

2.5. Momento da atribuição do valor da causa

Levando-se em conta a norma dos arts. 291 e seguintes do CPC, tudo indica que o valor da causa deve ser atribuído no início da ação, ou seja, quando se inicia o processo.

56 “O valor da causa não fica subordinado ao teor do julgamento futuro” (ASSIS, Araken de. Processo civil brasileiro, p. 1697).

57 “Cuidando-se de ação de indenização, o valor da causa será aquele fixado na sentença final ou em execução de sentença” (2º TACSP, 11ª Câmara, AgIn. 625945.00/1, rel. Juiz Mendes Gomes, v.u.. RNDJ, v. 9, p. 205).

58 “PREPARO – Execução – Valor desta e não da causa principal”. JTASP-Lex., v. 163, p. 360. O valor do preparo (valor das custas) pode variar de Estado para Estado, tendo em vista que cabe aos Estados legislar sobre os valores das custas judiciais e por isso pode ser adotado o valor da causa como base de cálculo em um Estado e em outro a base de cálculo ser outra. No Estado de São Paulo através da Lei 11.608/2003, adotou-se o critério misto, sendo que algumas ações são preparadas de acordo com o valor da casa (art. 4º, I, II e III) e outras pelo valor fixo independentemente do valor da causa (art. 4º, §§ 3º, 4º e 9º, da mesma Lei).

Referências

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